sábado, 24 de maio de 2014

O Direito Inicial



Um povo deveria escolher entre os que vivem próximo a eles.

O médico da região. O engenheiro. O advogado.

Aqueles que eles conhecem proximamente, e em que confiam.

Aqueles que têm o dom da palavra, do pensamento e da ação, prontos para atender o seu semelhante.

Quando a um povo se nega este direito, nega-se também qualquer outro direito.

O direito de livre escolha do seu Governo, das suas leis, dos seus representantes, é o direito essencial, do qual todos os outros podem decorrer, sem o qual nenhum outro direito ocorre.

Se negado este único direito, o povo se divide entre senhores e escravos. Nas atitudes, nas instituições, nas almas.

Nas almas, naquelas que criam. Podem criar Paraísos e Infernos, e a responsabilidade será, está claro, sempre delas. Nenhum Deus e nenhum Diabo para assumirem o fardo de bodes expiatórios.

Criação do ser humano, assim se tenha. Dele a Glória! A ele a responsabilidade!

E assim se revelarão, em obras veremos.

Filhos do Pai do Amor, ou Filhos do Pai do Ódio?

Os Dois convivem no ser humano. A um só se prestam Glórias.

A um só se serve.

A Guerra

Um Estado com 60 mil mortos por assassinato, números oficiais, que mascaram bastante, um Estado com taxas proporcionais de homicídios comparáveis às de países em guerra, comparáveis às mais conflagradas regiões do planeta.

Um Estado assim é que se entrega, no Brasil, país das Grandes Festas, compensatórias, está claro, país das Grandes Sacanagens, país em que se cultua o Roubo, o Grande Ladrão, O Grande Assassino, o Grande Estuprador, país de canalhas, de subservientes, país dos criminosos impunes, os criminosos debochados, os criminosos ostentadores, país de senhores, país de escravos.

Para o Desgovernante, o que não presta, é o que nasce no morro.

Pobre vítima da sua crueldade... mas alguém já viu lobo que não põe a culpa no cordeiro?

Se eles se matam entre si, diz o lobo, é porque não querem se deixar matar por mim, ordenadamente.

Bem mansos. Bem calminhos.

Vamos mostrar as taxas de redução de homicídios... CAÍRAM 2 PONTOS POR AQUI!!!!!

(aumentaram 12 pontos ali do lado... isto se fala baixinho, isto nem é comentado...)

Mas a segurança, lá entre eles, com seguranças, e mansões blindadas, e iates e jatinhos e helicópteros, muito muito exclusivos, atinge proporções de Suécia, Dinamarca, Reino Unido...

As taxas de segurança que regem uns e outros deste país é simétrica à taxa de distinção entre castas.

Para as castas dos Iluminados, dos Nossos Geniais Guias, dos nossos lobos, Senhores e Patrões. Para os nossos Diferentes, os nossos Sangues Azuis, as taxas são de Alemanha.

Para as vítimas, os holocaustos, os carneiros propiciatórios, os Escravos, os inermes, as taxas são de Alemanha, também. Alemanha, enquanto perdia a 2a Guerra...

Mas, para a Alemanha, que bom, acabou a Guerra. Para brasileiros, ela continua explodindo nos ouvidos.

E até piorando, o que não parece ser possível, mas é. O buraco consegue ficar mais fundo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Cidadão Eike, ou A Morte da Esperança


“O silêncio da Oposição é a porta aberta para a ditadura” - Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil entre 1956 e 1961



O que pensar quando dezenas de bilhões de reais foram emprestados, dinheiro público, a fundo perdido, para este cidadão Eike?

O que pensar quando assistimos a este filme épico, do homem que garante projetos mil, envolvido em todas as áreas?

Esportes; comunicações; obras de engenharia; poços de petróleo...

Até um antigo hotel no Rio de Janeiro era projeto de investimento.

Planejava ainda avançar com projetos sobre o imenso parque público ao redor do seu hotel, transformar o aterro do Flamengo num imenso estacionamento.

E fazia, e recebia, agrados mil com as 3 esferas de Governo, simbolizadas nas figuras do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, do presidente da República, Lula-lá da Silva, e de sua sucessora e continuadora, Dilminha Rousseff Duch




 

Aliás, Lula-lá deu-se ao desplante de fornecer suas habilidades técnicas muito bem remuneradas (quais seriam?) para prestar consultorias/assessorias semi-secretas ao nosso cidadão Eike.

Nossos corajosos jornalistas (ainda há alguns) publicaram o documento, a bela foto do encontro entre os muy amigos, Lula-lá flagrado entrando no jatinho particular do cidadão Eike.








Mas o que mais se pode publicar, que já não tenha sido publicado e republicado, que possa abalar a consciência cívica da Pátria amada, mãe gentil, ciosa de seus deveres?

O que se pode fazer, quando se toma por coisa normal, assessorias e consultorias milionárias, com termos secretos, prestadas por ex-membros do Governo?

Por onde andarão os filhos desta Pátria?

Talvez tenham coisa melhor pra fazer, porque tudo isto se passou como se tivesse se passado em Marte.

Em Júpiter. Em Saturno.

E restou aos honrados homens e mulheres desta Pátria, aqueles que com seu suor e seu sangue, do sacrifício do seu trabalho honesto, esforçam-se por bem criar os seus filhos, ensinar-lhes uma vida com alguma dignidade, em meio a uma Pátria desolada.

Torcer por alguns dias melhores.





segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Artigo da hora: Dilma e Sininho, por Ricardo Noblat, com Comentário, por mim mesmo

"Eis o que aprendi com Roberto e meu pai: — o importante é não matar. Nada mais doce do que nascer, viver, envelhecer e morrer. E não ser jamais assassino" - Nelson Rodrigues, in Os Assassinados
 

 
Aprecio o que escreve o jornalista Ricardo Noblat, mas gostaria de fazer alguns reparos ao seu artigo “Dilma e Sininho”:


Leram o artigo?

Agora vão os meus reparos.

Noblat destacou o que lhe parecem ser as semelhanças entre Dilma e Sininho: Primeiro, as duas são políticas.

