sábado, 17 de outubro de 2009

Modernidade

A modernidade trouxe tais horrores que assustou a humanidade, por um bom tempo. Ela gerou uma ideologia, a do progresso infinito, a de querer sempre mais, a qualquer preço, a dos vencedores sem mácula. E esta ideologia cobrou alto preço.
Esqueceu-se da humildade. Humildade virou palavrão. Pensava-se que a absoluta satisfação estava logo ali na porta, e que se o presente não era um mar de rosas, a culpa era de uns tantos tipos “fora de moda”, que não permitiam este dia sem nenhuma tristeza.
Pensando-se em retrospectiva, parece uma ilusão bem louca. Mas quem diz que não estamos delirando justo agora? Quem poderá saber?
E esta ilusão da modernidade gerou muito ódio. Uma insatisfação muito ressentida, uma exigência muito exagerada. Por conta desse ódio, muita gente teria que pagar. A Revolução Francesa começou pedindo muito sangue. Depois veio o ódio dos comunistas, dos nazistas, dos fascistas. Sempre em nome destes grandes ideais: liberdade, fraternidade, igualdade. Sempre em nome de algum tipo de progresso. No filme documentário A Arquitetura da Destruição enxergamos claramente a cultura da Alemanha nazista: um sonho idílico, pastoril, uma volta a um passado idealizado que prometia segurança. Um sonho de comunidade perfeita, como numa romântica/primitiva tribo, só que usufruindo das conquistas da tecnologia. Homens que trabalhariam juntinhos, em camaradagem, e retornariam para felizes lares mantidos por belas e sorridentes donas de casa/pastoras.
Claro que tanto desequilíbrio pro lado da luz cobraria uma contra-partida bem alta de sombras. Monstros disformes assombravam este Paraíso, na forma dos disformes, grotescos, doentes de corpo e de alma. Pobres loucos, dementes, em asilos, eram apontados e vistos como seres que seria muito melhor que não existissem. E, de fato, passaram a ser exterminados metodicamente, na calada da noite. Era preciso calar toda a voz da consciência, ser o tão proclamado “super-homem”, para dar cabo desta tarefa suja. Mas os nazistas poderiam fazê-lo, porque eram o “homem superior”.
E é claro, havia os judeus. Estes seriam piores ainda do que os dementes, pois esses, na ideologia oficial, eram os perversos que conscientemente se opunham ao mundo dourado nazista. De alguma forma, os judeus conseguiam controlar toda a realidade. E se um nazista envenenava um pobre débil mental, isto também deveria ser por culpa de alguma manobra dos judeus. Não faz sentido, eu sei, mas é assim que funciona o mecanismo do bode expiatório. E os judeus serviram para canalizar todo aquele ódio recalcado pelos brilhantes, perfeitos, nazistas.
E histórias semelhantes aconteciam na Itália fascista, na União Soviética comunista. O demônio da ideologia possuía, cegava, enlouquecia suas vítimas. Dostoievsky descreveu muito bem o processo no extraordinário romance Os Demônios. Cada movimento destes pretendia inaugurar um novo mundo para um novo homem. O único empecilho que viam era alguma classe/raça/grupo que impediam os seus grandiosos planos; eram os discordantes, os diferentes, os que não se encaixavam no cenário de perfeição imaginado por estes “mestres iluminados”.
Para os discordantes, logo logo um Processo de desumanização era iniciado. Estes discordantes não eram pessoas comuns, boas, pois impediam a felicidade geral. Não eram sequer pessoas, então poderiam ser escravizados, exterminados, humilhados, sem qualquer retaliação ou remorso. A modernidade negava qualquer sentimentalismo, loucamente pensava que seguia os ditames da Razão, se é que existe esta entidade em algum reino de Idéias. Na Revolução Francesa, inclusive, desentronaram o velho Deus, da “decrépita” tradição, para adoraram uma suposta “nova deusa”, justamente ela, a Razão...
Como se diz, entretanto, não se deve chorar pelo leite derramado. É sempre uma nova humanidade que se apresenta, com cada nascimento. E é para o presente que o homem vive. A ideologia da transformação radical do mundo já não empolga tanto as mentes, graças a Deus. O homem vai se acostumando com a modernidade, e vai percebendo que não pode elevar tão alto sua esperança no sentido de que a modernidade poderia alterar a condição trágica do ser humano.
E é bom termos os pés bem no chão. Esperanças excessivas não trazem mais que ansiedade e frustração. E estas libertam o demônio do ódio, que exige suas vítimas.
É bom termos serviços, confortos, comodidades, abundâncias, que as próprias civilizações buscaram sempre, e que todo homem busca. É bom termos a medicina, e expectativa de vida maior, e alimentos fartos, e menos miséria, desespero, loucura...
Temos um mundo um pouco melhor, na sua média, e isto é motivo de agradecimento e de júbilo. Tudo foi construído por nossos antepassados, com muita luta e bravura, enfrentando a mesma condição trágica que é a nossa. E a responsabilidade também é nossa, de evitar o mal e aumentar o bem, para este mundo.
Hoje, parece ter fugido a fase de desesperado Romantismo. Aquela Juventude Dourada que EXIGIA O MUNDO, E EXIGIA AGORA! Hoje, parece que enxergamos que apesar de todo o muitíssimo bem vindo bem que trouxeram as novas ciências, as novas atitudes, a nova racionalidade do homem, elas não podem fazer do homem um ser distinto da sua própria natureza, ou fazê-lo escapar de seu destino. Por mais carros/relógios/iates que eu possua, estão ali a solidão e o mistério absolutos da morte. Por mais que as condições de vida evoluam, está ali a pobre criança louca que ninguém conseguiu salvar. Estão ali as decisões irrevogáveis, difíceis. A aceitação deste “princípio de realidade”, por dolorosa que seja, paradoxalmente nos liberta de uma ansiedade pela vida que, sendo ela própria um mal, não realiza tampouco qualquer bem.
Ninguém vai se livrar do cutelo do destino por ficar pensando no seu golpe. Vive-se, loucamente, sem razões que o justifiquem, mas vive-se. E é melhor estender a mão pro ser humano do lado, ainda mais, quanto mais fraco e indefeso ele for, e esperar que amanhã façam o mesmo por você.

