sábado, 17 de outubro de 2009

Modernidade

A modernidade trouxe tais horrores que assustou a humanidade, por um bom tempo. Ela gerou uma ideologia, a do progresso infinito, a de querer sempre mais, a qualquer preço, a dos vencedores sem mácula. E esta ideologia cobrou alto preço.
Esqueceu-se da humildade. Humildade virou palavrão. Pensava-se que a absoluta satisfação estava logo ali na porta, e que se o presente não era um mar de rosas, a culpa era de uns tantos tipos “fora de moda”, que não permitiam este dia sem nenhuma tristeza.
Pensando-se em retrospectiva, parece uma ilusão bem louca. Mas quem diz que não estamos delirando justo agora? Quem poderá saber?
E esta ilusão da modernidade gerou muito ódio. Uma insatisfação muito ressentida, uma exigência muito exagerada. Por conta desse ódio, muita gente teria que pagar. A Revolução Francesa começou pedindo muito sangue. Depois veio o ódio dos comunistas, dos nazistas, dos fascistas. Sempre em nome destes grandes ideais: liberdade, fraternidade, igualdade. Sempre em nome de algum tipo de progresso. No filme documentário A Arquitetura da Destruição enxergamos claramente a cultura da Alemanha nazista: um sonho idílico, pastoril, uma volta a um passado idealizado que prometia segurança. Um sonho de comunidade perfeita, como numa romântica/primitiva tribo, só que usufruindo das conquistas da tecnologia. Homens que trabalhariam juntinhos, em camaradagem, e retornariam para felizes lares mantidos por belas e sorridentes donas de casa/pastoras.
Claro que tanto desequilíbrio pro lado da luz cobraria uma contra-partida bem alta de sombras. Monstros disformes assombravam este Paraíso, na forma dos disformes, grotescos, doentes de corpo e de alma. Pobres loucos, dementes, em asilos, eram apontados e vistos como seres que seria muito melhor que não existissem. E, de fato, passaram a ser exterminados metodicamente, na calada da noite. Era preciso calar toda a voz da consciência, ser o tão proclamado “super-homem”, para dar cabo desta tarefa suja. Mas os nazistas poderiam fazê-lo, porque eram o “homem superior”.
E é claro, havia os judeus. Estes seriam piores ainda do que os dementes, pois esses, na ideologia oficial, eram os perversos que conscientemente se opunham ao mundo dourado nazista. De alguma forma, os judeus conseguiam controlar toda a realidade. E se um nazista envenenava um pobre débil mental, isto também deveria ser por culpa de alguma manobra dos judeus. Não faz sentido, eu sei, mas é assim que funciona o mecanismo do bode expiatório. E os judeus serviram para canalizar todo aquele ódio recalcado pelos brilhantes, perfeitos, nazistas.
E histórias semelhantes aconteciam na Itália fascista, na União Soviética comunista. O demônio da ideologia possuía, cegava, enlouquecia suas vítimas. Dostoievsky descreveu muito bem o processo no extraordinário romance Os Demônios. Cada movimento destes pretendia inaugurar um novo mundo para um novo homem. O único empecilho que viam era alguma classe/raça/grupo que impediam os seus grandiosos planos; eram os discordantes, os diferentes, os que não se encaixavam no cenário de perfeição imaginado por estes “mestres iluminados”.
Para os discordantes, logo logo um Processo de desumanização era iniciado. Estes discordantes não eram pessoas comuns, boas, pois impediam a felicidade geral. Não eram sequer pessoas, então poderiam ser escravizados, exterminados, humilhados, sem qualquer retaliação ou remorso. A modernidade negava qualquer sentimentalismo, loucamente pensava que seguia os ditames da Razão, se é que existe esta entidade em algum reino de Idéias. Na Revolução Francesa, inclusive, desentronaram o velho Deus, da “decrépita” tradição, para adoraram uma suposta “nova deusa”, justamente ela, a Razão...
Como se diz, entretanto, não se deve chorar pelo leite derramado. É sempre uma nova humanidade que se apresenta, com cada nascimento. E é para o presente que o homem vive. A ideologia da transformação radical do mundo já não empolga tanto as mentes, graças a Deus. O homem vai se acostumando com a modernidade, e vai percebendo que não pode elevar tão alto sua esperança no sentido de que a modernidade poderia alterar a condição trágica do ser humano.
E é bom termos os pés bem no chão. Esperanças excessivas não trazem mais que ansiedade e frustração. E estas libertam o demônio do ódio, que exige suas vítimas.
É bom termos serviços, confortos, comodidades, abundâncias, que as próprias civilizações buscaram sempre, e que todo homem busca. É bom termos a medicina, e expectativa de vida maior, e alimentos fartos, e menos miséria, desespero, loucura...
Temos um mundo um pouco melhor, na sua média, e isto é motivo de agradecimento e de júbilo. Tudo foi construído por nossos antepassados, com muita luta e bravura, enfrentando a mesma condição trágica que é a nossa. E a responsabilidade também é nossa, de evitar o mal e aumentar o bem, para este mundo.
Hoje, parece ter fugido a fase de desesperado Romantismo. Aquela Juventude Dourada que EXIGIA O MUNDO, E EXIGIA AGORA! Hoje, parece que enxergamos que apesar de todo o muitíssimo bem vindo bem que trouxeram as novas ciências, as novas atitudes, a nova racionalidade do homem, elas não podem fazer do homem um ser distinto da sua própria natureza, ou fazê-lo escapar de seu destino. Por mais carros/relógios/iates que eu possua, estão ali a solidão e o mistério absolutos da morte. Por mais que as condições de vida evoluam, está ali a pobre criança louca que ninguém conseguiu salvar. Estão ali as decisões irrevogáveis, difíceis. A aceitação deste “princípio de realidade”, por dolorosa que seja, paradoxalmente nos liberta de uma ansiedade pela vida que, sendo ela própria um mal, não realiza tampouco qualquer bem.
Ninguém vai se livrar do cutelo do destino por ficar pensando no seu golpe. Vive-se, loucamente, sem razões que o justifiquem, mas vive-se. E é melhor estender a mão pro ser humano do lado, ainda mais, quanto mais fraco e indefeso ele for, e esperar que amanhã façam o mesmo por você.

Sangue por Glória

Sangue por glória é um filme de John Ford, de 1952, contando a história de um regimento americano na França da Primeira Guerra.
Ele se fixa mais nos relacionamentos humanos que nas cenas de guerra propriamente ditas. E o foco vai em uma conturbada relação vivida por um capitão (James Cagney), um sargento (Dan Dailey), e uma francesa em disputa (Corinne Calvet). Todos são vividos por excelentes atores. E principalmente James Cagney se destaca, em uma atuação que lhe exige muito. Não pára de acontecer coisas no filme, tão díspares quanto comédia pastelão em batalhas, dor profunda, esperança, honra, inconsequência. E para tudo está Cagney, já não mais um garoto, mas esbanjando sua distintiva vitalidade em cena.
Trata-se de um filme baseado em uma peça de Maxwell Anderson e Laurence Stallings, o que explica o enfoque mais humano e intimista. Não há sequer uma grande batalha, como nos acostumamos a ver nas telas, o que até desaponta um pouco. Mas sobram ação e sentimentos. Os americanos invadindo o bar da cidade francesa é um momento de ação febril e cômica; acontece um (quase) casamento, uma cena de amor tão profunda que vai ao surrealismo, grandes cenas de treinamento, de disputas, de bravura, de sentimento. John Ford e seus atores mantêm-se com as mãos ocupadas todo o tempo, não têm medo de beber pesado, ou trocar socos e tiros. O tempo todo alguma coisa acontece, não como filmes que duram duas horas girando sobre o nada, e Ford ainda encontra o tempo para os seus emotivos números musicais.
Um filme de grandes qualidades, portanto, que vale a (re)descoberta.
Cotação: **** muito bom

Milagres

Pra quem nunca viu um milagre:

http://www.youtube.com/watch?v=xg1LcHAaP80

The times they are a´changin - Bob Dylan

http://www.youtube.com/watch?v=q1NAab3tAaw

Obs. Pra quem não sabe, do lado do vídeo do You Tube, tem uma caixa e um link: mais informação. Clicando nele, frequentemente, e como no presente caso, vêm umas informações interessantes sobre a música/vídeo.

Vai a letra, hino do protesto, profética, espantosa, misteriosa. Ver Bob Dylan, tão jovem, levando esta canção tão gigante sozinho, violão e gaita, é emocionante, e um assombro.


Venham se reunir ao redor pessoal,
De onde quer que vocês caminhem a esmo,

E admitam que as águas
Ao seu redor cresceram

E aceitem que bem logo
Estarão encharcados até os ossos

Se o seu tempo pra vocês
Vale a pena ser salvo

Então é melhor que comecem a nadar
Ou afundarão como uma pedra

Porque os tempos
Eles estão mudando

Venham escritores e críticos
Que profetizam com sua caneta

E mantenham os olhos bem abertos
A oportunidade não virá novamente

E não falem cedo demais
Pois a Roda continua a girar

E não há como dizer
Quem ela vai nomear

Pois o perdedor de agora
Vai mais tarde vencer

Porque os tempos
Eles estão mudando

Venham senadores, congressistas,
Por favor, atendam ao chamado

Não parem no caminho da porta
Não congestionem o corredor

Pois aquele que vai se ferir
Será aquele se atolou no caminho

A batalha lá fora
Rugindo

Vai logo sacudir suas janelas
E fazer ruir os seus muros

Porque os tempos
Eles estão mudando

Venham mães e pais
De toda terra ao redor

E não critiquem
O que não conseguem entender

Seus filhos e suas filhas
Estão além do seu comando

Sua velha estrada
Rapidamente envelhece

Por favor, saiam da nova
Se vocês não puderem emprestar suas mãos

Porque os tempos
Eles estão mudando

A linha ela está traçada
A maldição ela está lançada

O lento agora
Será mais tarde rápido

Como o presente agora
Será mais tarde passado

A ordem está rapidamente
Se esvaindo

E o primeiro agora
Será mais tarde o último

Porque os tempos
Eles estão mudando

sábado, 26 de setembro de 2009

Como se fosse o blues do Pequeno Polegar

Uma música do Bob Dylan que tem me acompanhado os pensamentos, do LP Highway 61 Revisited (1965), número 4 nos 500 melhores discos da lista da revista Rolling Stone. Just Like Tom Thumb´s Blues
http://www.youtube.com/watch?v=K6_lqmfSIx8


Como se fosse o blues do Pequeno Polegar

Quando você está perdido na chuva em Juarez
E ainda por cima é época da Páscoa

E a lei da gravidade falha
E a negatividade não te fará superar

Não tire onda nenhuma
Quando você desce as Ruas Morgue

Elas têm algumas mulheres famintas
Elas vão uma bagunça de você

Agora, se você vir Sant´Ana
Por favor, diga-lhe, um muitíssimo obrigado,

Eu não consigo me mover
Meus dedos todos num nó

Eu não tenho nem a força
Pra me levantar e tomar outra dose

E meu melhor amigo, meu médico,
Sequer vai dizer o que eu tenho

Doce Melinda
Os camponeses a chamam a Deusa do Entardecer

Ela fala bom inglês
E ela te convida pra subir pro seu quarto

E você é tão gentil
E cuidadoso, pra não alcançá-la rápido demais

E ela tira sua voz
E te deixa uivando pra lua

Subindo o morro do conjunto habitacional
Ou é fortuna ou é fama

Você precisa escolher uma ou outra
Embora nenhuma seja aquilo que anuncia

Se você quer bancar o engraçado
é melhor você voltar pro buraco de onde saiu

Porque os polícias não precisam de você
E, cara, eles esperam o mesmo

Agora, todas as autoridades,
Elas ficam por aí, e contam vantagem,

Como elas chantagearam o sargento de guarda
Pra que deixasse seu posto

E pegaram o Anjo
Que acabava de chegar vindo da Costa

Que no começo parecia tão bom
Mas que acabou parecendo um fantasma

Eu comecei com vinho da Burgúndia
Mas logo cheguei nas coisas mais fortes

Todo mundo dizia que ia me dar apoio
Quando as coisas ficassem ruins

Mas a piada era comigo
Não tinha gente ali sequer pro meu blefe

Eu vou é voltar pra Nova York
Eu realmente penso que tive o bastante

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Mentiras do Governo

E não passa dia sem uma nova evidência de nossa triste situação, de otários, escravos, impotentes, a quem se pode mentir na cara e ficar por isso mesmo. Estão “obrando” pra opinião pública. Desta vez, a evidência se apresenta com cores dramáticas, de algumas centenas de mortos, mulheres grávidas, crianças... simplesmente o Governo admitiu candidamente que o remédio Tamiflu não foi liberado para venda simplesmente por não haver estoque suficiente à demanda. Agora que o Laboratório Roche, produtor do medicamento, tem condições de suprir a demanda, todos poderão comprá-lo no balcão da farmácia. Isto depois de o Governo ter dado uma batelada de explicações “técnicas” para a proibição das vendas: que seria perigosa a auto-medicação, que o vírus poderia adquirir resistência, e blá, blá, blá... de repente todo esse lero-lero passa a não ter valor, e o diretor de vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde, Eduardo Hage, informa que “o próprio laboratório priorizou a demanda do Ministério, o que foi correto”. Ou seja, decidiu-se garantir que não faltaria remédio pras pessoas incomuns, do Governo ou amigas do Governo, e pros trouxas da patuléia a gente diz que não tem remédio pro próprio bem deles.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Estatismo

