É interessante ver que às vezes é até possível ser marxista, pelo menos no sentido de compartilhar algumas das opiniões do velho Marx, o Karl, o mais nonsense dos irmãos Marx. Aqui está o que diz Karl, em A luta de classes na França:
As enormes somas que passavam pelas mãos do Estado davam, além disso, oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero
Eu posso até ser marxista neste trecho, mas eu imagino como terá marxista de carteirinha, de bóton na lapela, se surpreendendo e se assustando com os malabarismos mentais que terá de fazer para adequar seus pensamentos ao do GRANDE MESTRE.
Pois é. A ordem para a esquerda que tem Marx por grande profeta é hoje a de aplaudir o gigantismo estatal. Atende bem aos reclamos da burocracia, sempre ávida por empregos em que o patrão dá muito e exige pouco; empregos a que podem aspirar mesmo sem ter talento ou aptidão; basta ser amiguinho/parente/amante de um “Sinhô do Governo”, pra garantir uma sinecura. E pode rolar uma “transação cruzada”, um “troca-troca”, entre os Sinhôs do Governo, do tipo: “eu dou uma vaguinha no meu Gabinete pro seu parente, você dá uma vaguinha na sua Fundação prum parente meu”. Bem isso que aparece todo dia escancarado nos jornais, e que o coleguinha Marx descreveu: “oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero”. Mas os muitos votos que têm todo o interesse de gozar privilégios, dolces far nientes, precisam ser adulados, para que se possa galgar posições de poder; então, toca a dar nomes bonitos pro gigantismo estatal, vamos dizer que é uma questão de Soberania, e Patriotismo, e Direitos dos Trabalhadores, e que quem não enxerga isso é um neo-liberal direitista, um terrível fascista, ou traidor da Nação, inimigo do Povo, nazista... nomes feios, ofensas, sem qualquer conteúdo, usados apenas para impedir qualquer debate.
Porque se pudesse haver um debate, é claro que se enxergaria que o diagnóstico de Marx está correto: muito dinheiro circulando no Estado, é igual a muitas fraudes e corrupções, “ladroeiras de todo gênero”. E isto não seria aceitável por um povo livre e consciente, e teria de mudar. Como? Encerrando com tantas oportunidade de “negócios”, feitos pelo Estado e seus operadores.
Estado tem de ter indústrias, comércios, serviços de todo gênero? Estado tem de fazer pão, telefone, camisa, prego, computador, estádio de futebol? A esquerda parece marcar um “sim”, para todas as opções anteriores. Seu ideal é um mundo “sem ganância”, de funcionalismo e burocracia, todos ganhando pouco, fazendo pouco, sendo pouco avaliados...
Curiosamente, este “marxismo” que não segue Marx, de defender estatismo, combina perfeitamente com nosso velho e arraigado patrimonialismo, em que nossos “donos dos poderes”, governantes, legisladores, altos funcionários, estão acostumadíssimos a fazer o que bem entendem com os dinheiros e os direitos do povo. Tratam a coisa pública como se fosse propriedade particular deles. Fazem leis que agridem explicitamente direitos individuais, com a maior desfaçatez. Vale qualquer demagogia para ganhar aplausos e votos. Ainda mais quando os sacrifícios são alheios. Fazem leis para dar “meias-entradas”, estacionamentos “de grátis”, “contribuições” “sociais” disso e daquilo, e tantas outras.
Além disso, fazem as nomeações que bem entendem, colocam semi-analfabetos para presidir estatais, hospitais, escolas, universidades, garantem-se as mais generosas aposentadorias, planos de saúde, policias para fazer segurança particular...
Além, é claro, das muitas oportunidades, tantas mais quanto mais o Estado se espalha ocupando espaços que pertenceriam à iniciativa privada.
Tudo isto, eu dizia, faz parte de nossa tradição patrimonialista, de termos um “senhor” a quem pertence tudo, e sermos uma multidão a quem compete calar a boca, acatar qualquer capricho do “senhor”. Não temos direitos e deveres, em suma; temos de “puxar o saco”, cair nas graças de quem, por seu capricho e alvedrio, pode nos dar uma “colocação”. Claro, se amanhã este grande benfeitor nos pedir um favor, iremos “cordialmente” nos desdobrar para atender; até porque não queremos perder nosso cargo “de confiança”, “de livre provimento e exoneração”. E acima de tudo, seguir a lei do silêncio, como na Máfia. Nas relações de “camaradagem”, o pior pecado é dar com a língua nos dentes.
Ou seja: o compromisso não é com a abstração do Estado e suas leis. O compromisso é com o muito concreto “dono do poder”, que pode dar e retirar benesses ao seu alvedrio. Sem prestar contas pra ninguém, como se aquilo não fosse do público, fosse deles; “obrando” pra opinião pública, porque a opinião pública não lhes pode retirar do Poder; eles sabem manter seus “nichos”, seus “currais” eleitorais, sabem manobrar as confusas leis em benefício próprio, mudam domicílios eleitorais, entram de suplente, arrumam grandes financiadores pras campanhas... e um povo sem estudo é um povo sem defesa, e as Cortes do país nunca conseguem segurar o peixe grande... “Você sabe com quem está falando?”
Então, uma “filosofia”(bota bastante aspas neste “filosofia”) política que defenda um maior avanço do Estado em todas as áreas, e estigmatize com um monte de nome feio quem se atrever a levantar objeções, vai aumentar ainda mais os poderes destes velhos patrimonialistas bem instalados nos postos de comando de nossa sociedade, e logicamente vai ser recebida por eles com sorrisos francos e braços abertos. Eles vão até poder dizer: “Ora, mas é isto o marxismo, o socialismo? Mas então eu era marxista e não sabia”. Bem que costumam dizer que o socialismo é o neo-patrimonialismo.
Aliás, também curiosamente, o socialismo “real”, isto é, conforme se instalou historicamente nos Estados em que grupos ditos seguidores de Marx se alçaram ao Poder, representou justamente a vitória maior deste estatismo descontrolado. Acabaram com muitos empresários, com muitos proprietários, em fuzilamentos e campos de confinamento. Seguiram fielmente o receituário de Marx, não mostrando piedade pelos inimigos “de classe”. Mas aí, não se deu aquela mágica prometida pelo “profeta” barbudo: não raiou um novo Homem, numa nova Era, em que o Estado sumiria, e sumiria a “exploração” ao som de “Imagine”. Foi um Apocalipse sangrento, escatológico, mas sem Redenção. O homem soube matar, mas não soube ressuscitar.
De novo, o que se viu foi que na Rússia, pátria primeira do socialismo histórico, aquele discurso novo de Marx, aquela promessa de fim da luta de classes, serviu para re-legitimar velhas práticas tirânicas. Como faziam os Czares históricos, o exemplo paradigmático sendo Pedro, o Grande, o povo russo servia de argamassa para a construção do sonho do Governante.
Pedro queria modernizar a Rússia, aproximá-la da Europa Ocidental. Entrou em confronto com os costumes de seus súditos, obrigou-os a raspar a barba; e arregimentou milhares de trabalhadores para suas grandes obras de modernização, deslocando-os de seus lares, afastando-os de suas famílias, literalmente forçando-os a trabalhar para realizar os seus sonhos.
