O que é inteiramente imoral é haver tanto trabalho útil a ser feito, e trabalhadores ansiando pela oportunidade de fazê-lo, deixar de ser feito, em razão de apropriadores corruptos do dinheiro que deveria ser bem empregado.
O custo desta corrupção é inestimável. Em vidas. Vidas que poderiam ser salvas se um pouco de trabalho bem feito tivesse sido empregado. Encostas que desabam, por falta de obras, por falta de investimentos? Culpa desta desorganização, que permite esta imoralidade.
Um desses grandes ricos espertos, curtindo na impunidade, o quanto de trabalho ele não impede de ser feito? Um desses ricos bem ricos, que embolsam U$ 450 milhões em contas no exterior. Quanto só isso representa de trabalho de alguém que ganha um salário, R$ 450? Resposta, admirável: um milhão e oitocentos mil. Um milhão e oitocentas mil pessoas, que poderiam ganhar um salário, um meio digno de vida, para conter uma encosta, ou fazer um reflorestamento, ou construir um canal de escoamento, ou fazer um saneamento, ou dar uma aula, ou trocar um curativo, e que fica no bolso de UM dos nossos tantos corruptos.
O dia em que este povo vai sorrir de contente será o dia em que este povo acabar com esta imoralidade. Pegar o dinheiro que arrecada, e usá-lo TODO para pagar pessoas que desempenham um trabalho útil. Um trabalho que se submeta à fiscalização da sociedade que o paga.
Até este dia chegar, nosso povo não estará realmente livre.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Daniel Dantas
Sem ganhar destaque em primeira capa, veio a notícia de que o juiz Arnaldo Esteves Lima do nosso Superior Tribunal de Justiça decidiu suspender todas as ações da Operação Satiagraha, que investiga o banqueiro Daniel Dantas.
O caso, que já havia provocado rumores diversos nos noticiários do país, com o juiz Fausto de Sanctis mandando prender o banqueiro duas vezes, e o presidente do Supremo Tribunal Federal dando duas liminares mandando soltar, liminares que provocaram questionamentos diversos, com mal estar e repreensões ao Juiz de primeira instância por parte de Gilmar. Fausto de Sanctis foi inclusive afastado do caso. Lembra-se ainda que as liminares foram dadas com uma presteza exemplar, pelo juiz do Supremo.
Depois disso, como uma bomba espalhando seu raio de alcance, o terremoto chegou na Polícia Federal: cenas inéditas no país: o delegado que chefiava a operação, Protógenes Queiroz, foi afastado não só da investigação, mas da própria Polícia Federal. A bomba explodiu tão forte que o próprio diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Paulo Lacerda, foi demitido do cargo que ocupava desde outubro de 2007. Ganhou um “prêmio de consolação”, entretanto, sendo nomeado pelo Governo adido policial (?) em Portugal.
Dantas teve inclusive uma condenação em ação penal por corrupção ativa e suborno, ganhando pena nada desprezível de dez anos e multa de R$ 12 milhões. Mas, pela notícia do Globo de 22.12.2009, até mesmo esta ação penal foi suspensa pela decisão do juiz do Superior Tribunal de Justiça.
Seguindo com a notícia de Flávio Freire, “A decisão beneficia Dantas também porque o STJ decidiu suspender a cooperação internacional. A Justiça dos Estados Unidos havia bloqueado contas do empresário naquele país que somariam U$ 450 milhões. A Secretaria Nacional de Justiça pediu a ajuda americana para tentar repatriar esse dinheiro para o Brasil.”
Como se vê, a decisão do juiz do STJ tem amplíssima repercussão. Fico imaginando a situação do funcionário que foi comunicar à Justiça dos Estados Unidos o teor da decisão: “- Hey, mister! Sabe aquela cooperação internacional que tínhamos? Aquela em que vocês bloquearam as contas de um banqueiro que respondia processo na Justiça do Brasil, aquelas contas de US$ 450 milhões de dólares? Pois é, tá suspenso. Libera a grana, aí, o money. É que teve uma decisão nova aí, da nossa Justiça...”
