sábado, 15 de dezembro de 2012

Duas Vidas

Duas Vidas

Talvez ele
Que tenha passado fome na infância

Conhecido a náusea e a vertigem
Conhecido a dolorosa humilhação

De ter invejado um pedaço de pão

Talvez ele
Enfraquecido e tuberculoso de fome

Tenha superado qualquer pensamento vão de glória

Tenha ficado livre para viver sem ódio e rancor

Tenha atravessado uma parede de fogo
Saído incólume do outro lado

Enquanto que aquele
nascido em grandes de ouro

A quem amor faltou

De estômago cheio
E de cabeça vazia

Roído de secreto verme agora

Tenha despejado uma chance
Pela ladeira abaixo

Cruel e covarde com o fraco
Covarde e submisso com o rico

Amante da morte
Amante da guerra

Não tenha aprendido nada
Um fósforo riscado

Um completo desperdício

Condição humana

Condição humana

Entalhado entre dois Absolutos
Absoluto Tudo
Absoluto Nada

Ser que carrega todos os sonhos do Universo

Verme de um recanto de Sistema Solar

Que é absurdo existir
Mas existe

O que este ser significa?

O que sabemos nós?

Portadores de todas as Histórias do Universo
Fundadores de qualquer História
E da própria noção de História

Grão de poeira
Matéria de estrelas

Mas carregado das sensações de um deus

Pelo cuidado e respeito devidos
A um pequeno ser

O outro?
Nós mesmos?

E que carrega uma terrível maldição...

Ser dividido
Entre o Infinito Bem
Entre o Mal Infinito

Terríveis dores
Tremendos dons

Como distingui-los
quando é um o lado da moeda do outro?

Entre o Eterno e o Vazio
Entre a Esperança e o Desespero

O Santo e o Depravado
O que estende a mão e o que apedreja

Dois Abismos vertiginosos...

Duas Retas paralelas...

E Tudo aspira à Unidade...

Tudo convergindo para um profundo Oceano...

Tudo mergulhando em um insondável Futuro...

O que sabe a folha descendo um trecho do Rio?

Grão de poeira
Animado por um Sopro

Grão de poeira que fala
Grão de poeira que sente

Grão de poeira que sofre
Grão de poeira que ri

Grão de poeira
Senhor de todos os sonhos

Grão de poeira que tem uma História
Grão de poeira que cria uma Filosofia

Grão de poeira entre dois abismos que aterram a mente...

Grão de poeira
O Bardo

O Bobo e o Rei

Grão de poeira que é Nada
Portador de um Sopro que é Tudo

Grão de poeira
Anjo que é Demônio

Alto que é baixo

Grão de poeira uma grande Roda
Exaltando e esmagando

Grão de poeira
Não existe um centro que é fixo

Grão de poeira
cada mente uma circunferência

Grão de poeira
Nesta Roda que gira

Grão de poeira
Entre o Abismo que é Tudo

Grão de poeira
Entre o Abismo que é Nada

Grão de poeira
Vitorioso na guerra

Grão de poeira
Apunhalado nas costas

Grão de poeira
O Rejeitado de ontem

Grão de poeira
O Salvador de amanhã

E o que traz escondido
O nascer de cada dia?

Deus o sabe.
E Deus é bom.

Leviathan strikes again!




Formidável o timing dos protagonistas dos nossos principais acontecimentos:

Primeiro, Marcos Valério, ressentido com seu papel de bode expiatório, um mero empresário inescrupuloso, querendo enriquecer de modo rápido e fácil, é usado e abusado por nossa elite de poderosos para intermediar seus negócios escusos, num amplo espectro de esquemas podres, empréstimos fraudados, grandes contratos, e até leis, feitos sob encomenda, para grupos empresariais, banqueiros, publicitários, dentre outros partícipes ilustres, poderem faturar bem alto, poderem também, está claro, ofertar generosas contribuições de campanhas, numa atividade orquestrada, uma ação entre muy amigos, os homens de poder, “ajude-nos a manter o poder”, e os homens de dinheiro, “ajude-nos a fechar grandes negócios”, uma mão lava a outra, suja a outra, “unidos venceremos, unidos contra os patos, você faz a mira, eu puxo o gatilho, você é nosso, nós é teu”...

Marcos Valério, dizia, puxou 40 e poucos anos, enquanto o poderoso-mor (dentre os que foram acusados, está claro), o Ministro Chefe do “Cara”, a cabeça coroada entregue numa bandeja para satisfazer a sanha vingativa do populacho, saía-se com meros 11 anos de prisão, e amplas possibilidades, considerando-se a idade avançada do acusado, e os “notórios e relevantes serviços prestados pela ilustre figura para o bem do país”, e um conveniente atestado médico dando conta de forte crise de estresse que acometeu subitamente nosso “herói do Brasil”, de ser cumprida em regime domiciliar, quem sabe até, com o fito de reabilitar socialmente o condenado, e promover sua reinserção no mercado de trabalho, proporcionando-lhe o ensejo de continuar a exercer suas atividades remuneradas de conselheiro de mega-empresários, multi-miliardários, com interesses na exploração de petróleo e outras riquezas naturais de nossa pátria amada, idolatrada, salve, salve.

E tal desproporção, tal flagrante injustiça, e a sensação de ter sido usado, abusado, depois descartado, envenena e tortura o coração de Marcos Valério. Empresário-rampeira, a serviço dos revolucionários para satisfazer-lhes os baixos instintos. Eles te usam, mas eles te desprezam. Depois que atingiram o seu objetivo, que conseguiram o seu prazer, prefeririam que você não existisse. Prefeririam te sufocar com o travesseiro, garantindo que você nunca contaria o que aconteceu.

Pro companheiro, mesmo com uma pena moleza, os revolucionários tiveram fúria e ranger de dentes. Pra você, sangrando na rua da amargura, um virar de costas, um “não te conheço”. Entre os dentes: “é melhor pra sua saúde continuar bem quieto”.

E o Valério, então, desabafa: para duas Procuradoras da República, ele resolve contar o que sabe, e mira em ninguém menos que no Grande Ausente, o beneficiário último do esquema, aquele sob cujo desgoverno aconteceu o desatino: ele mesmo, sr. Luiz Inácio Lula da Silva, o homem que sabia de menos.

“Nada disso”, afirma Valério. “Sabia muito, sim, e aprovou tudo”. Oh, grande surpresa! Oh, que revelação! O Rei estava nu, este tempo todo! Segredo de polichinelo, como se pode ver, mas ainda assim o suficiente para colocar nossos revolucionários em polvorosa:

“É golpe da direita raivosa! É complô orquestrado pela mídia golpista!” - o blá blá blá de costume.

