segunda-feira, 20 de julho de 2009

Pânico na TV

Da série: "Humor para enfrentar a crise": a quase inacreditável entrevista de Marília Gabi Gabriherpes com o Presidente Molusco, no Pânico na TV http://www.youtube.com/watch?v=S_l-FQf_PFM

E vivam os bobos da corte, autorizados a falar verdades, protegidos pelo manto da loucura.

"Ele não sabe leeeerrr, ele não sabe escreveeeerrr, ele não sabe conjugaaarrr..."

sábado, 11 de julho de 2009

Hurricane - Bob Dylan

http://www.youtube.com/watch?v=9tL_2hjVObA

Uma boa versão ao vivo deste clássico do Bob Dylan. Legendada em português por um brasileiro. Detalhe: na parte em que os tiras dizem que querem pregar o triplo assassinato nas costas do "Hurricane", eles justificam dizendo (no original): "He is no gentleman Jim", ou seja, Hurricane não é nenhum membro da aristocracia, nenhum cavalheiro, gentil-homem. O nosso brasileiro fez uma boa adaptação, traduziu: "Ele não é nenhum deputado". Freud explica.

Tem um bom filme sobre a história do Hurricane, em português, "Hurricane - O furacão" (EUA, 1999), dirigido pelo veterano Norman Jewison, e com Denzel Washington no papel título, em atuação que lhe valeu indicação ao Oscar.

Cotação do filme: **** (muito bom)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Elites

