sexta-feira, 16 de julho de 2010

EXTRA! EXTRA! MATERIAL FORTE!



A tradução para The Lonesome Death of Hattie Carol, de Bob Dylan. Música do terceiro disco de Dylan, de 1964, The times they are a´changin´. O disco mais totalmente engajado, mais "canção de protesto" da sua carreira, embora eu saiba a resposta de Dylan pro fã que lhe cobrou mais canções de protesto: "Elas são todas de protesto, cara".

A Solitária Morte de Hattie Carol foi composta em cima de um fato real. Em 1963, um fazendeiro rico, William Zantzinger, bêbado, acertou um cano na cabeça de uma empregada de hotel negra, mãe de 10 filhos, com 51 anos. Tendo Hattie Carol morrido, Zantzinger foi julgado pelo crime e condenado a seis meses de prisão.

A história é todinha contada na letra da música, mas a letra não é só isso. Ela faz uma crítica acerba à impunidade, que pode afetar qualquer país, a qualquer tempo. Afeta muito o nosso.

Não foi a única vez que Bob Dylan usou um caso real para falar sobre o tema. Na famosa Hurricane ele conta a história do boxeador negro Ruby Carter, condenado, e depois inocentado, pelo assassinato de quatro pessoas. Já publiquei no blog um vídeo dessa música, com legendas, do You Tube.

Mais detalhes sobre a história de Hattie Carol, em inglês, neste link: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Lonesome_Death_of_Hattie_Carroll

Dylan, com sua arte, com sua liberdade de expressão, imortalizou um caso que envergonha a História de sua nação. Não tivesse dado motivos pra sentir vergonha, a nação. Quem critica espera que o objeto da crítica se confronte com seus atos, para mudá-los. Quem ama critica, com honestidade. Tantos hipócritas, Tartufos, que acusam e perseguem, chegam até a crucificar, quem quer que ouse criticar, enquanto se enterram na corrupção! Ladrões safados!

Fantástica música, fantástica letra. Aproveitem a versão do You Tube, com o próprio Dylan ao vivo. Raridade, pois a gravadora restringiu brutalmente o acesso a vídeos do Bob Dylan no You Tube. Que pena para os que querem usufruir da arte! Imagina, por exemplo, se proibissem reproduções, por exemplo, da Mona Lisa?



A solitária morte de Hattie Carol

William Zantzinger
assassinou a pobre Hattie Carol

Com um cano que ele rodopiava
à volta do dedo com anel de diamante

Em um hotel de Baltimore
que reunia a nata da sociedade

E os policiais foram chamados
E sua arma tirada dele

e o levaram sob custódia
Até a delegacia

E ficharam William Zantzinger
Por assassinato em primeiro grau

Mas você, que filosofa sobre a desgraça
E critica todos os medos

Tire o sorriso superior de seu rosto
Agora não é a hora pras suas lágrimas

William Zantzinger, que à idade de 24 anos,
é proprietário de uma fazenda de tabaco de 600 acres