O caso do suborno que resultou na condenação de Dantas foi gravado pela polícia e apareceu nos noticiários televisivos: o delegado federal Vitor Hugo Rodrigues Alves relatou ao juiz criminal Fausto de Sanctis que recebeu proposta de um milhão de reais (vou repetir: UM MILHÃO DE REAIS), para deixar de fora da investigação Daniel Dantas e seus parentes. Foi daí que veio a autorização judicial para gravação e monitoramento de telefonemas e encontros entre o delegado e os homens que se apresentaram como emissários do banqueiro, para negociação da propina.
Um deles, Hugo Chicaroni, foi preso em seu apartamento com R$ 1,3 milhão em dinheiro vivo. Este mesmo Chicaroni foi gravado dizendo ao delegado que “a preocupação de Daniel Dantas seria apenas com o processo na primeira instância, uma vez que, no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal, ele resolveria tudo com facilidade".
Pois é. O caso de Daniel Dantas se arrasta há meses em nossos noticiários, e tem implicações amplas, como temos visto. Não vou me estender sobre o assunto, mas vai um link da internet com outras informações, para os interessados: http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MUL640374-10406,00-PF+PRENDE+DANIEL+DANTAS+NAJI+NAHAS+E+CELSO+PITTA.html
Não conheço detalhes das “argumentações jurídicas” empregadas pelos advogados de Dantas, e pelos juízes que já decidiram sobre o caso. Mas entendo que as decisões da Justiça deveriam ter os olhos bem abertos para os FATOS. É UM MILHÃO DE DÓLARES que foi encontrado no apartamento? São dois milhões de dólares na cueca? São dez milhões em cima de uma mesa? São 450 milhões em contas bancárias no exterior? Isto é um fato? E por que é que não se questiona severamente a origem deste dinheiro? E por que é que não se pune exemplarmente estes que têm as montanhas de dinheiro sem poder explicar as origens? É um fato pequenininho, a que não se deve dar atenção? Ou é uma montanha de excremento na frente do nariz, CLAMANDO POR SER LIMPADA? UM POVO EXPLORADO CLAMANDO POR JUSTIÇA?
E isto tudo gravado, filmado, documentado, carimbado em três vias... mas nunca se chega a condenações, sempre se tropeça nas filigranas... ou nas filiGRANAS... ignora-se o fato clamoroso, em prol da “argumentação jurídica”. E “argumentação jurídica” é que não falta, para todos os gostos...
E se perdendo assim nas filigranas é que a toda hora a nossa Justiça põe na rua um sujeito de altíssima periculosidade. Sujeitos presos com fuzis, com mísseis, com lança-chamas, assassinos, estupradores, líderes de bandos altamente armados, pegam seis meses, pegam um ano... saem com um de tantos recursos, de um de tantos juízes, saem para visitas de Natal, dia dos pais, dia das mães, dia das crianças, saem e esquecem de voltar, presos de alta periculosidade, sujeitos que desviam milhões, voltam e voltam para atormentar a sociedade... mas é a sociedade sem os seguranças, sem os helicópteros, sem os condomínios-fortalezas... deixa penar, e não vai ser o sujeitinho da esquina que vai cobrar alguma coisa das decisões que a Justiça lhe empurra pela garganta...
Este é o ponto que deve fazer parte do nosso processo penal, a ser pensado e cobrado de nossos legisladores e juízes. Amor aos fatos, e acabar com amor aos dinheiros.
E agora, vamos à nossa lição de matemática: 450 milhões de dólares. Vamos simplificar botando um dólar a 2 reais: 900 milhões de reais. Vamos comparar com o nosso salário mínimo nacional, já com valores de 2010, cerca de 500 reais: é igual a um milhão e oitocentos mil salários! Um milhão e oitocentos mil trabalhadores. Ou um milhão e oitocentos mil meses de trabalho, e isso no país onde muitos trabalham e não ganham um salário. Dividido por anos, e dando décimo terceiro de lambuja, dá 138.461 anos! Dispensando os trocados. É o tempo que um trabalhador ganhando salário mínimo levaria para juntar o dinheirinho encontrado.