O Brasil parece sofrer de uma triste falta de elites, “elites”, no melhor sentido da palavra. Falta de uma elite de valor, com um compromisso bem claro na cabeça: fazer com que o país melhore, fazer o bem aos seus semelhantes. Um compromisso ético: não praticar o mal, não permitir que outros o pratiquem. Uma elite com o compromisso com o trabalho, com compromisso com a honestidade, com o compromisso do estudo. Com o compromisso de cobrar como direito, não seu, mas DE TODOS, que os governantes se pautem com correção, com decência, e também o amigo, e o vizinho, e o próprio filho.Esta ausência de elites se explica de muitas formas: uma falta de nível educacional geral, as poucas elites de aprendizagem que se formam ficam isoladas na massa geral, não têm contato, não se mobilizam; uma certa falta de definição de valores clara, uma certa permissividade diluída no ar, uma certa confusão entre o que é autoridade e o que é autoritarismo, uma certa melancolia e desesperança “com tudo isto que está aí”.Pode ser também a cultura que se formou sob o signo da escravidão, por muitos anos em nossa curta e acidentada História ela esteve instalada, horrível chaga; e isto fez gerar uma sociedade dividida e desigual, nós somos “nós” e “eles”; casa grande e senzala. E mais um estatismo ibérico, mais uma colonização para explorar renda, quanto mais rápido e mais fácil, melhor; corrupção e exploração, são só outros meios de se conseguir o que se busca.Então, temos tantas “elites”, que não escrevem, não lêem, não sabem fazer contas, e não pensam; temos tantas "elites" que não se levantam pelo direito, não se indignam, não lutam; temos tantas “elites” que se corrompem, que aceitam “presentes”, que aceitam “jogadas”, que têm o rabo preso, que não explicam origem de dinheiro; temos tantas “elites” que discutem sexo dos anjos em universidades, que aceitam qualquer tipo de ditadura suja e explicação simplista, fórmulas mágicas que “explicam e resolvem” toda a realidade, e renunciam ao próprio pensamento crítico e livre, e não fazem NADA DE CONSEQUENTE E CONCRETO, para tornar mais justas as leis e as práticas da sociedade onde vivem.Isto tudo vai ter de mudar aos poucos, e não adianta, e nem é justo, entregar-se ao desespero. As verdadeiras elites não se entregam: fazem o bem que podem para a sua comunidade, organizam um hospital, organizam uma escola. Distribuem uma roupa, um alimento, ou um livro, criam um site para divulgar e investigar prestações de contas públicas. A verdadeira elite é composta de pobres, remediados e ricos. Estudados ou ignorantes: eles praticam o exemplo de amor ao bem e à Justiça, de admiração e respeito pelo sabedoria e pela honestidade; são generosos e gentis. Não estão com a cabeça em odiar, culpar ou perseguir alguém, mas muito satisfeitos e felizes preocupam-se em ajudar, com o tanto que sua força permite, a quem esteja próximo. E esta força permite tanto, esta força permite tudo.Embora não se possa esquecer nunca que o combate é de todo o dia. Não se pode perder nunca de vista a necessidade da indignação, e da reação, civilizada e consequente. Para os que chegam a praticar tudo isto, a colheita não se faz esperar; os frutos são colhidos a cada dia, e não faltam nunca. Cada pessoa que se atinja, se interessando por um livro, matando a fome, se livrando de uma doença, já é o próprio bem se espalhando em círculos. Muito embora a alma reconheça e sofra as limitações das contingências materiais, históricas. Uma vida humana passa rápido, e as mudanças necessárias, para serem sentidas numa grande escala, ultrapassam por vezes nossas vidas. E sempre experimentamos resistência, e sempre é possível o retrocesso. Conhecemos a História, e os horrores de guerras gálicas, e os horrores de Holocausto. Ou abrimos o jornal, e lemos barbaridades. Não importa, porque a esperança permanece tão pertinaz quanto a vida. Sócrates já experimentava tempos difíceis em seu tempo, mas deu-nos a grande lição que não envelhece: a coragem de aferrar-se ao bem traz a liberdade e a esperança. O que faz lembrar aquela frase enigmática: quem quiser salvar sua vida a perderá.Mas estou falando de elites, e de Brasil; e tento destacar que é imprescindível a qualquer país que se queira livre possuir uma elite de estudo, e de trabalho, e de moral, e que esta elite consiga atuar sobre leis e instituições deste país, para que se tenha uma sociedade justa.Não é um trabalho que cabe apenas a esta elite de doutos. A sociedade toda precisa encontrar o seu orgulho, conhecer o seu direito, e cobrar com justiça o que é justo. Mas caberá a esta elite, aos que se destacam, em cada área de trabalho, aos que se adiantam em estudo e conhecimento, refletir e viabilizar as soluções para a sociedade.Tomemos por exemplo os médicos, e o serviço público de saúde. É justo a sociedade pretender que haja, pelo menos (é uma questão de prioridades), um exame periódico, de acordo com a faixa etária, que alcance toda a população, e um atendimento rápido, nas emergências. E isto de qualidade, naturalmente, sendo os profissionais treinados para identificar, e combater, ou encaminhar, os problemas de saúde que os pacientes enfrentam, e que seja avaliado, objetivamente, o trabalho destes profissionais, e que utilizem métodos e exames pouco onerosos, QUE POSSAM SER ESTENDIDOS A TODOS, O MAIS IGUALITARIAMENTE POSSÍVEL.Se a sociedade quer firmemente isto, cabe a seus