Com pais ricos e abastados
Que o provêem e protegem

E com relações com o alto escalão
Na política de Maryland

Reagiu ao seus ato
Com um dar de ombros

E palavrões e escárnio
E suas língua grunhia

Em questão de minutos
Estava livre em fiança

Mas você, que filosofa sobre a desgraça
E critica todos os medos

Tire o sorriso superior de seu rosto
Agora não é a hora pras suas lágrimas

Hattie Carol era uma empregada
na cozinha

Ela tinha 51 anos
E deu à luz dez filhos

e tirava a louça
E jogava fora o lixo

E nunca sentava
à cabeceira da mesa

e sequer dirigia a palavra
Pra qualquer um da mesa

Que apenas limpava
toda a comida na mesa

E esvaziava os cinzeiros
num nível totalmente distinto

foi morta por um golpe
destroçada por um cano

que voou pelo ar
e desceu naquele quarto

Condenado e determinado
A destruir toda a gentileza

E ela nunca fez nada
Pra William Zantzinger

Mas você, que filosofa sobre a desgraça
E critica todos os medos

Tire o sorriso superior de seu rosto
Agora não é a hora pras suas lágrimas

Na Corte de Honra
o juiz bateu com seu martelo

para mostrar que todos são iguais
e que a Corte se mantém neutra

e que a vontade da Lei
não é manobrada ou persuadida

e que mesmo os nobres
recebem tratamento adequado

uma vez que a polícia
os caçou e prendeu

e que a escada da Lei
não tem fundo nem topo

Encarou a pessoa
que assassinou sem motivo

que por acaso e sem aviso
apenas se sentiu desse jeito

E ele falou por detrás de sua capa
Tão profunda e distintamente

E proferiu palavras fortes
sobre penalidade e arrependimento

pra condenar William Zantzinger
com uma sentença de seis meses

Ah, mas você, que filosofa sobre a desgraça
E critica todos os medos

Tire o sorriso superior de seu rosto
Agora é a hora pras suas lágrimas



The Lonesome Death Of Hattie Carroll
Bob Dylan
William Zantzinger killed
Poor Hattie Carroll with a cane
That he twirled around his diamond ring finger
At a Baltimore hotel society gath'rin'
And the cops were called in
And his weapon took from him
As they rode him in custody down to the station
And booked William Zantzinger
For first-degree murder
But you who philosophize disgrace
And criticize all fears
Take the rag away from your face
Now ain't the time for your tears

William Zantzinger, who at twenty-four years
Owns a tobacco farm of six hundred acres
With rich wealthy parents
Who provide and protect him
And high office relations
In the politics of Maryland
Reacted to his deed
With a shrug of his shoulders
And swear words and sneering
And his tongue it was snarling
In a matter of minutes on bail was out walking
But you who philosophize disgrace
And criticize all fears
Take the rag away from your face
Now ain't the time for your tears

Hattie Carroll was a maid of the kitchen
She was fifty-one years old
And gave birth to ten children
Who carried the dishes and took out the garbage
And never sat once at the head of the table
And didn't even talk to the people at the table
Who just cleaned up all the food from the table
And emptied the ashtrays on a whole other level
Got killed by a blow
Lay slain by a cane that sailed through the air
Came down through the room
Doomed and determined to destroy all the gentle
And she never done nothing to William Zantzinger
But you who philosophize disgrace
And criticize all fears
Take the rag away from your face
Now ain't the time for your tears

In the courtroom of honor
The judge pounded his gavel
To show that all's equal
And that the courts are on the level
And that the strings in the books
Ain't pulled ‘n persuaded
And that even the nobles get properly handled
Once that the cops have chased after
And caught 'em
And that the ladder of law has no top and no bottom
Stared at the person who killed for no reason
Who just happened to be feelin' that way
Without warnin'
And he spoke through his cloak
Most deep distinguished
And handed out strongly
For penalty and repentance
William Zantzinger with a six-month sentence
Oh, but you who philosophize disgrace
And criticize all fears
Bury the rag deep in your face
For now's the time for your tears

Bob Dylan - From a buick 6 - Tradução

Esta homenagem de Dylan pra sua mulher, em forma de blues em compasso de 12 acelerado. Veio no ótimo álbum Highway 61 Revisited, de 1965. Feministas que implicaram com a letra perderam o espírito da coisa. Porrada:

http://www.youtube.com/watch?v=RnD5xw-hHpg


Eu tenho essa mulher que vira a noite
Cê sabe: ela cuida das minhas crianças

E essa mamãe cheia de espírito
Cê sabe: ela me mantém seguro

Ela é um anjo do ferro-velho e ela
Sempre me dá pão

Cê sabe: se eu estiver caindo morto
Ela é capaz de me colocar um cobertor na cama

Bom, quando o cano de óleo arrebenta e eu
Estou perdido na ponte sobre o rio

Eu estou todo arrebentado na auto-estrada e
quase me afogando

Esta garota chega pelo caminho
Pronta pra me costurar os pedaços com linha

Bem, se eu estiver caindo morto
Cê sabe: ela é capaz de me colocar um cobertor na cama

Bem, ela não me deixa nervoso ela
Não fala em demasia

Ela caminha que nem o Bo Didley e
ela não precisa de nenhuma muleta

Ela mantém essa minha espingarda
Toda carregada com chumbo

Se eu estiver caindo morto
Cê sabe: ela é capaz de me colocar um cobertor na cama