É interessante ver que às vezes é até possível ser marxista, pelo menos no sentido de compartilhar algumas das opiniões do velho Marx, o Karl, o mais nonsense dos irmãos Marx. Aqui está o que diz Karl, em A luta de classes na França:
As enormes somas que passavam pelas mãos do Estado davam, além disso, oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero
Eu posso até ser marxista neste trecho, mas eu imagino como terá marxista de carteirinha, de bóton na lapela, se surpreendendo e se assustando com os malabarismos mentais que terá de fazer para adequar seus pensamentos ao do GRANDE MESTRE.
Pois é. A ordem para a esquerda que tem Marx por grande profeta é hoje a de aplaudir o gigantismo estatal. Atende bem aos reclamos da burocracia, sempre ávida por empregos em que o patrão dá muito e exige pouco; empregos a que podem aspirar mesmo sem ter talento ou aptidão; basta ser amiguinho/parente/amante de um “Sinhô do Governo”, pra garantir uma sinecura. E pode rolar uma “transação cruzada”, um “troca-troca”, entre os Sinhôs do Governo, do tipo: “eu dou uma vaguinha no meu Gabinete pro seu parente, você dá uma vaguinha na sua Fundação prum parente meu”. Bem isso que aparece todo dia escancarado nos jornais, e que o coleguinha Marx descreveu: “oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero”. Mas os muitos votos que têm todo o interesse de gozar privilégios, dolces far nientes, precisam ser adulados, para que se possa galgar posições de poder; então, toca a dar nomes bonitos pro gigantismo estatal, vamos dizer que é uma questão de Soberania, e Patriotismo, e Direitos dos Trabalhadores, e que quem não enxerga isso é um neo-liberal direitista, um terrível fascista, ou traidor da Nação, inimigo do Povo, nazista... nomes feios, ofensas, sem qualquer conteúdo, usados apenas para impedir qualquer debate.
Porque se pudesse haver um debate, é claro que se enxergaria que o diagnóstico de Marx está correto: muito dinheiro circulando no Estado, é igual a muitas fraudes e corrupções, “ladroeiras de todo gênero”. E isto não seria aceitável por um povo livre e consciente, e teria de mudar. Como? Encerrando com tantas oportunidade de “negócios”, feitos pelo Estado e seus operadores.
Estado tem de ter indústrias, comércios, serviços de todo gênero? Estado tem de fazer pão, telefone, camisa, prego, computador, estádio de futebol? A esquerda parece marcar um “sim”, para todas as opções anteriores. Seu ideal é um mundo “sem ganância”, de funcionalismo e burocracia, todos ganhando pouco, fazendo pouco, sendo pouco avaliados...
Curiosamente, este “marxismo” que não segue Marx, de defender estatismo, combina perfeitamente com nosso velho e arraigado patrimonialismo, em que nossos “donos dos poderes”, governantes, legisladores, altos funcionários, estão acostumadíssimos a fazer o que bem entendem com os dinheiros e os direitos do povo. Tratam a coisa pública como se fosse propriedade particular deles. Fazem leis que agridem explicitamente direitos individuais, com a maior desfaçatez. Vale qualquer demagogia para ganhar aplausos e votos. Ainda mais quando os sacrifícios são alheios. Fazem leis para dar “meias-entradas”, estacionamentos “de grátis”, “contribuições” “sociais” disso e daquilo, e tantas outras.
Além disso, fazem as nomeações que bem entendem, colocam semi-analfabetos para presidir estatais, hospitais, escolas, universidades, garantem-se as mais generosas aposentadorias, planos de saúde, policias para fazer segurança particular...
Além, é claro, das muitas oportunidades, tantas mais quanto mais o Estado se espalha ocupando espaços que pertenceriam à iniciativa privada.
Tudo isto, eu dizia, faz parte de nossa tradição patrimonialista, de termos um “senhor” a quem pertence tudo, e sermos uma multidão a quem compete calar a boca, acatar qualquer capricho do “senhor”. Não temos direitos e deveres, em suma; temos de “puxar o saco”, cair nas graças de quem, por seu capricho e alvedrio, pode nos dar uma “colocação”. Claro, se amanhã este grande benfeitor nos pedir um favor, iremos “cordialmente” nos desdobrar para atender; até porque não queremos perder nosso cargo “de confiança”, “de livre provimento e exoneração”. E acima de tudo, seguir a lei do silêncio, como na Máfia. Nas relações de “camaradagem”, o pior pecado é dar com a língua nos dentes.
Ou seja: o compromisso não é com a abstração do Estado e suas leis. O compromisso é com o muito concreto “dono do poder”, que pode dar e retirar benesses ao seu alvedrio. Sem prestar contas pra ninguém, como se aquilo não fosse do público, fosse deles; “obrando” pra opinião pública, porque a opinião pública não lhes pode retirar do Poder; eles sabem manter seus “nichos”, seus “currais” eleitorais, sabem manobrar as confusas leis em benefício próprio, mudam domicílios eleitorais, entram de suplente, arrumam grandes financiadores pras campanhas... e um povo sem estudo é um povo sem defesa, e as Cortes do país nunca conseguem segurar o peixe grande... “Você sabe com quem está falando?”
Então, uma “filosofia”(bota bastante aspas neste “filosofia”) política que defenda um maior avanço do Estado em todas as áreas, e estigmatize com um monte de nome feio quem se atrever a levantar objeções, vai aumentar ainda mais os poderes destes velhos patrimonialistas bem instalados nos postos de comando de nossa sociedade, e logicamente vai ser recebida por eles com sorrisos francos e braços abertos. Eles vão até poder dizer: “Ora, mas é isto o marxismo, o socialismo? Mas então eu era marxista e não sabia”. Bem que costumam dizer que o socialismo é o neo-patrimonialismo.
Aliás, também curiosamente, o socialismo “real”, isto é, conforme se instalou historicamente nos Estados em que grupos ditos seguidores de Marx se alçaram ao Poder, representou justamente a vitória maior deste estatismo descontrolado. Acabaram com muitos empresários, com muitos proprietários, em fuzilamentos e campos de confinamento. Seguiram fielmente o receituário de Marx, não mostrando piedade pelos inimigos “de classe”. Mas aí, não se deu aquela mágica prometida pelo “profeta” barbudo: não raiou um novo Homem, numa nova Era, em que o Estado sumiria, e sumiria a “exploração” ao som de “Imagine”. Foi um Apocalipse sangrento, escatológico, mas sem Redenção. O homem soube matar, mas não soube ressuscitar.
De novo, o que se viu foi que na Rússia, pátria primeira do socialismo histórico, aquele discurso novo de Marx, aquela promessa de fim da luta de classes, serviu para re-legitimar velhas práticas tirânicas. Como faziam os Czares históricos, o exemplo paradigmático sendo Pedro, o Grande, o povo russo servia de argamassa para a construção do sonho do Governante.
Pedro queria modernizar a Rússia, aproximá-la da Europa Ocidental. Entrou em confronto com os costumes de seus súditos, obrigou-os a raspar a barba; e arregimentou milhares de trabalhadores para suas grandes obras de modernização, deslocando-os de seus lares, afastando-os de suas famílias, literalmente forçando-os a trabalhar para realizar os seus sonhos.
Nada de diferente do que fizeram Lenin e Stalin, apenas que com os socialistas o discurso de justificativa era outro. E o pior é que este novo discurso, este novo ideal de “refazer o homem”, e atingir um “fim da História”, uma superação das contradições, um absoluto, incendiou as imaginações, e deu novo fôlego para tirania, justamente quando seu velho alicerce, o Czarismo já dava sinais de caducar e ruir.
Agora, esta nova promessa justificava novos radicalismos, extermínio de “inimigos”, “trabalhos forçados” para construir a Nova Pátria do Futuro, a mãe-Rússia, com seu “destino histórico” de liderar e conduzir os outros povos. E tome guerra, quente ou fria, para espalhar esta dádiva que é o comunismo, para outros povos.
Agora que estamos afastados no tempo, podemos ver com melhor perspectiva os resultados de tão grandes sacrifícios e aspirações; é engraçado, mas parece que não veio nenhuma Grande Voz do céu( de Deus? De Marx? De Lenin?) para avisar que a dona História chegou na última estação e resolveu parar. Cansou, entregou os pontos, rendeu-se à super mente científica de Marx, que lhe desvendou os mistérios.
Nada disso aconteceu. Está certo, a União Soviética passou um tempo dominando sobre diversos povos, e alcançaram alguns notáveis avanços, principalmente no fabrico de armas, e ainda conseguiram lançar uns satélites. Mas será que foi a doutrina socialista que proporcionou isso?
Parece mais é que estes foram os resultados de se forçar uma grande parte do povo a cumprir certos objetivos eleitos pelos Governantes. Como as grandes obras de Pedro, ou como as pirâmides dos Faraós. Em todos os casos as conquistas foram feitas pela população numerosa, industriosa, capaz, e com os recursos de terras, matérias-primas, riquezas, à disposição.
Claro que a História não admite suposições. É inútil tentar responder “o que aconteceria se”; o que aconteceria se o Brasil tivesse sido colonizado pelos ingleses; ou pelos holandeses; ou pelos chineses; ou por extra-terrestres?
Mas ainda assim, é lícito especular: se os Governantes russos, ao invés de tiranizarem e desperdiçarem a energia de seu povo em cruéis e inúteis guerras, e dominações, e na busca desta utopia socialista, e se concentrassem apenas em oferecer uma boa educação para as multidões de analfabetos, e respeitassem direitos individuais dos governados, e lhes respeitassem a liberdade de votar as leis, e de empreender, de escolher um trabalho, e a maneira de ganhar dinheiro, a maneira de viver, em suma, será que este grande povo, com estes grandes recursos, não iria alcançar tanto, ou mais, do que os esfarrapados ganhos depois de décadas de socialismo?
Estas décadas de socialismo tiveram um custo muito grande e concreto, traduzido em milhares de vidas assassinadas, ou encarceradas em gulags, indivíduos cujo crime foi não concordar com a doutrina que os governantes impunham.
Claro, pode-se afirmar que a História russa tinha de ser desse jeito, que foi apenas o desdobramento de antiquíssimas tradições, que a tirania, a obediência, a ausência de crítica, eram todo o horizonte da maioria do povo russo, e que nenhum regime diferente daquele que Lenin implantou teria funcionado para a Rússia. De fato, a História aconteceu deste jeito, e não pode ser mudada. Mas eu não estou lamentando que poderia ter sido diferente, estou apenas dizendo que o socialismo não vale a pena. Suas pretensas conquistas podem ser melhor alcançadas simplesmente valorizando a educação e as liberdades de um povo, como demonstraram sobejamente povos de população e território reduzidos, com poucos recursos, mas que se destacaram imensamente por suas realizações. Lembremos, sem nos alongar, dos ingleses, durante o século XIX, e dos gregos, no século V a.C.
As grandes realizações do socialismo real são ótimas para fins de propaganda, enchem os olhos de quem está de fora, mas não representam um acréscimo de qualidade de vida para o povo que as produz. Um satélite em volta da Terra, uau! Bomba atômica, que lindo! Não sei quantas nações subjugadas pelo Grande Urso Soviético, que grandeza!
Mas um povo triste, afundado em vodka, sem gêneros básicos, que não pode criticar, que não pode querer mudar... perdendo vidas em guerras, com medo de polícias secretas... um povo deformado e infantilizado pela dependência em relação ao Estado. E, afinal, é a qualidade de vida que importa. Por algum tempo o homem pode abrir mão de todo conforto, e até dos seus sentimentos, da sua capacidade de enxergar a realidade, da sua faculdade de crítica, em prol de um ideal que lhe absorva. Mas com o tempo, vendo nunca chegar o tal futuro brilhante prometido, e, pior, vendo que aquele mesmo ideal apenas justificava imobilismo e injustiça, não mais se consegue manter os corações e mentes presos àquele ideal.
É incrível como isto acontece, de uma noite para o dia, de uma geração para outra, de repente tudo aquilo que parecia tão sólido, se desmancha no ar! Num dia parece toda a realidade, por toda a eternidade! No outro dia, toca-se com um dedo naquilo, e aquilo virou pó e desaba... mas, infelizmente, os muitos executados, os muitos desaparecidos, durante aquele tempo em que o velho ídolo parecia com a divindade, estes não voltam...

sábado, 8 de agosto de 2009

Casa dos Horrores

Acompanhemos a reportagem de Fabio William no Jornal da Globo de ontem, ao final desta "gloriosa" semana do nosso Senado:



http://www.youtube.com/watch?v=At-k9JDfOk8

Nada como ver o senador sem um único voto, Wellington Salgado, brindando-nos os ouvidos com as pérolas: "Todo senador é um ser humano (há controvérsia). Todo senador é um homem (há muita controvérsia). Ninguém chega ao Senado sendo um frouxo (isto é certo: frouxo é o distinto cidadão pagador de impostos, que devia logo vestir uma roupa de palhaço)".