Sangue por Glória

Sangue por glória é um filme de John Ford, de 1952, contando a história de um regimento americano na França da Primeira Guerra.
Ele se fixa mais nos relacionamentos humanos que nas cenas de guerra propriamente ditas. E o foco vai em uma conturbada relação vivida por um capitão (James Cagney), um sargento (Dan Dailey), e uma francesa em disputa (Corinne Calvet). Todos são vividos por excelentes atores. E principalmente James Cagney se destaca, em uma atuação que lhe exige muito. Não pára de acontecer coisas no filme, tão díspares quanto comédia pastelão em batalhas, dor profunda, esperança, honra, inconsequência. E para tudo está Cagney, já não mais um garoto, mas esbanjando sua distintiva vitalidade em cena.
Trata-se de um filme baseado em uma peça de Maxwell Anderson e Laurence Stallings, o que explica o enfoque mais humano e intimista. Não há sequer uma grande batalha, como nos acostumamos a ver nas telas, o que até desaponta um pouco. Mas sobram ação e sentimentos. Os americanos invadindo o bar da cidade francesa é um momento de ação febril e cômica; acontece um (quase) casamento, uma cena de amor tão profunda que vai ao surrealismo, grandes cenas de treinamento, de disputas, de bravura, de sentimento. John Ford e seus atores mantêm-se com as mãos ocupadas todo o tempo, não têm medo de beber pesado, ou trocar socos e tiros. O tempo todo alguma coisa acontece, não como filmes que duram duas horas girando sobre o nada, e Ford ainda encontra o tempo para os seus emotivos números musicais.
Um filme de grandes qualidades, portanto, que vale a (re)descoberta.
Cotação: **** muito bom

Milagres

Pra quem nunca viu um milagre:

http://www.youtube.com/watch?v=xg1LcHAaP80

The times they are a´changin - Bob Dylan

http://www.youtube.com/watch?v=q1NAab3tAaw

Obs. Pra quem não sabe, do lado do vídeo do You Tube, tem uma caixa e um link: mais informação. Clicando nele, frequentemente, e como no presente caso, vêm umas informações interessantes sobre a música/vídeo.

Vai a letra, hino do protesto, profética, espantosa, misteriosa. Ver Bob Dylan, tão jovem, levando esta canção tão gigante sozinho, violão e gaita, é emocionante, e um assombro.