Bom, cê sabe:
Eu preciso de uma matrona tipo escavadora a vapor

Pra manter longe os mortos
Eu preciso de uma garota tipo caminhão de entulho

Pra descarregar o que eu tenho na cabeça
Ela me dá tudo e mais

Não é bem como eu disse?
Se eu estiver caindo morto

Ela é capaz de colocar um cobertor na minha cama






From A Buick 6
I got this graveyard woman
You know she keeps my kid
But my soulful mama
You know she keeps me hid
She's a junkyard angel
And she always gives me bread
Well, if I go down dyin'
You know
She bound to put a blanket on my bed

Well, when the pipeline gets broken
And I'm lost on the river bridge
I'm cracked up on the highway
And on the water's edge
She comes down the thruway
Ready to sew me up with thread
Well, if I go down dyin'
You know
She bound to put a blanket on my bed

Well, she don't make me nervous
She don't talk too much
She walks like Bo Diddley
And she don't need no crutch
She keeps this four-ten all loaded with lead
Well, if I go down dyin'
You know
She bound to put a blanket on my bed

Well, you know
I need a steam shovel mama
To keep away the dead
I need a dump truck mama
To unload my head
She brings me everything and more
And just like I said
Well, if I go down dyin'
You know
She bound to put a blanket on my bed

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Copa da zebra e o polvo Paul

“Copa na África tem de ter muita zebra”, já estavam dizendo os gaiatos. Estavam certos. Quem adivinharia que o Japão passaria de fase? Quem apostaria na derrota da Alemanha para a Sérvia, depois de os alemães terem dado a única goleada da primeira fase, em cima da Austrália? Quem apostaria no papelão de França e Itália, respectivamente vice e campeã de 2006, eliminadas na primeira fase?

E quem diria que o Japão iria tão longe, e o Paraguai, e o Uruguai? E o papelão dos craques? Cristiano Ronaldo, Kaká, Rooney, Messi? Um reles golzinho pra dividir por esses quatro, feito pelo português contra a fraquinha Coréia do Norte, na maior goleada dessa Copa: 7 a 0 pra Portugal.

Na Copa da zebra, tinham de chegar à final dois times que nunca tinham sido campeões. Aí, não teve jeito: um dos dois teria de restaurar a normalidade, cumprindo seu papel de perdedor. Pior pra Holanda, vice pela terceira vez. E olha que a disputa pra ver quem era o maior pato das Copas foi acirradíssima, com ambos os times se esmerando em perder gols na cara do goleiro! A decisão saiu aos 10 minutos do segundo tempo da prorrogação! Espanha, a furiosa! Mas um dia de fúria viveu a Holanda, com seu meio campo De Jong e sua entrada pra matar, com o pé no meio do peito do espanhol!

E não me venham dizer que a Espanha não podia ser considerada uma zebra, campeã que era da Euro Copa de 2008, com um time de bons jogadores, apontada como favorita antes mesmo do Mundial começar. Pois essa é a tradição da Fúria, entra Copa, sai Copa. É: desta vez a Espanha vai, presta atenção na Fúria, este é o Mundial da Fúria, olha a Fúria aí, lá vem a Fúria... e a cada Copa a Fúria se esborrachava!

E nesse ano a Fúria começou perdendo furiosamente pra Suíça, 1x0. Não podia ser mais tradicional... mas foi passando sempre apertadinha de fase, “goleando” seus adversários sempre por um golzinho sofrido de diferença, até chegar à final, e se sagrar vencedora pelo placar de... quanto mesmo? 1X0. Zebraça!

E pra quem ainda duvida que o Mundial da Jabulani, o primeiro no continente africano, entortou a normalidade, as leis científicas, o racionalismo, René Descartes, olhem o polvo Paul! Sensação da Copa, o polvo Paul acertou 8 de 8 resultados! Um fenômeno completo, acertou barbadas e zebras, ali na mosca! Humilhou comentaristas esportivos e videntes, todo sistema, todo método, cálculo diferencial ou mandinga!

Senão vejamos: qual a probabilidade de num evento tipo cara ou coroa, sair cara 8 vezes seguidas? Minhas aulas de matemática vão longe, mas se fiz as contas certas, é de uma em 256. Vamos jogar a moedinha oito vezes seguidas. A cada 256 vezes que fizermos isso, em uma, provavelmente, vamos ter um resultado de 8 caras. Cara sendo, no caso, o resultado: resposta certa.