Também é reconfortante ver que outro senador sem um único voto, Paulo Duque, eleito por seus pares presidente do Conselho de Ética (ética? Há controvérsia), arquivou todas as representações e denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney.

Para coroar esta gloriosa semana no Senado, o senador Alienado Suplicy (antecipando-me ao Casseta e Planeta), rouba o foco das atenções com sua interpretação de Cat Stevens. É pena, porque Suplicy tem a seu favor o fato de fazer parte da minoria dos senadores petistas que não se curvou à vontade do todo-poderoso Lulinha, e manteve posição pelo afastamento de Sarney. Mas, como eu disse, foi uma gloriosa semana no Senado.

Gripe suína e Senado

Segundo a notícia do jornal O Globo de 07.08.2009, até 1 de agosto o Brasil representava apenas 1,8 % dos casos de gripe suína no mundo, mas o número de mortes no país equivalia a 8% do total registrado no planeta. Com os novos óbitos (140), nos poucos dias entre o registro de 1 de agosto até a data em que foi escrita a reportagem, o Brasil já representava 12% dos casos fatais pela infecção no mundo.
Esta notícia, perdida na página 27 do jornal, é um atestado claro da incapacidade do país de lidar com os problemas. Na comparação com a média do resto do mundo, o Brasil tem cerca de dez vezes mais óbitos em relação ao número de infectados. Ou seja, se no resto do mundo, de cem infectados, um morre, no Brasil, dos cem infectados, dez morrem.
Na carta de uma leitora, Célia Cristina da Silva, no mesmo jornal, temos um complemento para a situação descrita. Diz a carta: “Gostaria de um esclarecimento do Ministério da Saúde: houve alguma morte de paciente que recebeu, nas primeiras 48 horas dos sintomas, o antiviral? Se isto não ocorreu, tudo está muito mal administrado, e vidas poderiam ter sido salvas. O pânico das pessoas está muito mais relacionado à indisponibilidade do medicamento do que ao contágio. (...)”
E de fato, embora vejamos sempre na televisão a propaganda do Ministro da Saúde, e manifestações tranquilizadoras de autoridades, os números vão demonstrando o desgoverno costumeiro do país. Como sempre, neste país, investe-se nas aparências, descuida-se da substância. É uma boa estratégia para ser usada num país em que boa parte da população não sabe ler e escrever, e não sabe fazer conta. Se os resultados na solução dos problemas são pífios, o mesmo não se pode dizer dos resultados da manutenção do poder pelos grupos que nos controlam. E manter o poder é o que importa, na nossa tradição de patrimonialismo, e de “primeiro os meus”, e “eu quero é o meu”, e “aos amigos, tudo, aos inimigos, os rigores da lei”.
Temos tudo isso muito claro, numa vista de olhos para o Senado. Como é que se pode esperar Governo, liderança, administração, no país, quando os homens com estas responsabilidades passam o seu tempo nas lutas intestinas pelo poder de fazer os melhores negócios com a pátria amada, mãe gentil? Para estes nobres na sua ilha da fantasia, o país pode se explodir e se afundar em gripes suínas, em miséria, em fuzis nas favelas: eles estão garantidos com os melhores planos de saúde, e com as melhores oportunidades de negócios, e com seguranças 24 horas. Aí o foco passa a ser outro, passa a ser a intriga, e a chantagem, e a tropa de choque, e a ofensa... serão os tais “negócios de gente grande” , estranhamente semelhantes ao que se vê nos jardins de infância; mas diferentemente, e infelizmente, com consequências trágicas.
E assim vai continuar sendo, pois está perfeitamente de acordo com nossas tradições patrimonialistas e fisiológicas, e porque não ensinamos nossas crianças a ler e a escrever e a fazer contas, e um povo ignorante é um povo indefeso à exploração, e facilmente manipulável.
Para mudar isso, não nos iludamos, só vencendo a resistência dos que lucram com este estado de coisas. Os poderosos acostumados às vantagens fabulosas, e à impunidade. É divertida nossa “normalidade”. Parece que cada sujeito que consegue se eleger encontra um poço de petróleo debaixo da sua casa. Pessoas que tinham uma brasília velha e moravam em um quitinete em poucos anos de mandato público compram mansões e jatinhos. Campanhas gastam milhões, dezenas de vezes mais do que os candidatos receberão de salário ao longo dos mandatos. Para garantir suas fontes dos milhões e bilhões estes senhores do poder estarão dispostos a espalhar suas migalhas para muitos e muitos “cooptados”; muitos que receberão também seu quinhãzinho de “regime diferenciado”, suas “vantagens generosas”, seu “direitinho adquirido”, pelo qual não trabalhou, e que não passa nem pelos sonhos do sujeito que lhe engraxa os sapatos.
E assim vamos, neste país. A luta não é para resolvermos nossos problemas, a luta é para entrar na festa, mesmo que na condição de convidado de segunda ou terceira classe. O importante é sermos um dos “espertos”, é nos diferenciarmos do vizinho; porque o que não se diferencia é o que paga o pato, nas filas dos hospitais públicos, nos subempregos de exploração, nos desabamentos da favela.
A luta não é pelo fim do privilégio, para viver num país e numa sociedade mais feliz e justa; a luta é para agarrar algum privilégio, para atirar na cara dos outros algum “sabe com quem está falando?”. Até que (talvez) algum choque de realidade sirva para nos abrir o olho, alguma bala perdida que tire a vida de um filho, mesmo que ele estivesse em algum bairro chique da cidade, ou quem sabe, no desgoverno geral, ser também uma vítima da falta de medicamento para a gripe suína? Teremos, para nos consolar, uma propaganda do Ministério da Saúde, muito bem remunerada, ou um pronunciamento divertido do presidente Lula, de que "nunca antes na História deste país a saúde público se aproximou tanto da perfeição".

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Protágoras

No diálogo “Protágoras”, de Platão, é narrado um mito da democracia. Vou reproduzi-lo, como aparece narrado no livro “O Julgamento de Sócrates”, de I. F. Stone:
(...) “Diz Protágoras que, quando foi criado, o homem vivia uma existência solitária e não era capaz de proteger a si próprio e sua família dos animais selvagens mais fortes do que ele. Consequentemente, os homens se reuniram para “proteger suas vidas fundando cidades”. Mas as cidades foram conturbadas por lutas, porque seus habitantes “faziam mal uns aos outros” por ainda não conhecerem “a arte da política” (politike téchne) que lhes permitiria viver em paz juntos. Assim, os homens começaram a “se dispersar novamente e a perecer”.
Segundo Protágoras, Zeus temia que “nossa espécie estivesse ameaçada da ruína total”. Assim, enviou seu mensageiro, Hermes, à terra, com duas dádivas que permitiriam aos homens enfim praticar com êxito a “arte da política” e fundar cidades onde pudessem viver juntos em segurança e harmonia. As duas dádivas de Zeus eram aidos e diké. Aidos é um sentimento de vergonha, uma preocupação com a opinião alheia. É a vergonha que o soldado sente quando trai seus camaradas no campo de batalha, ou o cidadão quando é apanhado em flagrante fazendo algo desonroso. Neste contexto, diké significa respeito pelos direitos dos outros. Implica um senso de justiça, e torna possível a paz civil resolvendo as disputas através de julgamentos. Ao adquirirem aidos e diké, os homens finalmente se tornariam capazes de garantir sua sobrevivência.
(...) Hermes lembra a Zeus que as outras “artes” foram distribuídas de tal modo que “um homem que seja possuidor da arte da medicina é capaz de tratar muitos homens comuns, e o mesmo se dá com os outros ofícios”. Hermes perguntou a Zeus se ele devia distribuir a “arte política” a uns poucos eleitos ou a todos. A resposta de Zeus é democrática: “Que cada um tenha seu quinhão” da arte cívica. “Pois as cidades não se poderão formar”, explica Zeus, “se apenas uns poucos” possuírem aidos e diké. É necessário que todos as possuam para que a vida comunitária seja possível. Para reforçar sua lição, Zeus diz também a seu mensageiro: “E torne lei, por mim ordenada, que todo aquele que não possui respeito (aidos) e direito (diké) deverá morrer a morte de um malfeitor público”.
Em seguida Protágoras expõe a moral de seu mito. “É por isso, Sócrates, que as pessoas das cidades, especialmente de Atenas”, só ouvem peritos em relação a questões de conhecimento específico, “mas, quando se reúnem para aconselhar-se sobre a arte política” - ou seja, uma questão geral de governo -, “quando devem ser guiados pela justiça e pelo bom senso, permitem, naturalmente, que todos dêem conselhos, já que se afirma que todos devem partilhar desta excelência, senão os Estados (i.e, as cidades, a pólis) não podem existir”.
Segundo consta, “Sócrates limita-se a elogiar o mito””. ( I. F. Stone, O Julgamento de Sócrates, editora Schwarcz Ltda., 1988, traduzido por Paulo Henrique Britto)
E eu também elogio o mito democrático, com toda a certeza, e peço pra Divindade que conceda muito aidos e diké pro nosso povo. Vergonha na cara e respeito ao direito alheio é o que parece mesmo nos faltar, quando nossos dirigentes se concedem tantos mimos e opulências, vidas “fáceis” na corrupção, pregando a conta nas costas de um povo que, muitas vezes, morre de verme e de fome, e é mantido na ignorância de seu poder e direitos.

sábado, 1 de agosto de 2009

A Hard rain is a´gonna fall - Bob Dylan

Música do segundo álbum de Bob Dylan, de 1963, "The freewhelin´Bob Dylan":

neste link, a versão de estúdio, folk, com a letra original: http://www.youtube.com/watch?v=VNdPWv9D4S4

e uma versão ao vivo, com acento country:


http://www.youtube.com/watch?v=hGJLlUq_cyo

Tradução:
Uma chuva forte que vai cair

Aonde você esteve, meu filho de olhos azuis,
Aonde você esteve, meu amado e querido?

Eu cambaleei pelos lados de doze montanhas enevoadas
Eu andei e rastejei em seis autoestradas enganadoras
Eu pisei no meio de sete florestas tristes
Eu estive à frente de doze oceanos mortos
Eu estive dez mil milhas dentro da garganta de uma cova

E é uma chuva forte que vai cair...

O que você viu, meu filho de olhos azuis,
O que você viu, meu amado e querido?

Eu vi um bebê recém-nascido com lobos selvagens o cercando
Eu vi uma autoestrada de diamantes com ninguém sobre ela
Eu vi um galho preto com sangue que ficava caindo
Eu vi um quarto cheio de homens com martelos sangrando
Eu vi uma escada branca toda coberta com água
Eu vi dez mil faladores com suas línguas todas quebradas
Eu vi revólveres e espadas afiadas nas mãos de crianças pequenas

E é uma chuva forte que vai cair...

E o que você ouviu, meu filho de olhos azuis,
E o que você ouviu, meu amado e querido?

Eu ouvi o som de um trovão que rugia um aviso
Eu ouvi o rugido de uma onda que podia afogar o mundo todo
Eu ouvi mil soldados com tambores suas mãos pegando fogo
Eu ouvi mil sussurrando e nenhum escutando
Eu ouvi uma pessoa que morria de fome eu ouvi muitos rindo
Eu ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta
Eu ouvi o som de um palhaço que chorava num beco

E é uma chuva forte que vai cair...

E quem você encontrou, meu filho de olhos azuis,
E quem você encontrou, meu amado e querido?