E esta é a medida dos fatos.
Trilha sonora: Plebe Rude, Até quando esperar: http://www.youtube.com/watch?v=syL3QlD9S3M
A canção de rock de todos os tempos
Se me perguntarem qual é A minha canção de rock de todos os tempos, a resposta seria essa: All along the watchtower, composição de Bob Dylan, interpretação de Jimi Hendrix e Experience:http://www.youtube.com/watch?v=14qTXRkAKr8
Composta por Dylan para o álbum John Wesley Harding, de 1968, foi gravada por Hendrix no álbum Electric Ladyland, também de 1968, que marcou o final do conjunto Jimi Hendrix Experience, e foi o último álbum "oficial", de estúdio, finalizado por Hendrix.
No livro das gravações comentadas de Dylan, Larousse, tem a informação: "Dylan lembrou em Biograph: "Ela provavelmente veio a mim durante uma tempestade de raios e trovões, tenho certeza". Consulte Isaías 21: cavaleiros trazem notícias sobre a queda de Babilônia."
Letra traduzida:
"Deve haver alguma saída daqui" - disse o Comediante para o Ladrão,
"Tem confusão demais. Eu não consigo qualquer alívio,
Homens de negócio, eles bebem meu vinho,
Lavradores cavam a terra que é minha
Nenhum deles ao longo da linha
É capaz de saber o valor de tudo isso"
"Não há razão pra ficar nervoso"
O Ladrão gentilmente respondeu
"Há muitos aqui entre nós
Que sentem que a vida não é mais que uma piada
Mas você e eu, nós passamos por isso,
E este não é nosso destino
Então vamos deixar de falar com falsidade agora
O tempo está se esgotando"
Por todos os lados da Torre de Vigia
Príncipes apuravam a vista
Enquanto todas as mulheres corriam de um lado pro outro
Servas descalças também
Lá fora na distância fria
Um gato selvagem realmente rugiu
Dois cavaleiros se aproximavam
E o vento começou a uivar
Composta por Dylan para o álbum John Wesley Harding, de 1968, foi gravada por Hendrix no álbum Electric Ladyland, também de 1968, que marcou o final do conjunto Jimi Hendrix Experience, e foi o último álbum "oficial", de estúdio, finalizado por Hendrix.
No livro das gravações comentadas de Dylan, Larousse, tem a informação: "Dylan lembrou em Biograph: "Ela provavelmente veio a mim durante uma tempestade de raios e trovões, tenho certeza". Consulte Isaías 21: cavaleiros trazem notícias sobre a queda de Babilônia."
Letra traduzida:
"Deve haver alguma saída daqui" - disse o Comediante para o Ladrão,
"Tem confusão demais. Eu não consigo qualquer alívio,
Homens de negócio, eles bebem meu vinho,
Lavradores cavam a terra que é minha
Nenhum deles ao longo da linha
É capaz de saber o valor de tudo isso"
"Não há razão pra ficar nervoso"
O Ladrão gentilmente respondeu
"Há muitos aqui entre nós
Que sentem que a vida não é mais que uma piada
Mas você e eu, nós passamos por isso,
E este não é nosso destino
Então vamos deixar de falar com falsidade agora
O tempo está se esgotando"
Por todos os lados da Torre de Vigia
Príncipes apuravam a vista
Enquanto todas as mulheres corriam de um lado pro outro
Servas descalças também
Lá fora na distância fria
Um gato selvagem realmente rugiu
Dois cavaleiros se aproximavam
E o vento começou a uivar
sábado, 17 de outubro de 2009
Modernidade
A modernidade trouxe tais horrores que assustou a humanidade, por um bom tempo. Ela gerou uma ideologia, a do progresso infinito, a de querer sempre mais, a qualquer preço, a dos vencedores sem mácula. E esta ideologia cobrou alto preço.