Um primeiro reparo, sem grande importância, ou de importância mais técnica: se o homem é um animal político, como quer Aristóteles, então todos somos políticos, não sendo esta uma característica a se destacar para comparar Dilma e Sininho. Mas, claro, Noblat está querendo dizer que ambas são mais empenhadas na política, a ponto de, e aí sim, vem a seguinte semelhança:

As duas admitem o uso da violência para alcançar objetivos políticos.

Perfeito. Mas aí Noblat se apressa para indicar que, apesar de reconhecer a semelhança, haveria uma importante diferença entre as duas, sendo esta que Dilma viveu seus dias de apoio pessoal à violência política no contexto da ditadura militar, enquanto Sininho vive seus dias de apoio pessoal à violência política no contexto de uma democracia.

E aí vem um outro, mais significativo, reparo:

A diferença apontada por Noblat não se prendia a características de Dilma e Sininho. A diferença identificada era entre as épocas em que as duas atuaram.

Ora, mal comparando, isto é como comparar uma cascavel e uma jararaca, e dizer que ambas são diferentes porque a primeira viveu na década de 30, e a segunda na década de 50.

Ou que são diferentes porque uma nasceu em Timbuctu, e a outra nasceu em Jacarta.

Um problema de lógica, claro, mas a que se pode responder, de novo, com o tradicional: “deu pra entender? Então não sacrifica”.

Mas é que a questão conduz a outra, e aí entra meu terceiro, e crucial, reparo:

Noblat parece entender, como muita gente boa, que “ditadura”, e “democracia” são duas palavras que exprimem dois mundos nitidamente separados, estanques.

Já eu penso que nada é tão simples, e que as palavras, embora úteis, e até essenciais, como os pensamentos que exprimem, são também enganadoras, e por isso é preciso a maior cautela para não se deixar levar por um mundo de Formas Ideais, muito fácil, muito belo, sem dúvida, mas que pode guardar pouco, ou nenhum, contato com a realidade.

“De esquerda ou de direita, ditadura usa a violência contra o povo. Enquanto existe uma ditadura, você só dirá sem medo o que pensa se você pensar como ela.”

Ah, mas então é tão fácil assim? Basta uma ou duas frases para fixar acima de sofismas e de discussões inúteis a natureza do monstro?

Quem dera se fosse. Mas o que dizer de um jornalista, processado dezenas, ou até centenas de vezes, (lembrei do Diogo Mainardi) ameaçado de perder seu patrimônio, ameaçado até de prisão, que tal passar uns tempinhos no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, por alguma das decisões deste nosso Judiciário tão surpreendente?

Lembrei de um ditado aprendido na faculdade de Direito, pra alguma coisa serviu: “Cabeça de juiz, bumbum de neném, nunca se sabe o que vem”.

Noblat até parece reconhecer a natureza imprecisa dos termos: “O regime democrático é imperfeito e sempre será.” Mas logo em seguida tem uma recaída na firme ilusão de que basta uma palavra, uma classificação, para discriminar com perfeição os regimes: “Mas é o melhor dos regimes. Na democracia, posso dizer o que penso porque jamais serei preso e torturado por pensar assim ou assado.”

Que assim seja, que Deus lhe guarde, que Deus nos guarde, mas continuo pensando que não é tão simples.

Continuo pensando que em algum canto, quem sabe no interior do Maranhão, ou em Roraima, algum jornalista estará sendo torturado e morto por incomodar um poderoso local.

Mais um crime, entre cerca de 60 mil assassinatos por ano, quem se importa?

Quem sabe um deputado federal, democraticamente eleito, será condenado por ter arrancado as pernas e os braços de um radialista que o incomodou, com uma serra-elétrica, largando o que restou moribundo na frente da Rádio, nada sutil recado?

E não é só em Roraima, ou no Acre, ou no Maranhão, ou em Alagoas.

Pode ser um Estado rico, pode ser em São Paulo, pode ser no Rio de Janeiro.

A violência, o primitivismo político, a barbárie, estão impregnados na cultura brasileira.

Não está restrito no tempo; não está restrito no espaço. Basta voltarmos às páginas da nossa História.

Noblat também é jornalista, corajoso jornalista, já tendo enfrentado as fúrias de algumas das figurinhas tarimbadas da nossa República.

Mas preciso fazer estes reparos para ele não andar esquecido.

Concluindo, com a soma dos reparos acima:

Com a violência, não se transige; a violência, não se justifica.

A violência se denuncia. A violência se combate com a arma civilizada dos Tribunais, da resistência política.

É violência restringir o seu direito ao voto. O seu direito ao trabalho. O seu direito a ganhar a vida honestamente.

A violência pode vir do Estado, pode vir de outros grupos, pode vir de indivíduos.

Ela sempre se manifesta pela restrição de alguma liberdade, liberdade econômica, liberdade econômica, liberdade individual.

Ela sempre procura se justificar, invocando os mais nobres e santos motivos.

Ela sempre se manifesta numa relação de desigualdade. De privilégio.

Impõe-se mais tributos pra um, pra sustentar os privilégios de outro. Pro Plano de Saúde, pro Regime de Aposentadoria de um, serem muito mais completos e abrangentes que os do outro.

Restringe-se a liberdade política de um, para garantir o Poder perene de outro.

Outro grupo, outra família, outra casta, outra classe, de incomuns, de super-homens, de superiores.

Patrões e escravos.

Tudo isto é manifestação da violência, tudo isto é agressão ao ideal democrático.

Tudo isto se manifesta, em qualquer tempo ou lugar, e quaisquer que sejam as palavras insculpidas nas Cartas Magnas dos Povos.

E é por isso que a vigilância precisa ser constante, e por isso não podemos nos dar ao luxo de sermos reconfortados e iludidos por meras palavras vazias.

Resistir, sempre. Lutar, se for preciso.

Mas não com o terrorismo.

E não para manter, ou para instaurar um novo tipo de privilégio.

Comecei com rigor lógico, termino com discurso exaltado.

Faz parte.