Mas agora acompanhado de medidas concretas, e, olhem só, parecem orquestradas:

Primeiro, todo mundo viaja, vai pra longe do país, construindo um alibi. Por imensa coincidência, Lula e Dilma se esbarram em Paris, oh, você por aqui?, realizam uma entrevista de 3 horas, a portas fechadas. Tudo normal, normalíssimo, diz nossa consciência de cordeiros no altar... No dia seguinte à tal entrevista a portas fechadas, a PresidenTA vem a público dizer do absurdo de se suspeitar de um grande homem... aquele santo, aquele ser incomum, teve até uma ministra deste Governo, dona Marta Suplicy, que não hesitou em chamar o sr. Inácio de Deus... e alguém vai querer investigar este homem? Isto é pior do que um crime, isto é blasfêmia... nossas leis, nossas instituições, nada disso se aplica, em se tratando deste homem... sim, sim, todos são iguais perante a lei, mas não vamos exagerar! Uns são mais iguais do que os outros, é o que nos afiança nossa PresidenTA. Queriam o quê? Chegar até este zênite, e não pagar o seu preço? É a hora de pagar, é a hora em que o Padrinho chama... Não adianta fazer cara feia, fazer cara de durona, botar banca... isso é lá pros subordinados, mas aqui é o peixe grande... vamos fazer o seguinte: sai todo mundo do país, nada como uma bela viagem pra espairecer, recobrar o ânimo...

A PresidenTA, o vice, o presidente da Câmara... tudo fora do país.

E quem é que fica na Presidência da República? Quem é que retorna, depois de muitos (não o bastante) anos? Nosso presidente do Senado, sr. José Ribamar Sarney, nosso zumbi bigodudo, nosso Drácula em que deixaram cair uma gota de sangue, e assim retomou à vida.

Péssimo auspício, mas tem muito mais. Chegou a hora de dar o troco.

Jornal O Globo, 13.12.2012: “o PT entrou com reclamação na corregedoria do Conselho Nacional do Ministério Público. O partido pediu investigação de conduta funcional e processo disciplinar contra a subprocuradora Cláudia Sampaio e a procuradora Raquel Branquinho, que ouviram o depoimento de Valério.”

Ou seja: um órgão do Estado, responsável por ajuizar ações criminais, não pode ouvir o depoimento de um criminoso que confessa crimes. Absurdo? Mas a força bruta de Leviatã é sempre pródiga pra produzir absurdos. E agora mesmo temos um projeto de lei, com grande apoio no Congresso, que pretende impedir completamente o Ministério Público de participar de investigações. Não por acaso, o projeto já recebeu o apelido nada auspicioso de “Lei da Impunidade”... coisas de Leviatã...

E não para nisso. Na mesma reportagem:

“Além de usar a força da maioria para brecar qualquer tipo de convocação de ministros ou envolvidos na Operação Porto Seguro e nas denúncias recentes do operador do mensalão, Marcos Valério, os aliados partiram para o ataque. Aprovaram convite para que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o atual procurador-geral da República, Roberto Gurgel, compareçam à Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência.”

Ou seja: o Congresso chamar pra depor investigados dos maiores esquemas atuais de corrupção do Poder Público não pode. Chamar pra depor um ex-presidente, líder da Oposição, e o procurador-geral da República, pode. Mas é pra depor sobre o quê, mesmo, senhores revolucionários?

“Sei lá, isso na hora a gente vê. O importante é retaliar, mostrar força, não ficar quieto enquanto nosso guia, nosso líder, nosso deus, sofre com blasfêmias e heresias”.

Leviatã mostra suas garras... esperem por muito mais, pois quando os afabilíssimos Roberto Gurgel e FH são colocados na linha de tiro, é porque a coisa tá feia... não se pode sair um milímetro da linha traçada por nossos revolucionários, sob pena de retaliação severa.

“Ich, Heil!”

Gurgel já tinha prestado relevantes serviços pra importantes figurões do grupo, recusando-se a investigar o formidando crescimento patrimonial de Antonio Palocci, dentre outros favores. Foi inclusive reconduzido ao cargo pela própria presidenTA Dilma. Mas porque foi obrigado a fazer o mínimo indispensável, sem o quê ficaria com cara de tacho, no caso do mensalão, incorreu na ira petista.

Quanto ao sorridente e bonachão FH, manso líder da nossa inofensiva Oposição, deve ter entrado na roda por conta de dois artigos de jornal mais desaforados, recentes...

Ou seja: dá um frio na espinha pensar em quais serão as novas manobras de Leviatã, por baixo dos panos... Leviatã, depois que começa, só se satisfaz com milhões de vítimas.

Enfim, talvez o jogo fique mais claro assim, sem máscaras.



Ninguém quer fazer um sacrifício

Ninguém quer fazer um sacrifício

Um sacrifício pessoal, bem entendido.

O sacrifício de outra pessoa
O sacrifício do próximo

É perfeitamente negociável
é uma lógica interna

O mundo é para mim
nos dizem nossos cromossomos

Nos dizem nossos genes
Nos diz a nossa alma

O mundo
é um grande parque de diversões

Planejado para extasiar-me

Mas eu preciso jogar o jogo

Eu preciso ser o mais esperto,
O melhor, o mais hábil

O mais rico
O mais podre de rico

Que me importa minha liberdade?

Que eu só vou sentir o infinito valor
depois que a tiver perdido?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Conto de uma noite de horror


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiZzSBSSvpfG_twTnYlKRwf-1aWVKwJpwL6FugBL-tHu64nDACObSDhWRVhNHYnSuq6sn6OuLDb-01uGbcJaIh203TT21txg5bARbvQtptcsgedqxSTro_Ua5RzoSOPKzkg3wnKMYwNWic/s640/abismo_seguranca.jpg

Ora, quem diria. Depois da carga inesgotável de chuva, o céu fechado da manhã se tornando aguaceiro da tarde, agora uma bela lua surgia colorindo de prata as nuvens esparsas. O ex-coronel registrou racionalmente o pitoresco da paisagem. Aquilo devia ser belo, sem dúvida, mas a visão de um grande cachorro parado na rua trouxe uma nota de inquietação aos pensamentos do ex-coronel. Sem perceber, apertou o braço para sentir o volume da arma em um coldre atravessado no seu peito.

Agora, o cachorro se moveu, abrindo passagem, e o ex-coronel se apressou em tomar o outro lado. Com alívio, refletiu como era importante não demonstrar medo, quando em situação de perigo. “Ainda bem que este cachorro não veio pra cima de mim”.

E pelas ruas desertas o ex-coronel apertava o passo. Queria chegar logo ao conforto do lar, não conseguia passear tranquilo. Ainda mais à noite. Ainda mais pelas ruas desertas.

Acendeu um cigarro, tragando fundo, e sentindo a nicotina abafar seus nervos agradecidos. O fôlego não andava bom, mas isso agora não importava. E o ex-coronel devaneou para um tempo em que era o chefe da divisão de torturas do exército. Temido e odiado, mas naquela época ele tinha poder. E quem é que mexeria com ele, sabendo o que ia lhe acontecer?

40 anos que se passaram, e sumiram como um sonho... e como se esgotara depressa, toda aquela confiança... naquele tempo, os militares é que tinham o poder, eram eles que mandavam... decidiam, e as coisas aconteciam. Vidas e vidas, e algumas ilustres, se acabaram por aquela força que ele tinha nas mãos...