médicos, seus profissionais da área de saúde, chamar para si a responsabilidade, reunir-se, discutir, estudar, com a ajuda de estatísticas, de matemáticos, de administradores, para apresentar um plano de saúde pública que atenda estes ideais. ELES são os profissionais, ELES precisam ter o orgulho de exercer dignamente sua profissão, e de que maneira vão exercê-la dignamente, com orgulho, se a doença, a falta de cuidados, grassa pelo país? ELES têm de guiar, a sociedade toda tem de exigir, dos seus governantes, dos seus administradores, que sigam um plano traçado, que estenda o acesso à saúde igualitariamente, que não deixe nenhuma região, nenhuma população, desatendida, ou com médicos de menos, para os exames e procedimentos mais básicos.Claro que uma vez traçado o plano de atendimento à saúde, com base em pesquisa, com base em estudo, estatística, com base em treinamento, capacitação, orçamento, tudo isto terá de ser levado para votação de um Congresso que, presume-se, debateria cada aspecto do plano, perguntaria, trataria de evitar falhas, desperdícios, proporia, adaptaria, refletiria, e votaria, de acordo com sua consciência e convicção (ai-ai, e isto que era para ser tão natural e básico soa tão utópico).E os representantes do povo, em cada Estado, em cada Município, se informariam dos direitos à saúde de sua população, e exerceriam o importante papel de fiscalizar, cobrar, exigir, propor adaptações e mudanças, em nome de seus representados, sobre este plano nacional de atendimento à saúde, conforme a lei, e adequado às necessidades específicas de cada região. E cada cidadão cobraria também de seus representantes, e seria também informado de seus direitos, de forma simples e rápida, e inclusive dos procedimentos que poderia adotar para fazer uma reclamação, ou pedir um esclarecimento, ou cobrar, ou sugerir... tudo isto com a orientação e o apoio de seus representantes, e das estruturas do Estado, que reconheceriam nele um cidadão, detentor de direitos, e não um súdito, cujo “direito” é ser tosquiado e calar a boca. E deveriam ser previstos também os “testes de realidade”, das leis e sistemas. Com base em pesquisas, com base em metas, e estatísticas. Com base em um pensamento racional e pragmático. Humilde diante dos fatos. Para mudar o que não funciona, repetir e aprofundar o que dá certo, aprimorar, manter, cobrar, premiar...Neste quadro, eu destaco o papel dos médicos, dos profissionais dentro deste sistema, pois eles é que estão “por dentro” do sistema de saúde que ora comento, conhecem diretamente suas características. É de se reconhecer e valorizar o papel desta elite na solução do problema que a ela compete mais diretamente: prestar um bom serviço de saúde, cumprir bem o seu papel, como profissional da área, servir bem ao seu país, ao seu povo, ao seu semelhante, realizando aquela função de sua escolha, e, claro, ser valorizado por isso, ter uma boa condição de trabalho, ter os instrumentos, ter reconhecimento, estímulo...Mas parecemos bem longe disso, infelizmente. Parecemos não saber como cobrar, como fazer, salvo exceções, parecemos bem conformados com o absurdo e a loucura. Cada um garantindo “o seu”, como dá, briga de foice, desesperança, cinismo. Gente que finge que trabalha, gente com privilégios, outros se esforçando muito, mas sem estímulo, sem reconhecimento, sem perspectiva de melhora. É isto que eu digo que faltam elites, massa crítica para fazer a mudança, que atinja um nível nacional, que permaneça.Vou dar um outro exemplo, com advogados e juízes. Profissionais do direito. É justo, é direito, que a sociedade queira uma Justiça rápida, eficaz, previsível. Que os maiores crimes, que os maiores roubos, que os maiores desvios, recebam as maiores prioridades, que os conflitos sejam desestimulados, pela punição rápida, eficaz, previsível, dos maus pagadores, dos litigantes de má fé, dos chicaneiros.De novo, a elite que milita na área é que tem o papel fundamental de refletir e propor soluções que atendam esta demanda legítima da sociedade. Um plano que preveja prazos, e melhor divisão do trabalho, que evite ociosidade de um lado, e acúmulo de serviço do outro, que acabe com privilégios, e concentre os recursos onde são mais necessários.E de novo, sente-se a falta desta clareza de propósito, desta linha de ação, desta consciência, deste compromisso. Sente-se a falta desta elite que não compactue com seus próprios pares, se estes se mostrarem incompetentes ou indignos; que recusem privilégios e subornos; que demonstrem sobriedade, compromisso com o trabalho que escolheram, visão crítica e independente para enxergar-lhe as falhas, imaginação viva e coragem para realizar mudanças.
Não é tarefa fácil. Lembro de um dado que me impressionou no livro “Uma História do Brasil”, de Thomas E. Skidmore: “(...) Já em 1818, por exemplo, apenas 2,5% da população masculina livre em idade escolar era educada em São Paulo. Mesmo a elite não tinha oportunidades educacionais no Brasil além de uma abordagem altamente retórica do aprendizado que terminava na escola secundária (...)”. Mas, como dizia Cazuza, “o tempo não pára”. Sigamos junto com ele, tomemos as rédeas de nosso destino. E comprovemos aquela idéia, título de um livro de Marshall Berman, que nem conheço, mas eu gosto do título: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.
O tempo não pára, Cazuza http://www.youtube.com/watch?v=7AkEQM9AdEY