Nada de diferente do que fizeram Lenin e Stalin, apenas que com os socialistas o discurso de justificativa era outro. E o pior é que este novo discurso, este novo ideal de “refazer o homem”, e atingir um “fim da História”, uma superação das contradições, um absoluto, incendiou as imaginações, e deu novo fôlego para tirania, justamente quando seu velho alicerce, o Czarismo já dava sinais de caducar e ruir.
Agora, esta nova promessa justificava novos radicalismos, extermínio de “inimigos”, “trabalhos forçados” para construir a Nova Pátria do Futuro, a mãe-Rússia, com seu “destino histórico” de liderar e conduzir os outros povos. E tome guerra, quente ou fria, para espalhar esta dádiva que é o comunismo, para outros povos.
Agora que estamos afastados no tempo, podemos ver com melhor perspectiva os resultados de tão grandes sacrifícios e aspirações; é engraçado, mas parece que não veio nenhuma Grande Voz do céu( de Deus? De Marx? De Lenin?) para avisar que a dona História chegou na última estação e resolveu parar. Cansou, entregou os pontos, rendeu-se à super mente científica de Marx, que lhe desvendou os mistérios.
Nada disso aconteceu. Está certo, a União Soviética passou um tempo dominando sobre diversos povos, e alcançaram alguns notáveis avanços, principalmente no fabrico de armas, e ainda conseguiram lançar uns satélites. Mas será que foi a doutrina socialista que proporcionou isso?
Parece mais é que estes foram os resultados de se forçar uma grande parte do povo a cumprir certos objetivos eleitos pelos Governantes. Como as grandes obras de Pedro, ou como as pirâmides dos Faraós. Em todos os casos as conquistas foram feitas pela população numerosa, industriosa, capaz, e com os recursos de terras, matérias-primas, riquezas, à disposição.
Claro que a História não admite suposições. É inútil tentar responder “o que aconteceria se”; o que aconteceria se o Brasil tivesse sido colonizado pelos ingleses; ou pelos holandeses; ou pelos chineses; ou por extra-terrestres?
Mas ainda assim, é lícito especular: se os Governantes russos, ao invés de tiranizarem e desperdiçarem a energia de seu povo em cruéis e inúteis guerras, e dominações, e na busca desta utopia socialista, e se concentrassem apenas em oferecer uma boa educação para as multidões de analfabetos, e respeitassem direitos individuais dos governados, e lhes respeitassem a liberdade de votar as leis, e de empreender, de escolher um trabalho, e a maneira de ganhar dinheiro, a maneira de viver, em suma, será que este grande povo, com estes grandes recursos, não iria alcançar tanto, ou mais, do que os esfarrapados ganhos depois de décadas de socialismo?
Estas décadas de socialismo tiveram um custo muito grande e concreto, traduzido em milhares de vidas assassinadas, ou encarceradas em gulags, indivíduos cujo crime foi não concordar com a doutrina que os governantes impunham.
Claro, pode-se afirmar que a História russa tinha de ser desse jeito, que foi apenas o desdobramento de antiquíssimas tradições, que a tirania, a obediência, a ausência de crítica, eram todo o horizonte da maioria do povo russo, e que nenhum regime diferente daquele que Lenin implantou teria funcionado para a Rússia. De fato, a História aconteceu deste jeito, e não pode ser mudada. Mas eu não estou lamentando que poderia ter sido diferente, estou apenas dizendo que o socialismo não vale a pena. Suas pretensas conquistas podem ser melhor alcançadas simplesmente valorizando a educação e as liberdades de um povo, como demonstraram sobejamente povos de população e território reduzidos, com poucos recursos, mas que se destacaram imensamente por suas realizações. Lembremos, sem nos alongar, dos ingleses, durante o século XIX, e dos gregos, no século V a.C.
As grandes realizações do socialismo real são ótimas para fins de propaganda, enchem os olhos de quem está de fora, mas não representam um acréscimo de qualidade de vida para o povo que as produz. Um satélite em volta da Terra, uau! Bomba atômica, que lindo! Não sei quantas nações subjugadas pelo Grande Urso Soviético, que grandeza!
Mas um povo triste, afundado em vodka, sem gêneros básicos, que não pode criticar, que não pode querer mudar... perdendo vidas em guerras, com medo de polícias secretas... um povo deformado e infantilizado pela dependência em relação ao Estado. E, afinal, é a qualidade de vida que importa. Por algum tempo o homem pode abrir mão de todo conforto, e até dos seus sentimentos, da sua capacidade de enxergar a realidade, da sua faculdade de crítica, em prol de um ideal que lhe absorva. Mas com o tempo, vendo nunca chegar o tal futuro brilhante prometido, e, pior, vendo que aquele mesmo ideal apenas justificava imobilismo e injustiça, não mais se consegue manter os corações e mentes presos àquele ideal.
É incrível como isto acontece, de uma noite para o dia, de uma geração para outra, de repente tudo aquilo que parecia tão sólido, se desmancha no ar! Num dia parece toda a realidade, por toda a eternidade! No outro dia, toca-se com um dedo naquilo, e aquilo virou pó e desaba... mas, infelizmente, os muitos executados, os muitos desaparecidos, durante aquele tempo em que o velho ídolo parecia com a divindade, estes não voltam...
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
sábado, 8 de agosto de 2009
Casa dos Horrores
Acompanhemos a reportagem de Fabio William no Jornal da Globo de ontem, ao final desta "gloriosa" semana do nosso Senado:
http://www.youtube.com/watch?v=At-k9JDfOk8
Nada como ver o senador sem um único voto, Wellington Salgado, brindando-nos os ouvidos com as pérolas: "Todo senador é um ser humano (há controvérsia). Todo senador é um homem (há muita controvérsia). Ninguém chega ao Senado sendo um frouxo (isto é certo: frouxo é o distinto cidadão pagador de impostos, que devia logo vestir uma roupa de palhaço)".
Também é reconfortante ver que outro senador sem um único voto, Paulo Duque, eleito por seus pares presidente do Conselho de Ética (ética? Há controvérsia), arquivou todas as representações e denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney.
Para coroar esta gloriosa semana no Senado, o senador Alienado Suplicy (antecipando-me ao Casseta e Planeta), rouba o foco das atenções com sua interpretação de Cat Stevens. É pena, porque Suplicy tem a seu favor o fato de fazer parte da minoria dos senadores petistas que não se curvou à vontade do todo-poderoso Lulinha, e manteve posição pelo afastamento de Sarney. Mas, como eu disse, foi uma gloriosa semana no Senado.
http://www.youtube.com/watch?v=At-k9JDfOk8
Nada como ver o senador sem um único voto, Wellington Salgado, brindando-nos os ouvidos com as pérolas: "Todo senador é um ser humano (há controvérsia). Todo senador é um homem (há muita controvérsia). Ninguém chega ao Senado sendo um frouxo (isto é certo: frouxo é o distinto cidadão pagador de impostos, que devia logo vestir uma roupa de palhaço)".
Também é reconfortante ver que outro senador sem um único voto, Paulo Duque, eleito por seus pares presidente do Conselho de Ética (ética? Há controvérsia), arquivou todas as representações e denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney.