Esqueceu-se da humildade. Humildade virou palavrão. Pensava-se que a absoluta satisfação estava logo ali na porta, e que se o presente não era um mar de rosas, a culpa era de uns tantos tipos “fora de moda”, que não permitiam este dia sem nenhuma tristeza.
Pensando-se em retrospectiva, parece uma ilusão bem louca. Mas quem diz que não estamos delirando justo agora? Quem poderá saber?
E esta ilusão da modernidade gerou muito ódio. Uma insatisfação muito ressentida, uma exigência muito exagerada. Por conta desse ódio, muita gente teria que pagar. A Revolução Francesa começou pedindo muito sangue. Depois veio o ódio dos comunistas, dos nazistas, dos fascistas. Sempre em nome destes grandes ideais: liberdade, fraternidade, igualdade. Sempre em nome de algum tipo de progresso. No filme documentário A Arquitetura da Destruição enxergamos claramente a cultura da Alemanha nazista: um sonho idílico, pastoril, uma volta a um passado idealizado que prometia segurança. Um sonho de comunidade perfeita, como numa romântica/primitiva tribo, só que usufruindo das conquistas da tecnologia. Homens que trabalhariam juntinhos, em camaradagem, e retornariam para felizes lares mantidos por belas e sorridentes donas de casa/pastoras.
Claro que tanto desequilíbrio pro lado da luz cobraria uma contra-partida bem alta de sombras. Monstros disformes assombravam este Paraíso, na forma dos disformes, grotescos, doentes de corpo e de alma. Pobres loucos, dementes, em asilos, eram apontados e vistos como seres que seria muito melhor que não existissem. E, de fato, passaram a ser exterminados metodicamente, na calada da noite. Era preciso calar toda a voz da consciência, ser o tão proclamado “super-homem”, para dar cabo desta tarefa suja. Mas os nazistas poderiam fazê-lo, porque eram o “homem superior”.
E é claro, havia os judeus. Estes seriam piores ainda do que os dementes, pois esses, na ideologia oficial, eram os perversos que conscientemente se opunham ao mundo dourado nazista. De alguma forma, os judeus conseguiam controlar toda a realidade. E se um nazista envenenava um pobre débil mental, isto também deveria ser por culpa de alguma manobra dos judeus. Não faz sentido, eu sei, mas é assim que funciona o mecanismo do bode expiatório. E os judeus serviram para canalizar todo aquele ódio recalcado pelos brilhantes, perfeitos, nazistas.
E histórias semelhantes aconteciam na Itália fascista, na União Soviética comunista. O demônio da ideologia possuía, cegava, enlouquecia suas vítimas. Dostoievsky descreveu muito bem o processo no extraordinário romance Os Demônios. Cada movimento destes pretendia inaugurar um novo mundo para um novo homem. O único empecilho que viam era alguma classe/raça/grupo que impediam os seus grandiosos planos; eram os discordantes, os diferentes, os que não se encaixavam no cenário de perfeição imaginado por estes “mestres iluminados”.
Para os discordantes, logo logo um Processo de desumanização era iniciado. Estes discordantes não eram pessoas comuns, boas, pois impediam a felicidade geral. Não eram sequer pessoas, então poderiam ser escravizados, exterminados, humilhados, sem qualquer retaliação ou remorso. A modernidade negava qualquer sentimentalismo, loucamente pensava que seguia os ditames da Razão, se é que existe esta entidade em algum reino de Idéias. Na Revolução Francesa, inclusive, desentronaram o velho Deus, da “decrépita” tradição, para adoraram uma suposta “nova deusa”, justamente ela, a Razão...