Ver os prisioneiros chegando para os interrogatórios, alguns assustados, alguns arrogantes, mas mesmo estes nervosos, anotar seus pertences, um paletó, uma gravata, meia dúzia de livros... E então, a salinha, a surpresa, o horror, a descrença, quando o primeiro soco reverberava, arrancando alguns dentes... 3, 4, 5, chutando as costelas, pisando com a bota na cara. E às vezes algum instrumento, algum choque elétrico, corpos amarrados que se convulsionavam, e os gritos de raiva, os gritos de desespero, os gritos de dor...

Quanto poder, e se esvaíra, e agora era como se nunca houvesse existido. Sentia-se amarrado a uma grande Roda, que num momento o arrastou a um ápice, no outro momento despencou para esmagá-lo.

Como pudera acontecer? Eu era um homem, e este homem desapareceu, deixando este outro homem como um sobrevivente. Aquele homem temido, aquele homem terrível, constantemente embriagado de uísque, e que vociferava e rosnava, olhava no olho de um prisioneiro, e via o terror naquele olho... e o que eu via era a mim, naquele espelho.

Eu então não sabia, eu trocaria de papel com aquele pobre coitado. Eu já não meteria medo, eu sentiria medo, muito medo, um medo terrível, um medo arrastado pelos anos, carregado pra dentro de minha velhice...

Dois homens caminhavam na direção do ex-coronel. Aquele ódio que ele sentira girando ao redor nos seus dias de dragão agora se materializava na forma de dois homens carregando revólveres, avançando para ele. O ex-coronel esperara por isto, por muito tempo. Ele sacou a sua arma, disparou duas vezes, mas as suas balas não atingiram o alvo. As balas dos dois homens sim, atingiram o ex-coronel no peito, rasgaram a sua carne, perfuraram os seus órgãos.

Choque.

Queda.

O fim.

sábado, 20 de outubro de 2012

Pensando o Mensalão - parte 3 - O Poder da Bandalha

 https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhU1KbxQ61yXsxWAa1OAN7oXA7oInQhnuPQcNpffIq-2RIu7Z8PdHpeNlRoG_M_c-_Fj05SlermC6hzSTeIiIteYIxZOuefSFuH51nJUwQPBqIslzhHL4JX_ZyjCEBAeVT4yh5qeipX7MM/s1600/joaquim+barbosa+x+lewandosky.jpg

"Ain´t hard
when you discover that

He really wasn´t
Where it´s at

After he took from you ev´rything
He could steal?"

- Bob Dylan, in Like a rolling stone


O poder da bandalha

Um golpe contra a democracia, “nunca antes na História deste paísh”..., recebeu um inesperado revide no relatório do juiz Joaquim Barbosa sobre o caso do Mensalão. Nosso Watergate local.

Um presidente eleito pelo povo que trai a confiança deste povo para roubar-lhe e diminuir-lhe a democracia. A liberdade política. O poder de autonomia, o poder da soberania.

De que maneira? Comprando representantes eleitos. Um Poder Legislativo que abdica de representar, de defender, a vontade do povo, “origem de todo poder”, como está escrito na Constituição deste país.

Um esquema financiado por golpes variados, envolvendo bancos, órgãos públicos, poderes públicos, tráfico de influência. Um negócio envolvendo milhões, mirando nos bilhões, para depositar quantias nos bolsos de figurões amigos. Que em troca repetiriam e endossariam todas as palavras do líder.

Se isto não é golpe contra a democracia, então o que é?

“Tudo pelo bem do povo” - vão nos dizer. “Roubamos sua liberdade, sua dignidade, é pro seu bem. Como titio Fidel, como titio Pol Pot.”

“Somos nós que temos as melhores intenções. Considere-se com sorte, por sermos nós a roubar-lhes a liberdade e a dignidade. Vocês vão adorar o tamanho da esmola”.

Um grande golpe, com o silêncio cúmplice da Oposição.

E se não fosse nosso, à época, Procurador Geral da República para fazer uma forte carga contra o esquema, embora indesculpavelmente poupando o seu líder máximo, e agora este honrado juiz, teríamos uma enorme chance de vermos esta bofetada na cara da nossa democracia passar em brancas nuvens.

E, depois, nosso líder máximo foi reeleito, e gozou de popularidade recorde, e baba-ovos submissos, elegeu o seu poste... perdão, posTA.

Final bem diverso do Watergate, é verdade. Mas, “a culpa é dos americanos!”, como diria nosso perfeito idiota nacionalista.

Mas, em ambos os casos, o abuso de poder, o flerte com a tirania. A injúria à nossa liberdade, à nossa democracia.

Bom filme, que recomendo: “Frost e Nixon”.

E como é que se comporta nosso líder máximo, diante da sensação de invencibilidade que lhe foi dada? Que lhe permite (ao seu juízo...) pensar que a própria Verdade dos Fatos pode se curvar ante Vossa Majestade? “Deus”, como lhe chamava uma sua sacerdotisa, Marta Suplicy. Como se comportava Nosso Guia, o Eleito, o Filho do Brasil?

Primeiro, ainda assustado, tratou de se dizer traído, e pediu desculpas. Disse que a Justiça do nosso Brasil trataria do caso (mas não contava com o Barbosa...)

Daí, passado o perigo, começou a dizer que o Mensalão era uma farsa. “Tudo uma fraude, plano sinistro das zé-lites, que conspiravam contra o Governo do Iluminado... Ao deixar o cargo voltou-se para seu ex-ministro/principal acusado, José Dirceu, pra falar: “Agora, Zé, vou me dedicar por inteiro a provar a farsa que foi esse Mensalão...”

E assim o fez, tendo nós, povo brasileiro, passado pelo novo dissabor de saber que O Guia estava tendo encontros com juízes responsáveis pelo caso, para fazer pedidos impróprios e ameaças. O ponto a que chegamos...

Esse Barbosa, na sua opinião, era um “complexado”... “imagina, não querer me fazer a vontade?! Só pode ser isso mesmo, um complexado... até o Obama me chamou de O Cara, porra!”

(Também não se dignou a explicar porque se sentiu traído, e precisou pedir desculpas, por uma coisa que não existiu. Mas não se deve questionar a Divindade, como fez o pobre Jó, não é mesmo? )

Segue o festival de lamentáveis, constrangedoras cenas, juízes atuando como advogados de defesa, juízes que devem favores, e não se declaram impedidos de fazer o julgamento...

Um advogado defendendo seu cliente pela alegação de que o seu crime seria “só” de caixa-dois, e, sabe como é, “todos fazem”... tese que teria sido criada por um ex-ministro da Justiça (do Governo Lula, é claro), atual advogado de mensaleiro... ai ai... e adotada com fervor pela militância.

Esta é a nossa Divindade Benfeitora, nosso Estadista de grande gênio...

Parabéns, para todos nós.







terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sócrates e a Filosofia

http://sppsic.files.wordpress.com/2010/11/espelho.jpg


9 porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos;
10 mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.
13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.

I Coríntios 13


O filósofo assumirá o hábito de questionar. Enxergará a realidade com um viés crítico, inconformista, por não aceitar respostas prontas, definitivas. Mesmo que vindas de autoridades últimas entre os homens, os poderosos de plantão, seja no Governo, seja na Academia.