Para coroar esta gloriosa semana no Senado, o senador Alienado Suplicy (antecipando-me ao Casseta e Planeta), rouba o foco das atenções com sua interpretação de Cat Stevens. É pena, porque Suplicy tem a seu favor o fato de fazer parte da minoria dos senadores petistas que não se curvou à vontade do todo-poderoso Lulinha, e manteve posição pelo afastamento de Sarney. Mas, como eu disse, foi uma gloriosa semana no Senado.
Gripe suína e Senado
Segundo a notícia do jornal O Globo de 07.08.2009, até 1 de agosto o Brasil representava apenas 1,8 % dos casos de gripe suína no mundo, mas o número de mortes no país equivalia a 8% do total registrado no planeta. Com os novos óbitos (140), nos poucos dias entre o registro de 1 de agosto até a data em que foi escrita a reportagem, o Brasil já representava 12% dos casos fatais pela infecção no mundo.
Esta notícia, perdida na página 27 do jornal, é um atestado claro da incapacidade do país de lidar com os problemas. Na comparação com a média do resto do mundo, o Brasil tem cerca de dez vezes mais óbitos em relação ao número de infectados. Ou seja, se no resto do mundo, de cem infectados, um morre, no Brasil, dos cem infectados, dez morrem.
Na carta de uma leitora, Célia Cristina da Silva, no mesmo jornal, temos um complemento para a situação descrita. Diz a carta: “Gostaria de um esclarecimento do Ministério da Saúde: houve alguma morte de paciente que recebeu, nas primeiras 48 horas dos sintomas, o antiviral? Se isto não ocorreu, tudo está muito mal administrado, e vidas poderiam ter sido salvas. O pânico das pessoas está muito mais relacionado à indisponibilidade do medicamento do que ao contágio. (...)”
E de fato, embora vejamos sempre na televisão a propaganda do Ministro da Saúde, e manifestações tranquilizadoras de autoridades, os números vão demonstrando o desgoverno costumeiro do país. Como sempre, neste país, investe-se nas aparências, descuida-se da substância. É uma boa estratégia para ser usada num país em que boa parte da população não sabe ler e escrever, e não sabe fazer conta. Se os resultados na solução dos problemas são pífios, o mesmo não se pode dizer dos resultados da manutenção do poder pelos grupos que nos controlam. E manter o poder é o que importa, na nossa tradição de patrimonialismo, e de “primeiro os meus”, e “eu quero é o meu”, e “aos amigos, tudo, aos inimigos, os rigores da lei”.
Temos tudo isso muito claro, numa vista de olhos para o Senado. Como é que se pode esperar Governo, liderança, administração, no país, quando os homens com estas responsabilidades passam o seu tempo nas lutas intestinas pelo poder de fazer os melhores negócios com a pátria amada, mãe gentil? Para estes nobres na sua ilha da fantasia, o país pode se explodir e se afundar em gripes suínas, em miséria, em fuzis nas favelas: eles estão garantidos com os melhores planos de saúde, e com as melhores oportunidades de negócios, e com seguranças 24 horas. Aí o foco passa a ser outro, passa a ser a intriga, e a chantagem, e a tropa de choque, e a ofensa... serão os tais “negócios de gente grande” , estranhamente semelhantes ao que se vê nos jardins de infância; mas diferentemente, e infelizmente, com consequências trágicas.
E assim vai continuar sendo, pois está perfeitamente de acordo com nossas tradições patrimonialistas e fisiológicas, e porque não ensinamos nossas crianças a ler e a escrever e a fazer contas, e um povo ignorante é um povo indefeso à exploração, e facilmente manipulável.
Para mudar isso, não nos iludamos, só vencendo a resistência dos que lucram com este estado de coisas. Os poderosos acostumados às vantagens fabulosas, e à impunidade. É divertida nossa “normalidade”. Parece que cada sujeito que consegue se eleger encontra um poço de petróleo debaixo da sua casa. Pessoas que tinham uma brasília velha e moravam em um quitinete em poucos anos de mandato público compram mansões e jatinhos. Campanhas gastam milhões, dezenas de vezes mais do que os candidatos receberão de salário ao longo dos mandatos. Para garantir suas fontes dos milhões e bilhões estes senhores do poder estarão dispostos a espalhar suas migalhas para muitos e muitos “cooptados”; muitos que receberão também seu quinhãzinho de “regime diferenciado”, suas “vantagens generosas”, seu “direitinho adquirido”, pelo qual não trabalhou, e que não passa nem pelos sonhos do sujeito que lhe engraxa os sapatos.
E assim vamos, neste país. A luta não é para resolvermos nossos problemas, a luta é para entrar na festa, mesmo que na condição de convidado de segunda ou terceira classe. O importante é sermos um dos “espertos”, é nos diferenciarmos do vizinho; porque o que não se diferencia é o que paga o pato, nas filas dos hospitais públicos, nos subempregos de exploração, nos desabamentos da favela.
A luta não é pelo fim do privilégio, para viver num país e numa sociedade mais feliz e justa; a luta é para agarrar algum privilégio, para atirar na cara dos outros algum “sabe com quem está falando?”. Até que (talvez) algum choque de realidade sirva para nos abrir o olho, alguma bala perdida que tire a vida de um filho, mesmo que ele estivesse em algum bairro chique da cidade, ou quem sabe, no desgoverno geral, ser também uma vítima da falta de medicamento para a gripe suína? Teremos, para nos consolar, uma propaganda do Ministério da Saúde, muito bem remunerada, ou um pronunciamento divertido do presidente Lula, de que "nunca antes na História deste país a saúde público se aproximou tanto da perfeição".
Esta notícia, perdida na página 27 do jornal, é um atestado claro da incapacidade do país de lidar com os problemas. Na comparação com a média do resto do mundo, o Brasil tem cerca de dez vezes mais óbitos em relação ao número de infectados. Ou seja, se no resto do mundo, de cem infectados, um morre, no Brasil, dos cem infectados, dez morrem.
Na carta de uma leitora, Célia Cristina da Silva, no mesmo jornal, temos um complemento para a situação descrita. Diz a carta: “Gostaria de um esclarecimento do Ministério da Saúde: houve alguma morte de paciente que recebeu, nas primeiras 48 horas dos sintomas, o antiviral? Se isto não ocorreu, tudo está muito mal administrado, e vidas poderiam ter sido salvas. O pânico das pessoas está muito mais relacionado à indisponibilidade do medicamento do que ao contágio. (...)”
E de fato, embora vejamos sempre na televisão a propaganda do Ministro da Saúde, e manifestações tranquilizadoras de autoridades, os números vão demonstrando o desgoverno costumeiro do país. Como sempre, neste país, investe-se nas aparências, descuida-se da substância. É uma boa estratégia para ser usada num país em que boa parte da população não sabe ler e escrever, e não sabe fazer conta. Se os resultados na solução dos problemas são pífios, o mesmo não se pode dizer dos resultados da manutenção do poder pelos grupos que nos controlam. E manter o poder é o que importa, na nossa tradição de patrimonialismo, e de “primeiro os meus”, e “eu quero é o meu”, e “aos amigos, tudo, aos inimigos, os rigores da lei”.