Como se diz, entretanto, não se deve chorar pelo leite derramado. É sempre uma nova humanidade que se apresenta, com cada nascimento. E é para o presente que o homem vive. A ideologia da transformação radical do mundo já não empolga tanto as mentes, graças a Deus. O homem vai se acostumando com a modernidade, e vai percebendo que não pode elevar tão alto sua esperança no sentido de que a modernidade poderia alterar a condição trágica do ser humano.
E é bom termos os pés bem no chão. Esperanças excessivas não trazem mais que ansiedade e frustração. E estas libertam o demônio do ódio, que exige suas vítimas.
É bom termos serviços, confortos, comodidades, abundâncias, que as próprias civilizações buscaram sempre, e que todo homem busca. É bom termos a medicina, e expectativa de vida maior, e alimentos fartos, e menos miséria, desespero, loucura...
Temos um mundo um pouco melhor, na sua média, e isto é motivo de agradecimento e de júbilo. Tudo foi construído por nossos antepassados, com muita luta e bravura, enfrentando a mesma condição trágica que é a nossa. E a responsabilidade também é nossa, de evitar o mal e aumentar o bem, para este mundo.
Hoje, parece ter fugido a fase de desesperado Romantismo. Aquela Juventude Dourada que EXIGIA O MUNDO, E EXIGIA AGORA! Hoje, parece que enxergamos que apesar de todo o muitíssimo bem vindo bem que trouxeram as novas ciências, as novas atitudes, a nova racionalidade do homem, elas não podem fazer do homem um ser distinto da sua própria natureza, ou fazê-lo escapar de seu destino. Por mais carros/relógios/iates que eu possua, estão ali a solidão e o mistério absolutos da morte. Por mais que as condições de vida evoluam, está ali a pobre criança louca que ninguém conseguiu salvar. Estão ali as decisões irrevogáveis, difíceis. A aceitação deste “princípio de realidade”, por dolorosa que seja, paradoxalmente nos liberta de uma ansiedade pela vida que, sendo ela própria um mal, não realiza tampouco qualquer bem.
Ninguém vai se livrar do cutelo do destino por ficar pensando no seu golpe. Vive-se, loucamente, sem razões que o justifiquem, mas vive-se. E é melhor estender a mão pro ser humano do lado, ainda mais, quanto mais fraco e indefeso ele for, e esperar que amanhã façam o mesmo por você.
Esqueceu-se da humildade. Humildade virou palavrão. Pensava-se que a absoluta satisfação estava logo ali na porta, e que se o presente não era um mar de rosas, a culpa era de uns tantos tipos “fora de moda”, que não permitiam este dia sem nenhuma tristeza.
Pensando-se em retrospectiva, parece uma ilusão bem louca. Mas quem diz que não estamos delirando justo agora? Quem poderá saber?
E esta ilusão da modernidade gerou muito ódio. Uma insatisfação muito ressentida, uma exigência muito exagerada. Por conta desse ódio, muita gente teria que pagar. A Revolução Francesa começou pedindo muito sangue. Depois veio o ódio dos comunistas, dos nazistas, dos fascistas. Sempre em nome destes grandes ideais: liberdade, fraternidade, igualdade. Sempre em nome de algum tipo de progresso. No filme documentário A Arquitetura da Destruição enxergamos claramente a cultura da Alemanha nazista: um sonho idílico, pastoril, uma volta a um passado idealizado que prometia segurança. Um sonho de comunidade perfeita, como numa romântica/primitiva tribo, só que usufruindo das conquistas da tecnologia. Homens que trabalhariam juntinhos, em camaradagem, e retornariam para felizes lares mantidos por belas e sorridentes donas de casa/pastoras.
Claro que tanto desequilíbrio pro lado da luz cobraria uma contra-partida bem alta de sombras. Monstros disformes assombravam este Paraíso, na forma dos disformes, grotescos, doentes de corpo e de alma. Pobres loucos, dementes, em asilos, eram apontados e vistos como seres que seria muito melhor que não existissem. E, de fato, passaram a ser exterminados metodicamente, na calada da noite. Era preciso calar toda a voz da consciência, ser o tão proclamado “super-homem”, para dar cabo desta tarefa suja. Mas os nazistas poderiam fazê-lo, porque eram o “homem superior”.