Sócrates forneceu o modelo para todos os filósofos. Questionador, crítico, intransigente. Mesmo diante do desagrado e da fúria indignada que o levou à morte, manteve-se fiel ao seu figurino. Permaneceu sendo o que foi a vida inteira, questionador, amigo da Sabedoria (Philos=amizade; Sofia=sabedoria).

Não um sábio, ou um sofista, que professam possuir a Verdade. “Tudo que sei é que nada sei”, o paradoxo irônico socrático.

Pois, se sabe, para que irá questionar? O negócio de Sócrates é questionar. “Uma vida sem questionamento não é digna de ser vivida”.

Não que o filósofo não possa ter crenças, em algum Absoluto, alguma Forma Eterna, algum mundo fora da caverna, mas este, por definição, está além da nosso condição humana. As nossas “verdades” sempre serão uma aproximação da Verdade.

Então, nosso questionamento nunca chega ao fim. Nossa visão de mundo é sempre provisória. Está sempre aberta a um novo diálogo, sempre inconcluso. É a dialética socrática. Sempre é possível um novo exame, um aprofundamento, mesmo daquilo (principalmente disso) que temos por tão evidente e seguro.

Então, na sua essência, filosofia não é uma disciplina chata, com nomes e datas pra decorar.

É um questionamento radical, profundo.

Claro que quem adquirir este vírus vai apreciar procurar nos livros aqueles que questionaram e responderam no seu tempo, pois isto lhe fará aprofundar suas próprias respostas e perguntas.

Mas assumir como dogmas as respostas de algum pensador, é abjurar à própria Filosofia.

Escuta, Zé Ninguém!


“Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a importantes mal intencionados, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais.” - Wilhelm Reich, in Escuta, Zé Ninguém! - tradução de Maria de Fátima Bivar



Nossa sociedade brasileira, à parte todas as ótimas qualidades que tem, possui um grave defeito, a mais inescrupulosa disputa de poder.

Poder mais baixo, mais inútil e insignificante, não importa: os homens, e tão grande percentagem de brasileiros, estão dispostos a matar (principalmente) ou morrer por ele.

Que o digam nossas Torcidas (quadrilhas?) Organizadas. As manchas de sangue numa estação de trem, o jovem que teve a cabeça esmagada por barras de ferro. Por causa de vinte e dois marmanjos disputando pra ver quem passa uma bola pra trás de uma linha.

E não que eu não sofra ou me alegre vendo um jogo, mas não é este o ponto.

Uma sociedade que tanto mata no trânsito, em disputas de corrida, em brigas no trânsito, é uma sociedade que padece de uma triste incapacidade de compaixão, pelos outros e por si mesmo. É uma sociedade a ponto de explodir, como um barril de pólvora.

Uma sociedade mal regulada, funcionando mal. Em que as regras não estão claras, ou não obedecem ao princípio mais básico: o objetivo da paz social, do clima de cordialidade, civilidade, respeitabilidade. Aquilo de que se dá mostras quando se respeita o próximo.

Não para quem usa de toda baixaria possível para conquistar o SEU. O única e exclusivamente seu.

É uma sociedade que disputa avidamente por um local no sol. Porque sabe que se cair do outro lado, a exploração é medonha e sem limites.

Primeiro o SEU. Primeiro o SEU. Sem perceber que reproduz e eterniza o próprio objeto do seu medo. Mas o pânico impede de enxergar o próprio pensamento.

Uma sociedade com uma triste condição, sujeita a se manter sob o poder de tiranos, indefinidamente.

Uma sociedade que vê com alegria cair no seu colinho uma destas sinecuras que abundam em nossas instituições públicas. Sem se preocupar se possui os meios para bem desempenhar aquele papel que se espera, mas apenas preocupado em corresponder ao favor de quem o colocou naquele feudinho. E preocupado, claro, em curtir la dolce vita.

Tudo tem seu preço, é claro, tudo cobra seu preço.

Uma sociedade de vergonhosos atentados contra a liberdade humana. Contra a dignidade. É esta sociedade com que temos de viver, legar aos nossos filhos.

Sem esquecer, é claro, de todas as belas qualidades que a compõem, dos belos homens e mulheres de caráter neste povo, mas, precisando enxergar seus defeitos, para poder mudar.

Como dizia aquele clássico (Plutarco?), às vezes um único defeito marca completamente a fisionomia de um indivíduo, o modo como ele é visto por todos, a despeito de tantas belas qualidades que possa ter.

Precavamo-nos, portanto, de nossos graves defeitos.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgSLJqEkhJ9rBjtFZPqPld9_KeW8gAeEEfEDIpxitU4Aa4YZtZw3L_cVTS0vkdoReV7huBY8nCrwN1c2b9tKWvFfrROl7CdtwDbLTZnMa9VWVMvi9O-AkAJ0_FUa4iwMVUg0Y7OMKmyA4g/s1600/POST+Escuta%252C+Z%25C3%25A9+Ningu%25C3%25A9m%2521+%2528Wilhelm+Reich%2529+Capa+e+contracapa.jpg

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Homem primata, patrimonialismo selvagem – uma fábula do país dos Bruzundangas

http://www.patriciojr.com.br/wp-content/uploads/2009/07/diogo_sirney.jpg?9d7bd4

Patrimonialismo: Substantivo masculino. Tratar a coisa pública como propriedade particular; Fazer na vida pública o que se faz na privada; Espécie de socialismo arcaico, e com pouco glamour, mas tão eficaz quanto.


Recente notícia:

Nossos Senadores, recebedores de 14os e 15os salários...

Espere aí, já começou muito mal. Se a lei, para os trabalhadores formais, é claro, dá direito a um 13o salário, como é que uma categoria pode se arrogar 14 ou 15? (é apenas para ressaltar o absurdo em que estamos imersos).

Pois bem, nossos Senadores, recebedores de 14os e 15os salários, ainda recebiam estas verbas sem recolher imposto de renda.

Era crescimento de renda. O imposto é sobre o crescimento de renda.

Mas os Senadores entenderam que não precisavam recolher o imposto de renda.

Daí, veio o Fisco, e cobrou: “vocês têm de recolher o imposto sobre estas verbas também”.

Oh, que impasse! Será que os Senadores ficariam mais pobrinhos? Eles já ganham tão pouco, todo mundo sabe disso... ou até ganham direitinho, mas, vocês sabem, é uma vida de tantos sacrifícios... viajar de iate ou viajar de jatinho? Não vá querer meter a mão no nosso bolso, Fisco malvado!...

E eis que surge o Presidente dos nossos Senadores, o grande herói desta História. El grán Sir Ney! (Millôr?)

Empunhando a caneta como se fosse uma espada, ele grita aos nossos Senadores aflitos: “Não temam! Eis que o Senado anda com as burras cheias, das sobras do nosso Orçamento bilionário! Restaure-se a Paz! O Orçamento paga pelas nossas dívidas! Avante, Incomuns da República!”

(Gritos de júbilo. Ovação)

E assim termina nossa fábula feliz.