Temos tudo isso muito claro, numa vista de olhos para o Senado. Como é que se pode esperar Governo, liderança, administração, no país, quando os homens com estas responsabilidades passam o seu tempo nas lutas intestinas pelo poder de fazer os melhores negócios com a pátria amada, mãe gentil? Para estes nobres na sua ilha da fantasia, o país pode se explodir e se afundar em gripes suínas, em miséria, em fuzis nas favelas: eles estão garantidos com os melhores planos de saúde, e com as melhores oportunidades de negócios, e com seguranças 24 horas. Aí o foco passa a ser outro, passa a ser a intriga, e a chantagem, e a tropa de choque, e a ofensa... serão os tais “negócios de gente grande” , estranhamente semelhantes ao que se vê nos jardins de infância; mas diferentemente, e infelizmente, com consequências trágicas.
E assim vai continuar sendo, pois está perfeitamente de acordo com nossas tradições patrimonialistas e fisiológicas, e porque não ensinamos nossas crianças a ler e a escrever e a fazer contas, e um povo ignorante é um povo indefeso à exploração, e facilmente manipulável.
Para mudar isso, não nos iludamos, só vencendo a resistência dos que lucram com este estado de coisas. Os poderosos acostumados às vantagens fabulosas, e à impunidade. É divertida nossa “normalidade”. Parece que cada sujeito que consegue se eleger encontra um poço de petróleo debaixo da sua casa. Pessoas que tinham uma brasília velha e moravam em um quitinete em poucos anos de mandato público compram mansões e jatinhos. Campanhas gastam milhões, dezenas de vezes mais do que os candidatos receberão de salário ao longo dos mandatos. Para garantir suas fontes dos milhões e bilhões estes senhores do poder estarão dispostos a espalhar suas migalhas para muitos e muitos “cooptados”; muitos que receberão também seu quinhãzinho de “regime diferenciado”, suas “vantagens generosas”, seu “direitinho adquirido”, pelo qual não trabalhou, e que não passa nem pelos sonhos do sujeito que lhe engraxa os sapatos.
E assim vamos, neste país. A luta não é para resolvermos nossos problemas, a luta é para entrar na festa, mesmo que na condição de convidado de segunda ou terceira classe. O importante é sermos um dos “espertos”, é nos diferenciarmos do vizinho; porque o que não se diferencia é o que paga o pato, nas filas dos hospitais públicos, nos subempregos de exploração, nos desabamentos da favela.
A luta não é pelo fim do privilégio, para viver num país e numa sociedade mais feliz e justa; a luta é para agarrar algum privilégio, para atirar na cara dos outros algum “sabe com quem está falando?”. Até que (talvez) algum choque de realidade sirva para nos abrir o olho, alguma bala perdida que tire a vida de um filho, mesmo que ele estivesse em algum bairro chique da cidade, ou quem sabe, no desgoverno geral, ser também uma vítima da falta de medicamento para a gripe suína? Teremos, para nos consolar, uma propaganda do Ministério da Saúde, muito bem remunerada, ou um pronunciamento divertido do presidente Lula, de que "nunca antes na História deste país a saúde público se aproximou tanto da perfeição".
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Protágoras
No diálogo “Protágoras”, de Platão, é narrado um mito da democracia. Vou reproduzi-lo, como aparece narrado no livro “O Julgamento de Sócrates”, de I. F. Stone:
(...) “Diz Protágoras que, quando foi criado, o homem vivia uma existência solitária e não era capaz de proteger a si próprio e sua família dos animais selvagens mais fortes do que ele. Consequentemente, os homens se reuniram para “proteger suas vidas fundando cidades”. Mas as cidades foram conturbadas por lutas, porque seus habitantes “faziam mal uns aos outros” por ainda não conhecerem “a arte da política” (politike téchne) que lhes permitiria viver em paz juntos. Assim, os homens começaram a “se dispersar novamente e a perecer”.
Segundo Protágoras, Zeus temia que “nossa espécie estivesse ameaçada da ruína total”. Assim, enviou seu mensageiro, Hermes, à terra, com duas dádivas que permitiriam aos homens enfim praticar com êxito a “arte da política” e fundar cidades onde pudessem viver juntos em segurança e harmonia. As duas dádivas de Zeus eram aidos e diké. Aidos é um sentimento de vergonha, uma preocupação com a opinião alheia. É a vergonha que o soldado sente quando trai seus camaradas no campo de batalha, ou o cidadão quando é apanhado em flagrante fazendo algo desonroso. Neste contexto, diké significa respeito pelos direitos dos outros. Implica um senso de justiça, e torna possível a paz civil resolvendo as disputas através de julgamentos. Ao adquirirem aidos e diké, os homens finalmente se tornariam capazes de garantir sua sobrevivência.
(...) Hermes lembra a Zeus que as outras “artes” foram distribuídas de tal modo que “um homem que seja possuidor da arte da medicina é capaz de tratar muitos homens comuns, e o mesmo se dá com os outros ofícios”. Hermes perguntou a Zeus se ele devia distribuir a “arte política” a uns poucos eleitos ou a todos. A resposta de Zeus é democrática: “Que cada um tenha seu quinhão” da arte cívica. “Pois as cidades não se poderão formar”, explica Zeus, “se apenas uns poucos” possuírem aidos e diké. É necessário que todos as possuam para que a vida comunitária seja possível. Para reforçar sua lição, Zeus diz também a seu mensageiro: “E torne lei, por mim ordenada, que todo aquele que não possui respeito (aidos) e direito (diké) deverá morrer a morte de um malfeitor público”.
Em seguida Protágoras expõe a moral de seu mito. “É por isso, Sócrates, que as pessoas das cidades, especialmente de Atenas”, só ouvem peritos em relação a questões de conhecimento específico, “mas, quando se reúnem para aconselhar-se sobre a arte política” - ou seja, uma questão geral de governo -, “quando devem ser guiados pela justiça e pelo bom senso, permitem, naturalmente, que todos dêem conselhos, já que se afirma que todos devem partilhar desta excelência, senão os Estados (i.e, as cidades, a pólis) não podem existir”.
Segundo consta, “Sócrates limita-se a elogiar o mito””. ( I. F. Stone, O Julgamento de Sócrates, editora Schwarcz Ltda., 1988, traduzido por Paulo Henrique Britto)
E eu também elogio o mito democrático, com toda a certeza, e peço pra Divindade que conceda muito aidos e diké pro nosso povo. Vergonha na cara e respeito ao direito alheio é o que parece mesmo nos faltar, quando nossos dirigentes se concedem tantos mimos e opulências, vidas “fáceis” na corrupção, pregando a conta nas costas de um povo que, muitas vezes, morre de verme e de fome, e é mantido na ignorância de seu poder e direitos.
(...) “Diz Protágoras que, quando foi criado, o homem vivia uma existência solitária e não era capaz de proteger a si próprio e sua família dos animais selvagens mais fortes do que ele. Consequentemente, os homens se reuniram para “proteger suas vidas fundando cidades”. Mas as cidades foram conturbadas por lutas, porque seus habitantes “faziam mal uns aos outros” por ainda não conhecerem “a arte da política” (politike téchne) que lhes permitiria viver em paz juntos. Assim, os homens começaram a “se dispersar novamente e a perecer”.