Eu encontrei uma criança ao lado de um cavalo morto
Eu encontrei um homem branco que conduzia um cachorro preto
Eu encontrei uma jovem mulher que tinha o corpo queimando
Eu encontrei uma jovem garota que me deu um arco-íris
Eu encontrei um homem que foi ferido no amor
Eu encontrei um outro homem que foi ferido no ódio

E é uma chuva forte que vai cair...

E o que você vai fazer agora, meu filho de olhos azuis,
O que você vai fazer, meu amado e querido?

Eu vou embora logo antes que a chuva comece a cair
Eu vou caminhar para as profundezas da mais escura e profunda floresta
Onde as pessoas são muitas e suas mãos estão vazias
Onde os grãos de veneno estão flutuando nas suas águas
Onde o lar no vale encontra a triste suja prisão
E a face do executor está sempre bem escondida
Onde fome é feio onde as almas são esquecidas
Onde preto é a cor onde nada é o número

E eu vou distingui-lo e vou pensá-lo e vou falá-lo e vou respirá-lo
E vou refleti-lo da montanha para que toda alma possa vê-lo
E eu vou estar de pé sobre o oceano até que eu comece a afundar
Mas eu vou conhecer bem minha canção antes de começar a cantá-la

E é uma chuva forte que vai cair...



E mais uma versão, rock n´roll, ao vivo, 1975, SENSACIONAL, com um Bob Dylan-Coringa:

http://www.youtube.com/watch?v=8yg0gYvR0h4

sábado, 25 de julho de 2009

Contra Lula

Nesses tempos de popularidade elevada de nosso presidente, em que este se encontra mais relaxado do que nunca em seus atos e palavras, em que seus entusiastas encontram-se mais que nunca exaltados na defesa do chefinho, tudo enxergando justificado e absolvido pelos altos índices de aprovação popular, melhor momento não existe para exercer o sagrado direito de discordar.
Melhor momento não existe para se afirmar como homem livre, que não abre mão da crítica. Como já se disse, a liberdade de discordar é que é a liberdade de expressão. Nem mesmo a mais ferrenha tirania cogitou proibir os homens de concordarem com ela. O que a faz prender, processar, multar, executar opositores é a “loucura” de pretenderem questioná-la. A tirania quer os homens escravos, e, como escreveu Eurípedes, nas Fenícias: “É sina de escravo não poder dizer o que pensa.”.
E não se enganem: tirania não significa necessariamente ditadura de uma minoria. Tirania é tolher a liberdade dos homens. E as maiorias também podem estabelecer tiranias, tiranias ainda mais assustadoras e enganosas, pela própria força do número, e pela confusão dos que acham que, porque é maioria, pode tudo, até acabar com a própria liberdade.
São estes os idólatras das maiorias, os que pensam que ouvem a vox dei (voz de Deus) sempre que têm a satisfação de ver suas opiniões endossadas pelas estatísticas favoráveis. É bem fácil nadar com a corrente, abrir mão do juízo crítico, fechar os olhos, adormecer embalado num belo sonho, principalmente quando se lucra um belo cargo com isso, ou uma bela verba, uma bela pensão, um belo aumento, um belo aplauso dos seus pares. Mas podemos voltar a Eurípedes, em sua peça Auge, para retrucar que “Não há título mais precioso que o de homem livre: quem o possui tem muito, ainda que pouco tenha de seu”.
Então, podem escrever loas, e odes, e madrigais, pro “vosso líder”, o “estadista”, o “poderoso chefinho”. Podem também dizer que eu sou um terrível membro das “elites brancas de olhos azuis”, o “inimigo do povo”, inimigo da pátria, terra adorada, entre outras mil, inimigo até da Petrobrás. Mas não me queiram cassar o sagrado direito de discordar.
Quem dá o tom é o próprio chefinho: quem o critica é sempre um membro da “imprensa golpista”, “quer o mal do país”, ou é membro da “elite”, uma entidade esotérica e maléfica, responsável pelos problemas da nação. O famoso bode expiatório, a bruxa pra ir pra fogueira, a burguesia, os judeus, os ianques imperialistas, os banqueiros de olhos azuis, os estraga-prazeres, o demônio. Aquele em quem descarregamos nossas frustrações, e atrás de quem escondemos nossas culpas.
E com isso os bugres interditam qualquer debate livre e honesto. Se quem aprova o presidente é do bem, e quem desaprova é o mal, pra que perder tempo com debate? Com o MAL não tem discussão, tem exorcismo, expurgo, prisão, manda pra fogueira, pro paredão, pra Auschiwitz, pro gulag...
Exagero? Exagero são as propostas de “controle social dos meios de comunicação”, as declarações de apoio e os afagos a Chavez e Fidel, a Kadafi e Ahmadinejad, a idolatria a ditadores e genocidas do porte de Lenin, Stalin, Trotski, e Mao Tse Tung, por parte da nossa inteligentzia, o culto ao “pensamento único”, às “soluções finais”. Exagero são as montanhas de processos contra jornalistas “do contra”, são os rios de dinheiro desperdiçados com propaganda nos meios de comunicação “muy amigos”, e obedientes. Exagero são os discursos radicais de Lulinha, as ameaças veladas de “botar o bloco na rua”, a baixa tolerância à crítica, a ameaça de expulsão de correspondente estrangeiro, e a estigmatização, como “inimigo da nação”, daqueles que ousam discordar.
E como citamos o teatro grego para defender a liberdade de expressão, nada melhor para fechar este artigo do que estes versos de Ésquilo, nas Suplicantes: “A verdadeira liberdade é poderem homens livres / Aconselhar o povo, livremente se expressando”.
E me dou conta de repente de que este artigo, que seria para desopilar o fígado e exercitar os músculos batendo um pouco no presidente, acabou virando artigo sobre liberdade de expressão. O.k., isto fica só como uma introdução. A seguir, virá a substância de minha crítica ao vosso estadista, Lulinha.

Prisão especial

Ouço uma notícia sobre o fim da prisão especial, uma comissão do Senado redigiu um projeto de lei que acabaria com o direito de algumas pessoas a um aprisionamento diferenciado até o final de seu julgamento. Creio que ainda não foi convertido em lei, mas quero fazer algumas considerações sobre o tema.
Primeiro, na verdade não é o fim completo e definitivo da dita prisão especial. Alguns membros da noblesse, da finesse, o presidente da República, juízes, procuradores do Ministério Público da União, estes continuariam tendo os benefícios da prisão especial. Políticos também, pelo que vejo em outra notícia. Acabaria prisão especial, então, grosso modo, só pros que têm curso superior completo. Tá vendo? Quem mandou estudar? Agora até este triste consolo para os anos de dificuldade estudando em nossas escolas e universidades que tão pobremente nos formam se perdeu... mas nunca fomos de valorizar muito a cultura, mesmo, essa coisa de arrogantes membros das elites brancas...
Parece que assim o Congresso dá alguma satisfação para a plebe ignara. Polegares pra baixo, nobres patrícios... sangue para a audiência!
As grandes massas insatisfeitas, com razão insatisfeitas, com a impunidade grossa que rola no país, criminosos, confessos e reconfessos, flanando por aí, na nobre sociedade, desfilando em carrões, dando festas e indo pra festas, andando de lancha e jatinho... ou então, na outra ponta, assassinos que dominam às claras favelas, mandam e desmandam, e fica tudo por isso mesmo... Não tem polícia, não tem juiz, nada que dê conta daquilo.
Esta multidão assustada e revoltada talvez saúde com júbilo a notícia, exagerada, como vimos, do FIM da prisão especial. Soa assim como um fim de privilégio, pela igualdade jurídica, um grande avanço pro nosso povo.
Mas reparem bem na questão... aqueles que fazem a lei, aqueles que a aplicam, nossos belos Poderes Federais, se asseguraram da continuidade do benefício para si. Para satisfazer a Ira Santa (terrível paradoxo) da população, jogaram no fogo só uns “trouxas” escolhidos, a turma de fora da patota; isto pode atender a anseios de justiçamento, desforra, vingança, mas atende à Justiça? Vai ser mesmo uma satisfação ver que mais pessoas, não mais restritas às classes mais pobres, vão experimentar o moedouro insano, o inferno de nossas prisões?
Leio a notícia de que numa prisão em Minas “vazou” uma gravação de celular, um filme feito por um preso, mostrando um dos “chefes” da cela, super-lotada, como de praxe, enfiando um cano de PVC no ânus de um outro preso, para se vingar, ou mostrar poder, ou por sadismo, qualquer coisa... os outros presos riam e incitavam o bizarro espetáculo. Mas isto é notícia pro fim do jornal, que estraga até o apetite dos bem-pensantes.
Tudo é uma bizarria neste país! Sistema prisional, escola, polícia, Justiça... E a “solução” dos políticos é dar a “satisfação” de deixar se espalhar mais a merda, livrando, é claro, o próprio pescoço. E os ricos, também, sabemos como é fácil comprar tratamentos diferenciados na prisão... então, manda ver mesmo com estes bobos que restam! Paguem pelo pato que consumimos, regado a vinhos bem caros...
Solução igualitária, justa, DE VERDADE, seria um mesmo regime para todos, e prevenindo a desumanidade mais cruel: será pedir demais, às nossas autoridades, aos homens de poder, uma cela individual enquanto se aguarda julgamento, além, quando cabível, em crimes menores, em circunstâncias favoráveis, bem definidas, com objetividade, pela lei, uma restrição da liberdade menos gravosa que o encarceramento? Lembremos, em tal situação, durante o processo, não está formada a culpa do suspeito. Pode perfeitamente ser que se trate de um completo inocente, acusado erroneamente por um crime que não cometeu.
Nesta condição, será razoável, além de toda a angústia e horror do encarceramento, e da dúvida quanto ao futuro, misturar esta pessoa, cegamente, com quadrilhas organizadas, bandidos de todo teor, e expô-la à violência, à lei da selva, à indignidade?
Temos em nossas leis a previsão de uma diferenciação quanto ao modo de cumprimento da pena, e é claro e justo que deve haver. Criminosos violentos, perigosos, não devem ser misturados com os estelionatários, com os batedores de carteira, no momento de cumprir a pena. Com isto acho que nem o “igualitarista” mais radical vai discordar. Está certo que na nossa bagunça geral, nem sempre acontece assim, e mistura-se de qualquer jeito, condenados de todo tipo. É mais um caso, como costumamos dizer neste nosso país original, que nem sempre a lei pega. Na prática a teoria é outra. Mas isto é uma outra questão.
O que causa espanto, e espécie, é ver que mesmo com a previsão para a diferenciação de tratamento para os que têm a culpa formada, ainda se defenda que, antes da culpa formada, se exponha os indivíduos que são submetidos a processo a tamanho risco de violência e humilhação. Mas sempre tem uns Jean Paul Marats, uns “amigos do povo”, para defender e açular os ódios e sentimentos de vingança da população, desviando sua atenção dos reais problemas da nação.
Não estou, obviamente, defendendo qualquer espécie de impunidade; estou defendendo processo, civilização, humanidade. Que o suspeito seja mantido em separado enquanto aguarda julgamento, que seja comunicado de imediato um familiar, que um advogado preste assistência imediata ao preso. Mas tudo isso deve ser pedir demais para nossas autoridades, e eu devo ser mesmo apenas um sonhador idiota. Quem sabe até um “amigo da bandidagem”? Afinal, se o sujeito foi preso, alguma culpa devia ter... in dubio PAU no reu. E seguimos.
Para uma análise técnica da disciplina da prisão especial, remeto os leitores ao seguinte artigo do site Jus Navegandi: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=1091

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Pânico na TV

Da série: "Humor para enfrentar a crise": a quase inacreditável entrevista de Marília Gabi Gabriherpes com o Presidente Molusco, no Pânico na TV http://www.youtube.com/watch?v=S_l-FQf_PFM

E vivam os bobos da corte, autorizados a falar verdades, protegidos pelo manto da loucura.

"Ele não sabe leeeerrr, ele não sabe escreveeeerrr, ele não sabe conjugaaarrr..."

sábado, 11 de julho de 2009

Hurricane - Bob Dylan

http://www.youtube.com/watch?v=9tL_2hjVObA

Uma boa versão ao vivo deste clássico do Bob Dylan. Legendada em português por um brasileiro. Detalhe: na parte em que os tiras dizem que querem pregar o triplo assassinato nas costas do "Hurricane", eles justificam dizendo (no original): "He is no gentleman Jim", ou seja, Hurricane não é nenhum membro da aristocracia, nenhum cavalheiro, gentil-homem. O nosso brasileiro fez uma boa adaptação, traduziu: "Ele não é nenhum deputado". Freud explica.