E é claro, havia os judeus. Estes seriam piores ainda do que os dementes, pois esses, na ideologia oficial, eram os perversos que conscientemente se opunham ao mundo dourado nazista. De alguma forma, os judeus conseguiam controlar toda a realidade. E se um nazista envenenava um pobre débil mental, isto também deveria ser por culpa de alguma manobra dos judeus. Não faz sentido, eu sei, mas é assim que funciona o mecanismo do bode expiatório. E os judeus serviram para canalizar todo aquele ódio recalcado pelos brilhantes, perfeitos, nazistas.
E histórias semelhantes aconteciam na Itália fascista, na União Soviética comunista. O demônio da ideologia possuía, cegava, enlouquecia suas vítimas. Dostoievsky descreveu muito bem o processo no extraordinário romance Os Demônios. Cada movimento destes pretendia inaugurar um novo mundo para um novo homem. O único empecilho que viam era alguma classe/raça/grupo que impediam os seus grandiosos planos; eram os discordantes, os diferentes, os que não se encaixavam no cenário de perfeição imaginado por estes “mestres iluminados”.
Para os discordantes, logo logo um Processo de desumanização era iniciado. Estes discordantes não eram pessoas comuns, boas, pois impediam a felicidade geral. Não eram sequer pessoas, então poderiam ser escravizados, exterminados, humilhados, sem qualquer retaliação ou remorso. A modernidade negava qualquer sentimentalismo, loucamente pensava que seguia os ditames da Razão, se é que existe esta entidade em algum reino de Idéias. Na Revolução Francesa, inclusive, desentronaram o velho Deus, da “decrépita” tradição, para adoraram uma suposta “nova deusa”, justamente ela, a Razão...
Como se diz, entretanto, não se deve chorar pelo leite derramado. É sempre uma nova humanidade que se apresenta, com cada nascimento. E é para o presente que o homem vive. A ideologia da transformação radical do mundo já não empolga tanto as mentes, graças a Deus. O homem vai se acostumando com a modernidade, e vai percebendo que não pode elevar tão alto sua esperança no sentido de que a modernidade poderia alterar a condição trágica do ser humano.
E é bom termos os pés bem no chão. Esperanças excessivas não trazem mais que ansiedade e frustração. E estas libertam o demônio do ódio, que exige suas vítimas.
É bom termos serviços, confortos, comodidades, abundâncias, que as próprias civilizações buscaram sempre, e que todo homem busca. É bom termos a medicina, e expectativa de vida maior, e alimentos fartos, e menos miséria, desespero, loucura...
Temos um mundo um pouco melhor, na sua média, e isto é motivo de agradecimento e de júbilo. Tudo foi construído por nossos antepassados, com muita luta e bravura, enfrentando a mesma condição trágica que é a nossa. E a responsabilidade também é nossa, de evitar o mal e aumentar o bem, para este mundo.
Hoje, parece ter fugido a fase de desesperado Romantismo. Aquela Juventude Dourada que EXIGIA O MUNDO, E EXIGIA AGORA! Hoje, parece que enxergamos que apesar de todo o muitíssimo bem vindo bem que trouxeram as novas ciências, as novas atitudes, a nova racionalidade do homem, elas não podem fazer do homem um ser distinto da sua própria natureza, ou fazê-lo escapar de seu destino. Por mais carros/relógios/iates que eu possua, estão ali a solidão e o mistério absolutos da morte. Por mais que as condições de vida evoluam, está ali a pobre criança louca que ninguém conseguiu salvar. Estão ali as decisões irrevogáveis, difíceis. A aceitação deste “princípio de realidade”, por dolorosa que seja, paradoxalmente nos liberta de uma ansiedade pela vida que, sendo ela própria um mal, não realiza tampouco qualquer bem.