Segundo Protágoras, Zeus temia que “nossa espécie estivesse ameaçada da ruína total”. Assim, enviou seu mensageiro, Hermes, à terra, com duas dádivas que permitiriam aos homens enfim praticar com êxito a “arte da política” e fundar cidades onde pudessem viver juntos em segurança e harmonia. As duas dádivas de Zeus eram aidos e diké. Aidos é um sentimento de vergonha, uma preocupação com a opinião alheia. É a vergonha que o soldado sente quando trai seus camaradas no campo de batalha, ou o cidadão quando é apanhado em flagrante fazendo algo desonroso. Neste contexto, diké significa respeito pelos direitos dos outros. Implica um senso de justiça, e torna possível a paz civil resolvendo as disputas através de julgamentos. Ao adquirirem aidos e diké, os homens finalmente se tornariam capazes de garantir sua sobrevivência.
(...) Hermes lembra a Zeus que as outras “artes” foram distribuídas de tal modo que “um homem que seja possuidor da arte da medicina é capaz de tratar muitos homens comuns, e o mesmo se dá com os outros ofícios”. Hermes perguntou a Zeus se ele devia distribuir a “arte política” a uns poucos eleitos ou a todos. A resposta de Zeus é democrática: “Que cada um tenha seu quinhão” da arte cívica. “Pois as cidades não se poderão formar”, explica Zeus, “se apenas uns poucos” possuírem aidos e diké. É necessário que todos as possuam para que a vida comunitária seja possível. Para reforçar sua lição, Zeus diz também a seu mensageiro: “E torne lei, por mim ordenada, que todo aquele que não possui respeito (aidos) e direito (diké) deverá morrer a morte de um malfeitor público”.
Em seguida Protágoras expõe a moral de seu mito. “É por isso, Sócrates, que as pessoas das cidades, especialmente de Atenas”, só ouvem peritos em relação a questões de conhecimento específico, “mas, quando se reúnem para aconselhar-se sobre a arte política” - ou seja, uma questão geral de governo -, “quando devem ser guiados pela justiça e pelo bom senso, permitem, naturalmente, que todos dêem conselhos, já que se afirma que todos devem partilhar desta excelência, senão os Estados (i.e, as cidades, a pólis) não podem existir”.
Segundo consta, “Sócrates limita-se a elogiar o mito””. ( I. F. Stone, O Julgamento de Sócrates, editora Schwarcz Ltda., 1988, traduzido por Paulo Henrique Britto)
E eu também elogio o mito democrático, com toda a certeza, e peço pra Divindade que conceda muito aidos e diké pro nosso povo. Vergonha na cara e respeito ao direito alheio é o que parece mesmo nos faltar, quando nossos dirigentes se concedem tantos mimos e opulências, vidas “fáceis” na corrupção, pregando a conta nas costas de um povo que, muitas vezes, morre de verme e de fome, e é mantido na ignorância de seu poder e direitos.
sábado, 1 de agosto de 2009
A Hard rain is a´gonna fall - Bob Dylan
Música do segundo álbum de Bob Dylan, de 1963, "The freewhelin´Bob Dylan":
neste link, a versão de estúdio, folk, com a letra original: http://www.youtube.com/watch?v=VNdPWv9D4S4
e uma versão ao vivo, com acento country:
http://www.youtube.com/watch?v=hGJLlUq_cyo
Tradução:
Uma chuva forte que vai cair
Aonde você esteve, meu filho de olhos azuis,
Aonde você esteve, meu amado e querido?
Eu cambaleei pelos lados de doze montanhas enevoadas
Eu andei e rastejei em seis autoestradas enganadoras
Eu pisei no meio de sete florestas tristes
Eu estive à frente de doze oceanos mortos
Eu estive dez mil milhas dentro da garganta de uma cova
E é uma chuva forte que vai cair...
O que você viu, meu filho de olhos azuis,
O que você viu, meu amado e querido?
Eu vi um bebê recém-nascido com lobos selvagens o cercando
Eu vi uma autoestrada de diamantes com ninguém sobre ela
Eu vi um galho preto com sangue que ficava caindo
Eu vi um quarto cheio de homens com martelos sangrando
Eu vi uma escada branca toda coberta com água
Eu vi dez mil faladores com suas línguas todas quebradas
Eu vi revólveres e espadas afiadas nas mãos de crianças pequenas
E é uma chuva forte que vai cair...
E o que você ouviu, meu filho de olhos azuis,
E o que você ouviu, meu amado e querido?
Eu ouvi o som de um trovão que rugia um aviso
Eu ouvi o rugido de uma onda que podia afogar o mundo todo
Eu ouvi mil soldados com tambores suas mãos pegando fogo
Eu ouvi mil sussurrando e nenhum escutando
Eu ouvi uma pessoa que morria de fome eu ouvi muitos rindo
Eu ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta
Eu ouvi o som de um palhaço que chorava num beco
E é uma chuva forte que vai cair...
E quem você encontrou, meu filho de olhos azuis,
E quem você encontrou, meu amado e querido?
Eu encontrei uma criança ao lado de um cavalo morto
Eu encontrei um homem branco que conduzia um cachorro preto
Eu encontrei uma jovem mulher que tinha o corpo queimando
Eu encontrei uma jovem garota que me deu um arco-íris
Eu encontrei um homem que foi ferido no amor
Eu encontrei um outro homem que foi ferido no ódio
E é uma chuva forte que vai cair...
E o que você vai fazer agora, meu filho de olhos azuis,
O que você vai fazer, meu amado e querido?
Eu vou embora logo antes que a chuva comece a cair
Eu vou caminhar para as profundezas da mais escura e profunda floresta
Onde as pessoas são muitas e suas mãos estão vazias
Onde os grãos de veneno estão flutuando nas suas águas
Onde o lar no vale encontra a triste suja prisão
E a face do executor está sempre bem escondida
Onde fome é feio onde as almas são esquecidas
Onde preto é a cor onde nada é o número
E eu vou distingui-lo e vou pensá-lo e vou falá-lo e vou respirá-lo
E vou refleti-lo da montanha para que toda alma possa vê-lo
E eu vou estar de pé sobre o oceano até que eu comece a afundar
Mas eu vou conhecer bem minha canção antes de começar a cantá-la
E é uma chuva forte que vai cair...
E mais uma versão, rock n´roll, ao vivo, 1975, SENSACIONAL, com um Bob Dylan-Coringa:
http://www.youtube.com/watch?v=8yg0gYvR0h4
neste link, a versão de estúdio, folk, com a letra original: http://www.youtube.com/watch?v=VNdPWv9D4S4
e uma versão ao vivo, com acento country:
http://www.youtube.com/watch?v=hGJLlUq_cyo
Tradução:
Uma chuva forte que vai cair
Aonde você esteve, meu filho de olhos azuis,
Aonde você esteve, meu amado e querido?
Eu cambaleei pelos lados de doze montanhas enevoadas
Eu andei e rastejei em seis autoestradas enganadoras
Eu pisei no meio de sete florestas tristes
Eu estive à frente de doze oceanos mortos
Eu estive dez mil milhas dentro da garganta de uma cova
E é uma chuva forte que vai cair...
O que você viu, meu filho de olhos azuis,
O que você viu, meu amado e querido?
Eu vi um bebê recém-nascido com lobos selvagens o cercando
Eu vi uma autoestrada de diamantes com ninguém sobre ela
Eu vi um galho preto com sangue que ficava caindo
Eu vi um quarto cheio de homens com martelos sangrando
Eu vi uma escada branca toda coberta com água
Eu vi dez mil faladores com suas línguas todas quebradas
Eu vi revólveres e espadas afiadas nas mãos de crianças pequenas
E é uma chuva forte que vai cair...