Pois o polvo Paul cravou 8 respostas certas na sequência! Testemunhamos um evento raro. Se cada Copa for o momento de jogarmos nossa moedinha 8 vezes, precisaríamos de outras 255 Copas para ver o evento dos 8 acertos seguidos se repetir. Provavelmente. 1024 aninhos esperando... Isto pra ficarmos no terreno das probabilidades. A alternativa é patrocinar pesquisas sobre as possíveis capacidades paranormais dos moluscos. JABULÂÂÂÂNI...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

SORDIDEZ

Zapeando pelos noticiários ontem a noite. O caso Bruno, onipresente. E num jornal (da Record?), uma reportagem sobre um posto de gasolina em São Paulo, que este ano já tinha sido assaltado 30 vezes. Nos últimos dois meses, 15. Desta última vez, os criminosos, filmados pela câmera de segurança do posto, tinham sido apanhados. Um dimenor de 17 anos, um dimaior de 21; filmados, atrás das grades, não pareciam muito preocupados. Riam e debochavam para a câmera. O dono do posto explicava que em muitos dos assaltos anteriores sequer fez o boletim de ocorrência. Depois da violência do assalto, era outra violência perder um dia, às vezes uma noite, para fazer um B.O. “Teve uma vez que eu cheguei na delegacia às 2 h. da tarde e fui sair às 5 h. da manhã do dia seguinte; fazer B.O. pra quê?” - perguntava, angustiado. Com os assaltos do ano, contabilizava R$ 15 mil de prejuízo. Mais o medo de ir pro trabalho, quem sabe como pode acabar um desses roubos?

E em meu cérebro fiquei relacionando uma coisa com outra. Os roubos no posto, o sórdido caso Bruno. Afinal, o que leva tantos, neste país, a apostarem no crime? O jogador de futebol, a corja dos que lhe “prestaram serviços”, os bandidos do posto... e tantos assassinos, mensaleiros, estupradores... é a certeza da impunidade? Mas não temos policiais, não temos juízes, não temos promotores?

Temos, sim, tudo isso. Juízes com dois meses de férias por ano (mais recesso), fazendo muitas vezes semanas TQQ (terça-feira, quarta-feira e quinta-feira); promotores com dois meses de férias por ano (mais recesso), fazendo muitas vezes semanas TQQ (terça-feira, quarta-feira e quinta-feira); policiais trabalhando (ou quase isso) em regime de um dia por três de folga; ou três dias por onze de folga. Todos com salários religiosamente pagos em dia, e generosos aumentos acima da inflação. Mas então, como é que esse clima de impunidade e favorecimento se generaliza?

Em outras reportagens do jornal de ontem (da Band?) se relembravam outros casos emblemáticos de violência contra a mulher impunes. Pimenta das Neves, assassino confesso, em liberdade 10 anos após o crime, aguardando julgamento de seus recursos... a cabeleireira que filmou a própria morte, em seu local de trabalho, depois de diversos registros de ocorrência na delegacia das ameaças que seu ex-companheiro lhe fazia. Todos apostando na impunidade, tantos os que ganham a aposta.

O clima de vale tudo é reforçado pelos nossos privilégios na forma da lei, pelos nossos abusos adquiridos. Uma lei do mais forte, do mais esperto, do melhor relacionado. Uma prática de “sabe com quem está falando?”, de favoritismos, de pessoas “incomuns” (não é, Sarney? Não é, presidente Lula?) que não vão em cana. Um país que não é sério.

Lamentam os pais que perdem filhos, os filhos que ficam órfãos, apanhados no redemoinho desta falta de seriedade, deste escárnio cínico, desta corrupção, desta violência que nos assola. Os grandes, “incomuns”, nossos senhores, protegem a si e aos seus, bem direitinho (e no mais das vezes, com o dinheiro dos diletos “contribuintes”). Vivem num outro mundo, um país à parte, uma ilha da fantasia. Para quê leis mais duras, para quê aplicação rigorosa, se o mal só atinge os que estão “lá fora”? E se esse estado das coisas é tão favorável para minhas próprias negociatas? Temos aí o grande conflito de interesses entre a massa dos servos e aqueles que possuem o poder nas mãos.