Tem um bom filme sobre a história do Hurricane, em português, "Hurricane - O furacão" (EUA, 1999), dirigido pelo veterano Norman Jewison, e com Denzel Washington no papel título, em atuação que lhe valeu indicação ao Oscar.

Cotação do filme: **** (muito bom)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Elites

O Brasil parece sofrer de uma triste falta de elites, “elites”, no melhor sentido da palavra. Falta de uma elite de valor, com um compromisso bem claro na cabeça: fazer com que o país melhore, fazer o bem aos seus semelhantes. Um compromisso ético: não praticar o mal, não permitir que outros o pratiquem. Uma elite com o compromisso com o trabalho, com compromisso com a honestidade, com o compromisso do estudo. Com o compromisso de cobrar como direito, não seu, mas DE TODOS, que os governantes se pautem com correção, com decência, e também o amigo, e o vizinho, e o próprio filho.Esta ausência de elites se explica de muitas formas: uma falta de nível educacional geral, as poucas elites de aprendizagem que se formam ficam isoladas na massa geral, não têm contato, não se mobilizam; uma certa falta de definição de valores clara, uma certa permissividade diluída no ar, uma certa confusão entre o que é autoridade e o que é autoritarismo, uma certa melancolia e desesperança “com tudo isto que está aí”.Pode ser também a cultura que se formou sob o signo da escravidão, por muitos anos em nossa curta e acidentada História ela esteve instalada, horrível chaga; e isto fez gerar uma sociedade dividida e desigual, nós somos “nós” e “eles”; casa grande e senzala. E mais um estatismo ibérico, mais uma colonização para explorar renda, quanto mais rápido e mais fácil, melhor; corrupção e exploração, são só outros meios de se conseguir o que se busca.Então, temos tantas “elites”, que não escrevem, não lêem, não sabem fazer contas, e não pensam; temos tantas "elites" que não se levantam pelo direito, não se indignam, não lutam; temos tantas “elites” que se corrompem, que aceitam “presentes”, que aceitam “jogadas”, que têm o rabo preso, que não explicam origem de dinheiro; temos tantas “elites” que discutem sexo dos anjos em universidades, que aceitam qualquer tipo de ditadura suja e explicação simplista, fórmulas mágicas que “explicam e resolvem” toda a realidade, e renunciam ao próprio pensamento crítico e livre, e não fazem NADA DE CONSEQUENTE E CONCRETO, para tornar mais justas as leis e as práticas da sociedade onde vivem.Isto tudo vai ter de mudar aos poucos, e não adianta, e nem é justo, entregar-se ao desespero. As verdadeiras elites não se entregam: fazem o bem que podem para a sua comunidade, organizam um hospital, organizam uma escola. Distribuem uma roupa, um alimento, ou um livro, criam um site para divulgar e investigar prestações de contas públicas. A verdadeira elite é composta de pobres, remediados e ricos. Estudados ou ignorantes: eles praticam o exemplo de amor ao bem e à Justiça, de admiração e respeito pelo sabedoria e pela honestidade; são generosos e gentis. Não estão com a cabeça em odiar, culpar ou perseguir alguém, mas muito satisfeitos e felizes preocupam-se em ajudar, com o tanto que sua força permite, a quem esteja próximo. E esta força permite tanto, esta força permite tudo.Embora não se possa esquecer nunca que o combate é de todo o dia. Não se pode perder nunca de vista a necessidade da indignação, e da reação, civilizada e consequente. Para os que chegam a praticar tudo isto, a colheita não se faz esperar; os frutos são colhidos a cada dia, e não faltam nunca. Cada pessoa que se atinja, se interessando por um livro, matando a fome, se livrando de uma doença, já é o próprio bem se espalhando em círculos. Muito embora a alma reconheça e sofra as limitações das contingências materiais, históricas. Uma vida humana passa rápido, e as mudanças necessárias, para serem sentidas numa grande escala, ultrapassam por vezes nossas vidas. E sempre experimentamos resistência, e sempre é possível o retrocesso. Conhecemos a História, e os horrores de guerras gálicas, e os horrores de Holocausto. Ou abrimos o jornal, e lemos barbaridades. Não importa, porque a esperança permanece tão pertinaz quanto a vida. Sócrates já experimentava tempos difíceis em seu tempo, mas deu-nos a grande lição que não envelhece: a coragem de aferrar-se ao bem traz a liberdade e a esperança. O que faz lembrar aquela frase enigmática: quem quiser salvar sua vida a perderá.Mas estou falando de elites, e de Brasil; e tento destacar que é imprescindível a qualquer país que se queira livre possuir uma elite de estudo, e de trabalho, e de moral, e que esta elite consiga atuar sobre leis e instituições deste país, para que se tenha uma sociedade justa.Não é um trabalho que cabe apenas a esta elite de doutos. A sociedade toda precisa encontrar o seu orgulho, conhecer o seu direito, e cobrar com justiça o que é justo. Mas caberá a esta elite, aos que se destacam, em cada área de trabalho, aos que se adiantam em estudo e conhecimento, refletir e viabilizar as soluções para a sociedade.Tomemos por exemplo os médicos, e o serviço público de saúde. É justo a sociedade pretender que haja, pelo menos (é uma questão de prioridades), um exame periódico, de acordo com a faixa etária, que alcance toda a população, e um atendimento rápido, nas emergências. E isto de qualidade, naturalmente, sendo os profissionais treinados para identificar, e combater, ou encaminhar, os problemas de saúde que os pacientes enfrentam, e que seja avaliado, objetivamente, o trabalho destes profissionais, e que utilizem métodos e exames pouco onerosos, QUE POSSAM SER ESTENDIDOS A TODOS, O MAIS IGUALITARIAMENTE POSSÍVEL.Se a sociedade quer firmemente isto, cabe a seus médicos, seus profissionais da área de saúde, chamar para si a responsabilidade, reunir-se, discutir, estudar, com a ajuda de estatísticas, de matemáticos, de administradores, para apresentar um plano de saúde pública que atenda estes ideais. ELES são os profissionais, ELES precisam ter o orgulho de exercer dignamente sua profissão, e de que maneira vão exercê-la dignamente, com orgulho, se a doença, a falta de cuidados, grassa pelo país? ELES têm de guiar, a sociedade toda tem de exigir, dos seus governantes, dos seus administradores, que sigam um plano traçado, que estenda o acesso à saúde igualitariamente, que não deixe nenhuma região, nenhuma população, desatendida, ou com médicos de menos, para os exames e procedimentos mais básicos.Claro que uma vez traçado o plano de atendimento à saúde, com base em pesquisa, com base em estudo, estatística, com base em treinamento, capacitação, orçamento, tudo isto terá de ser levado para votação de um Congresso que, presume-se, debateria cada aspecto do plano, perguntaria, trataria de evitar falhas, desperdícios, proporia, adaptaria, refletiria, e votaria, de acordo com sua consciência e convicção (ai-ai, e isto que era para ser tão natural e básico soa tão utópico).E os representantes do povo, em cada Estado, em cada Município, se informariam dos direitos à saúde de sua população, e exerceriam o importante papel de fiscalizar, cobrar, exigir, propor adaptações e mudanças, em nome de seus representados, sobre este plano nacional de atendimento à saúde, conforme a lei, e adequado às necessidades específicas de cada região. E cada cidadão cobraria também de seus representantes, e seria também informado de seus direitos, de forma simples e rápida, e inclusive dos procedimentos que poderia adotar para fazer uma reclamação, ou pedir um esclarecimento, ou cobrar, ou sugerir... tudo isto com a orientação e o apoio de seus representantes, e das estruturas do Estado, que reconheceriam nele um cidadão, detentor de direitos, e não um súdito, cujo “direito” é ser tosquiado e calar a boca. E deveriam ser previstos também os “testes de realidade”, das leis e sistemas. Com base em pesquisas, com base em metas, e estatísticas. Com base em um pensamento racional e pragmático. Humilde diante dos fatos. Para mudar o que não funciona, repetir e aprofundar o que dá certo, aprimorar, manter, cobrar, premiar...Neste quadro, eu destaco o papel dos médicos, dos profissionais dentro deste sistema, pois eles é que estão “por dentro” do sistema de saúde que ora comento, conhecem diretamente suas características. É de se reconhecer e valorizar o papel desta elite na solução do problema que a ela compete mais diretamente: prestar um bom serviço de saúde, cumprir bem o seu papel, como profissional da área, servir bem ao seu país, ao seu povo, ao seu semelhante, realizando aquela função de sua escolha, e, claro, ser valorizado por isso, ter uma boa condição de trabalho, ter os instrumentos, ter reconhecimento, estímulo...Mas parecemos bem longe disso, infelizmente. Parecemos não saber como cobrar, como fazer, salvo exceções, parecemos bem conformados com o absurdo e a loucura. Cada um garantindo “o seu”, como dá, briga de foice, desesperança, cinismo. Gente que finge que trabalha, gente com privilégios, outros se esforçando muito, mas sem estímulo, sem reconhecimento, sem perspectiva de melhora. É isto que eu digo que faltam elites, massa crítica para fazer a mudança, que atinja um nível nacional, que permaneça.Vou dar um outro exemplo, com advogados e juízes. Profissionais do direito. É justo, é direito, que a sociedade queira uma Justiça rápida, eficaz, previsível. Que os maiores crimes, que os maiores roubos, que os maiores desvios, recebam as maiores prioridades, que os conflitos sejam desestimulados, pela punição rápida, eficaz, previsível, dos maus pagadores, dos litigantes de má fé, dos chicaneiros.De novo, a elite que milita na área é que tem o papel fundamental de refletir e propor soluções que atendam esta demanda legítima da sociedade. Um plano que preveja prazos, e melhor divisão do trabalho, que evite ociosidade de um lado, e acúmulo de serviço do outro, que acabe com privilégios, e concentre os recursos onde são mais necessários.E de novo, sente-se a falta desta clareza de propósito, desta linha de ação, desta consciência, deste compromisso. Sente-se a falta desta elite que não compactue com seus próprios pares, se estes se mostrarem incompetentes ou indignos; que recusem privilégios e subornos; que demonstrem sobriedade, compromisso com o trabalho que escolheram, visão crítica e independente para enxergar-lhe as falhas, imaginação viva e coragem para realizar mudanças.
Não é tarefa fácil. Lembro de um dado que me impressionou no livro “Uma História do Brasil”, de Thomas E. Skidmore: “(...) Já em 1818, por exemplo, apenas 2,5% da população masculina livre em idade escolar era educada em São Paulo. Mesmo a elite não tinha oportunidades educacionais no Brasil além de uma abordagem altamente retórica do aprendizado que terminava na escola secundária (...)”. Mas, como dizia Cazuza, “o tempo não pára”. Sigamos junto com ele, tomemos as rédeas de nosso destino. E comprovemos aquela idéia, título de um livro de Marshall Berman, que nem conheço, mas eu gosto do título: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.
O tempo não pára, Cazuza http://www.youtube.com/watch?v=7AkEQM9AdEY