E o que você ouviu, meu filho de olhos azuis,
E o que você ouviu, meu amado e querido?
Eu ouvi o som de um trovão que rugia um aviso
Eu ouvi o rugido de uma onda que podia afogar o mundo todo
Eu ouvi mil soldados com tambores suas mãos pegando fogo
Eu ouvi mil sussurrando e nenhum escutando
Eu ouvi uma pessoa que morria de fome eu ouvi muitos rindo
Eu ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta
Eu ouvi o som de um palhaço que chorava num beco
E é uma chuva forte que vai cair...
E quem você encontrou, meu filho de olhos azuis,
E quem você encontrou, meu amado e querido?
Eu encontrei uma criança ao lado de um cavalo morto
Eu encontrei um homem branco que conduzia um cachorro preto
Eu encontrei uma jovem mulher que tinha o corpo queimando
Eu encontrei uma jovem garota que me deu um arco-íris
Eu encontrei um homem que foi ferido no amor
Eu encontrei um outro homem que foi ferido no ódio
E é uma chuva forte que vai cair...
E o que você vai fazer agora, meu filho de olhos azuis,
O que você vai fazer, meu amado e querido?
Eu vou embora logo antes que a chuva comece a cair
Eu vou caminhar para as profundezas da mais escura e profunda floresta
Onde as pessoas são muitas e suas mãos estão vazias
Onde os grãos de veneno estão flutuando nas suas águas
Onde o lar no vale encontra a triste suja prisão
E a face do executor está sempre bem escondida
Onde fome é feio onde as almas são esquecidas
Onde preto é a cor onde nada é o número
E eu vou distingui-lo e vou pensá-lo e vou falá-lo e vou respirá-lo
E vou refleti-lo da montanha para que toda alma possa vê-lo
E eu vou estar de pé sobre o oceano até que eu comece a afundar
Mas eu vou conhecer bem minha canção antes de começar a cantá-la
E é uma chuva forte que vai cair...
E mais uma versão, rock n´roll, ao vivo, 1975, SENSACIONAL, com um Bob Dylan-Coringa:
http://www.youtube.com/watch?v=8yg0gYvR0h4
sábado, 25 de julho de 2009
Contra Lula
Nesses tempos de popularidade elevada de nosso presidente, em que este se encontra mais relaxado do que nunca em seus atos e palavras, em que seus entusiastas encontram-se mais que nunca exaltados na defesa do chefinho, tudo enxergando justificado e absolvido pelos altos índices de aprovação popular, melhor momento não existe para exercer o sagrado direito de discordar.
Melhor momento não existe para se afirmar como homem livre, que não abre mão da crítica. Como já se disse, a liberdade de discordar é que é a liberdade de expressão. Nem mesmo a mais ferrenha tirania cogitou proibir os homens de concordarem com ela. O que a faz prender, processar, multar, executar opositores é a “loucura” de pretenderem questioná-la. A tirania quer os homens escravos, e, como escreveu Eurípedes, nas Fenícias: “É sina de escravo não poder dizer o que pensa.”.
E não se enganem: tirania não significa necessariamente ditadura de uma minoria. Tirania é tolher a liberdade dos homens. E as maiorias também podem estabelecer tiranias, tiranias ainda mais assustadoras e enganosas, pela própria força do número, e pela confusão dos que acham que, porque é maioria, pode tudo, até acabar com a própria liberdade.
São estes os idólatras das maiorias, os que pensam que ouvem a vox dei (voz de Deus) sempre que têm a satisfação de ver suas opiniões endossadas pelas estatísticas favoráveis. É bem fácil nadar com a corrente, abrir mão do juízo crítico, fechar os olhos, adormecer embalado num belo sonho, principalmente quando se lucra um belo cargo com isso, ou uma bela verba, uma bela pensão, um belo aumento, um belo aplauso dos seus pares. Mas podemos voltar a Eurípedes, em sua peça Auge, para retrucar que “Não há título mais precioso que o de homem livre: quem o possui tem muito, ainda que pouco tenha de seu”.
Então, podem escrever loas, e odes, e madrigais, pro “vosso líder”, o “estadista”, o “poderoso chefinho”. Podem também dizer que eu sou um terrível membro das “elites brancas de olhos azuis”, o “inimigo do povo”, inimigo da pátria, terra adorada, entre outras mil, inimigo até da Petrobrás. Mas não me queiram cassar o sagrado direito de discordar.
Quem dá o tom é o próprio chefinho: quem o critica é sempre um membro da “imprensa golpista”, “quer o mal do país”, ou é membro da “elite”, uma entidade esotérica e maléfica, responsável pelos problemas da nação. O famoso bode expiatório, a bruxa pra ir pra fogueira, a burguesia, os judeus, os ianques imperialistas, os banqueiros de olhos azuis, os estraga-prazeres, o demônio. Aquele em quem descarregamos nossas frustrações, e atrás de quem escondemos nossas culpas.
E com isso os bugres interditam qualquer debate livre e honesto. Se quem aprova o presidente é do bem, e quem desaprova é o mal, pra que perder tempo com debate? Com o MAL não tem discussão, tem exorcismo, expurgo, prisão, manda pra fogueira, pro paredão, pra Auschiwitz, pro gulag...
Exagero? Exagero são as propostas de “controle social dos meios de comunicação”, as declarações de apoio e os afagos a Chavez e Fidel, a Kadafi e Ahmadinejad, a idolatria a ditadores e genocidas do porte de Lenin, Stalin, Trotski, e Mao Tse Tung, por parte da nossa inteligentzia, o culto ao “pensamento único”, às “soluções finais”. Exagero são as montanhas de processos contra jornalistas “do contra”, são os rios de dinheiro desperdiçados com propaganda nos meios de comunicação “muy amigos”, e obedientes. Exagero são os discursos radicais de Lulinha, as ameaças veladas de “botar o bloco na rua”, a baixa tolerância à crítica, a ameaça de expulsão de correspondente estrangeiro, e a estigmatização, como “inimigo da nação”, daqueles que ousam discordar.
E como citamos o teatro grego para defender a liberdade de expressão, nada melhor para fechar este artigo do que estes versos de Ésquilo, nas Suplicantes: “A verdadeira liberdade é poderem homens livres / Aconselhar o povo, livremente se expressando”.
E me dou conta de repente de que este artigo, que seria para desopilar o fígado e exercitar os músculos batendo um pouco no presidente, acabou virando artigo sobre liberdade de expressão. O.k., isto fica só como uma introdução. A seguir, virá a substância de minha crítica ao vosso estadista, Lulinha.
Melhor momento não existe para se afirmar como homem livre, que não abre mão da crítica. Como já se disse, a liberdade de discordar é que é a liberdade de expressão. Nem mesmo a mais ferrenha tirania cogitou proibir os homens de concordarem com ela. O que a faz prender, processar, multar, executar opositores é a “loucura” de pretenderem questioná-la. A tirania quer os homens escravos, e, como escreveu Eurípedes, nas Fenícias: “É sina de escravo não poder dizer o que pensa.”.
E não se enganem: tirania não significa necessariamente ditadura de uma minoria. Tirania é tolher a liberdade dos homens. E as maiorias também podem estabelecer tiranias, tiranias ainda mais assustadoras e enganosas, pela própria força do número, e pela confusão dos que acham que, porque é maioria, pode tudo, até acabar com a própria liberdade.