Como ilustra o caso de dois de nossos ilustres ministros do Supremo Tribunal Federal, que em visita ao Rio de Janeiro passaram pelo dissabor de, atravessando a Linha Vermelha, vindos do aeroporto, ficarem presos num “arrastão” dentro do carro. Nada lhes aconteceu, com vidros blindados e seguranças, mas o susto motivou comentário do Secretário de Segurança (estadual? Municipal? Não estou lembrando os detalhes do caso, nem quero pesquisar na internet. Para os dispostos, tem o Google): “Houve uma falha da segurança. Suas Excelências deveriam ter se valido de um helicóptero para atravessar aquele perigoso trecho”. Pois é. Para os que não têm helicóptero, comam brioche. Com recheio de chumbo grosso.

Assim se constrói uma nação, para nós e para nossos filhos. Assim se constrói o clima de impunidade que multiplica crimes, cada vez mais bárbaros, por motivos cada vez mais fúteis. Mas é melhor não insistir nisso pra não correr o risco de ser visto como um chato, mal-humorado, desmancha-prazeres. Vamos repetir o mantra de marqueteiros oficiais (com contas milionárias em paraísos fiscais, não é, Duda Mendonça?): o brasileiro não desiste nunca! Brasil, um país de todos! O melhor do Brasil é o brasileiro! E haja cachaça! Haja axé music! Segura o tchan-tchan-tchan-tchan-tchan! Sem medo de ser feliz!

Artigo de Demétrio Magnoli

Demétrio Magnoli tem se destacado por artigos corajosos e bem fundamentados. Na edição de ontem de O Globo temos um bom exemplo, com críticas certeiras ao neo-capitalismo de estado lulista. Vai o link para o artigo: http://arquivoetc.blogspot.com/2010/07/demetrio-magnoli-escolha-de-serra.html

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Talkin´ World War III - Bob Dylan

Também do segundo disco de Bob Dylan, este exemplar de talkin´ blues. Vai-se contando uma historinha, acompanhada de música, de modo informal, como uma conversa entre amigos. Mais um exemplo da capacidade de Dylan para apoderar-se de estilos musicais, e recriá-los como coisa sua.

É um estilo bem raiz, um Dylan caipira, do seu meio oeste profundo. Na letra, as apreensões dos americanos crescidos à sombra da guerra fria: enfrentamentos com os russos, aniquilação nuclear. No (ótimo) documentário de Martin Scorsese, No Direction Home, sobre o início da carreira de Dylan, este recorda em entrevista o clima de paranóia nas escolas, onde as crianças simulavam as medidas a serem tomadas no caso de um ataque nuclear. Parece que foi uma experiência marcante.

Daí esta letra, ao mesmo tempo assustadora, melancólica, e irônica. Fazendo galhofa da paranóia. Rir é o melhor remédio. O sujeito que conta ao psiquiatra um sonho que teve, em que era um dos poucos que sobravam depois da bomba. Dylan improvisou boa parte da letra na sessão de gravação. Foram apenas cinco takes até que se mostrasse satisfeito com o resultado. Esta capacidade de repentista, esta criatividade, dão mostra do talento do jovem Dylan, e injetam autenticidade ao estilo popular da música. Explicam também a letra um pouco incoerente, e que salta de uma cena para outra, como se pode constatar na tradução. Mas também se pode dizer que as cenas soltas se casam bem com o desenrolar de um sonho, que é afinal o que está sendo contado. Mas façam seu julgamento:


Blues Falando da Terceira Guerra Mundial

Um tempo atrás sonho doido me veio
Sonhei que estava caminhando
Em direção à Terceira Guerra Mundial!

Fui ao doutor, logo no dia seguinte,
Pra ver o que ele podia falar pra mim
Ele falou: “é mesmo um sonho ruim!

Mas eu não me preocuparia com isso,
São apenas sonhos e estão só na sua cabeça”.

Eu falei: “Pera aí, doutor!
Uma Guerra do Mundo me passou pelos miolos!”

Ele disse: “Enfermeira!
Pegue o bloco de notas,
Esse menino é insano!”