 
"Falei da “esquerda católica”. Um dia, ela terá de ser julgada. Na confissão de ontem, falei de um dos pronunciamentos mais claros de d. Hélder. Sem nenhum disfarce, declara: — “Respeito aqueles que, em consciência, sentem-se obrigados a optar pela violência; não
a violência fácil dos guerrilheiros de salão, mas a daqueles que provaram sua sinceridade com o sacrifício de suas vidas”. Não. Aí não está dito tudo. Provaram a sinceridade morrendo, por azar, e matando, por querer. Antes de morrer, Guevara matou. E, repito,
morreu sem querer e matou querendo. Também Camilo Torres. Esse cristão-homicida empunhou o fuzil, não para morrer, mas para matar.

E diz mais o arcebispo de Olinda e Recife: — “Parece-me que as memórias de Camilo Torres e de Che Guevara merecem tanto respeito quanto as do pastor Martin Luther King”. Não, mil vezes não! Luther King não morreu de fuzil, faca ou revólver na mão, como Guevara ou Camilo Torres. Não matou, nem quis matar. Não pregou o ódio, a “violência justificada” católica. Morreu de amor e por amor. Os que pregam o ódio não podem chorar o jovem sacerdote do Recife.

Todos nós temos um projeto de Brasil. O da esquerda católica é o Brasil do ódio. O Brasil do sangue, o anti-Brasil, um Brasil sem Deus. Este país não teve jamais um drácula. E, súbito, os possessos querem que nos transformemos em 80 milhões de dráculas bebendo o sangue uns dos outros".

- Nelson Rodrigues, idem

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Momentos difíceis no Brasil



Este verão escaldante está sendo pródigo em produzir símbolos da nossa falta de rumo como nação. Sempre no Rio de Janeiro, vitrine do nosso Brasil, “Río? Samba, carnaval, Brézil!”, e com sensação térmica de 50°, vou pinçar alguns exemplos do que quero dizer.

Primeiro, o ladrão preso no poste:

 

Depois, a execução de outro ladrão no subúrbio de Belford Roxo:

 

Por último, a morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido por um rojão durante protesto contra aumento de passagens de ônibus no Centro do Rio:

 

Cada uma dessas notícias gerou manifestações, polêmicas, conversas de botequim, reveladoras de uma sociedade partida, dividida em campos opostos, pronta à Guerra Civil.

Estaremos próximos à Alemanha pré-Hitler, quando nazistas e comunistas se enfrentavam nas ruas para decidir quem estabeleceria uma ditadura sobre o povo alemão?

O Pacto Social se dissolve, porque falhou em fornecer a cada indivíduo segurança, prosperidade, liberdade. Uma sociedade sadia vai se organizar com o fundamento do trabalho honesto de seus membros, e garantir a cada um, cumpridor de seu dever, saúde, educação, possibilidade de ascensão social.

Quando este Pacto Social falha, em seu lugar surgem os grupos combatentes. Cada qual quer se apossar do Poder para garantir aos seus membros uma situação de privilégio face ao resto da sociedade.

Querem se constituir como senhores sobre escravos, e temem serem feitos escravos por outros senhores.

A fidelidade ao seu grupo passa a ser mais importante do que os valores sociais.

O membro do grupo pratica depredação, roubo, agressão, assassinato? Mesmo assim se vai defendê-lo. A mesma tolerância não será exercida se o culpado for alguém do outro lado. Muito pelo contrário. Para o outro lado o sentimento é de ódio, vingança.

A maior vítima, está claro, é o império da lei. Mas este só prevalece quando se confia no Pacto Social. E, aqui, as situação é justamente de dissolução deste Pacto.

Na Alemanha, pré-Hitler, derrotada na Primeira Guerra Mundial, sofrendo de hiper-inflação, o Pacto se rompeu.

No Brasil atual, livre de guerras, pelo menos externas, enriquecido pela elevação de preços dos produtos primários que exportamos, o Pacto se rompe.

O que explica esta diferença aparente entre os países, trazendo os mesmos resultados? É a descrença da população em sua capacidade de sustentar um Pacto Social que garanta as mesmas oportunidades para todos.

Ao contrário do pensamento de Marx, não são as bases materiais que importam. É o espírito, é o modo subjetivo das sociedades interpretarem suas condições históricas.

A sociedade que perdeu a esperança de lutar por manter um Pacto Social garantidor de cada indivíduo está pronta para a Guerra Civil, está pronta para a Ditadura. Behemoth e Leviathan.

Nesta sociedade, é a coisa mais imbecil falar em direitos, em leis, em respeito aos indivíduos. É coisa de um alienado, na melhor das hipóteses, na pior, de um ardiloso hipócrita que busca enfraquecer a vontade dos companheiros em armas.

Pois não vemos todos que a corrupção impera, que se gastam milhares e milhões em mordomias, em passagens aéreas para os senadores passearem de férias, carregando famílias, namoradas e amigos, tudo pago com o dinheiro público, está claro, e se emprestam, a fundo perdido, bilhões e bilhões para os amigos, felizes financiadores de campanhas?

E como se vai falar em Pacto Social diante de tudo isto, como se vai falar em garantir Saúde e Educação para todos?

O mundo, como se vê, continuam estes, é dos mais espertos. O mundo é dos mais brutais, dos mais decididos, dos mais sem escrúpulos. E, se o mundo é assim, de nada adianta falar em Pacto Social ou algum outro nobre nome para algum ideal vazio. Importa, sim, jogar o jogo, ser o mais brutal, o mais decidido, o mais sem escrúpulos, e conquistar o Poder para garantir a sua parte.

E assim, voilá, eis uma sociedade preparada para a Guerra Civil, preparada para a Ditadura. Behemoth e Leviathan.

Eis o caminho aberto para se reunir uns em oposição a outros, nazistas contra judeus, nós contra eles, quaisquer que sejamos nós, quaisquer que sejam eles.

Porque se consegue maior coesão interna quando se tem um inimigo; porque é mais fácil ter um inimigo quando o despersonalizamos; porque um batalhão, envolvido numa guerra, tem mais chances de vitória se permanecer coeso.

Eis o caminho aberto para os campos de concentração, e as execuções em massa.