São estes os idólatras das maiorias, os que pensam que ouvem a vox dei (voz de Deus) sempre que têm a satisfação de ver suas opiniões endossadas pelas estatísticas favoráveis. É bem fácil nadar com a corrente, abrir mão do juízo crítico, fechar os olhos, adormecer embalado num belo sonho, principalmente quando se lucra um belo cargo com isso, ou uma bela verba, uma bela pensão, um belo aumento, um belo aplauso dos seus pares. Mas podemos voltar a Eurípedes, em sua peça Auge, para retrucar que “Não há título mais precioso que o de homem livre: quem o possui tem muito, ainda que pouco tenha de seu”.
Então, podem escrever loas, e odes, e madrigais, pro “vosso líder”, o “estadista”, o “poderoso chefinho”. Podem também dizer que eu sou um terrível membro das “elites brancas de olhos azuis”, o “inimigo do povo”, inimigo da pátria, terra adorada, entre outras mil, inimigo até da Petrobrás. Mas não me queiram cassar o sagrado direito de discordar.
Quem dá o tom é o próprio chefinho: quem o critica é sempre um membro da “imprensa golpista”, “quer o mal do país”, ou é membro da “elite”, uma entidade esotérica e maléfica, responsável pelos problemas da nação. O famoso bode expiatório, a bruxa pra ir pra fogueira, a burguesia, os judeus, os ianques imperialistas, os banqueiros de olhos azuis, os estraga-prazeres, o demônio. Aquele em quem descarregamos nossas frustrações, e atrás de quem escondemos nossas culpas.
E com isso os bugres interditam qualquer debate livre e honesto. Se quem aprova o presidente é do bem, e quem desaprova é o mal, pra que perder tempo com debate? Com o MAL não tem discussão, tem exorcismo, expurgo, prisão, manda pra fogueira, pro paredão, pra Auschiwitz, pro gulag...
Exagero? Exagero são as propostas de “controle social dos meios de comunicação”, as declarações de apoio e os afagos a Chavez e Fidel, a Kadafi e Ahmadinejad, a idolatria a ditadores e genocidas do porte de Lenin, Stalin, Trotski, e Mao Tse Tung, por parte da nossa inteligentzia, o culto ao “pensamento único”, às “soluções finais”. Exagero são as montanhas de processos contra jornalistas “do contra”, são os rios de dinheiro desperdiçados com propaganda nos meios de comunicação “muy amigos”, e obedientes. Exagero são os discursos radicais de Lulinha, as ameaças veladas de “botar o bloco na rua”, a baixa tolerância à crítica, a ameaça de expulsão de correspondente estrangeiro, e a estigmatização, como “inimigo da nação”, daqueles que ousam discordar.
E como citamos o teatro grego para defender a liberdade de expressão, nada melhor para fechar este artigo do que estes versos de Ésquilo, nas Suplicantes: “A verdadeira liberdade é poderem homens livres / Aconselhar o povo, livremente se expressando”.
E me dou conta de repente de que este artigo, que seria para desopilar o fígado e exercitar os músculos batendo um pouco no presidente, acabou virando artigo sobre liberdade de expressão. O.k., isto fica só como uma introdução. A seguir, virá a substância de minha crítica ao vosso estadista, Lulinha.
Prisão especial
Ouço uma notícia sobre o fim da prisão especial, uma comissão do Senado redigiu um projeto de lei que acabaria com o direito de algumas pessoas a um aprisionamento diferenciado até o final de seu julgamento. Creio que ainda não foi convertido em lei, mas quero fazer algumas considerações sobre o tema.
Primeiro, na verdade não é o fim completo e definitivo da dita prisão especial. Alguns membros da noblesse, da finesse, o presidente da República, juízes, procuradores do Ministério Público da União, estes continuariam tendo os benefícios da prisão especial. Políticos também, pelo que vejo em outra notícia. Acabaria prisão especial, então, grosso modo, só pros que têm curso superior completo. Tá vendo? Quem mandou estudar? Agora até este triste consolo para os anos de dificuldade estudando em nossas escolas e universidades que tão pobremente nos formam se perdeu... mas nunca fomos de valorizar muito a cultura, mesmo, essa coisa de arrogantes membros das elites brancas...
Parece que assim o Congresso dá alguma satisfação para a plebe ignara. Polegares pra baixo, nobres patrícios... sangue para a audiência!
As grandes massas insatisfeitas, com razão insatisfeitas, com a impunidade grossa que rola no país, criminosos, confessos e reconfessos, flanando por aí, na nobre sociedade, desfilando em carrões, dando festas e indo pra festas, andando de lancha e jatinho... ou então, na outra ponta, assassinos que dominam às claras favelas, mandam e desmandam, e fica tudo por isso mesmo... Não tem polícia, não tem juiz, nada que dê conta daquilo.
Esta multidão assustada e revoltada talvez saúde com júbilo a notícia, exagerada, como vimos, do FIM da prisão especial. Soa assim como um fim de privilégio, pela igualdade jurídica, um grande avanço pro nosso povo.
Mas reparem bem na questão... aqueles que fazem a lei, aqueles que a aplicam, nossos belos Poderes Federais, se asseguraram da continuidade do benefício para si. Para satisfazer a Ira Santa (terrível paradoxo) da população, jogaram no fogo só uns “trouxas” escolhidos, a turma de fora da patota; isto pode atender a anseios de justiçamento, desforra, vingança, mas atende à Justiça? Vai ser mesmo uma satisfação ver que mais pessoas, não mais restritas às classes mais pobres, vão experimentar o moedouro insano, o inferno de nossas prisões?
Leio a notícia de que numa prisão em Minas “vazou” uma gravação de celular, um filme feito por um preso, mostrando um dos “chefes” da cela, super-lotada, como de praxe, enfiando um cano de PVC no ânus de um outro preso, para se vingar, ou mostrar poder, ou por sadismo, qualquer coisa... os outros presos riam e incitavam o bizarro espetáculo. Mas isto é notícia pro fim do jornal, que estraga até o apetite dos bem-pensantes.
Tudo é uma bizarria neste país! Sistema prisional, escola, polícia, Justiça... E a “solução” dos políticos é dar a “satisfação” de deixar se espalhar mais a merda, livrando, é claro, o próprio pescoço. E os ricos, também, sabemos como é fácil comprar tratamentos diferenciados na prisão... então, manda ver mesmo com estes bobos que restam! Paguem pelo pato que consumimos, regado a vinhos bem caros...
Solução igualitária, justa, DE VERDADE, seria um mesmo regime para todos, e prevenindo a desumanidade mais cruel: será pedir demais, às nossas autoridades, aos homens de poder, uma cela individual enquanto se aguarda julgamento, além, quando cabível, em crimes menores, em circunstâncias favoráveis, bem definidas, com objetividade, pela lei, uma restrição da liberdade menos gravosa que o encarceramento? Lembremos, em tal situação, durante o processo, não está formada a culpa do suspeito. Pode perfeitamente ser que se trate de um completo inocente, acusado erroneamente por um crime que não cometeu.
Nesta condição, será razoável, além de toda a angústia e horror do encarceramento, e da dúvida quanto ao futuro, misturar esta pessoa, cegamente, com quadrilhas organizadas, bandidos de todo teor, e expô-la à violência, à lei da selva, à indignidade?