Venham se reunir ao redor pessoal,
De onde quer que vocês caminhem a esmo,

E admitam que as águas
Ao seu redor cresceram

E aceitem que bem logo
Estarão encharcados até os ossos

Se o seu tempo pra vocês
Vale a pena ser salvo

Então é melhor que comecem a nadar
Ou afundarão como uma pedra

Porque os tempos
Eles estão mudando

Venham escritores e críticos
Que profetizam com sua caneta

E mantenham os olhos bem abertos
A oportunidade não virá novamente

E não falem cedo demais
Pois a Roda continua a girar

E não há como dizer
Quem ela vai nomear

Pois o perdedor de agora
Vai mais tarde vencer

Porque os tempos
Eles estão mudando

Venham senadores, congressistas,
Por favor, atendam ao chamado

Não parem no caminho da porta
Não congestionem o corredor

Pois aquele que vai se ferir
Será aquele se atolou no caminho

A batalha lá fora
Rugindo

Vai logo sacudir suas janelas
E fazer ruir os seus muros

Porque os tempos
Eles estão mudando

Venham mães e pais
De toda terra ao redor

E não critiquem
O que não conseguem entender

Seus filhos e suas filhas
Estão além do seu comando

Sua velha estrada
Rapidamente envelhece

Por favor, saiam da nova
Se vocês não puderem emprestar suas mãos

Porque os tempos
Eles estão mudando

A linha ela está traçada
A maldição ela está lançada

O lento agora
Será mais tarde rápido

Como o presente agora
Será mais tarde passado

A ordem está rapidamente
Se esvaindo

E o primeiro agora
Será mais tarde o último

Porque os tempos
Eles estão mudando

sábado, 26 de setembro de 2009

Como se fosse o blues do Pequeno Polegar

Uma música do Bob Dylan que tem me acompanhado os pensamentos, do LP Highway 61 Revisited (1965), número 4 nos 500 melhores discos da lista da revista Rolling Stone. Just Like Tom Thumb´s Blues
http://www.youtube.com/watch?v=K6_lqmfSIx8


Como se fosse o blues do Pequeno Polegar

Quando você está perdido na chuva em Juarez
E ainda por cima é época da Páscoa

E a lei da gravidade falha
E a negatividade não te fará superar

Não tire onda nenhuma
Quando você desce as Ruas Morgue

Elas têm algumas mulheres famintas
Elas vão uma bagunça de você

Agora, se você vir Sant´Ana
Por favor, diga-lhe, um muitíssimo obrigado,

Eu não consigo me mover
Meus dedos todos num nó

Eu não tenho nem a força
Pra me levantar e tomar outra dose

E meu melhor amigo, meu médico,
Sequer vai dizer o que eu tenho

Doce Melinda
Os camponeses a chamam a Deusa do Entardecer

Ela fala bom inglês
E ela te convida pra subir pro seu quarto

E você é tão gentil
E cuidadoso, pra não alcançá-la rápido demais

E ela tira sua voz
E te deixa uivando pra lua

Subindo o morro do conjunto habitacional
Ou é fortuna ou é fama

Você precisa escolher uma ou outra
Embora nenhuma seja aquilo que anuncia

Se você quer bancar o engraçado
é melhor você voltar pro buraco de onde saiu

Porque os polícias não precisam de você
E, cara, eles esperam o mesmo

Agora, todas as autoridades,
Elas ficam por aí, e contam vantagem,

Como elas chantagearam o sargento de guarda
Pra que deixasse seu posto

E pegaram o Anjo
Que acabava de chegar vindo da Costa

Que no começo parecia tão bom
Mas que acabou parecendo um fantasma

Eu comecei com vinho da Burgúndia
Mas logo cheguei nas coisas mais fortes

Todo mundo dizia que ia me dar apoio
Quando as coisas ficassem ruins

Mas a piada era comigo
Não tinha gente ali sequer pro meu blefe

Eu vou é voltar pra Nova York
Eu realmente penso que tive o bastante

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Mentiras do Governo

E não passa dia sem uma nova evidência de nossa triste situação, de otários, escravos, impotentes, a quem se pode mentir na cara e ficar por isso mesmo. Estão “obrando” pra opinião pública. Desta vez, a evidência se apresenta com cores dramáticas, de algumas centenas de mortos, mulheres grávidas, crianças... simplesmente o Governo admitiu candidamente que o remédio Tamiflu não foi liberado para venda simplesmente por não haver estoque suficiente à demanda. Agora que o Laboratório Roche, produtor do medicamento, tem condições de suprir a demanda, todos poderão comprá-lo no balcão da farmácia. Isto depois de o Governo ter dado uma batelada de explicações “técnicas” para a proibição das vendas: que seria perigosa a auto-medicação, que o vírus poderia adquirir resistência, e blá, blá, blá... de repente todo esse lero-lero passa a não ter valor, e o diretor de vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde, Eduardo Hage, informa que “o próprio laboratório priorizou a demanda do Ministério, o que foi correto”. Ou seja, decidiu-se garantir que não faltaria remédio pras pessoas incomuns, do Governo ou amigas do Governo, e pros trouxas da patuléia a gente diz que não tem remédio pro próprio bem deles.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Estatismo