Porque não são propriamente pessoas, estão mais para coisas, pior, inimigos.

Tudo isso começou quando se perdeu a esperança de construir uma Cidade Justa, de se ter um Pacto Social eficaz, e se passou a almejar o Poder como dominação de um grupo pelo outro. Senhores e escravos.

Behemoth e Leviathan.

 


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Gênese

Então, não terei nascido
num Jardim do Paraíso?

Um mundo das sensações
apreendidas na minha pequena mente?

E a certeza de que para cada habilidade,
haveria um lugar bom neste mundo de Deus?

Então, não terei vivido uma Queda,
uma triste expulsão daquele mundo feliz?

Então, não terei vivido um longo exílio,
uma longa noite, até meu Mestre chamar?

Até ouvir sua doce voz...
Até ouvir sua doce voz...

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Da Estética?



 


Aquilo que se admira de coração, de verdade, isto é, sem obrigação ideológica de admirar, é aquilo que é bem feito.

Aquilo que exige tempo, e esforço, e trabalho, e compromisso, e talento, para ser produzido.

Um ideólogo pode negar valor a uma obra clássica, uma estátua de Atenas, um quadro de Leonardo, uma estátua de Michelangelo.

Mas não pode negar que aqueles homens que elaboraram esta arte o fizeram por meio de árduo trabalho, longas horas de estudo, desde a mais tenra infância, com firme competição entre os talentos.

Tudo isto que o neo-ideólogo abomina. O ideal para ele é negar o valor para as coisas elevadas. Tudo fruto de uma terrível conspiração programada para fazer o seu pobre umbigo se sentir mal.

Um Beethoven, um Mahler, um Mozart, um Bach, nada disso é capaz de inspirá-lo. Não compreendem, então é sinal de que merecem ser destruídos. O mundo tem de se nivelar aos seus estreitos horizontes.

É o pensamento do troglodita, persistente no ser humano. O pensamento de tribo, florescente onde há pouca cultura, onde a vida é uma guerra contínua, todos contra todos, homem lobo do homem.

Estou pensando na gangue armada de metralhadoras que tomou o poder no Afeganistão, por exemplo. Os talibãs, extremistas, violentos, intolerantes.

O que mandaram fazer? Explodiram estátuas de Buda, milenares, gigantes, um símbolo poderoso do valor do homem, fornecendo, no ato, um símbolo poderoso da degradação, do homem.

Uma Roda que gira...

Não estou dizendo que o mal esteja na crença muçulmana, que equivaleria a dizer que todo muçulmano é um violento tarado, um perverso, o demônio, ou qualquer pensamento do gênero fascista/nazista.

Afinal, não se pode esquecer de seus congêneres históricos, por exemplo, o fanatismo nazista, tomando de assalto um povo de tão fundas conquistas civilizacionais, como o alemão.

Não promoveram os nazistas suas queimas de livros? Seus campos de concentração?

E o fanatismo cristão, não promoveu sua queima de livros, sua queima de corpos, suas fogueiras da Inquisição?

E tanto homem bem falante não defende com elaborados argumentos este pensamento de ódio, este desejo de destruição?

Repousa na Natureza Humana, e se não se limpa o Jardim, viceja como erva daninha, toma conta do lugar, transforma tudo numa terra amaldiçoada, contrária à Natureza Humana...


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Trânsito que mata – soluções



Cada quilômetro de cada rodovia, de cada rua, de cada estrada de chão, de pedra, de asfalto, de paralelepípedo, precisa ser cuidado.

E esta atribuição não pode pertencer a algum ente abstrato: o Governo, a Autarquia, a Secretaria de Trânsito, a Sociedade, ao Coletivo, ou qualquer outra generalidade.

Precisa ter o cuidado entregue ao sr. Fulano de Souza, ou à sra. Beltrana de Oliveira.

É deste senhor, e desta senhora, que se vai cobrar contas pela repetição de acidentes.

Claro, caberá aos órgãos de trânsito, a elaboração dos regulamentos, como já fazem, e até demais, embora não façam a única regra que tornaria inútil uma infinidade de regras: a regra de atribuição de responsabilidade.

Então, cabe ao sr. Diretor do órgão de trânsito (Secretaria, Ministério, o nome não importa), fazer a atribuição de cuidados de cada quilômetro de caminho público sob sua competência.

E, se não o fizer, a responsabilidade é sua.

E ter cada trecho monitorado, atribuído a um funcionário, ou a um grupo, que terá as responsabilidades:

1 – de coletar e apresentar dados de ocorrências (acidentes, deslizamentos, capotagens, etc);
2 – de com estes dados em mãos providenciar os meios de prevenir estas ocorrências.

Simples, e lógico, mas longe, terrivelmente longe da nossa realidade.

Em que se pensa que se pode prestar um serviço público sem atribuição de responsabilidades, como se caísse do céu a solução mágica...

Como se fosse possível abdicar do esforço, e da honestidade, e ainda assim viver numa sociedade sadia, justa.

É simples. Mas depende de luta para alcançar.

Trânsito que mata n. 450

Vidas de animais, se é o que merecemos

Merecemos isto?

Esta inconsciência, este holocausto?

Aceitaremos indiferentes enquanto nos ceifam a vida, a vida de nossas crianças?

Esta irresponsabilidade, esta omissão...

Viver sob o terror da morte, esta anarquia.

Não temos Príncipe que nos traga a Paz, estes arremedos de Reis, muito preocupados com seus bigodes, com seus cabelos.

Enquanto as mortes violentas ceifam as vidas de milhares, ceifam as vidas de milhões.

Um trânsito que sozinho cobra 60 mil vidas todos os anos.

Fora as vidas mutiladas, as vidas entrevadas numa cama de hospital, a cachoeira das lágrimas.

Isto enquanto alguma autoridade fatura uns por fora, e vem à televisão dizer que tudo está indo muito bem, o melhor dos mundos possíveis... reduziu, em seus dez anos frente à pasta, muito regiamente pagos, obrigado, de 0,1% para 0,2, ou 0,3, eu não me lembro, mas que o trabalho está só começando, e faltam muitas verbas, está claro, mas tudo está melhorando, e tudo vai melhorar.