Ninguém vai se livrar do cutelo do destino por ficar pensando no seu golpe. Vive-se, loucamente, sem razões que o justifiquem, mas vive-se. E é melhor estender a mão pro ser humano do lado, ainda mais, quanto mais fraco e indefeso ele for, e esperar que amanhã façam o mesmo por você.
Sangue por Glória
Sangue por glória é um filme de John Ford, de 1952, contando a história de um regimento americano na França da Primeira Guerra.
Ele se fixa mais nos relacionamentos humanos que nas cenas de guerra propriamente ditas. E o foco vai em uma conturbada relação vivida por um capitão (James Cagney), um sargento (Dan Dailey), e uma francesa em disputa (Corinne Calvet). Todos são vividos por excelentes atores. E principalmente James Cagney se destaca, em uma atuação que lhe exige muito. Não pára de acontecer coisas no filme, tão díspares quanto comédia pastelão em batalhas, dor profunda, esperança, honra, inconsequência. E para tudo está Cagney, já não mais um garoto, mas esbanjando sua distintiva vitalidade em cena.
Trata-se de um filme baseado em uma peça de Maxwell Anderson e Laurence Stallings, o que explica o enfoque mais humano e intimista. Não há sequer uma grande batalha, como nos acostumamos a ver nas telas, o que até desaponta um pouco. Mas sobram ação e sentimentos. Os americanos invadindo o bar da cidade francesa é um momento de ação febril e cômica; acontece um (quase) casamento, uma cena de amor tão profunda que vai ao surrealismo, grandes cenas de treinamento, de disputas, de bravura, de sentimento. John Ford e seus atores mantêm-se com as mãos ocupadas todo o tempo, não têm medo de beber pesado, ou trocar socos e tiros. O tempo todo alguma coisa acontece, não como filmes que duram duas horas girando sobre o nada, e Ford ainda encontra o tempo para os seus emotivos números musicais.
Um filme de grandes qualidades, portanto, que vale a (re)descoberta.
Cotação: **** muito bom
Ele se fixa mais nos relacionamentos humanos que nas cenas de guerra propriamente ditas. E o foco vai em uma conturbada relação vivida por um capitão (James Cagney), um sargento (Dan Dailey), e uma francesa em disputa (Corinne Calvet). Todos são vividos por excelentes atores. E principalmente James Cagney se destaca, em uma atuação que lhe exige muito. Não pára de acontecer coisas no filme, tão díspares quanto comédia pastelão em batalhas, dor profunda, esperança, honra, inconsequência. E para tudo está Cagney, já não mais um garoto, mas esbanjando sua distintiva vitalidade em cena.
Trata-se de um filme baseado em uma peça de Maxwell Anderson e Laurence Stallings, o que explica o enfoque mais humano e intimista. Não há sequer uma grande batalha, como nos acostumamos a ver nas telas, o que até desaponta um pouco. Mas sobram ação e sentimentos. Os americanos invadindo o bar da cidade francesa é um momento de ação febril e cômica; acontece um (quase) casamento, uma cena de amor tão profunda que vai ao surrealismo, grandes cenas de treinamento, de disputas, de bravura, de sentimento. John Ford e seus atores mantêm-se com as mãos ocupadas todo o tempo, não têm medo de beber pesado, ou trocar socos e tiros. O tempo todo alguma coisa acontece, não como filmes que duram duas horas girando sobre o nada, e Ford ainda encontra o tempo para os seus emotivos números musicais.
Um filme de grandes qualidades, portanto, que vale a (re)descoberta.
Cotação: **** muito bom
The times they are a´changin - Bob Dylan
http://www.youtube.com/watch?v=q1NAab3tAaw
Obs. Pra quem não sabe, do lado do vídeo do You Tube, tem uma caixa e um link: mais informação. Clicando nele, frequentemente, e como no presente caso, vêm umas informações interessantes sobre a música/vídeo.