É interessante ver que às vezes é até possível ser marxista, pelo menos no sentido de compartilhar algumas das opiniões do velho Marx, o Karl, o mais nonsense dos irmãos Marx. Aqui está o que diz Karl, em A luta de classes na França:
As enormes somas que passavam pelas mãos do Estado davam, além disso, oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero
Eu posso até ser marxista neste trecho, mas eu imagino como terá marxista de carteirinha, de bóton na lapela, se surpreendendo e se assustando com os malabarismos mentais que terá de fazer para adequar seus pensamentos ao do GRANDE MESTRE.
Pois é. A ordem para a esquerda que tem Marx por grande profeta é hoje a de aplaudir o gigantismo estatal. Atende bem aos reclamos da burocracia, sempre ávida por empregos em que o patrão dá muito e exige pouco; empregos a que podem aspirar mesmo sem ter talento ou aptidão; basta ser amiguinho/parente/amante de um “Sinhô do Governo”, pra garantir uma sinecura. E pode rolar uma “transação cruzada”, um “troca-troca”, entre os Sinhôs do Governo, do tipo: “eu dou uma vaguinha no meu Gabinete pro seu parente, você dá uma vaguinha na sua Fundação prum parente meu”. Bem isso que aparece todo dia escancarado nos jornais, e que o coleguinha Marx descreveu: “oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero”. Mas os muitos votos que têm todo o interesse de gozar privilégios, dolces far nientes, precisam ser adulados, para que se possa galgar posições de poder; então, toca a dar nomes bonitos pro gigantismo estatal, vamos dizer que é uma questão de Soberania, e Patriotismo, e Direitos dos Trabalhadores, e que quem não enxerga isso é um neo-liberal direitista, um terrível fascista, ou traidor da Nação, inimigo do Povo, nazista... nomes feios, ofensas, sem qualquer conteúdo, usados apenas para impedir qualquer debate.
Porque se pudesse haver um debate, é claro que se enxergaria que o diagnóstico de Marx está correto: muito dinheiro circulando no Estado, é igual a muitas fraudes e corrupções, “ladroeiras de todo gênero”. E isto não seria aceitável por um povo livre e consciente, e teria de mudar. Como? Encerrando com tantas oportunidade de “negócios”, feitos pelo Estado e seus operadores.
Estado tem de ter indústrias, comércios, serviços de todo gênero? Estado tem de fazer pão, telefone, camisa, prego, computador, estádio de futebol? A esquerda parece marcar um “sim”, para todas as opções anteriores. Seu ideal é um mundo “sem ganância”, de funcionalismo e burocracia, todos ganhando pouco, fazendo pouco, sendo pouco avaliados...
Curiosamente, este “marxismo” que não segue Marx, de defender estatismo, combina perfeitamente com nosso velho e arraigado patrimonialismo, em que nossos “donos dos poderes”, governantes, legisladores, altos funcionários, estão acostumadíssimos a fazer o que bem entendem com os dinheiros e os direitos do povo. Tratam a coisa pública como se fosse propriedade particular deles. Fazem leis que agridem explicitamente direitos individuais, com a maior desfaçatez. Vale qualquer demagogia para ganhar aplausos e votos. Ainda mais quando os sacrifícios são alheios. Fazem leis para dar “meias-entradas”, estacionamentos “de grátis”, “contribuições” “sociais” disso e daquilo, e tantas outras.
Além disso, fazem as nomeações que bem entendem, colocam semi-analfabetos para presidir estatais, hospitais, escolas, universidades, garantem-se as mais generosas aposentadorias, planos de saúde, policias para fazer segurança particular...
Além, é claro, das muitas oportunidades, tantas mais quanto mais o Estado se espalha ocupando espaços que pertenceriam à iniciativa privada.
Tudo isto, eu dizia, faz parte de nossa tradição patrimonialista, de termos um “senhor” a quem pertence tudo, e sermos uma multidão a quem compete calar a boca, acatar qualquer capricho do “senhor”. Não temos direitos e deveres, em suma; temos de “puxar o saco”, cair nas graças de quem, por seu capricho e alvedrio, pode nos dar uma “colocação”. Claro, se amanhã este grande benfeitor nos pedir um favor, iremos “cordialmente” nos desdobrar para atender; até porque não queremos perder nosso cargo “de confiança”, “de livre provimento e exoneração”. E acima de tudo, seguir a lei do silêncio, como na Máfia. Nas relações de “camaradagem”, o pior pecado é dar com a língua nos dentes.