E assistimos impassíveis, porque é tudo assim mesmo.

Entrega-se um país, por esta falta de lutar, entrega-se um país...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Repetindo o que já deu errado



Sensação angustiante, no Brasil, é o da repetição de tragédias.

Chuvas provocam estragos catastróficos. Cidades alagadas, desabrigados, na casa dos dezenas de milhares, muita perda econômica, destruição, muita perda de vidas.

Aonde foi isso, desta vez? No Espírito Santo, de novo. E também no norte do Estado do Rio de Janeiro, e também na cidade do Rio de Janeiro, e também na baixada fluminense.

Em uma cidade de Minas, em uma cidade da Bahia.

E em Búzios, duas horas de chuva forte, e a cidade ficou alagada.

Tudo isto demonstra a incompetência, tudo isto demonstra a corrupção, como chagas na cara do Estado brasileiro.

Mas tudo isto não vai mudar tão fácil, não vai mudar tão cedo...

Vamos mudar de assunto, vamos ver o que de mais importante tem na televisão...

Esperar a notícia feliz, esperar os esportes.

Está certo, ninguém pode viver contando mágoas.

Mas ninguém deveria dormir antes de buscar algum meio, o seu meio, de mudar o Estado brasileiro.

Porque, a alternativa, é ser conivente com a corrupção, e com todas as tragédias decorrentes.


Prêmio Inovare n. 2



Diante da triste constatação da realidade de nosso país, em que roubos, ou, eufemisticamente, “desvios” de milhões e bilhões de dinheiros públicos permanecem impunes, diante das notórias incapacidades da nossa Justiça para punir nossos poderosos, uma necessidade de reforma se impõe.

Ou se reforma, ou se continua a ter a corrupção institucionalizada em território nacional. Tertium non datur.

Por isso, diante desta imperiosa necessidade, faço esta modesta proposta:

Nestes casos rumorosos, neste caso de desvios milionários de verba pública, e em outros casos selecionados, casos de repercussão, assassinatos por organizações criminosas, após os julgamentos de praxe, previstos na lei processual, que depois de um tempo, digamos, um período de cinco anos, para “assentar a poeira”, que um outro Tribunal, de um outro Estado, ou de outro grau de jurisdição, possa julgar o julgado, isto é, julgar o processo, a atuação dos envolvidos, partes e Poder Público, para um veredito sobre aquela atuação.

Por quê? - me perguntam. E eu respondo: porque do jeito que está os julgadores sentem-se demasiado à vontade, demasiado sem controle, para decidirem qualquer coisa, e não haver qualquer consequência, ou mesmo possibilidade de consequência.

E isto não é uma situação republicana.

Em uma República, é preciso haver prestação de contas, por todos, e principalmente, pelas autoridades.

Não desconheço que em outras práticas políticas, em outros tempos e lugares, teorizava-se que o Rei devia ter um Direito Divino, e responder apenas ao Criador. Logo, não devia respostas aos seus súditos.

Porém, proclamamos em nossa Constituição que não somos assim. Proclamamos que somos uma República, e que o Poder emana do Povo.

Então, o servidor público, o juiz, o promotor, o delegado, deve prestar contas ao público, e isto não é subversivo. Isto é o estrito cumprimento da lei deste povo, da Lei Maior, a Constituição Federal.

Claro que eu sei que acharão horrorosa esta proposta, mas estes serão os conformistas, os defensores do status quo.

Os que desejam que acabe este roubo, esta corrupção, quem acha esta situação nojenta e insustentável, vai desejar que a República seja fortalecida, e que a confortável dispensa de assumir com suas responsabilidades, por parte de algumas das nossas elites, receba um basta.

Pensem bem: hoje, estão muito seguras de não perder nada, de manter um salário médio de cerca de 40 salários, mais assessores, motoristas, seguranças e mordomias. Nas altas Cortes, então, nem se fala.

Hoje, não existe um estrito controle para cobrar celeridade, sequer punição por deixar prescrever casos, deixando por anos processos perdidos dentro das gavetas, processos importantíssimos, crimes de desvios de medicamentos.

Nada acontece, nada de nada.

Quando existem provas contundentes, gravações da Polícia Federal sobre venda de sentenças, são premiados com uma aposentadoria compulsória.

O processo criminal vai correr em paralelo, mas este vai cair no mesmo sistema, em que decisões levam décadas, literalmente, e ainda vai caber outro recurso.

Ou seja, para esperar punição, nestas altas esferas, é uma em um milhão, uma, porque deu muita sorte, um caso excepcionalíssimo.

O resto, a grande maioria, vai para a vala comum, processos anulados por uma decisão lá de cima, anos de investigação jogados fora.

Porque faltou uma vírgula, de alguma das milhões de leis que temos. É muito fácil escolher. Advogados de defesa com honorários milionários vão lembrar muito bem de milhões destas vírgulas.

Este é o sistema judiciário que temos. Infelizmente.

Um sistema que não tem pena de manter cadeias desumanas, cadeias que são escolas de crime, cadeias dominadas por quadrilhas perigosíssimas, cadeias lotadas muito além da capacidade, em que prisioneiros recebem comida de bicho, são torturados e decapitados, e tudo isso a merecer não mais do que discursos protocolares das autoridades.

E um sistema que, ao mesmo tempo, oferece milhões de garantias e recursos para que envolvidos em crimes de altas esferas jamais precise se preocupar em ouvir bater o martelo, com uma condenação definitiva.

Gente que circula com dinheiro (milhões) na cueca, gente flagrada com pilhas de dinheiro em cima de uma mesa.

O que é que acontece?

Nada, literalmente nada. Continuarão em altos cargos públicos, continuarão empregados por nossos poderosos, até recebendo salários pagos com nossos tributos.

E continuarão comandando a liberação de verbas, os contratos públicos, os grandes negócios.