Tardes molhadas no Senado

Uma nota no Globo de sábado, 27.06.09, sob o curioso título de “SALA SECRETA: Espaço de Agaciel”, nos dá uma idéia de como estamos bem parados neste nosso “Brasil brasileiro”. Fala de uma escada entre o 2º e o 3º andares do prédio do Senado, nos fundos do antigo gabinete de Agaciel Maia, que não consta do projeto de Oscar Niemeyer, e que dá acesso a uma sala decorada com tapetes vermelhos e telão. Um dos vídeos exibidos ali tinha o sugestivo título: “Tardes Molhadas”.
Eu sei, eu sei, como disse nosso presidente, que um país com tantas coisas importantes como o Brasil não pode ficar perdendo tempo discutindo coisas menores. Mas é que Deus (e o diabo) moram nos detalhes. E uma “coisa menor” pode servir de símbolo, pode nos despertar do sonho, pode mostrar o rosto por trás da máscara, a face deformada e hedionda, desse Brasil das falcatruas.
Agaciel Maia, para quem não lembra, foi diretor geral do Senado por 14 anos, tendo sido afastado em março, depois que se descobriu que ele não declarou à Justiça a propriedade de uma mansão avaliada em R$ 5 milhões. Um assalariado, mesmo com os salários polpudos e super-faturados do Senado, vai ter de rebolar bastante antes de juntar R$ 5 milhões pra comprar uma casa. É só fazer as contas: digamos, chutando os números pro alto, que o sujeito receba R$ 20 mil, líquidos, todo mês. Se ele não gastar nem um centavo com coisa alguma, ele vai levar 19 anos e uns quebrados pra comprar a casinha, já estou incluindo os 13ºs. Mas isto é outra coisa menor, nada que espante muito, neste nosso Brasil que cansa de ver PMs que ganham mil reais circularem em carrões importados, dentre “otras cositas” do gênero.
No Senado, então, em que tudo é superlativo, Agaciel estava apenas mantendo um padrão de vida condizente com o cenário ao redor; o Senado tem, para 2009, orçamento de R$ 2,75 bilhões; só com pessoal, vão R$ 2,3 bilhões; funcionários, são mais de 10 mil, 3,4 mil concursados, 3,1 mil comissionados, e 3,5 mil terceirizados. Tudo uma grandeza, tudo um espanto, pra Luís XVI nenhum botar defeito.
Na edição da Veja de 01.07.2009, a reportagem de Otávio Cabral nos dá uma idéia desta Ilha da Fantasia que é nosso Senado: reembolso de despesas médicas vitalício e ilimitado,
para senadores, dependentes, ex-parlamentares, e funcionários de direção; empregados domésticos que dão expediente nas casas de parlamentares sendo pagos pelo Congresso; copeiros que ganham R$ 10 mil; ascensoristas que ganham R$ 12 mil; não é à toa que o finado senador Darcy Ribeiro fazia blague, com grande cinismo, dizendo que o Senado é melhor que o Paraíso: no Senado, não precisa morrer para entrar.
E não acabam por aí as revelações: no Globo de domingo, 28.06.09, a manchete de capa diz que Agaciel, mesmo, afastado, mantém o poder no Senado: “ainda hoje haveria 62 chefes de gabinete de senadores, do total de 81, indicados pelo ex-diretor”, que teria ainda aliados em postos estratégicos de pelo menos 20 secretarias e subsecretarias. Na reportagem de Regina Alvarez, ficamos sabendo que “para adquirir tanto poder por período tão longo, Agaciel trabalhou arduamente em várias frentes, numa costura política e com atitudes de homem cordial, no sentido mais utilizado da palavra. (...) Um funcionário de carreira conta que, no Senado, a surpresa no contracheque é sempre positiva. Há sempre uma hora extra, gratificação ou resíduo de ação ganha na Justiça e que engordava os salários. Tudo obra de Agaciel. Foi dele a idéia de “ratear uma sobra” de R$ 6,2 milhões do orçamento de 2008 entre os funcionários. Agaciel fazia de tudo para agradar a funcionários e senadores. Quando mudava a legislatura, dedicava aos novos eleitos toda atenção e infraestrutura: fazia questão de apresentar aos novatos o gabinete, a moradia, todas as vantagens e, de quebra, indicava um conhecido para a chefia de gabinete. Assim, o ex-diretor montou sua rede de relacionamentos.”
Na mesma edição do Globo, uma nota do Elio Gaspari diz que “Agaciel mandou tocar a música do filme “O Poderoso Chefão” no casamento de sua filha, há poucas semanas”. No casamento, marcaram presença os ilustres senadores Renan Calheiros e José Sarney, este como padrinho da moça. The Godfather.
E assim ficamos, ou seja, com a galhofa e o deboche nas alturas. Mas o brasileiro é um bem-humorado, e não desiste nunca. Tinha razão o senhor Delúbio Soares, tesoureiro do PT à época do escândalo do “mensalão”, que profetizou que as denúncias logo seriam esquecidas e se transformariam em “piada de salão”.
E eu vou ficando por aqui, pra não dar “gastura”.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

TUDO PODRE

Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim... - Brasil - Cazuza http://www.youtube.com/watch?v=z6o3KHsLn0k

O PT mantém o apoio a Sarney. Idely Salvatti (PT-SC) subiu na tribuna. Hoje eles chegaram a sugerir um afastamento temporário do presidente do Senado. Mas logo logo voltaram atrás, diante da resistência de Sarney à idéia. No final da tarde a maioria dos senadores petistas decidiu seguir a orientação do “mais querido”, e manter o apoio a Sarney.
Isto vai bem. É bom que estejamos vendo bem claro na cara das coisas. PT, PT... não eras o partido desta tão invocada quanto indefinível “MODERNIDADE”? Como é a sensação de assumir a defesa das velhas práticas coronelistas e patrimonialistas, lamber o bigode de Sarney, diante das exigências reais da manutenção do poder? Sem crise, sem crise... não me venham fazer cara feia de nojo: o presidente Lula já mostrou como é que tem de ser, beija-se a mão de Jader Barbalho... amanhã é o Collor que vai beijar sua mão, não é Dilma?
Patrimonialismo no seu símbolo máximo, o velho Sarney do Maranhão. Ou seria do Amapá? Maranhão na vice-lanterninha do desenvolvimento social brasileiro: só perde o posto de O PIOR para as Alagoas. E olha que no Brasil a disputa por pior do desenvolvimento social é ingente! Pobre Maranhão, pobre Alagoas, pobre do Brasil! Belo legado de 40 anos de Sarneys no Maranhão. Sarney presidente da República. Sarney três vezes presidente do Senado. Que imagem patética, um homem velho, tremendo na cadeira e defendendo o indefensável, indefensável, mas comuníssima prática nesta augusta Casa Legislativa de todo um país, o nosso país, a nossa nação, B – R – A – S – I – L, é isto mesmo.
Que patético, que vergonhoso, que monstruoso. Dinheiros na cueca, dinheiros em cima das mesas, fotos na primeira página dos jornais, fotos que se tentava abafar, depois saíam, e nada mudava, e nada mudou, as pilhas de dinheiro na mesa, que escárnio para os tantos que trabalham tanto, ganham a miséria de serem escravos de senhores sanguessugas depravados.
Que espécie de amigos são, que espécie de pais, de educadores, são estes? Será que se sentem uns homens cordiais, dando um empreguinho pro parente? Ou pra gente que sequer conhecem, mas é o afilhado de sicrano... que espécie de amigo é este, ou de pai, ou de mãe, que põe uma máscara na corrupção e chama de amizade, de amor?
Que tipo de mensagem dão: olhem para mim, eu me corrompo é para favorecer você. Assim você fica me devendo um favor. Isto não é ser amigo, é comprar um cúmplice.
Você não sabe estudar, não sabe fazer nada? Não se preocupe, vai ganhar este emprego de técnico aqui. Não precisa se preocupar, não precisa fazer nada. É só botar o salário no bolso, e me servir quando eu precisar. Você me deve, e uma mão lava a outra.
Na prova para Juiz do Rio de Janeiro, respostas vazaram, questões foram respondidas ipsi literis ao gabarito. Que escárnio, prova aplicada por desembargadores, e o Tribunal concluiu que nada podia ser feito com os “aprovados”, algum direito líquido, adquirido e certo, apesar das evidências de fraude.
Um grande escárnio, e no Senado parentes vão se apinhando botando dez mil no bolso, diretorias e comissões vão sendo criadas, horas extras não trabalhadas, e sempre tem uma grande oportunidade de negócio. Negócio pra envergonhar Rockefeller e Bill Gates, negócio que rende 500% ao dia, negócio líquido, adquirido e certo, não dá errada, malandro.
E o nosso presidente Lula está viajando. Está participando da "XXXV Cúpula Mundial dos Ditadores e Simpatizantes". Vejam Lula abraçar Khadafi; vejam Lula estrategicamente afastado do genocida do Sudão; vejam Lula escutar o discurso de Ahmadinejad; vejam Lula discursar também, uma trepidante e muito coerente condenação aos hondurenhos que atentaram contra a democracia, e ao sistema capitalista internacional, os banqueiros de olhos azuis; e quem é aquele vibrando no fundo com o discurso do "nosso líder", abraçando-o agora quase em lágrimas? Ah, é o Celso Amorim.
Mas agora, na entrevista aos repórteres, Lula se digna a voltar sua análise percuciente para o nosso pobre povo. Revela-nos um pouco de sua visão de estadista, sobre a crise do nosso Senado, ilustre Casa do Povo: para Lula, o PSDB quer é ganhar a presidência do Senado no “tapetão”. É ISSO! HEUREKA!: tudo foi explicado pelo "nosso líder" e suas elucidativas metáforas futebolísticas! Tudo se resume, como sempre, na velha intriguinha de Governo e oposição. Isto é que preocupa o presidente, isto é que lhe tira o sono: vai perder o poder, o outro vai te passar a perna; vai deixar de ser O CARA, o bem amado! Isto não pode ficar assim, temos de ser os mais malandros!
Mas e o país com a cara rota em pedaços, a ratada roendo tudo, e os dólares na cueca, e os milhões sobre a mesa? E os descaramentos e as fraudes, e O R – O – U – B – O O TEMPO TODO, À LUZ DO DIA?
Ah, para isto daí se pede uma rigorosa apuração! E mais uns vinte milhõezinhos pro publicitário que é meu amigo, e já tem até uma grande idéia pra uma campanha: vai se chamar: o brasileiro aguenta tudo, e não desiste nunca!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Teocracia infernal

"Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Por enquanto, é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos.” - Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil.

Ontem mais dez pessoas assassinadas no Irã, jovens que protestam contra o regime tirânico dos aiatolás, teocracia infernal. A quantas anda a contagem dos corpos? Não vou me dar ao trabalho de pesquisar no Google para saber. Só serviria pra me deixar deprimido.
Mas agora vejo uma das vítimas de ontem, no Fantástico, uma jovem que levou um tiro, de um dos militares/paramilitares, uma dessas porcarias de cães de guarda do regime, caída no chão, na rua. Uma das raras imagens que escaparam do cerco à comunicação imposto, talvez um celular filmando o desespero dos que rodeiam a menina, 18, 19 anos? O que é que o repórter diz, ela está sendo chamada, ou seu nome significa A Voz, no idioma do Irã? Triste metáfora concreta estendida no chão, vítima do governo que se diz divino, mas que não tolera a liberdade...
Ali Khamenei, aiatolá e líder supremo, já tinha ameaçado, na sexta-feira: vai haver derramamento de sangue. Devia dizer que vai haver mais derramamento de sangue, na verdade, pois o sangue já vinha sendo derramado, àquela altura...
Alguém precisa urgentemente explicar pro presidente Lula, usando figurinhas, porque ele não gosta de ler, que democracia não tem quadros paramilitares; que em democracia, não se atira em multidões que fazem passeatas, e se justifica estes assassinatos covardes... que em democracia não se proíbem jornalistas de cobrir as manifestações, não se prendem e sequestram jornalistas, não se prendem manifestantes pacíficos...
Em democracia, exerce-se a tolerância, algo um pouquinho diferente, por exemplo, da ameaça do promotor da província de Isfahan, Mohammadreza Habibi: “Alertamos elementos controlados por estrangeiros que tentam perturbar a segurança que a pena para a guerra contra Deus é a execução.”
“Guerra contra Deus”, tão somente... mas por trás de tanta invocação do Santo Nome em vão, um governo bem e bem preocupado com o vil mundo da matéria, na descrição do correspondente do Globo José Meirelles Passos, na edição de sábado, 20.06.2009: “A elite do regime teocrático iraniano procura, sobretudo, manter as suas mordomias – num país onde 40% da população sobrevivem com o equivalente a US$ 15 por mês. O aiatolá Ali Khamenei, sob o manto de líder supremo da Revolução Islâmica, trata de preservar não apenas a aura da chamada Revolução Islâmica, mas, também, os benefícios que ela trouxe para aiatolás e clérigos em geral, além de parentes e amigos. Eles se transformaram numa casta – a dos “mulás milionários”, que circulam por Teerã em Mercedes e BMWs, jogam golfe em clubes fechados e viajam frequentemente para a Europa. Eles não querem abrir mão do que conquistaram a partir da privatização dos anos 90, quando centenas de empresas foram vendidas a quem tinha conexões com as pessoas certas do regime.” (...)
Na “democracia” (bota aspas nisso...) iraniana ocorrem, simplesmente, apedrejamento de mulheres, repressão contra minorias religiosas, execução de homossexuais, encarceramento de políticos, censura à imprensa... Ah, mas eles são contra o “Grande Satã”, os Estados Unidos, então no fundo eles devem ser bons, conforme pensam muitos da nossa esquerda chique. Me bate que eu gosto, não é, dona Intelectuália? Síndrome da mulher do malandro...
Quanto às maravilhosas “eleições” de tal regime, transcrevo a resposta da historiadora iraniana Guity Nashat, quando perguntada no Globo de 18.06.09 se acreditava que as eleições foram fraudadas: “Eu não estava lá, mas como eles podem dizer que 63% das pessoas votaram em Ahmadinejad duas horas depois das eleições? Eles contaram os votos? Quantos votos, 40 milhões de votos? Quero dizer, como fizeram isso duas horas depois de fecharem as urnas? Eles disseram “deixem pra lá, já decidimos”. Esta é a impressão que tenho, de que foi o que fizeram.” E, acrescento eu, depois de todas as pesquisas apontarem para vitória do candidato de oposição. E de terem sido impedidos de acompanhar a votação quaisquer representantes da oposição ou observadores internacionais. Na verdade, menos de vinte (!) minutos após o fechamento das urnas, 20% das cédulas já teriam sido contadas: recorde de velocidade absoluto de contagem de cédulas de papel.
Mas podemos confiar na honestidade e boas intenções do regime iraniano, que pode ser totalitário e violento, mas é de Deus. Ou de Alá. E podemos também confiar na preclara intuição de “nosso líder”, e no comando de nossa política externa. Está feio o negócio: além de abanar o rabinho para os velhos ditadores de Cuba, da China, agora agora demos de abanar também pra Hugo Chávez na Venezuela, pra Coréia do Norte, pro Irã (até para teocracias, meu Deus...), sendo ainda informados pelo Elio Gaspari no Globo deste domingo (21.06.09), que passamos a cortejar também as ditaduras assassinas do Zimbábue, do Sudão, do Cazaquistão, e do Uzbequistão. Celso Amorim, nosso ministro de relações exteriores, convidou Islam Karimov, presidente do Uzbequistão, para visitar o Brasil. Ele esteve em Brasília, em maio passado. Fala Elio Gaspari: “Em pelo menos um caso, sua polícia ferveu um opositor. Ferveu, não confundir com jogar na água fervendo. Quem diz isso é um laudo de patologistas da Universidade de Glasgow”. Coisa linda... Diga-me com quem andas...
Mas tudo está bem no melhor dos mundos (exceto pros que estão sendo fervidos): Amorim, que já nos comunicou que política externa é “jogo de gente grande”, aproveita o ensejo para nos brindar com novas pérolas de sabedoria: segundo o ministro, "tudo é uma questão de percepção”; e “tem gente que quer falar de direitos humanos para ficar em paz com a própria consciência, purgar pecados do colonialismo, e tem gente que vai para melhorar a situação dos países”. É isso aí. Aplausos pro Amorim. E não se fala mais nisso.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