Tardes molhadas no Senado

Uma nota no Globo de sábado, 27.06.09, sob o curioso título de “SALA SECRETA: Espaço de Agaciel”, nos dá uma idéia de como estamos bem parados neste nosso “Brasil brasileiro”. Fala de uma escada entre o 2º e o 3º andares do prédio do Senado, nos fundos do antigo gabinete de Agaciel Maia, que não consta do projeto de Oscar Niemeyer, e que dá acesso a uma sala decorada com tapetes vermelhos e telão. Um dos vídeos exibidos ali tinha o sugestivo título: “Tardes Molhadas”.
Eu sei, eu sei, como disse nosso presidente, que um país com tantas coisas importantes como o Brasil não pode ficar perdendo tempo discutindo coisas menores. Mas é que Deus (e o diabo) moram nos detalhes. E uma “coisa menor” pode servir de símbolo, pode nos despertar do sonho, pode mostrar o rosto por trás da máscara, a face deformada e hedionda, desse Brasil das falcatruas.
Agaciel Maia, para quem não lembra, foi diretor geral do Senado por 14 anos, tendo sido afastado em março, depois que se descobriu que ele não declarou à Justiça a propriedade de uma mansão avaliada em R$ 5 milhões. Um assalariado, mesmo com os salários polpudos e super-faturados do Senado, vai ter de rebolar bastante antes de juntar R$ 5 milhões pra comprar uma casa. É só fazer as contas: digamos, chutando os números pro alto, que o sujeito receba R$ 20 mil, líquidos, todo mês. Se ele não gastar nem um centavo com coisa alguma, ele vai levar 19 anos e uns quebrados pra comprar a casinha, já estou incluindo os 13ºs. Mas isto é outra coisa menor, nada que espante muito, neste nosso Brasil que cansa de ver PMs que ganham mil reais circularem em carrões importados, dentre “otras cositas” do gênero.
No Senado, então, em que tudo é superlativo, Agaciel estava apenas mantendo um padrão de vida condizente com o cenário ao redor; o Senado tem, para 2009, orçamento de R$ 2,75 bilhões; só com pessoal, vão R$ 2,3 bilhões; funcionários, são mais de 10 mil, 3,4 mil concursados, 3,1 mil comissionados, e 3,5 mil terceirizados. Tudo uma grandeza, tudo um espanto, pra Luís XVI nenhum botar defeito.
Na edição da Veja de 01.07.2009, a reportagem de Otávio Cabral nos dá uma idéia desta Ilha da Fantasia que é nosso Senado: reembolso de despesas médicas vitalício e ilimitado,
para senadores, dependentes, ex-parlamentares, e funcionários de direção; empregados domésticos que dão expediente nas casas de parlamentares sendo pagos pelo Congresso; copeiros que ganham R$ 10 mil; ascensoristas que ganham R$ 12 mil; não é à toa que o finado senador Darcy Ribeiro fazia blague, com grande cinismo, dizendo que o Senado é melhor que o Paraíso: no Senado, não precisa morrer para entrar.
E não acabam por aí as revelações: no Globo de domingo, 28.06.09, a manchete de capa diz que Agaciel, mesmo, afastado, mantém o poder no Senado: “ainda hoje haveria 62 chefes de gabinete de senadores, do total de 81, indicados pelo ex-diretor”, que teria ainda aliados em postos estratégicos de pelo menos 20 secretarias e subsecretarias. Na reportagem de Regina Alvarez, ficamos sabendo que “para adquirir tanto poder por período tão longo, Agaciel trabalhou arduamente em várias frentes, numa costura política e com atitudes de homem cordial, no sentido mais utilizado da palavra. (...) Um funcionário de carreira conta que, no Senado, a surpresa no contracheque é sempre positiva. Há sempre uma hora extra, gratificação ou resíduo de ação ganha na Justiça e que engordava os salários. Tudo obra de Agaciel. Foi dele a idéia de “ratear uma sobra” de R$ 6,2 milhões do orçamento de 2008 entre os funcionários. Agaciel fazia de tudo para agradar a funcionários e senadores. Quando mudava a legislatura, dedicava aos novos eleitos toda atenção e infraestrutura: fazia questão de apresentar aos novatos o gabinete, a moradia, todas as vantagens e, de quebra, indicava um conhecido para a chefia de gabinete. Assim, o ex-diretor montou sua rede de relacionamentos.”
Na mesma edição do Globo, uma nota do Elio Gaspari diz que “Agaciel mandou tocar a música do filme “O Poderoso Chefão” no casamento de sua filha, há poucas semanas”. No casamento, marcaram presença os ilustres senadores Renan Calheiros e José Sarney, este como padrinho da moça. The Godfather.
E assim ficamos, ou seja, com a galhofa e o deboche nas alturas. Mas o brasileiro é um bem-humorado, e não desiste nunca. Tinha razão o senhor Delúbio Soares, tesoureiro do PT à época do escândalo do “mensalão”, que profetizou que as denúncias logo seriam esquecidas e se transformariam em “piada de salão”.
E eu vou ficando por aqui, pra não dar “gastura”.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