( I )Moral da História: “Tendo trouxa pra depenar, não tem porque brigar”.



Conde Drácula - Parte 2














“Eu ainda estava sentado quando novo clamor me fez estremecer. Agora o som vinha do pátio, lá embaixo, e era um grito de agonia de mulher. Corri para junto da janela e, abrindo-a, espreitei através das barras. E, de fato, vi uma mulher de cabelos desgrenhados, com ambas as mãos cerradas e apertadas contra o coração, como alguém esgotado depois de uma corrida desesperada. Ela se apoiava de encontro a um dos ângulos da galeria do pátio. Quando avistou meu rosto na janela, arremessou-se para a frente, com um gemido, e gritou com voz estridente e ameaçadora.

  • Monstro! Dá-me a minha criança!

A seguir ela caiu de joelhos e, erguendo ambas as mãos, voltou a gritar as mesmas palavras, em um tom que dilacerava meu coração. E sem conter seu grande desespero, ela arrancava os próprios cabelos, golpeava o peito, abandonando-se a todas as violências típicas de uma emoção descontrolada. Por fim atirou-se ao chão. E embora não mais pudesse vê-la, continuei ouvindo os infindáveis golpes que suas mãos desferiam contra a porta.

Vindo de algum lugar bem acima de onde eu me encontrava, provavelmente do alto da torre, onde se postara – ouvia o conde chamar algo ou alguém, com sua voz cruel e metálica. Seu apelo foi respondido, a distância e por todo o derredor, por várias matilhas de lobos que uivavam. E, ao cabo de alguns minutos, uma porção deles irrompeu da orla da floresta, como a avalancha que rompe uma represa, e invadiu o pátio através da ampla entrada do castelo.

Não consegui ouvir um único grito da mulher. O rosnado dos lobos também durou bem pouco tempo. Passado um instante e ainda lambendo os beiços ensanguentados, foram saindo um por um, e deixaram o pátio.”

Bram Stoker, in Drácula


O homem avança por estágios. Sólon (c. 640 – 553 a.C.) tem um brilhante poema sobre isto:


Quando, no sétimo ano de vida, o menino se desfaz do primeiro ciclo dentário, ele é ainda bem imaturo, mal tem o domínio da fala.
Se, no entanto, Deus o aperfeiçoar por mais sete anos, já aparecerão sinais de que agora a juventude etá amadurecendo.
Brota-lhe a barba no terceiro setênio, e a pele a desabrochar
acentua seu matiz; seu corpo estica-se cheio de força.
Porém a força do homem desenvolve-se ao máximo somente agora, no quarto setênio. O homem realiza façanhas.
No quinto setênio o homem procura casar-se, para que no futuro cresça uma geração próspera.
Depois, no sexto, a atitude moral do homem amadurece e se fortalece; futuramente, ele não mais ocupar-se-á com obra fútil.
Por catorze anos, no sétimo e no oitavo setênios, prosperam sua fala e seu espírito com abundância e força.
No nono também ainda floresce alguma coisa, mas da altura da coragem varonil emana dele a sabedoria e a palavra.
Se Deus, porém, completar o fim do décimo setênio, a morte lhe colherá num tempo bem propício.

Mas nem só cronológico é o estágio. Existem estados de sentimento, dentro de uma ou outra idade, que produzem diferenças no homem.

Um estado de ser convencido de suas próprias potencialidades. Um estágio de melancolia. Um estado de derrota. Tudo isto podem ser estados, ou estágios, dentro de um mesmo homem.

Um estágio de ser filho. Um estágio de ser pai. Um estado de derrota. Um estado de vitória.

Um estado de ser irresponsável. De ser criminoso. De ser herói. De reproduzir alguma antiga tragédia.

E um único significado para esta profusão que é a vida de um homem: dar-lhe uma ordem para fazer diminuir o sofrimento. Dar-lhe um sentido.

Um único sentido para dar compaixão e dignidade para esta experiência de ser humano.

Ordenar-se, e ao mundo, para que façamos sentido.

Ordenar-se para reprimir a horrível face da desordem: os assassinatos, a loucura, a miséria.

Porque o imoral assassino surge de uma imoral sociedade, é que temos de pertencer a esta sociedade, dar nosso contributo para ela, nosso trabalho, nossa família, nossa honestidade, para que ela prosseguir em Justiça.

Este um homem moral, um homem consciente, um homem que cuida de seu destino.

E a sociedade precisa se organizar, sua lei, seu exército, sua polícia, sua justiça. Seu Governo.

E se o Governo for corrupto, imoral, totalitário, prepotente, pior para toda a população.

Pior para todos os seus filhos, pátria amada, mãe gentil.

Pior para todos os seus filhos, roídos de miséria, roídos de deboche, em perfumados salões.

Lá onde o Poder reina grande.

Afunda-se em barbárie, afunda-se em fanatismo. Uns poderosos que se cercam de capangas, dizem-se tão preocupados com o povo, preocupam-se em salvar-se das tramóias que armam com o dinheiro do povo.

Vivendo à grande, por quaisquer meios, enquanto um país passa fome e injustiças grassam?

Entupindo-se de salários, e verbas públicas, e subornos e golpes de milhões, um preocupado em limpar o rabo do outro, pra continuar essa farra...

Depois vendo, consternados, que mais uma montanha caiu soterrando casas, quando uma barreira devia ser feita. Porque estes poderosos não organizaram nada, e os bilhões que engrossaram as contas de uns bons amigos faltaram para pagar um salário a quem tinha de fazer um trabalho.

Um preço justo, e não este roubo vil.

E daí vocês, delirantes, vão posar para alguma foto, vão fazer um discurso e uma cara de compungidos, e vão achar que o dever de casa está feito, e vocês já podem sair pra mais um conchavinho, mais uma festinha em Paris ou no endereço de luxo que for, e que vocês são muito bonzinhos...

Canalhas, é o que são, canalhas, e asquerosos, e montes de merda...

Querendo, com seu exemplo, nos demonstrar como a falta de moral é uma realidade insofismável, e uma benesse.

E que é muito corajoso quem aceita o seu jogo.

Aonde, bandidos, mulheres fúteis, que viajam de jatinho para fazer compras, que exploram e enganam os mais miseráveis, senhores e senhoras de engenho, aonde isto foi moral e exemplo?

Brincar num salão de beleza, luxos de barbies. E descurar plenamente a Educação de seus filhos. Sem qualquer pensamento sombrio, sem qualquer percepção de miséria.

Um país sem Lucrécias, sem patrícios revoltados, só com Tarquínios Tiranos, Soberbos?
Soltar uma esmola, quando a grande máquina de espremer o mais pobre está em pleno funcionamento, e à toda?

Soltar uma esmola, quando se está jogando o jogo de soltar bilhões para uns bons amigos?

Soltar uma esmola, quando se está levando à bancarrota o futuro, as melhores chances, de milhões e milhões de pessoas, seres humanos sem saneamento, sem hospital, sem polícia, sem Justiça, sem escola?