E ele fez de novo

O presidente Lula mais uma vez empresta o peso de sua popularidade pra “aliviar a barra” de um companheiro, atolado em denúncias de corrupção. Na mais recente operação abafa, “nosso líder” reagiu às revelações das falcatruas de Sarney no Senado, atacando o “denuncismo”, e dizendo que Sarney tem história suficiente para não ser tratado como uma pessoa comum.
De fato, lendo a sessão de cartas do jornal, lembramos detalhes desta história de Sarney: governou, com seu clã, o Estado do Maranhão, por quarenta anos, e hoje o Maranhão possui os piores indicadores sociais do país; amealhou seu poder político amparado pela ditadura militar, e, presidente do PDS, comandou a votação contrária às “diretas já”; acabou presidente da república, e durante o seu mandato atingimos os maiores índices de inflação da nossa História; depois, usou da sua malandragem de raposa velha, arrumando um domicílio eleitoral no Amapá, para se eleger senador por este Estado; isto, para ficarmos nas “grandes linhas” da sua biografia, já dá pra fazer uma idéia do retrato.
Agora vêm à tona as novas farras da grande figura, presidente do Senado pela terceira vez: ganhava R$3.800,00 mensais, indevidamente, a título de auxílio-moradia; questionado, negou, e depois, pediu desculpas por ter “passado a informação errada”; por um “equívoco”, a administração do Senado passou a depositar na sua conta o auxílio, e Sarney “tinha a impressão de que não estava recebendo”.
Não bastasse, veio o caso dos atos secretos editados pelo Senado: mais de 650, pela última contagem; e, para variar, os familiares e agregados de Sarney estão entre os principais beneficiados:
Ivan Celso Furtado Sarney, irmão de Sarney; João Fernando Michels Gonçalves Sarney, neto de Sarney; Rosângela Terezinha Michels Gonçalves, mãe de João Fernando e namorada de Fernando Sarney, irmão de Sarney; Isabella Murad Cabral Alves dos Santos, sobrinha de Jorge Murad, marido de Roseana Sarney, filha de Sarney; Shirley Duarte Pinto de Araújo, namorada de Ernane Sarney, irmão de Sarney; Maria do Carmo de Castro Macieira, sobrinha de Marly Sarney, mulher de Sarney; Vera Portela Macieira Borges, sobrinha de Marly Sarney; Virgínia Murad de Araújo, parente de Jorge Murad, genro de Sarney.
E haja Sarney! Entre as historinhas divertidas envolvendo tantos familiares, destaco só uma, a título de exemplo: Isabella Murad, 25 anos, arquiteta, continuava recebendo salário do Senado, embora esteja morando em Barcelona, na Espanha. O secretário de Comunicação do governo do Maranhão, Sérgio Macedo, afirmou que Isabella devolverá aos cofres públicos o dinheiro ganho do Senado desde que saiu do País, no início do ano. "Antes de sair ela deixou pronto o pedido de demissão, mas por alguma falha técnica isso não foi processado", afirmou Macedo. Ah, bom! Agora estamos explicados. Sempre tem uma explicação na gaveta, esperando ser sacada quando explode a merda, e aí eles se dignam (ou dizem que se dignam) a devolver o dinheiro, dividido em suaves prestações a perder de vista, e sem juros, que ninguém é de ferro...
Isabella foi nomeada em fevereiro de 2007, pelo então líder do PTB, senador pelo Maranhão e aliado de Sarney, Epitácio Cafeteira, que nunca deu pela falta de Isabella. "Não sou fiscal de funcionário." - afirmou o senador, convicto. Disse ainda que nomeou a arquiteta a pedido de um amigo, Eduardo Lago. "Ele é tio dela e me pediu que nomeasse, mas esqueceu de avisar que ela tinha conseguido uma bolsa de estudos na Espanha". Está muito certo: pra que se preocupar com o salário que é pago pro funcionário que não tem um trabalho, se a conta vai ser espetada nos trouxas? E se este cargo só é criado para isso mesmo, troca-troca de favores entre poderosos?
Não era à toa que as nomeações foram secretas.Uma rede de relações podre, um enredo que se repete: você é meu aliado? Arruma uma vaga no seu Gabinete pra esse fulaninho(a) que é meu amigo/parente/amante, e em troca eu te dou apoio naquela votação importante, e lembra que eu te salvei a pele quando teve aquela denúncia, e... etc etc etc... por aí se vê em que patamar ficam os interesses do país.
Podem nos chamar de palhaços. Podem nos dar tapas na cara. Não reagimos nunca. Vergonha, uma imensa vergonha!
V – E – R – G – O – N – H – A! Como é que se pode escrever esta palavra, para que ela recupere um pouco da sua força? De tanto que foi usada, tornou-se banal, Boris Casoy no jornal da noite, “Isto é uma vergonha”, estava certo, mas não se fez nada, nunca se faz nada, e nos acostumamos à degradação...
Quando é que se vai dar um basta? Para começar, acabar com essa infinidade de cargos em comissão. Os funcionários de Senado, Câmara, Ministérios, devem ser concursados, ter suas funções definidas em lei, para atender os representantes eleitos. É com estes funcionários que os representantes eleitos precisam trabalhar! Eles têm de ter nos seus Gabinetes funcionários de carreira, da Casa, e não do parlamentar, com atribuições definidas EM LEI, para dar o apoio administrativo. Farão pesquisas, organizarão pautas, servirão cafezinho, atenderão o público, agendarão reuniões e entrevistas. Sai parlamentar, entra parlamentar, os funcionários são os mesmos, profissionais para desempenhar um trabalho.
Deputados e senadores também precisam cumprir com suas atribuições e responsabilidades, DEFINIDAS TAMBÉM EM LEI, e TRABALHAR, de segunda a sexta, como bons mortais, um mês de férias por ano, discutirão propostas, ouvirão representantes da sociedade, votarão, E TERÃO O PATRIMÔNIO FISCALIZADO, PRESTARÃO CONTA DE DESPESAS NÃO COMPATÍVEIS COM SEUS SALÁRIOS, como qualquer mortal, e até com cuidados em dobro, em razão da grande responsabilidade dos cargos que ocupam.
Talvez daqui a mil anos. Porque AGORA, vemos nosso presidente fazer o discurso oposto: Sarney não é para ser julgado como “pessoa comum”; Sarney não tem de prestar contas. O velho discurso de sociedade escravocrata, dividida em castas. O velho discurso, que é o nosso discurso, que reflete o nosso pensamento e a nossa cultura: quatrocentos anos de escravidão, para pouco mais de cem anos livres da escravidão, ou com uma escravidão mais dissimulada... tudo isto pesa, é nossa história, nossa herança, ainda temos uma proporção desfavorável para reverter, mas os tempos estão mudando, e cada vez mais rápido... a matemática não é tão exata, quando aplicada ao inconsciente coletivo de uma sociedade. Não estamos condenados a esperar mais trezentos anos para igualar o jogo, e a partir daí adotarmos a justiça e a igualdade nas nossas relações. A mudança já é possível e presente HOJE, em muitos níveis.
Mas é preciso estar consciente e lutar por essa mudança. Lula se elegeu por muita gente que pensava que ele era o homem para “mudar tudo isso que está aí”. Ou seja: romper com nossa herança, ser o ponto de virada. Como símbolo, Lula se prestava bem para isso: era finalmente o “homem do povo” que chegava ao Poder. O PT, também, era o “partido da mudança”. O partido que não iria tolerar a corrupção, inauguraria uma nova era na política, de práticas modernas e avançadas, republicanas, impessoais... isto, deve-se dizer, para os que permitiam que a vontade de acreditar obscurecesse seu juízo crítico. Afinal, o que era a proposta socialista de Lula e do PT, quando na oposição, senão um retorno ao nosso velho patrimonialismo, com uma roupagem moderna?
Pois não se está de novo defendendo que o Estado decida pelo indivíduo, e que os homens que operam este Estado concentrem um enorme poder, poder político e econômico? E o que faz isso, se não criar um novo fosso, entre os que governam, e os que são governados? De novo, senhores e escravos, desta vez justificados pela ideologia “científica”, que desvenda o “sentido da História”. Faz-se uma revolução em Cuba para derrubar uma ditadura nojenta, e aonde se chega? Em uma nojenta ditadura... ironias do redemoinho da história, circularidade da cultura, mudam-se as formas, as palavras, as justificativas, continua-se na prisão do privilégio. Socialismo é o neo-patrimonialismo. Em oposição, ambos, à temida, mal-compreendida, idéia da liberdade, igualdade e responsabilidade, para todos os membros da sociedade.
Fazendo este reparo, é inegável que para muitas destas pessoas que viviam nas nuvens, na pureza do reino das idéias, Lula e o PT eram o símbolo desta mudança ansiada, ainda que mal definida.
Mas aparências podem ser enganadoras... os símbolos do novo tinham o mesmo pensamento antigo, as mesmas práticas... o discurso é que mudava um pouco, para capitalizar em votos o sentimento difuso pela sociedade, de revolta contra a injustiça, de luta por melhores condições de vida. Mas atingido o poder, viu-se que o objetivo era apenas o de usufruir por sua vez as benesses de não ser mais uma pessoa comum. O discurso prometia que todos seriam “comuns”, iguais. Na prática, depois que “se chegou lá”, ninguém quis abrir mão de ser um dos “incomuns”. Depois de tanto trabalho pra conquistar o poder, vamos ter de renunciar a tudo isto? Admitir que a lei nos limite, ter de prestar contas, não poder ganhar os “presentinhos”, carros esporte e mansões, ter de trabalhar, essa coisa de escravo? Ah, não, ninguém é santo, melhor é se juntar aos velhos demônios que andam por aqui, misturar-nos todos, animal farm, fazer a farra no chiqueiro... prisão da cultura, circularidade da história...
E toma lotear cargos públicos, com um furor “nunca dantes visto na história deste país”; toma beijar mão de Jader Barbalho, fazer afago em Severino Cavalcanti, rezar com o bispo Crivella, defender Renan Calheiros e José Sarney... Em troca-troca, estes aliados todos vão blindar o Governo nas CPIs, vão defender mensaleiros, assessores com dólares na cueca, aloprados, assessores filmados enquanto ganhavam propina de “empresário” do bicho... coisinhas poucas, bobagens, como se vê... um casamento perfeito, da fome com a vontade de comer: e pra que brigarmos entre nós, que somos os poderosos, e podemos nos machucar, quando muito mais fácil é nos unirmos pra esfolar os trouxas? O velho poder convive muito bem com o novo poder. As velhas táticas coronelistas são retomadas, agora com todo o peso do Governo Federal, nunca antes com tantos recursos e instrumentos (cerca de 40% do PIB do país). Nunca antes na História desse país se viu um curral eleitoral tão grande! Antes davam dentadura, pipa de água? Agora tem um cadastro, e dão bolsa-família... como dizem, socialismo é o neo-patrimonialismo.
Mas os velhos poderes não desaparecem da noite para o dia, é preciso conviver com eles. Sarney tem a experiência de anos de prática do poder, Jader Barbalho, ACM, quando vivo, Collor, e Renan Calheiros... e os evangélicos estão despontando, atenção para eles...
Mas tem espaço pra todos, na festa dos “incomuns”; na festa de Saló, os 120 dias de Sodoma; para encerrar o grande evento, será oferecido um grande banquete, regado a Romané Conti e uísque importado, e o prato principal será uma pessoa comum do povo: servida ainda viva, com horror no olho, e uma maçã na boca.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Educação II