Ou seja: o compromisso não é com a abstração do Estado e suas leis. O compromisso é com o muito concreto “dono do poder”, que pode dar e retirar benesses ao seu alvedrio. Sem prestar contas pra ninguém, como se aquilo não fosse do público, fosse deles; “obrando” pra opinião pública, porque a opinião pública não lhes pode retirar do Poder; eles sabem manter seus “nichos”, seus “currais” eleitorais, sabem manobrar as confusas leis em benefício próprio, mudam domicílios eleitorais, entram de suplente, arrumam grandes financiadores pras campanhas... e um povo sem estudo é um povo sem defesa, e as Cortes do país nunca conseguem segurar o peixe grande... “Você sabe com quem está falando?”
Então, uma “filosofia”(bota bastante aspas neste “filosofia”) política que defenda um maior avanço do Estado em todas as áreas, e estigmatize com um monte de nome feio quem se atrever a levantar objeções, vai aumentar ainda mais os poderes destes velhos patrimonialistas bem instalados nos postos de comando de nossa sociedade, e logicamente vai ser recebida por eles com sorrisos francos e braços abertos. Eles vão até poder dizer: “Ora, mas é isto o marxismo, o socialismo? Mas então eu era marxista e não sabia”. Bem que costumam dizer que o socialismo é o neo-patrimonialismo.
Aliás, também curiosamente, o socialismo “real”, isto é, conforme se instalou historicamente nos Estados em que grupos ditos seguidores de Marx se alçaram ao Poder, representou justamente a vitória maior deste estatismo descontrolado. Acabaram com muitos empresários, com muitos proprietários, em fuzilamentos e campos de confinamento. Seguiram fielmente o receituário de Marx, não mostrando piedade pelos inimigos “de classe”. Mas aí, não se deu aquela mágica prometida pelo “profeta” barbudo: não raiou um novo Homem, numa nova Era, em que o Estado sumiria, e sumiria a “exploração” ao som de “Imagine”. Foi um Apocalipse sangrento, escatológico, mas sem Redenção. O homem soube matar, mas não soube ressuscitar.
De novo, o que se viu foi que na Rússia, pátria primeira do socialismo histórico, aquele discurso novo de Marx, aquela promessa de fim da luta de classes, serviu para re-legitimar velhas práticas tirânicas. Como faziam os Czares históricos, o exemplo paradigmático sendo Pedro, o Grande, o povo russo servia de argamassa para a construção do sonho do Governante.
Pedro queria modernizar a Rússia, aproximá-la da Europa Ocidental. Entrou em confronto com os costumes de seus súditos, obrigou-os a raspar a barba; e arregimentou milhares de trabalhadores para suas grandes obras de modernização, deslocando-os de seus lares, afastando-os de suas famílias, literalmente forçando-os a trabalhar para realizar os seus sonhos.
Nada de diferente do que fizeram Lenin e Stalin, apenas que com os socialistas o discurso de justificativa era outro. E o pior é que este novo discurso, este novo ideal de “refazer o homem”, e atingir um “fim da História”, uma superação das contradições, um absoluto, incendiou as imaginações, e deu novo fôlego para tirania, justamente quando seu velho alicerce, o Czarismo já dava sinais de caducar e ruir.
Agora, esta nova promessa justificava novos radicalismos, extermínio de “inimigos”, “trabalhos forçados” para construir a Nova Pátria do Futuro, a mãe-Rússia, com seu “destino histórico” de liderar e conduzir os outros povos. E tome guerra, quente ou fria, para espalhar esta dádiva que é o comunismo, para outros povos.
Agora que estamos afastados no tempo, podemos ver com melhor perspectiva os resultados de tão grandes sacrifícios e aspirações; é engraçado, mas parece que não veio nenhuma Grande Voz do céu( de Deus? De Marx? De Lenin?) para avisar que a dona História chegou na última estação e resolveu parar. Cansou, entregou os pontos, rendeu-se à super mente científica de Marx, que lhe desvendou os mistérios.