Massas para reproduzirem este roubo bilionário, esta malversação do Patrimônio Público. Massas para serem enganadas, para serem espoliadas até a miséria mais negra. Até o filho morrer por falta de saneamento, em algum hospital público que não tem médico, não tem enfermeiro, e não tem medicamento. Sofrendo esta indignidade, e quem sabe sendo humilhado por um funcionáriozinho mal pago. Ou por um Secretário ou Ministro de Saúde, ou Presidente da República, que afirma que falta pouco para esta Saúde porca atingir a perfeição.

Quanto asco, quanto nojo, desta arrogante e estúpida ilusão. Mas segue por aí, o Paizinho dos Pobres, o Bem Amado, o Mais Querido, o Filho do Brasil, o Enviado do Céu, o Deus, deste culto baixo, destas prostitutas sacerdotisas, o Estadista, o Herói que Vai Resolver Nossos Problemas, vai nos dar uma esmola, que bom, enquanto o roubo de milhões e bilhões passa debaixo dos nossos narizes, com nossos advogados de milhões que defendem clientes de bilhões, perante juízes de mais alta instância, colocados ali justamente por estes advogados e clientes.

Ternos bem cortados, e falas elegantes, e por dentro podridão e coisa morta.

Conquistaram o Poder, conquistaram a Riqueza, muito bem. E pra que lhes serviu todo este Poder, e toda esta Riqueza? E o que perderam para conquistar tanto Poder e tanta Riqueza? O que lhes custou, em moeda de dignidade e inocência?

Conquistaram Poder, conquistaram Riqueza, mas fizeram um Estado e um país mergulharem na miséria, populações animalizadas pela ignorância e a miséria, gado para entregar seu voto e seu poder para algum coronel de plantão.

Um coronel que vai se grudar como pulga, ou carrapato, ou sanguessuga, por 20, 30, 40, 50 anos, se não morrer.


Como um vampiro, um conde Drácula, eternamente se alimentando daquele sangue, sendo sustentado por aquele povo, índice de desenvolvimento daquele povo de país africano em guerra ou seca prolongada.

Este é dos nossos invejáveis, intocáveis, incomuns, um dos nossos poderosos.

Vergonha. Vergonha. Vergonha.

“Lá estava realmente o conde, mas seu aspecto geral mostrava-o muito rejuvenescido, pois seus cabelos brancos, assim como o bigode, tinham mudado de cor, tornando-se muito mais escuros, com um tom de cinza bastante intenso. As maçãs do rosto se mostravam bem mais cheias e a alvura de sua pele deixava transparecer uma tonalidade rosada. Sua boca estava mais rubra do que nunca, pois nos lábios brilhavam grossos pingos de sangue ainda fresco, os quais escorriam até o queixo e ao longo do pescoço. Até seus fundos e congestionados olhos pareciam repousar em órbitas mais firmes, pois as pálpebras se revelavam ligeiramente intumescidas. Parecia que todo o corpo da asquerosa criatura fora embebido em sangue, jazendo agora como uma repulsiva sanguessuga, exausta e entorpecida por sentir-se saturada.”

- Bram Stoker, in Drácula

 http://carbolicsmoke.com/wp-content/uploads/2009/10/Count-Dracula.jpg

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Eric Clapton - I Shot the Sheriff

Bob Dylan-John Brown(MTV)

Fuga do campo 14

 http://prosaepolitica.com.br/wp-content/uploads/2012/05/LIVRO-FUGA-CAMPO.jpg


"O segredo da felicidade está na liberdade, e o segredo da liberdade está na coragem" - Péricles



Fuga do campo 14 foi um grande livro lançado em 2012, pela editora Intrínseca. Escrito por um jornalista americano, Blaine Harden, baseado nas memórias de um norte-coreano, Shin Dong-hyuk, que nasceu e passou 23 anos num campo de prisoneiros de segurança máxima, do qual foi o único a conseguir escapar.

O relato de atrocidades físicas e morais impressiona. O último estágio do que o ser humano pode fazer pra outro. Do sistema de opressão de que é capaz o engenho humano, que funde numa mesma prisão de medo e ódio, abuso e vergonha, guardas e prisioneiros.

Sendo que estes sofrem mais, é claro.

Mas todos têm medo, medo de perder o posto, medo de sofrer as últimas injúrias que eles mesmos infligem. O vigia de turno espreme o máximo que conseguir seus subordinados, pois se a cota for insuficiente ele é que vai estar na posição de ser espremido, pelo outro vigia que pegou seu lugar.

A luta pela sobrevivência do protagonista do livro é reduzida à sua dimensão mais instintiva e básica. Ele não se peja de catar alguma migalha no chão, ou de revirar o esterco à cata de alguns grãos de milho não digeridos.

Ele nasceu naquela condição, uma relação sexual permitida dentro das rígidas leis do campo. Uma recompensa para as habilidades de seu pai, a quem podia ver raramente, sendo criado num clima de disputa por comida com sua mãe e seu irmão. Nada de amoroso convívio familiar.

Na passagem mais tenebrosa do livro, ele confessa que delatou um plano de fuga de seu irmão, tendo este e sua mãe sido executados diante de seus olhos.

O absurdo da existência humana levado a um ápice.

Naquela existência que lhe coube por sorte, ele não conhecia outro mundo senão aquele da prisão, da exploração do trabalho, dos castigos físicos, da vigilância contínua, das regras estritas, da desconfiança, da disputa e da traição.

“(...) todos os anos, alguns prisioneiros são executados em público. Outros são surrados até a morte ou secretamente assassinados por guardas, que praticamente têm carta branca para maltratá-los e estuprá-los. Em sua maioria, os detentos trabalham na agricultura, na extração de carvão, na confecção de uniformes militares ou na fabricação de cimento, subsistindo com uma dieta de fome de milho, repolho e sal. Perdem os dentes, as gengivas ficam pretas, os ossos se enfraquecem, e, quando chegam à casa dos quarenta anos, ficam arqueados na altura da cintura. Como recebem um conjunto de roupas uma ou duas vezes por ano, em geral eles trabalham e dormem vestindo trapos imundos, levando a vida sem sabão, nem meias, luvas, roupas de baixo ou papel higiênico. Jornadas de trabalho de 12 a 15 horas são obrigatórias, até que os prisioneiros morram, em geral de doenças relacionadas à desnutrição, antes de completar cinquenta anos.”

Talvez uma pintura de Bosch pudesse retratar o horror. Abrir os olhos de quem só tem olhos para enxergar os problemas da Disneylândia.

Que uma tal exploração do ser humano exista entre nós é causa de vergonha para o ser humano.

Como as minas de pedras preciosas exploradas por espanhóis e portugueses. Como os massacres de índios e de tantos povos. Como as guerras levadas a populações indefesas. Como a tortura impune de presos.

Ou sendo explorado até a morte por um Czar. Ou sendo insultado por algum nobre na França. Algum traficante armado, ou algum policial boçal, em alguma favela.

Não está confinado a uma página de um jornal ou de um livro de história. Mas no aroma perfumado dos jardins nos perdemos, em vidas de egoísmo e inconsciência, preferindo esquecer o papel que nos cabe para influir neste sistema, que nos governa e governa a vida de nossos filhos.