Então, quem acredita em República, quem acredita que ninguém pode estar acima das leis, quem acredita que todos devem ser iguais perante a lei, quem acredita em democracia, quem acredita que o servidor público deve prestar contas ao público, e quem acredita que um país de respeito não se faz com corrupção e impunidade, deve apoiar a reforma que faça pender uma dúvida no coração do corrupto. Que o faça pensar que o seu ato poderá ser julgado, e que poderá ser punido.

Por isso: outro grau de jurisdição. Que o julgamento daquele processo seja julgado.

E se a polícia coletou mal as provas, que seja apontado, e punido.

E se o juiz, ou o Ministério Público, deixou o processo dormir na gaveta, e ele prescreveu, que seja punido.


Para que as práticas se apurem, e não se perpetue a impunidade.

Para que um país possa viver, afastado de seus velhos vícios.

R.I.P. Nelson Mandela



“Para ser livre não basta abandonar as correntes, mas viver de uma forma que respeite e aumente a liberdade dos outros.”

“Quando um homem faz o seu dever, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e, por isso, dormirei pela eternidade.”

“Um homem que tira a liberdade de outro é um prisioneiro do ódio, ele está preso por detrás das grades do preconceito.”

“Um país não deve ser julgado pela maneira como trata seus cidadãos de escalões mais altos, mas por como trata os de escalões mais baixos.”

“Descobri que não podia desfrutar as liberdades medíocres e limitadas que me davam quando eu sabia que o meu povo não estava livre.”

Pensando Hitler

Se isto é um homem -
 
"Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara." 
 
(Primo Levi, tradução de Simonetta Cabrita Neto)



Hitler foi um monstro? Ou Hitler foi um homem?

É fácil desumanizar o inimigo. Odiar, é fácil.

O caminho largo. Mas foi dito: atravessai o caminho estreito.

Foi dito: Amai o inimigo.

O inimigo é o bode expiatório conveniente.

Há problemas no mundo. Sempre os há.

Há injustiça. Há miséria.

Os tempos são sempre difíceis.

Há muitos motivos para sentir-se mal, infeliz.

Há muitas justificativas para odiar.

Todos se sentem possuídos por iras santas. Todos estão possuídos pela fé dos fanáticos.

Sentem-se cobertos de razão. Sentem-se plenamente justificados para empunhar um rifle, ou uma foice, ou um martelo, ou uma corda, e promover um linchamento ali mesmo, na rua.

Pode ser o judeu dos nazistas, ou o fazendeiro dos comunistas, ou o negro da Ku Klux Klan.

Pode ser o muçulmano do cruzado, ou o infiel do jihadista.

O que reúne qualquer fanático é a disposição de “limpar o mundo”, ou “tirar o mal do mundo”, promovendo alguma execução pelas ruas.

Enforcando. Amarrando num poste e tacando fogo.

Ou pregando numa cruz.

O Regime do Terror, no qual se compraz o baixo instinto do homem.

Também não precisa ser uma morte tão literal. Pode bastar a intenção, o virar as costas.

Pode ser uma morte social, proscrever do círculo.

Negar a comida; negar o trabalho; negar o apoio.

Deixar caído pela rua, entregue à própria sorte.

Afinal, devia ser um dos que mereciam mesmo sofrer, não é mesmo? Um dos judeus, um dos negros, um dos infiéis, um dos muçulmanos...

É uma lógica tão terrível...

Era um dos drogados... um dos garotos de rua... um dos pivetes...

Era um mal encarnado.

Era um desumano.

Era Hitler?

E não se percebe, que transferindo o mal para fora de si, apaga-se a consciência do mal interior. Deixa-se de estar em guarda contra ele.

Os perseguidores, os desumanizadores, vão se tornando outros tantos pequenos hitleres. Trágica ironia!

Os que queimavam bruxas e demônios tornavam-se bruxas e demônios eles mesmos... Tornavam bem reais aquelas cenas de infernos que atormentavam suas mentes, e que julgavam combater!

Enquanto que, se pudéssemos sempre enxergar nossos companheiros homens como homens, negaríamos sempre a possibilidade de campos de concentração e holocaustos.

Negaríamos sempre roubar uma infeliz família, tirar-lhe o teto, tirar-lhe o pão, tirar-lhe as roupas, e enviá-la para uma triste morte, separada dos seus, explorada até virar um triste esqueleto, e aí ser eliminada.

E tantas forcas. E tantas cruz.

E paredão de fuzilamento.

Hitler, o pobre louco infeliz... Por que não podemos simplesmente reconhecê-lo?

Por que temos de idealizá-lo como um deus? Temê-lo, e odiá-lo, como a um demônio?

O Poder, com o qual permitimos que se investisse, é que produziu a fatal ilusão.

Sem Poder, seria apenas mais um infeliz idiota.

Com Poder, travestiu-se com todas as Glórias, e com todo o Opróbrio na hora da Queda.

Com o Poder, o patético espetáculo da camarilha dos puxa-sacos, podendo jurar que cada palavra do Grande Líder é um sinal de uma suma sapiência! Chegando a tirar a própria vida, pelo Grande Líder, em alguns casos de fanatismo mais extremo.

Para tirar as vidas alheias, nem precisa ser tão fanático...

E o outro lado da moeda deste exagero, está claro, é ver em Hitler algum monstro, demônio...

O que permite que se dê de ombros, fatalisticamente: “Nada podemos fazer; é algo de sobrenatural, as portas de algum inferno se abriram e nos enviaram esta praga”.

E que se perca a chance de perceber que era apenas um homem, recheado de poderes.


E, que se não pudesse se rechear de poderes, permaneceria sendo apenas um homem, particularmente ridículo.

E o melhor: não se teria motivos para abjetamente bajulá-lo, ou temê-lo, ou odiá-lo.

Poderíamos rir na cara dele quando viesse com discursos malucos, e puxar seu bigodinho, e despachá-lo com um pontapé na bunda...

Mas aí, claro, teríamos conquistado nossa dignidade de homens.

E o Holocausto não teria acontecido.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Dinheiro do BNDES


Quando leio que o BNDES distribuiu, em 5 anos, 300 bilhões de reais, concentrando grande parte de tais bilhões nas mãos de alguns poucos escolhidos, percebo o quanto estamos distantes de uma sociedade justa.