A escola é um dos principais elos entre os indivíduos e a sociedade. Um dos primeiros, e dos mais importantes. O outro destes primeiros elos é a família. Os dois precisam trabalhar integrados para garantir a melhor formação daqueles pequenos indivíduos.
Os valores que eles vão receber, provêm dos exemplos que eles vêem ao redor. Da escola as famílias devem esperar, têm de esperar, que as crianças tenham segurança, que elas se sintam estimuladas para estudar e aprender. Na escola a criança tem de aprender que o Estado tem certas obrigações com respeito a ela; e assim, aprender que tem certos direitos e deveres com o Estado. Com a sociedade em que vive.
A criança, o cuidado que se deve ter com a educação da criança, impõe um elo ligando a família e a escola. Como é que uma criança, numa família desestruturada, atirada à miséria, a um subemprego de exploração, vai aprender respeito e responsabilidade?
Uma escola boa não se compõe apenas de bons professores. Ela precisa de bons médicos, assistentes sociais, diretores, e etc. Ela precisa de diversão, e de esporte, e de merenda. Aulas de música, de futebol, de português, de matemática, de ciências, e de história. Leitura, cinema, sala de vídeo, biblioteca, e computador.
Por que não ter um modelo, integrado, de saúde pública e escola? Por que é que tantas crianças, que estão na escola, não têm acesso a um dentista? E a um clínico geral? Por que é que não se têm psicólogos, e assistentes sociais, para conversar com aquelas crianças que têm problemas, particulares ou familiares, para se tentar alguma ação?
Este problema é incontornável: é preciso haver, no Brasil, profissionais. Pessoas que tenham a dignidade de fazer um trabalho sério. Que tenham responsabilidade, que sejam honestas. Para isso, deve-se investir na formação de profissionais, na fiscalização de irregularidades.
Cada um precisa viver daquilo que pode declarar com honestidade. E como é que no Brasil (sim, em todos os povos, mas tanto no Brasil), exista tanta gente “da grande”, que têm mansões de cinco milhões de dólares, palácios de vinte e cinco, e carros de um milhão, sem que possam dizer de onde veio o dinheiro. Livres como passarinhos, tomando banho em banheira de ouro. Como é que ninguém questiona, como é que todo mundo fica quieto... à vista de todos, e ninguém investiga.
É um país que se acostumou com o impensável, com o extra-indigno. É um país em que a corrupção já se espalhou, para tantas almas, que se procurou um meio de conviver com ela. Isto quando não se é francamente cooptado, nos tantos que fazem parte da rede do negócio sujo, tantos que carregam os dinheiros em malas, maletas e cuecas...
E que exemplo de sociedade é este que mostramos para nossos netos e filhos? Pessoas tão imediatistas não pensam nisso. Para elas o seu dever para com seu filho é enriquecer a todo preço. O dinheiro vai lhe comprar de volta a alma, é a única coisa real... mas vemos os filhos que lutam pelo que ficou de herança, os filhos que torcem pela morte dos pais, os filhos que se suicidam, os filhos que dilapidam o que lhes veio tão “fácil”... e tudo que era tão “real” se esfumaça num átimo.
O que impele esta descrença no futuro, esta desesperança imediatista, que leva estes que poderiam fazer o seu tanto, a buscarem estes ganhos rápidos, estes ganhos de corrupção? Esta é uma boa questão, mas é preciso pensar outra coisa: o que é preciso fazer para mostrar nossa indignação? O que é preciso para que os corruptos vão para a cadeia, fiquem na cadeia? Que palhaçada é esta, de sair das cadeias para as câmaras de deputados, de senadores, de ministros, governadores, prefeitos? Justiça, que fica anos e anos, pra não chegar a conclusão alguma? Processos, que não se acabam, enquanto os “companheiros” continuam rindo e gastando, à grande?
Um dia acordaremos?

Democracia

Há tempos democracia vem como um valor máximo para os povos. Apesar das recaídas na tentação totalitária, ditaduras e doutrinas da imposição da força sobre o diálogo, apesar das censuras e sanções diversas, aplicadas a quem só queria exercer o direito de uma opinião diferente, de um ponto de vista, de uma contribuição com uma idéia própria, temos de reconhecer que o valor vem se impondo no pensamento de todos os povos.
O respeito à opinião diversa é a essência da democracia. O direito de cada opinião poder usar seu canal de expressão, pacífico, é a essência deste valor. Tolerância. Justiça. Este é o ideário.
A democracia não é qualquer espécie de desorganização. Ela é a organização da sociedade para conseguir estes fins, estabelecer e usufruir estes fins.
O exercício do poder, na sociedade democrática, pressupõe que ele não extravase em nenhum ponto. Deve haver transparência, deve haver fiscalização, por parte de toda a sociedade.
Democracia impõe responsabilidade. Uma sociedade consciente de seus direitos e de seus deveres. Respeito.
Democracia se complementa com solidariedade. A sociedade organizada para socorrer os que tenham necessidade. Uma sociedade organizada pelo trabalho que traz a prosperidade. Pela honestidade e pela segurança.
O trabalho é um ponto-chave da questão: ele precisa ser dividido, de um modo que não se converta em escravidão. As pessoas precisam de lazer, de diversão, de alimento, de teto, de chão. Não é possível que o trabalho honesto não traga dignidade, não traga prosperidade. A sociedade precisa educar seus filhos. Investir em boas escolas e bons professores. E esta educação tem de ser fornecida em igualdade, para o filho do empregado e para o filho do patrão. Deve-se respeitar a aptidão de cada um, e que desemboquem em trabalhos honestos, que garantam a existência.
Uma sociedade livre precisa de bons médicos, bons programas de saúde, bons policiais, bons juízes, bons engenheiros, bons bombeiros, bons construtores, políticos. Bons trabalhadores. Isto só se consegue com boa educação.

Lay, lady, lay - Bob Dylan

Good times, Caledônia: http://www.youtube.com/watch?v=VfF0uHekcc8

Lay, Lady, Lay
Bob Dylan
Composição: Bob Dylan

Lay, lady, lay,
lay across my big brass bed

Lay, lady, lay,
lay across my big brass bed

Whatever colors you have
in your mind

I'll show them to you
and you'll see them shine

Lay, lady, lay,
lay across my big brass bed

Stay, lady, stay,
stay with your man awhile

Until the break of day,
let me see you make him smile

His clothes are dirty but
his hands are clean

And you're the best thing that he's
ever seen

Stay, lady, stay,
stay with your man awhile

Why wait any longer for the world to begin
You can have your cake and eat it too

Why wait any longer for the one you love
When he's standing in front of you

Lay, lady, lay,
lay across my big brass bed

Stay, lady, stay,
stay while the night is still ahead

I long to see you in the morning light
I long to reach for you in the night

Stay, lady, stay,
stay while the night is still ahead


Deite, senhora, deite

Deite, senhora, deite,
Deite na minha grande cama de bronze

Quaisquer sejam as cores que estejam
Na sua cabeça

Eu vou mostrá-las pra você
E você as verá brilhar

Deite, senhora, deite,
Deite na minha grande cama de bronze

Fique, senhora, fique,
Fique com seu homem um tempo

Até o romper do dia
Deixe-me te ver fazê-lo sorrir

As roupas dele estão sujas mas
Suas mãos estão limpas

E você é a melhor coisa
Que ele jamais viu

Fique, senhora, fique,
Fique com seu homem um tempo

Por que esperar mais para que o mundo inicie?
Você pode ter o seu bolo e comê-lo também

Por que esperar mais por aquele que você ama?
Quando ele está parado em pé na sua frente

Deite, senhora, deite,
Deite na minha grande cama de bronze

Fique, senhora, fique
Fique enquanto a noite ainda está à frente

Eu anseio por te ver
Na luz da manhã

Eu anseio por te alcançar
Durante a noite

Fique, senhora, fique,
Fique enquanto a noite ainda está à frente

No clima, também, Bob Dylan, I want you http://www.youtube.com/watch?v=PhOc0V-ES40

domingo, 14 de junho de 2009

Educação

Na Veja de 10.06.2009, uma ótima entrevista com o economista James Heckman (leia na íntegra em http://arquivoetc.blogspot.com/2009/06/veja-entrevista-james-heckman.html), sobre a necessidade de se investir na educação de crianças nos primeiros anos de vida. Segundo o entrevistado “A razão é econômica. A educação é crucial para o avanço de um país – e, quanto antes chegar às pessoas, maior será o seu efeito e mais barato ela custará.”
Além da razão econômica, a ausência dos incentivos corretos na primeira infância está associada a uma série de índices ruins. “Entre eles, evasão escolar, gravidez na adolescência, criminalidade e até os índices de tabagismo (...) A criminalidade, por exemplo, pode ser reduzida, basicamente, de duas maneiras: investindo cedo em educação ou reforçando o policiamento nas ruas. Calculo que a opção pelo ensino custe algo como um décimo do gasto com segurança”. Por aí se vê como a educação afeta toda a vida de uma nação, e a importância de fazer os investimentos corretos, ou seja, aqueles que trarão o melhor retorno.
Para isso, os governantes deveriam, em primeiro lugar “tomar suas decisões com base na ciência, e não em critérios políticos ou ideológicos, como é mais comum”. A ciência, ou, o debate sobre bases objetivas, como diz Heckman, indica que se deve investir mais na pré-escola, em programas sociais que tenham foco nas famílias, “de modo que elas consigam fornecer os incentivos certos num momento-chave”. Tudo isso sem subestimar a importância das escolas propriamente ditas, que “têm um papel fundamental, especialmente quanto ao desenvolvimento das habilidades cognitivas”, ou as universidades, indispensáveis para qualquer país “formar cérebros e se tornar produtivo”.
Estou assinando embaixo de toda a entrevista. (Talvez por isso tenha gostado tanto dela – é um prazer quando somos confirmados em nossas idéias). Inclusive quando o sr. Heckman puxa a orelha de Steven Levitt, seu colega na Universidade de Chicago, autor de Freaknomics: “Uma das maiores bobagens de Levitt é justamente partir do pressuposto de que, se uma criança nasce em desvantagem, numa família que não lhe fornece nenhuma espécie de incentivo, não há nada a ser feito em relação a isso. Eu estou convicto do contrário. Só que é preciso começar cedo.”
De fato, estas idéias de Levitt parecem servir bem a um certo tipo de ultra-liberal, tão utópico e pernicioso quanto sua cara-metade, o comunista. Este ultra-liberal de que falo não quer saber de Estado para fornecer hospital, escola, assistência, nada, para quem quer que seja. Está pobre, doente, morrendo, porque não tem um remédio? Aguenta aí, que no futuro estaremos no melhor dos mundos, com tudo de bom para todos...
Eu já prefiro reconhecer que os investimentos em educação, em saúde, em segurança, dentre outros, eficientes, bem focados, tornam uma nação mais próspera, melhor de se viver, de se criar os filhos, e são portanto indispensáveis. Havendo recursos privados bem, não havendo, que sejam públicos, bem aplicados, “em bases objetivas”, com mecanismos para os tornar transparentes, bem fiscalizados, por toda a população. Sem que para isso seja necessário, tampouco, abolir a propriedade privada, construir uma sociedade sem classes, ou outras sandices do gênero: gastar esforço tentando reinventar a roda. Gerador, não de melhorias na qualidade de vida, mas de tiranias sufocantes, corrupção, ódio e perseguição generalizados.
Bem. Definido o objetivo, como fazer para alcançá-lo? Como fazer para que a razão, a ciência, o debate em bases objetivas, sejam o critério para definir os investimentos na educação? Esta é a pergunta de um milhão de dólares. Resposta, ou melhor, humilde opinião, singelo parecer, tentativa de contribuição para o tema, a seguir em novos artigos.