Melhor para os espertalhões, ou os mais gananciosos, ou os mais inescrupulosamente determinados a ocupar as posições de mando. Estes farão o sistema à sua imagem e semelhança, felizes por não ter de disputar conosco a liderança. Vão nos roubar nosso direito, nossa dignidade, nossa liberdade de participar na condução de nosso destino, e não vamos sequer nos dar conta.

Depois, o sistema pode degenerar numa Alemanha de Hitler, numa Rússia de Lênin e Stálin, numa Coréia do Norte de Kim-jong Il, e será muito tarde para lamentar.

Ou pode degenerar na corrupção da sua Prefeitura, que vai gerar a prisão super-lotada, e o ritual de roleta russa dentro dela, e também será muito tarde para lamentar.

Existem muitas formas de inferno.

Eles começam sempre pela ausência de liberdade.


"Eu não sabia o que eram compaixão ou tristeza. Eles nos educavam desde o nascimento para que não fôssemos capazes de emoções humanas normais. Agora que saí de lá, estou aprendendo a me emocionar. Aprendi a chorar. Tenho a impressão de que estou me tornando humano." - Shin Dong-hyuk




quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A triste face da destruição

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1a/The_Triumph_of_Death%2C_or_The_Three_Fates.jpg


Uma mulher bomba se explode, matando mais 14. Um embaixador americano é assassinado, com mais três, dentro da sua embaixada.

Valerá a pena pensar sobre isto? Cuidar do seu jardim, só isso? Fugir da responsabilidade que a consciência traz embutida?

Lamentar que os fatos são assim, a triste condição do homem. Pobre espécie, equilibrada entre a glória e a miséria, sem saber de que lado vai pender o destino.

Ter uma vida, qualquer vida, faz de alguém menos que um homem. Um ser e um destino, a ser conhecido depois de sua morte.

Pois até a morte, glorificar, como o louco Rei Creso, sua boa sorte é tentar as Parcas que tecem o destino.

Cada orgulho que traz a sua queda. Cada desmedida do ser humano.

Durante a guerra não há bandidos e não há mocinhos. E o único inocente pagou com sua vida.

Durante a guerra só existem vítimas. Cada um, e ninguém a menos, vítima de seu destino.

Cada um tendo de carregar tudo o que significa ser um guerreiro conquistador, ou ser assassinado pelo irmão pra perder seu trono.

Neste mundo de vítimas, a única mensagem Redentora é a da caridade e da paz.

A paz segundo uma lei, uma lei de comum acordo.

E o primeiro, e na verdade único, mandamento seria o de respeitar e honrar seu próximo.

Mas, durante a guerra, a visão pode ser obnubilada pelo sangue, e pelo fogo, e pela fumaça. Pelo clamor do choro e do ranger de dentes. A morte sofrida numa trincheira da primeira guerra.

Mas a memória persiste, a memória de um menino que fui, e que precisa se fazer criança para ser novamente.

E é por este lado que ressurge a Esperança. Senhora de braceletes de prata no pulso, flores em suas mãos. Para me acolher como Mãe, me acolher como filho. Uma chama para uma hora de trevas.

E nisto se faz o sonhar. Nisto se faz, meu Deus, inclusive o viver!


O juiz Siro Darlan comparecia bastante nos noticiários quando era titular da Vara de Infância e Juventude, por decisões polêmicas proibindo crianças de participarem de novelas e shows.

Andava meio sumido (não que eu estivesse reclamando...), mas agora, promovido a desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (ui) reapareceu em grande estilo, mandando soltar sete de nove dos bandidos que há cerca de dois anos protagonizaram uma cenas de cinema (filme-catástrofe): invadiram o Hotel Intercontinental de São Conrado, fazendo reféns 35 pessoas. Não satisfeitos, trocaram tiros com a polícia em plena rua, armados que estavam com fuzis, pistolas, granadas, grande quantidade de munição, coletes à prova de balas, rádios de comunicação...

Estavam preparados para iniciar, e realmente iniciaram, uma pequena guerra.

Pois nada disso considerou Siro Darlan. Viu apenas que estava estourado o prazo para conclusão do processo. E, daí, ao invés de determinar a rápida conclusão do processo, determinou a soltura dos acusados.

Parece lógico? Parece normal? Quem quiser ler as justificativas de Siro Darlan vai encontrá-las no seu blog: http://www.blogdosirodarlan.com/?p=304

Ele inclusive informa que o Ministério Público considerou muito lógica e normal a decisão: “O Ministério Público, coerente com seu papel fiscalizador, acatou a decisão da Justiça e sequer recorreu da correta decisão, que além da adesão dos procuradores, teve a seu favor o fato de os réus, estando em liberdade, estarem cumprindo as condições legais trabalhando e comparecendo a todos os atos processuais”.

Também o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro preferiu lavar suas mãos, informando em nota que “não interfere nas decisões dos juízes, que são soberanas”, e que, “cabe ao magistrado decidir com a lei e o bom senso”.

Engraçado invocar o bom senso, neste contexto. Será que é bom senso liberar pessoas que notoriamente, e em grau máximo, ameaçaram a sociedade, juntando-se em quadrilha para enfrentar com armamento pesado as forças de segurança?

Será que a sociedade pode aceitar este acinte, ser estapeada na cara, sem reagir, porque se invocam, especiosamente, os direitos humanos?

Direitos humanos, sim, de haver um processo, de haver uma defesa. Mas convivendo com o dever de cumprir pena, caso afronte as leis da sociedade. Maior a afronta, maior é a pena.

Direitos humanos, sim, de cumprir a pena em uma prisão onde seja possível viver. De poder trabalhar para se ressocializar, e também para pagar pelos prejuízos que causou. De ter uma oportunidade para reiniciar a vida, mas agora sob especial controle e vigilância do Estado, em razão do crime cometido.

Enfim, como vale mais uma imagem do que mil palavras:


Termino com este interessante link que descobri enquanto pesquisava sobre Siro Darlan na Internet, referente a rolos criminais envolvendo alguns de seus assessores:



domingo, 16 de setembro de 2012

Bob Dylan - It's All Right, Ma (I'm Only Bleeding) - Tradução



Está tudo certo, Mãe (eu só estou sangrando)

Escuridão ao sol do meio dia
Sombras mesmo sobre os nascidos em berço de ouro

A lâmina feita à mão, o balão da criança
Eclipsa ambos o sol e a lua

Para entender, você descobre demasiado cedo
Não faz sentido tentar

Ameaças pontiagudas blefam com escárnio
Comentários suicidas são destroçados

De bocal de ouro o chifre oco do tolo
toca palavras gastas

Provas para alertar:
Ele não está ocupado nascendo

Está ocupado morrendo

A página da tentação voa pela porta pra fora
Você a segue, você se descobre em guerra

Observa cachoeiras de sofrimento rugindo
Sente vontade de lamentar, mas diferente de antes

Você percebe que é só mais uma pessoa
chorando

Então não tema
se notar

um som estranho
no ouvido

Está tudo certo, mãe,
Eu estou só suspirando...