Nada disso aconteceu. Está certo, a União Soviética passou um tempo dominando sobre diversos povos, e alcançaram alguns notáveis avanços, principalmente no fabrico de armas, e ainda conseguiram lançar uns satélites. Mas será que foi a doutrina socialista que proporcionou isso?
Parece mais é que estes foram os resultados de se forçar uma grande parte do povo a cumprir certos objetivos eleitos pelos Governantes. Como as grandes obras de Pedro, ou como as pirâmides dos Faraós. Em todos os casos as conquistas foram feitas pela população numerosa, industriosa, capaz, e com os recursos de terras, matérias-primas, riquezas, à disposição.
Claro que a História não admite suposições. É inútil tentar responder “o que aconteceria se”; o que aconteceria se o Brasil tivesse sido colonizado pelos ingleses; ou pelos holandeses; ou pelos chineses; ou por extra-terrestres?
Mas ainda assim, é lícito especular: se os Governantes russos, ao invés de tiranizarem e desperdiçarem a energia de seu povo em cruéis e inúteis guerras, e dominações, e na busca desta utopia socialista, e se concentrassem apenas em oferecer uma boa educação para as multidões de analfabetos, e respeitassem direitos individuais dos governados, e lhes respeitassem a liberdade de votar as leis, e de empreender, de escolher um trabalho, e a maneira de ganhar dinheiro, a maneira de viver, em suma, será que este grande povo, com estes grandes recursos, não iria alcançar tanto, ou mais, do que os esfarrapados ganhos depois de décadas de socialismo?
Estas décadas de socialismo tiveram um custo muito grande e concreto, traduzido em milhares de vidas assassinadas, ou encarceradas em gulags, indivíduos cujo crime foi não concordar com a doutrina que os governantes impunham.
Claro, pode-se afirmar que a História russa tinha de ser desse jeito, que foi apenas o desdobramento de antiquíssimas tradições, que a tirania, a obediência, a ausência de crítica, eram todo o horizonte da maioria do povo russo, e que nenhum regime diferente daquele que Lenin implantou teria funcionado para a Rússia. De fato, a História aconteceu deste jeito, e não pode ser mudada. Mas eu não estou lamentando que poderia ter sido diferente, estou apenas dizendo que o socialismo não vale a pena. Suas pretensas conquistas podem ser melhor alcançadas simplesmente valorizando a educação e as liberdades de um povo, como demonstraram sobejamente povos de população e território reduzidos, com poucos recursos, mas que se destacaram imensamente por suas realizações. Lembremos, sem nos alongar, dos ingleses, durante o século XIX, e dos gregos, no século V a.C.
As grandes realizações do socialismo real são ótimas para fins de propaganda, enchem os olhos de quem está de fora, mas não representam um acréscimo de qualidade de vida para o povo que as produz. Um satélite em volta da Terra, uau! Bomba atômica, que lindo! Não sei quantas nações subjugadas pelo Grande Urso Soviético, que grandeza!
Mas um povo triste, afundado em vodka, sem gêneros básicos, que não pode criticar, que não pode querer mudar... perdendo vidas em guerras, com medo de polícias secretas... um povo deformado e infantilizado pela dependência em relação ao Estado. E, afinal, é a qualidade de vida que importa. Por algum tempo o homem pode abrir mão de todo conforto, e até dos seus sentimentos, da sua capacidade de enxergar a realidade, da sua faculdade de crítica, em prol de um ideal que lhe absorva. Mas com o tempo, vendo nunca chegar o tal futuro brilhante prometido, e, pior, vendo que aquele mesmo ideal apenas justificava imobilismo e injustiça, não mais se consegue manter os corações e mentes presos àquele ideal.
É incrível como isto acontece, de uma noite para o dia, de uma geração para outra, de repente tudo aquilo que parecia tão sólido, se desmancha no ar! Num dia parece toda a realidade, por toda a eternidade! No outro dia, toca-se com um dedo naquilo, e aquilo virou pó e desaba... mas, infelizmente, os muitos executados, os muitos desaparecidos, durante aquele tempo em que o velho ídolo parecia com a divindade, estes não voltam...