TUDO PODRE

Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim... - Brasil - Cazuza http://www.youtube.com/watch?v=z6o3KHsLn0k

O PT mantém o apoio a Sarney. Idely Salvatti (PT-SC) subiu na tribuna. Hoje eles chegaram a sugerir um afastamento temporário do presidente do Senado. Mas logo logo voltaram atrás, diante da resistência de Sarney à idéia. No final da tarde a maioria dos senadores petistas decidiu seguir a orientação do “mais querido”, e manter o apoio a Sarney.
Isto vai bem. É bom que estejamos vendo bem claro na cara das coisas. PT, PT... não eras o partido desta tão invocada quanto indefinível “MODERNIDADE”? Como é a sensação de assumir a defesa das velhas práticas coronelistas e patrimonialistas, lamber o bigode de Sarney, diante das exigências reais da manutenção do poder? Sem crise, sem crise... não me venham fazer cara feia de nojo: o presidente Lula já mostrou como é que tem de ser, beija-se a mão de Jader Barbalho... amanhã é o Collor que vai beijar sua mão, não é Dilma?
Patrimonialismo no seu símbolo máximo, o velho Sarney do Maranhão. Ou seria do Amapá? Maranhão na vice-lanterninha do desenvolvimento social brasileiro: só perde o posto de O PIOR para as Alagoas. E olha que no Brasil a disputa por pior do desenvolvimento social é ingente! Pobre Maranhão, pobre Alagoas, pobre do Brasil! Belo legado de 40 anos de Sarneys no Maranhão. Sarney presidente da República. Sarney três vezes presidente do Senado. Que imagem patética, um homem velho, tremendo na cadeira e defendendo o indefensável, indefensável, mas comuníssima prática nesta augusta Casa Legislativa de todo um país, o nosso país, a nossa nação, B – R – A – S – I – L, é isto mesmo.
Que patético, que vergonhoso, que monstruoso. Dinheiros na cueca, dinheiros em cima das mesas, fotos na primeira página dos jornais, fotos que se tentava abafar, depois saíam, e nada mudava, e nada mudou, as pilhas de dinheiro na mesa, que escárnio para os tantos que trabalham tanto, ganham a miséria de serem escravos de senhores sanguessugas depravados.
Que espécie de amigos são, que espécie de pais, de educadores, são estes? Será que se sentem uns homens cordiais, dando um empreguinho pro parente? Ou pra gente que sequer conhecem, mas é o afilhado de sicrano... que espécie de amigo é este, ou de pai, ou de mãe, que põe uma máscara na corrupção e chama de amizade, de amor?
Que tipo de mensagem dão: olhem para mim, eu me corrompo é para favorecer você. Assim você fica me devendo um favor. Isto não é ser amigo, é comprar um cúmplice.
Você não sabe estudar, não sabe fazer nada? Não se preocupe, vai ganhar este emprego de técnico aqui. Não precisa se preocupar, não precisa fazer nada. É só botar o salário no bolso, e me servir quando eu precisar. Você me deve, e uma mão lava a outra.
Na prova para Juiz do Rio de Janeiro, respostas vazaram, questões foram respondidas ipsi literis ao gabarito. Que escárnio, prova aplicada por desembargadores, e o Tribunal concluiu que nada podia ser feito com os “aprovados”, algum direito líquido, adquirido e certo, apesar das evidências de fraude.
Um grande escárnio, e no Senado parentes vão se apinhando botando dez mil no bolso, diretorias e comissões vão sendo criadas, horas extras não trabalhadas, e sempre tem uma grande oportunidade de negócio. Negócio pra envergonhar Rockefeller e Bill Gates, negócio que rende 500% ao dia, negócio líquido, adquirido e certo, não dá errada, malandro.
E o nosso presidente Lula está viajando. Está participando da "XXXV Cúpula Mundial dos Ditadores e Simpatizantes". Vejam Lula abraçar Khadafi; vejam Lula estrategicamente afastado do genocida do Sudão; vejam Lula escutar o discurso de Ahmadinejad; vejam Lula discursar também, uma trepidante e muito coerente condenação aos hondurenhos que atentaram contra a democracia, e ao sistema capitalista internacional, os banqueiros de olhos azuis; e quem é aquele vibrando no fundo com o discurso do "nosso líder", abraçando-o agora quase em lágrimas? Ah, é o Celso Amorim.
Mas agora, na entrevista aos repórteres, Lula se digna a voltar sua análise percuciente para o nosso pobre povo. Revela-nos um pouco de sua visão de estadista, sobre a crise do nosso Senado, ilustre Casa do Povo: para Lula, o PSDB quer é ganhar a presidência do Senado no “tapetão”. É ISSO! HEUREKA!: tudo foi explicado pelo "nosso líder" e suas elucidativas metáforas futebolísticas! Tudo se resume, como sempre, na velha intriguinha de Governo e oposição. Isto é que preocupa o presidente, isto é que lhe tira o sono: vai perder o poder, o outro vai te passar a perna; vai deixar de ser O CARA, o bem amado! Isto não pode ficar assim, temos de ser os mais malandros!
Mas e o país com a cara rota em pedaços, a ratada roendo tudo, e os dólares na cueca, e os milhões sobre a mesa? E os descaramentos e as fraudes, e O R – O – U – B – O O TEMPO TODO, À LUZ DO DIA?
Ah, para isto daí se pede uma rigorosa apuração! E mais uns vinte milhõezinhos pro publicitário que é meu amigo, e já tem até uma grande idéia pra uma campanha: vai se chamar: o brasileiro aguenta tudo, e não desiste nunca!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Teocracia infernal

"Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Por enquanto, é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos.” - Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil.

Ontem mais dez pessoas assassinadas no Irã, jovens que protestam contra o regime tirânico dos aiatolás, teocracia infernal. A quantas anda a contagem dos corpos? Não vou me dar ao trabalho de pesquisar no Google para saber. Só serviria pra me deixar deprimido.
Mas agora vejo uma das vítimas de ontem, no Fantástico, uma jovem que levou um tiro, de um dos militares/paramilitares, uma dessas porcarias de cães de guarda do regime, caída no chão, na rua. Uma das raras imagens que escaparam do cerco à comunicação imposto, talvez um celular filmando o desespero dos que rodeiam a menina, 18, 19 anos? O que é que o repórter diz, ela está sendo chamada, ou seu nome significa A Voz, no idioma do Irã? Triste metáfora concreta estendida no chão, vítima do governo que se diz divino, mas que não tolera a liberdade...
Ali Khamenei, aiatolá e líder supremo, já tinha ameaçado, na sexta-feira: vai haver derramamento de sangue. Devia dizer que vai haver mais derramamento de sangue, na verdade, pois o sangue já vinha sendo derramado, àquela altura...
Alguém precisa urgentemente explicar pro presidente Lula, usando figurinhas, porque ele não gosta de ler, que democracia não tem quadros paramilitares; que em democracia, não se atira em multidões que fazem passeatas, e se justifica estes assassinatos covardes... que em democracia não se proíbem jornalistas de cobrir as manifestações, não se prendem e sequestram jornalistas, não se prendem manifestantes pacíficos...
Em democracia, exerce-se a tolerância, algo um pouquinho diferente, por exemplo, da ameaça do promotor da província de Isfahan, Mohammadreza Habibi: “Alertamos elementos controlados por estrangeiros que tentam perturbar a segurança que a pena para a guerra contra Deus é a execução.”
“Guerra contra Deus”, tão somente... mas por trás de tanta invocação do Santo Nome em vão, um governo bem e bem preocupado com o vil mundo da matéria, na descrição do correspondente do Globo José Meirelles Passos, na edição de sábado, 20.06.2009: “A elite do regime teocrático iraniano procura, sobretudo, manter as suas mordomias – num país onde 40% da população sobrevivem com o equivalente a US$ 15 por mês. O aiatolá Ali Khamenei, sob o manto de líder supremo da Revolução Islâmica, trata de preservar não apenas a aura da chamada Revolução Islâmica, mas, também, os benefícios que ela trouxe para aiatolás e clérigos em geral, além de parentes e amigos. Eles se transformaram numa casta – a dos “mulás milionários”, que circulam por Teerã em Mercedes e BMWs, jogam golfe em clubes fechados e viajam frequentemente para a Europa. Eles não querem abrir mão do que conquistaram a partir da privatização dos anos 90, quando centenas de empresas foram vendidas a quem tinha conexões com as pessoas certas do regime.” (...)
Na “democracia” (bota aspas nisso...) iraniana ocorrem, simplesmente, apedrejamento de mulheres, repressão contra minorias religiosas, execução de homossexuais, encarceramento de políticos, censura à imprensa... Ah, mas eles são contra o “Grande Satã”, os Estados Unidos, então no fundo eles devem ser bons, conforme pensam muitos da nossa esquerda chique. Me bate que eu gosto, não é, dona Intelectuália? Síndrome da mulher do malandro...
Quanto às maravilhosas “eleições” de tal regime, transcrevo a resposta da historiadora iraniana Guity Nashat, quando perguntada no Globo de 18.06.09 se acreditava que as eleições foram fraudadas: “Eu não estava lá, mas como eles podem dizer que 63% das pessoas votaram em Ahmadinejad duas horas depois das eleições? Eles contaram os votos? Quantos votos, 40 milhões de votos? Quero dizer, como fizeram isso duas horas depois de fecharem as urnas? Eles disseram “deixem pra lá, já decidimos”. Esta é a impressão que tenho, de que foi o que fizeram.” E, acrescento eu, depois de todas as pesquisas apontarem para vitória do candidato de oposição. E de terem sido impedidos de acompanhar a votação quaisquer representantes da oposição ou observadores internacionais. Na verdade, menos de vinte (!) minutos após o fechamento das urnas, 20% das cédulas já teriam sido contadas: recorde de velocidade absoluto de contagem de cédulas de papel.
Mas podemos confiar na honestidade e boas intenções do regime iraniano, que pode ser totalitário e violento, mas é de Deus. Ou de Alá. E podemos também confiar na preclara intuição de “nosso líder”, e no comando de nossa política externa. Está feio o negócio: além de abanar o rabinho para os velhos ditadores de Cuba, da China, agora agora demos de abanar também pra Hugo Chávez na Venezuela, pra Coréia do Norte, pro Irã (até para teocracias, meu Deus...), sendo ainda informados pelo Elio Gaspari no Globo deste domingo (21.06.09), que passamos a cortejar também as ditaduras assassinas do Zimbábue, do Sudão, do Cazaquistão, e do Uzbequistão. Celso Amorim, nosso ministro de relações exteriores, convidou Islam Karimov, presidente do Uzbequistão, para visitar o Brasil. Ele esteve em Brasília, em maio passado. Fala Elio Gaspari: “Em pelo menos um caso, sua polícia ferveu um opositor. Ferveu, não confundir com jogar na água fervendo. Quem diz isso é um laudo de patologistas da Universidade de Glasgow”. Coisa linda... Diga-me com quem andas...
Mas tudo está bem no melhor dos mundos (exceto pros que estão sendo fervidos): Amorim, que já nos comunicou que política externa é “jogo de gente grande”, aproveita o ensejo para nos brindar com novas pérolas de sabedoria: segundo o ministro, "tudo é uma questão de percepção”; e “tem gente que quer falar de direitos humanos para ficar em paz com a própria consciência, purgar pecados do colonialismo, e tem gente que vai para melhorar a situação dos países”. É isso aí. Aplausos pro Amorim. E não se fala mais nisso.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