Vamos discutir sobre coisas mais importantes, futebol, carnaval, algum programa estúpido na televisão. Pode não ser mais importante, mas pelo menos não dá a frustração, o desânimo, de falar sobre a realidade injusta que parece imutável neste país.

Parece além de qualquer discurso, esperança, e, em assim sendo, de que adianta ficar falando dessas coisas? Vai dar por único resultado prático gastura, azia, má digestão, e vai conduzir a uma morte prematura.

E assim ficamos onde estamos, assistindo calados, de braços cruzados, enquanto alguns poderosos, alguns espertalhões, enfiam bilhões e bilhões nos bolsos, nas malas, nas meias, nas cuecas, e onde mais der pra entuchar tanto dinheiro... devem engolir, também, as cédulas, empurrá-las pelas gargantas com uísque 16 anos...

O próprio dinheiro que serviria para tornar este um país digno, usado para nos tornar um país de otários e de espertos, um país de vítimas e pilantras.

Dinheiro há. 300 bilhões, só pelo BNDES, e em apenas 5 anos.

E onde está este dinheiro? O gato comeu; o frigorífico levou; o Eike torrou...

 

Os nossos empresários campeões, escolhidos por nossos sábios governantes intervencionistas, sob as mais rigorosas normas técnicas, como diz o manual da conversa fiada, decorado por cada porta-voz, por cada atendente, em cada repartição pública.

É tanta sabedoria, tanto pensamento de iluminados, que não nos cabe sequer tentar compreender. O que dirá criticar!

Somos baixos demais para isso; devemos ser por demais materialistas, cartesianos, deterministas... Quem sabe até, argh!... , uns pobres de espírito neo-liberais, a quem não é dado alcançar os grandes bens que nossos governantes fazem...

Devíamos calar a boca e ser mais agradecidos, quem sabe até não ganhamos um qualquer dos nossos benfeitores?

Enquanto isso, dois sujeitos dispostos, trabalhadores, que pensarem em comprar uma caminhonete para começar um negócio de mudança não terão o capital de que precisariam para começar o negócio. Digamos: 10 mil.

Quem sabe, ao invés de trabalhar, se contentarão com uma Bolsa-Esmola?...

Iguais a estes dois sujeitos hipotéticos, quantos mais não poderiam se beneficiar dos 300 bilhões do BNDES, se estes recursos fossem divididos em cotas de 10 mil?

Nem precisa fazer a conta, eu digo pra vocês: 30 milhões de empréstimos de 10 mil, isto daria.

30 milhões de investimentos sendo feitos, de acordo com as capacidades e preferências de cada um dos tomadores do empréstimo. Ideias não faltam, disposição para o trabalho também não.

O que falta é o acesso ao dinheiro, de acordo com uma curiosa equação: uma vez que não falta para 1 bilhão, faltará para 1 mil.

Quantos pequenos negócios sendo iniciados, sendo tocados, quantos empregos gerados, quanto dinheiro circulando, se estes 30 milhões recebessem seus 10 mil para dar um rumo na vida! E quanto de esperança, quanto de sagrado suor para fazer este investimento render!

E nada de mão beijada, não senhor! Um empréstimo a ser quitado, em prazo razoável, habilitando o tomador a novos investimentos, um pouco maiores, e liberando novos recursos para novos candidatos aos empréstimos...

Novos investidores contribuindo para construir o país, através de seus esforços, através de seus talentos.

E se algum deles quebrasse, o que há de ser feito? Pelo menos, era pouco dinheiro, e estava bastante distribuído. Muito melhor do que naufragar um negócio de 10 bilhões.

E, sem que perguntas fossem feitas, sem soltar os cães, mas o tomador inadimplente ficaria impossibilitado de novos empréstimos, até que sua dívida fosse quitada. Simples e justo.

Mas claro que não pode ser nada assim, não podendo faltar o bilhão para algum gênio dos negócios, que também calha de ser, coincidentemente, um ótimo financiador de campanhas! Sabe como é, uma mão lava a outra...

E também não pode faltar o bilhãozinho para o filhinho do cara, e seus amicíssimos sócios nas empresas de fachada.

E, porque não falta o bilhão para a sacanagem, faltará o milhar para as coisas boas.

Parasitismo


Estimula-se, no povo, o demandismo.

Uma profusão de leis, uma profusão de índices de reajuste. É fácil encontrar algum índice, algum reajuste, alguma queixa, alguma obrigação pra reclamar em tanta papelada, em tanto palavrório.

Todos se pensam, se sentem, detentores de miríades de direitos, inúmeras obrigações a serem prestadas às suas ilustres pessoas.

No fundo, o que pedem, o que anseiam, é viver encostados com favores. Querem um Paizinho, ou uma Mãezona, para lhes dar salários, mordomias, mordomos, motoristas...

Os bebezões chorões, os velhos sem pudor ou respeito próprio...

Seguranças particulares, pilotos de helicóptero...

Claro, para quem pode muito. Mas, se não dá pra ser um bocão, tem de ser uma boquinha...

E todos querem ser dependentes do Estado, receber tudo mastigadinho, na boquinha...

Classe de dependentes, de parasitas.

Aqui, é ideal de grandeza! É sinal de que se deu bem, se arranjou na vida... quanto mais conseguir sugar, mais será respeitado...

Tristes plagas, estes tristes trópicos...

Estes tristes, semiviros, conformados, apatetados, cínicos, brutais, assustados, vergonhosos, parasitas.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Filosofia Política

Hollis Brown he lived on the outside of town...
- Bob Dylan, in Ballad of Hollis Brown

Lendo “É isto um homem?”, de Primo Levi, sobre os horrores do campo de concentração nazista, parece que a primeira tarefa da Filosofia seria pensar os meios de evitar os horrores, o horror nazista e os horrores que se apresentam sob diferentes formas.

Por quê? Para evitá-los, o que seria, se alcançável, a maior realização humana, aquela que mais honra e glória trariam à nossa pobre espécie, perdida num vale de lágrimas, mas com o divino a espreitar do fundo de horrores.