Vai a letra, hino do protesto, profética, espantosa, misteriosa. Ver Bob Dylan, tão jovem, levando esta canção tão gigante sozinho, violão e gaita, é emocionante, e um assombro.
Venham se reunir ao redor pessoal,
De onde quer que vocês caminhem a esmo,
E admitam que as águas
Ao seu redor cresceram
E aceitem que bem logo
Estarão encharcados até os ossos
Se o seu tempo pra vocês
Vale a pena ser salvo
Então é melhor que comecem a nadar
Ou afundarão como uma pedra
Porque os tempos
Eles estão mudando
Venham escritores e críticos
Que profetizam com sua caneta
E mantenham os olhos bem abertos
A oportunidade não virá novamente
E não falem cedo demais
Pois a Roda continua a girar
E não há como dizer
Quem ela vai nomear
Pois o perdedor de agora
Vai mais tarde vencer
Porque os tempos
Eles estão mudando
Venham senadores, congressistas,
Por favor, atendam ao chamado
Não parem no caminho da porta
Não congestionem o corredor
Pois aquele que vai se ferir
Será aquele se atolou no caminho
A batalha lá fora
Rugindo
Vai logo sacudir suas janelas
E fazer ruir os seus muros
Porque os tempos
Eles estão mudando
Venham mães e pais
De toda terra ao redor
E não critiquem
O que não conseguem entender
Seus filhos e suas filhas
Estão além do seu comando
Sua velha estrada
Rapidamente envelhece
Por favor, saiam da nova
Se vocês não puderem emprestar suas mãos
Porque os tempos
Eles estão mudando
A linha ela está traçada
A maldição ela está lançada
O lento agora
Será mais tarde rápido
Como o presente agora
Será mais tarde passado
A ordem está rapidamente
Se esvaindo
E o primeiro agora
Será mais tarde o último
Porque os tempos
Eles estão mudando
Obs. Pra quem não sabe, do lado do vídeo do You Tube, tem uma caixa e um link: mais informação. Clicando nele, frequentemente, e como no presente caso, vêm umas informações interessantes sobre a música/vídeo.
Vai a letra, hino do protesto, profética, espantosa, misteriosa. Ver Bob Dylan, tão jovem, levando esta canção tão gigante sozinho, violão e gaita, é emocionante, e um assombro.
Venham se reunir ao redor pessoal,
De onde quer que vocês caminhem a esmo,
E admitam que as águas
Ao seu redor cresceram
E aceitem que bem logo
Estarão encharcados até os ossos
Se o seu tempo pra vocês
Vale a pena ser salvo
Então é melhor que comecem a nadar
Ou afundarão como uma pedra
Porque os tempos
Eles estão mudando
Venham escritores e críticos
Que profetizam com sua caneta
E mantenham os olhos bem abertos
A oportunidade não virá novamente
E não falem cedo demais
Pois a Roda continua a girar
E não há como dizer
Quem ela vai nomear
Pois o perdedor de agora
Vai mais tarde vencer
Porque os tempos
Eles estão mudando
Venham senadores, congressistas,
Por favor, atendam ao chamado
Não parem no caminho da porta
Não congestionem o corredor
Pois aquele que vai se ferir
Será aquele se atolou no caminho
A batalha lá fora
Rugindo
Vai logo sacudir suas janelas
E fazer ruir os seus muros
Porque os tempos
Eles estão mudando
Venham mães e pais
De toda terra ao redor
E não critiquem
O que não conseguem entender
Seus filhos e suas filhas
Estão além do seu comando
Sua velha estrada
Rapidamente envelhece
Por favor, saiam da nova
Se vocês não puderem emprestar suas mãos
Porque os tempos
Eles estão mudando
A linha ela está traçada
A maldição ela está lançada
O lento agora
Será mais tarde rápido
Como o presente agora
Será mais tarde passado
A ordem está rapidamente
Se esvaindo
E o primeiro agora
Será mais tarde o último
Porque os tempos
Eles estão mudando
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