Temos em nossas leis a previsão de uma diferenciação quanto ao modo de cumprimento da pena, e é claro e justo que deve haver. Criminosos violentos, perigosos, não devem ser misturados com os estelionatários, com os batedores de carteira, no momento de cumprir a pena. Com isto acho que nem o “igualitarista” mais radical vai discordar. Está certo que na nossa bagunça geral, nem sempre acontece assim, e mistura-se de qualquer jeito, condenados de todo tipo. É mais um caso, como costumamos dizer neste nosso país original, que nem sempre a lei pega. Na prática a teoria é outra. Mas isto é uma outra questão.
O que causa espanto, e espécie, é ver que mesmo com a previsão para a diferenciação de tratamento para os que têm a culpa formada, ainda se defenda que, antes da culpa formada, se exponha os indivíduos que são submetidos a processo a tamanho risco de violência e humilhação. Mas sempre tem uns Jean Paul Marats, uns “amigos do povo”, para defender e açular os ódios e sentimentos de vingança da população, desviando sua atenção dos reais problemas da nação.
Não estou, obviamente, defendendo qualquer espécie de impunidade; estou defendendo processo, civilização, humanidade. Que o suspeito seja mantido em separado enquanto aguarda julgamento, que seja comunicado de imediato um familiar, que um advogado preste assistência imediata ao preso. Mas tudo isso deve ser pedir demais para nossas autoridades, e eu devo ser mesmo apenas um sonhador idiota. Quem sabe até um “amigo da bandidagem”? Afinal, se o sujeito foi preso, alguma culpa devia ter... in dubio PAU no reu. E seguimos.
Para uma análise técnica da disciplina da prisão especial, remeto os leitores ao seguinte artigo do site Jus Navegandi: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=1091
Primeiro, na verdade não é o fim completo e definitivo da dita prisão especial. Alguns membros da noblesse, da finesse, o presidente da República, juízes, procuradores do Ministério Público da União, estes continuariam tendo os benefícios da prisão especial. Políticos também, pelo que vejo em outra notícia. Acabaria prisão especial, então, grosso modo, só pros que têm curso superior completo. Tá vendo? Quem mandou estudar? Agora até este triste consolo para os anos de dificuldade estudando em nossas escolas e universidades que tão pobremente nos formam se perdeu... mas nunca fomos de valorizar muito a cultura, mesmo, essa coisa de arrogantes membros das elites brancas...
Parece que assim o Congresso dá alguma satisfação para a plebe ignara. Polegares pra baixo, nobres patrícios... sangue para a audiência!
As grandes massas insatisfeitas, com razão insatisfeitas, com a impunidade grossa que rola no país, criminosos, confessos e reconfessos, flanando por aí, na nobre sociedade, desfilando em carrões, dando festas e indo pra festas, andando de lancha e jatinho... ou então, na outra ponta, assassinos que dominam às claras favelas, mandam e desmandam, e fica tudo por isso mesmo... Não tem polícia, não tem juiz, nada que dê conta daquilo.
Esta multidão assustada e revoltada talvez saúde com júbilo a notícia, exagerada, como vimos, do FIM da prisão especial. Soa assim como um fim de privilégio, pela igualdade jurídica, um grande avanço pro nosso povo.
Mas reparem bem na questão... aqueles que fazem a lei, aqueles que a aplicam, nossos belos Poderes Federais, se asseguraram da continuidade do benefício para si. Para satisfazer a Ira Santa (terrível paradoxo) da população, jogaram no fogo só uns “trouxas” escolhidos, a turma de fora da patota; isto pode atender a anseios de justiçamento, desforra, vingança, mas atende à Justiça? Vai ser mesmo uma satisfação ver que mais pessoas, não mais restritas às classes mais pobres, vão experimentar o moedouro insano, o inferno de nossas prisões?
Leio a notícia de que numa prisão em Minas “vazou” uma gravação de celular, um filme feito por um preso, mostrando um dos “chefes” da cela, super-lotada, como de praxe, enfiando um cano de PVC no ânus de um outro preso, para se vingar, ou mostrar poder, ou por sadismo, qualquer coisa... os outros presos riam e incitavam o bizarro espetáculo. Mas isto é notícia pro fim do jornal, que estraga até o apetite dos bem-pensantes.
Tudo é uma bizarria neste país! Sistema prisional, escola, polícia, Justiça... E a “solução” dos políticos é dar a “satisfação” de deixar se espalhar mais a merda, livrando, é claro, o próprio pescoço. E os ricos, também, sabemos como é fácil comprar tratamentos diferenciados na prisão... então, manda ver mesmo com estes bobos que restam! Paguem pelo pato que consumimos, regado a vinhos bem caros...
Solução igualitária, justa, DE VERDADE, seria um mesmo regime para todos, e prevenindo a desumanidade mais cruel: será pedir demais, às nossas autoridades, aos homens de poder, uma cela individual enquanto se aguarda julgamento, além, quando cabível, em crimes menores, em circunstâncias favoráveis, bem definidas, com objetividade, pela lei, uma restrição da liberdade menos gravosa que o encarceramento? Lembremos, em tal situação, durante o processo, não está formada a culpa do suspeito. Pode perfeitamente ser que se trate de um completo inocente, acusado erroneamente por um crime que não cometeu.
Nesta condição, será razoável, além de toda a angústia e horror do encarceramento, e da dúvida quanto ao futuro, misturar esta pessoa, cegamente, com quadrilhas organizadas, bandidos de todo teor, e expô-la à violência, à lei da selva, à indignidade?
Temos em nossas leis a previsão de uma diferenciação quanto ao modo de cumprimento da pena, e é claro e justo que deve haver. Criminosos violentos, perigosos, não devem ser misturados com os estelionatários, com os batedores de carteira, no momento de cumprir a pena. Com isto acho que nem o “igualitarista” mais radical vai discordar. Está certo que na nossa bagunça geral, nem sempre acontece assim, e mistura-se de qualquer jeito, condenados de todo tipo. É mais um caso, como costumamos dizer neste nosso país original, que nem sempre a lei pega. Na prática a teoria é outra. Mas isto é uma outra questão.
O que causa espanto, e espécie, é ver que mesmo com a previsão para a diferenciação de tratamento para os que têm a culpa formada, ainda se defenda que, antes da culpa formada, se exponha os indivíduos que são submetidos a processo a tamanho risco de violência e humilhação. Mas sempre tem uns Jean Paul Marats, uns “amigos do povo”, para defender e açular os ódios e sentimentos de vingança da população, desviando sua atenção dos reais problemas da nação.
Não estou, obviamente, defendendo qualquer espécie de impunidade; estou defendendo processo, civilização, humanidade. Que o suspeito seja mantido em separado enquanto aguarda julgamento, que seja comunicado de imediato um familiar, que um advogado preste assistência imediata ao preso. Mas tudo isso deve ser pedir demais para nossas autoridades, e eu devo ser mesmo apenas um sonhador idiota. Quem sabe até um “amigo da bandidagem”? Afinal, se o sujeito foi preso, alguma culpa devia ter... in dubio PAU no reu. E seguimos.
Para uma análise técnica da disciplina da prisão especial, remeto os leitores ao seguinte artigo do site Jus Navegandi: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=1091
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