Como alguma vitória quente,
alguma queda livre

Motivos particulares, pequenos ou grandes
Podem ser vistos nos olhos daqueles que convocam

Pra fazer rastejar os que deviam ser assassinados
Enquanto outros dizem não odeiem nada que seja

À exceção do ódio

Palavras desiludidas, latindo como balas
Enquanto deuses humanos miram nos seus alvos

Fizeram de tudo, de armas de brinquedo que soltam faísca
Até Cristos cor de carne que brilham no escuro

É fácil perceber, sem precisar olhar muito longe
Que não muito é verdadeiramente sagrado

Enquanto pregadores pregam os destinos cruéis
Professores ensinam que o conhecimento espera

Pode conduzir a jantares de mil dólares
E a bondade se esconde atrás dos seus portões

Mas até mesmo o presidente dos Estados Unidos
Algumas vezes terá de se apresentar despido

E apesar de as regras da estrada
terem sido lançadas

É apenas com os jogos humanos
que você precisa lidar

E está tudo certo, mãe,
Eu consigo fazê-lo

Placas de publicidade que enganam
Fazendo acreditar que você é aquele

que pode fazer o que nunca foi feito
que pode vencer o que nunca foi vencido

Enquanto lá fora a vida segue
toda à sua volta

Você se perde, reaparece
De repente percebe que não tem nada a temer

Sozinho, você permanece
com ninguém por perto

Quando uma voz trêmula e distante,
indistinta

Perturba seus ouvidos sonolentos para escutar
que alguém pensa que eles realmente te conhecem

Uma pergunta nos seus nervos se acende
Mesmo assim você sabe não há resposta que encaixe

pra satisfazer e garantir que você não vá desistir
pra manter na mente, e não esquecer

Que não é a ele, ou a ela, ou a eles, ou a qualquer coisa
que você pertence

Embora os mestres
façam as regras

para os homens sábios
e os tolos

Eu não tenho nada, mãe,
conforme o que viver.

Para aqueles que devem obedecer à autoridade
que eles não respeitam, de nenhum modo,

que despreza seus trabalhos, seus destinos,
fala com inveja dos que são livres

fazem o que eles fazem só para serem
nada mais do que algo em que investiram

Enquanto alguns em princípios batizados
em estritos laços de plataforma partidárias

Em clubes sociais disfarçados com trapos,
do lado de fora podem livremente criticar

não dizem nada exceto a quem idolatrar
e então dizem: “Deus o abençoe”.

Enquanto um que canta com sua língua em fogo
Gargareja no coral da corrida de ratos

Com a forma retorcida pelos alicates da sociedade
não está preocupado em subir para céus mais altos

mas prefere te trazer até o buraco
onde ele se encontra
Mas eu não desejo o mal
e nem quero culpar

a nenhum deles
que vive dentro de um cofre

Mas está tudo certo, mãe,
se eu não puder agradá-lo.

Velhas juízas observam os casais
limitadas em sexo elas ousam

empurrar falsas morais, e insulto e mau olhado
Enquanto dinheiro não pede, ele ordena

Obscenidade, quem realmente se importa
Propaganda, tudo é falso

Enquanto os que defendem o que não podem ver
Com o orgulho de assassinos, e a segurança

Que lhes funde nas mentes de modo amargo
Para estes que pensam que a honestidade da morte

não cairá sobre eles, naturalmente,
A vida às vezes deve ficar solitária

Meus olhos colidem
de frente com tumbas estufadas

Falsos objetivos, eu me arrasto
Sob esta mesquinharia, que joga tão sujo,

caminha pra cima e pra baixo, por dentro algemada
chuta minhas pernas até quebrá-las

e me fazer dizer: “chega, eu tive o bastante
o que mais você pode fazer?”

E se os sonhos no meu pensamento
pudessem ser vistos

eles provavelmente colocariam minha cabeça
numa guilhotina

Mas está tudo certo, mãe,
é a vida, e apenas a vida



It's All Right, Ma (I'm Only Bleeding)

Darkness at the break of noon
Shadows even the silver spoon
The handmade blade, the child's balloon
Eclipses both the sun and moon
To understand you know too soon
There is no sense in trying.

Pointed threats, they bluff with scorn
Suicide remarks are torn
From the fools gold mouthpiece
The hollow horn plays wasted words
Proved to warn
That he not busy being born
Is busy dying.

Temptation's page flies out the door
You follow, find yourself at war
Watch waterfalls of pity roar
You feel to moan but unlike before
You discover
That you'd just be
One more person crying.

So don't fear if you hear
A foreign sound to you ear
It's alright, Ma, I'm only sighing.

As some warn victory, some downfall
Private reasons great or small
Can be seen in the eyes of those that call
To make all that should be killed to crawl
While others say don't hate nothing at all
Except hatred.

Disillusioned words like bullets bark
As human gods aim for their marks
Made everything from toy guns that sparks
To flesh-colored Christs that glow in the dark
It's easy to see without looking too far
That not much
Is really sacred.

While preachers preach of evil fates
Teachers teach that knowledge waits
Can lead to hundred-dollar plates
Goodness hides behind its gates
But even the President of the United States
Sometimes must have
To stand naked.

An' though the rules of the road have been lodged
It's only people's games that you got to dodge
And it's alright, Ma, I can make it.

Advertising signs that con you
Into thinking you're the one
That can do what's never been done
That can win what's never been won
Meantime life outside goes on
All around you.

You loose yourself, you reappear
You suddenly find you got nothing to fear
Alone you stand without nobody near
When a trembling distant voice, unclear
Startles your sleeping ears to hear
That somebody thinks
They really found you.

A question in your nerves is lit
Yet you know there is no answer fit to satisfy
Insure you not to quit
To keep it in your mind and not forget
That it is not he or she or them or it
That you belong to.

Although the masters make the rules
For the wise men and the fools
I got nothing, Ma, to live up to.

For them that must obey authority
That they do not respect in any degree
Who despite their jobs, their destinies
Speak jealously of them that are free
Do what they do just to be
Nothing more than something
They invest in.

While some on principles baptized
To strict party platforms ties
Social clubs in drag disguise
Outsiders they can freely criticize
Tell nothing except who to idolize
And then say God Bless him.

While one who sings with his tongue on fire
Gargles in the rat race choir
Bent out of shape from society's pliers
Cares not to come up any higher
But rather get you down in the hole
That he's in.

But I mean no harm nor put fault
On anyone that lives in a vault
But it's alright, Ma, if I can't please him.

Old lady judges, watch people in pairs
Limited in sex, they dare
To push fake morals, insult and stare
While money doesn't talk, it swears
Obscenity, who really cares
Propaganda, all is phony.

While them that defend what they cannot see
With a killer's pride, security
It blows the minds most bitterly
For them that think death's honesty
Won't fall upon them naturally
Life sometimes
Must get lonely.

My eyes collide head-on with stuffed graveyards
False gods, I scuff
At pettiness which plays so rough
Walk upside-down inside handcuffs
Kick my legs to crash it off
Say okay, I have had enough
What else can you show me ?

And if my thought-dreams could been seen
They'd probably put my head in a guillotine
But it's alright, Ma, it's life, and life only.