Como dizia Pascal a respeito do homem, ser intermediário entre dois infinitos, infinito grande, infinito pequeno.

Dois vórtices, duas vertigens, o bestial e o divino, e o pobre homem flutuando entre eles.

O amor mais puro, a abjeção mais indizível.

Entregue a um lado, parece cair no seu oposto!

O delírio da grandeza inspirando massacres de crianças! Organizando Auschwitzes!

E ao mesmo tempo, quanta grandeza, combater para que não haja crianças sofrendo! Combater para que não haja Auschwitzes...

E, se vitoriosos, quanta imensa glória!

E, mesmo que não haja vitórias, existe vitória em simplesmente lutar.

Uma morte na cruz, mas que seja pela causa certa!

Quanto ao resto, o Senhor providenciará.

Mas, quanto opróbrio, quanta baixeza, se se recusa ao combate, se ao menos se tenta...

A filosofia parece perdida, parece vencida, porque perdeu o Ideal; porque não pôde sustentar sua validade e valor, diante dos argumentos do outro lado:

materialismo, riquezas;

a certeza de que a vida é o que vale, ainda que uma vida covarde.

a certeza de que se vender por uns tantos cobres é um ótimo negócio, é tudo que vale.

Conformar-se, é entregar-se.

Silenciar, aceitar.

Deixar que decidam, tristes Auschwitzes, e os novos crucificados.

Saqueados, abusados, despojados de tudo, despojados da vida.

Só não é pior que a situação de quem assentiu a tudo isto.

"Foi assim que morreu Emilia, uma menina de 3 anos, já que aos alemães configurava-se evidente a necessidade histórica de mandar à morte as crianças judias. Emilia, filha do engenheiro Aldo Levi de Milão, era uma criança curiosa, ambiciosa, alegre e inteligente. Durante a viagem, no vagão lotado, seus pais tinham conseguido dar-lhe um banho numa bacia de zinco, em água morna que o degenerado maquinista alemão consentira em tirar da locomotiva que nos arrastava para a morte.

Assim, de repente, à traição, desapareceram nossas mulheres, nossos pais, nossos filhos. Praticamente ninguém teve como se despedir deles. Ainda os vimos um tempo, massa escura no fim da plataforma; logo depois, não vimos mais nada."
 - Primo Levi, in "É isto um homem?"

O Radicalismo

Está claro que toda opinião radical não é capaz de contribuir para o desenvolvimento de uma filosofia política voltada para o interesse concreto do homem.

Ao contrário, ela se insere no número dos inimigos a serem combatidos.

Toda opinião que concorda com crimes cometidos contra seres humanos não é para ser considerada opinião amiga de quem defende o fim dos crimes contra a humanidade. Questão de lógica.

Não precisa ser considerada no nobilíssimo debate sobre “Quais as melhores maneiras de alcançar o bem político do homem?”. O nobilíssimo debate fixado, no lado ocidental, pelo formidável “A República”, de Platão.

No lado oriental, o formidável “Analectos”, de Confúcio.

E, claro, nas grandes tradições humanas, seja em Israel, ou no Egito, ou na Índia, ou mesmo, por que não, em Babilônia?

Todas foram experiências humanas, a serem aceitas, e observadas, mesmo no que podem nos ensinar seus aspectos mais negativos, e que tanto sofrimento trouxeram.

Negá-las é também uma forma de negar sentido e valor ao sofrimento humano, por consequência, ao próprio sofrimento.

Para que tantos foram mortos, em Auschwitz, ou na Sibéria, ou na Babilônia e no antigo Egito?

Se não puderem nos ensinar ao menos uma lição, para que emendemos nossos caminhos, façamos a coisa certa, estaremos negando sentido, fazendo de todo o sofrimento uma experiência vã.

Faltando com o respeito, aos nossos mortos, aos nossos vivos, e a nós mesmos.

Repetindo os velhos erros; dando-lhes nossa anuência; prestando nossa reverência; aceitando-os, nos nossos espíritos; sendo conivente com eles; ajudando-os; favorecendo-os.

É isto que faz o radicalismo, o fanatismo, que nega o humano, e se prende em abstrações.

“Matamos milhões, nada melhorou? Mas dessa vez vai dar certo! Dessa vez mataremos os milhões CORRETOS, isto é, os primeiros infelizes que tiverem a desgraça de cair em nossas mãos inclementes, em nossas gargantas sedentas de sangue... e desta vez vai dar certo...”

Todos os que sonham sangue, os que não querem compromisso, os que preferem eliminar a ter de conviver...

Em que poderão ajudar na construção da Cidade Justa?

O fim de uma menina de seis anos, queimada dentro de um ônibus, ateado o fogo por criminosos


2014 não trouxe mudanças ao país. Apenas um número num calendário, por que traria?

A mudança quem tem de trazer somos nós, povo brasileiro.

Mas não nos mexemos, e o que é que podemos esperar?

Mais do mesmo, sempre mais do mesmo.

Mais do mesmo massacre, massacre dos inocentes, apenas, eventualmente, um episódio, como este agora, mais chamativo, mais violento, mais bizarro, mais grotesco, mais torpe, para nos sacudir um pouco do nosso torpor, levantar algumas vozes indignadas, mas isso passa.

Não mudamos, e nos condenamos a repetir um eterno ciclo.

Apenas a dor das famílias não passa, e o medo e ódio, difusos na alma de cada brasileiro.

Enquanto houver a insensibilidade e o abuso dos nossos poderosos, “lá de cima”, gerando a insensibilidade e o abuso dos poderosos “aqui de baixo”.

Não se iludam!

Um é o reflexo do outro, ambos apostando na impunidade, escondendo-se por detrás da desordem que impera no país, beneficiando-se do estado de ignorância e conformismo em que vegeta um povo.

Pois qual é a diferença entre a criança que morre pela mão do criminoso, e a criança que morre porque o dinheiro foi desviado, ou roubado, e ela ficou doente porque não tinha o saneamento no lugar em que morava, e ela foi pro hospital, mas não tinha o médico, ou o medicamento?

Enquanto houver a cultura do privilégio.

Terminará ano, começará ano.

E o massacre continua.