E ele fez de novo

O presidente Lula mais uma vez empresta o peso de sua popularidade pra “aliviar a barra” de um companheiro, atolado em denúncias de corrupção. Na mais recente operação abafa, “nosso líder” reagiu às revelações das falcatruas de Sarney no Senado, atacando o “denuncismo”, e dizendo que Sarney tem história suficiente para não ser tratado como uma pessoa comum.
De fato, lendo a sessão de cartas do jornal, lembramos detalhes desta história de Sarney: governou, com seu clã, o Estado do Maranhão, por quarenta anos, e hoje o Maranhão possui os piores indicadores sociais do país; amealhou seu poder político amparado pela ditadura militar, e, presidente do PDS, comandou a votação contrária às “diretas já”; acabou presidente da república, e durante o seu mandato atingimos os maiores índices de inflação da nossa História; depois, usou da sua malandragem de raposa velha, arrumando um domicílio eleitoral no Amapá, para se eleger senador por este Estado; isto, para ficarmos nas “grandes linhas” da sua biografia, já dá pra fazer uma idéia do retrato.
Agora vêm à tona as novas farras da grande figura, presidente do Senado pela terceira vez: ganhava R$3.800,00 mensais, indevidamente, a título de auxílio-moradia; questionado, negou, e depois, pediu desculpas por ter “passado a informação errada”; por um “equívoco”, a administração do Senado passou a depositar na sua conta o auxílio, e Sarney “tinha a impressão de que não estava recebendo”.
Não bastasse, veio o caso dos atos secretos editados pelo Senado: mais de 650, pela última contagem; e, para variar, os familiares e agregados de Sarney estão entre os principais beneficiados:
Ivan Celso Furtado Sarney, irmão de Sarney; João Fernando Michels Gonçalves Sarney, neto de Sarney; Rosângela Terezinha Michels Gonçalves, mãe de João Fernando e namorada de Fernando Sarney, irmão de Sarney; Isabella Murad Cabral Alves dos Santos, sobrinha de Jorge Murad, marido de Roseana Sarney, filha de Sarney; Shirley Duarte Pinto de Araújo, namorada de Ernane Sarney, irmão de Sarney; Maria do Carmo de Castro Macieira, sobrinha de Marly Sarney, mulher de Sarney; Vera Portela Macieira Borges, sobrinha de Marly Sarney; Virgínia Murad de Araújo, parente de Jorge Murad, genro de Sarney.
E haja Sarney! Entre as historinhas divertidas envolvendo tantos familiares, destaco só uma, a título de exemplo: Isabella Murad, 25 anos, arquiteta, continuava recebendo salário do Senado, embora esteja morando em Barcelona, na Espanha. O secretário de Comunicação do governo do Maranhão, Sérgio Macedo, afirmou que Isabella devolverá aos cofres públicos o dinheiro ganho do Senado desde que saiu do País, no início do ano. "Antes de sair ela deixou pronto o pedido de demissão, mas por alguma falha técnica isso não foi processado", afirmou Macedo. Ah, bom! Agora estamos explicados. Sempre tem uma explicação na gaveta, esperando ser sacada quando explode a merda, e aí eles se dignam (ou dizem que se dignam) a devolver o dinheiro, dividido em suaves prestações a perder de vista, e sem juros, que ninguém é de ferro...
Isabella foi nomeada em fevereiro de 2007, pelo então líder do PTB, senador pelo Maranhão e aliado de Sarney, Epitácio Cafeteira, que nunca deu pela falta de Isabella. "Não sou fiscal de funcionário." - afirmou o senador, convicto. Disse ainda que nomeou a arquiteta a pedido de um amigo, Eduardo Lago. "Ele é tio dela e me pediu que nomeasse, mas esqueceu de avisar que ela tinha conseguido uma bolsa de estudos na Espanha". Está muito certo: pra que se preocupar com o salário que é pago pro funcionário que não tem um trabalho, se a conta vai ser espetada nos trouxas? E se este cargo só é criado para isso mesmo, troca-troca de favores entre poderosos?
Não era à toa que as nomeações foram secretas.Uma rede de relações podre, um enredo que se repete: você é meu aliado? Arruma uma vaga no seu Gabinete pra esse fulaninho(a) que é meu amigo/parente/amante, e em troca eu te dou apoio naquela votação importante, e lembra que eu te salvei a pele quando teve aquela denúncia, e... etc etc etc... por aí se vê em que patamar ficam os interesses do país.
Podem nos chamar de palhaços. Podem nos dar tapas na cara. Não reagimos nunca. Vergonha, uma imensa vergonha!
V – E – R – G – O – N – H – A! Como é que se pode escrever esta palavra, para que ela recupere um pouco da sua força? De tanto que foi usada, tornou-se banal, Boris Casoy no jornal da noite, “Isto é uma vergonha”, estava certo, mas não se fez nada, nunca se faz nada, e nos acostumamos à degradação...
Quando é que se vai dar um basta? Para começar, acabar com essa infinidade de cargos em comissão. Os funcionários de Senado, Câmara, Ministérios, devem ser concursados, ter suas funções definidas em lei, para atender os representantes eleitos. É com estes funcionários que os representantes eleitos precisam trabalhar! Eles têm de ter nos seus Gabinetes funcionários de carreira, da Casa, e não do parlamentar, com atribuições definidas EM LEI, para dar o apoio administrativo. Farão pesquisas, organizarão pautas, servirão cafezinho, atenderão o público, agendarão reuniões e entrevistas. Sai parlamentar, entra parlamentar, os funcionários são os mesmos, profissionais para desempenhar um trabalho.
Deputados e senadores também precisam cumprir com suas atribuições e responsabilidades, DEFINIDAS TAMBÉM EM LEI, e TRABALHAR, de segunda a sexta, como bons mortais, um mês de férias por ano, discutirão propostas, ouvirão representantes da sociedade, votarão, E TERÃO O PATRIMÔNIO FISCALIZADO, PRESTARÃO CONTA DE DESPESAS NÃO COMPATÍVEIS COM SEUS SALÁRIOS, como qualquer mortal, e até com cuidados em dobro, em razão da grande responsabilidade dos cargos que ocupam.
Talvez daqui a mil anos. Porque AGORA, vemos nosso presidente fazer o discurso oposto: Sarney não é para ser julgado como “pessoa comum”; Sarney não tem de prestar contas. O velho discurso de sociedade escravocrata, dividida em castas. O velho discurso, que é o nosso discurso, que reflete o nosso pensamento e a nossa cultura: quatrocentos anos de escravidão, para pouco mais de cem anos livres da escravidão, ou com uma escravidão mais dissimulada... tudo isto pesa, é nossa história, nossa herança, ainda temos uma proporção desfavorável para reverter, mas os tempos estão mudando, e cada vez mais rápido... a matemática não é tão exata, quando aplicada ao inconsciente coletivo de uma sociedade. Não estamos condenados a esperar mais trezentos anos para igualar o jogo, e a partir daí adotarmos a justiça e a igualdade nas nossas relações. A mudança já é possível e presente HOJE, em muitos níveis.
Mas é preciso estar consciente e lutar por essa mudança. Lula se elegeu por muita gente que pensava que ele era o homem para “mudar tudo isso que está aí”. Ou seja: romper com nossa herança, ser o ponto de virada. Como símbolo, Lula se prestava bem para isso: era finalmente o “homem do povo” que chegava ao Poder. O PT, também, era o “partido da mudança”. O partido que não iria tolerar a corrupção, inauguraria uma nova era na política, de práticas modernas e avançadas, republicanas, impessoais... isto, deve-se dizer, para os que permitiam que a vontade de acreditar obscurecesse seu juízo crítico. Afinal, o que era a proposta socialista de Lula e do PT, quando na oposição, senão um retorno ao nosso velho patrimonialismo, com uma roupagem moderna?
Pois não se está de novo defendendo que o Estado decida pelo indivíduo, e que os homens que operam este Estado concentrem um enorme poder, poder político e econômico? E o que faz isso, se não criar um novo fosso, entre os que governam, e os que são governados? De novo, senhores e escravos, desta vez justificados pela ideologia “científica”, que desvenda o “sentido da História”. Faz-se uma revolução em Cuba para derrubar uma ditadura nojenta, e aonde se chega? Em uma nojenta ditadura... ironias do redemoinho da história, circularidade da cultura, mudam-se as formas, as palavras, as justificativas, continua-se na prisão do privilégio. Socialismo é o neo-patrimonialismo. Em oposição, ambos, à temida, mal-compreendida, idéia da liberdade, igualdade e responsabilidade, para todos os membros da sociedade.
Fazendo este reparo, é inegável que para muitas destas pessoas que viviam nas nuvens, na pureza do reino das idéias, Lula e o PT eram o símbolo desta mudança ansiada, ainda que mal definida.
Mas aparências podem ser enganadoras... os símbolos do novo tinham o mesmo pensamento antigo, as mesmas práticas... o discurso é que mudava um pouco, para capitalizar em votos o sentimento difuso pela sociedade, de revolta contra a injustiça, de luta por melhores condições de vida. Mas atingido o poder, viu-se que o objetivo era apenas o de usufruir por sua vez as benesses de não ser mais uma pessoa comum. O discurso prometia que todos seriam “comuns”, iguais. Na prática, depois que “se chegou lá”, ninguém quis abrir mão de ser um dos “incomuns”. Depois de tanto trabalho pra conquistar o poder, vamos ter de renunciar a tudo isto? Admitir que a lei nos limite, ter de prestar contas, não poder ganhar os “presentinhos”, carros esporte e mansões, ter de trabalhar, essa coisa de escravo? Ah, não, ninguém é santo, melhor é se juntar aos velhos demônios que andam por aqui, misturar-nos todos, animal farm, fazer a farra no chiqueiro... prisão da cultura, circularidade da história...
E toma lotear cargos públicos, com um furor “nunca dantes visto na história deste país”; toma beijar mão de Jader Barbalho, fazer afago em Severino Cavalcanti, rezar com o bispo Crivella, defender Renan Calheiros e José Sarney... Em troca-troca, estes aliados todos vão blindar o Governo nas CPIs, vão defender mensaleiros, assessores com dólares na cueca, aloprados, assessores filmados enquanto ganhavam propina de “empresário” do bicho... coisinhas poucas, bobagens, como se vê... um casamento perfeito, da fome com a vontade de comer: e pra que brigarmos entre nós, que somos os poderosos, e podemos nos machucar, quando muito mais fácil é nos unirmos pra esfolar os trouxas? O velho poder convive muito bem com o novo poder. As velhas táticas coronelistas são retomadas, agora com todo o peso do Governo Federal, nunca antes com tantos recursos e instrumentos (cerca de 40% do PIB do país). Nunca antes na História desse país se viu um curral eleitoral tão grande! Antes davam dentadura, pipa de água? Agora tem um cadastro, e dão bolsa-família... como dizem, socialismo é o neo-patrimonialismo.
Mas os velhos poderes não desaparecem da noite para o dia, é preciso conviver com eles. Sarney tem a experiência de anos de prática do poder, Jader Barbalho, ACM, quando vivo, Collor, e Renan Calheiros... e os evangélicos estão despontando, atenção para eles...
Mas tem espaço pra todos, na festa dos “incomuns”; na festa de Saló, os 120 dias de Sodoma; para encerrar o grande evento, será oferecido um grande banquete, regado a Romané Conti e uísque importado, e o prato principal será uma pessoa comum do povo: servida ainda viva, com horror no olho, e uma maçã na boca.