Ele pegou o meu braço,
E eu disse: “AI!”
Enquanto eu caía sobre o divã do psiquiatra.

Ele disse: “Me fale a respeito”

“Bem, a coisa toda começou às três da manhã,
Estava acabado quinze minutos depois.

Eu estava num cano de esgoto,
Com uma namoradinha,

Quando espiei pela tampa do bueiro
me perguntando quem tinha acendido a luz sobre nós.1

Bem, eu me levantei, e dei uma volta,
Pra cima e pra baixo,
Na cidade solitária

Fiquei pensando
Pra que lado ir
Acendi um cigarro
Perto do parquímetro

E caminhei descendo a estrada

Era um dia normal

Bem, eu fiz soar o alarme pros abrigos subterrâneos
E joguei minha cabeça pra trás,
e dei um berro:

“Me dêem um prato de feijão!
Eu sou um homem faminto!”

Uma espingarda disparou
Na minha direção,
E eu fugi correndo

Eu não os culpo demais, apesar disso,
Eles não me conheciam.

Descendo até a esquina,
Perto da barraca de cachorro-quente,

Eu vi um homem, eu disse: “como vai, amigo?
Parece que sobramos só nós dois”

Ele gritou um pouco, e pra longe voou.

Pensou que eu era um comunista.

Bem, eu bati o olho numa garota,
E antes que ela pudesse ir embora:

“Vamos brincar de Adão e Eva”

Eu a peguei pela mão,
e meu coração estava disparado,
quando ela falou:

“Ei, cara, você tá doido ou o quê?
Não viu o que aconteceu,
da última vez que tiveram essa idéia?”2

Bem, eu vi um Cadillac na cidade
E não tinha ninguém por perto

Eu sentei no banco de motorista
E dirigi até a rua 42.

No meu Cadillac.

Carro bom de se dirigir
depois de uma guerra.

Bem, eu me lembro de estar vendo um anúncio,
Então eu liguei o rádio pra informações do nível de radioatividade
Mas não tinha pago a conta de luz3

Então o rádio não funcionou tão bem

Liguei meu toca-discos
Era o Johnny Rock-A-Day cantando:

“Conte pra sua mãe, conte pro seu pai,
Nosso amor vai crescer Uah, uah, uah”

Eu estava me sentindo meio solitário e triste,
eu precisava de alguém pra conversar,

Então eu liguei pra hora certa,
Só pra ouvir uma voz de algum tipo.

“Quando você escutar o bip
Serão três horas”

- ela falou isso por mais de uma hora

E eu desliguei o telefone

Bem, o doutor me interrompeu bem aí
Dizendo:

“Ei, eu estive tendo este mesmo sonho!
Mas o meu era um pouco diferente, veja bem:
Eu sonhei que a única pessoa que sobrou depois da guerra fui eu!
Eu não te vi por lá.

Bem, agora acabou a hora, e parece
Que todo mundo está tendo esses sonhos;

Todo mundo se vê andando por aí com mais ninguém.

Metade das pessoas pode estar parcialmente certa o tempo todo
Algumas pessoas podem estar totalmente certas o tempo todo
Mas todas as pessoas não podem estar totalmente certas o tempo todo!

Eu acho que foi o Abraham Lincoln quem disse isso.”

“Eu deixo você estar nos meus sonhos
Se eu puder estar nos seus!”
- eu disse isso.


E aqui vai a letra original:





Talkin' World War III Blues
Bob Dylan

Some time ago a crazy dream came to me
I dreamt I was walkin'
Into World War Three
I went to the doctor the very next day
To see what kinda words he could say
He said it was a bad dream
I wouldn't worry 'bout it none, though
They were my own dreams
And they're only in my head
I said "Hold it, Doc
A World War passed through my brain."
He said "Nurse, get your pad
The boy's insane"
He grabbed my arm, I said "Ouch!"
As I landed on the psychiatric couch
He said, "Tell me about it."
Well, the whole thing started at 3 o'clock fast
It was all over by quarter past
I was down in the sewer with some little lover
When I peeked out from a manhole cover
Wondering who turned the lights on us
Well, I got up and walked around
And up and down the lonesome town
I stood a-wondering which way to go
I lit a cigarette on a parking meter
And walked on down the road
It was a normal day
Well, I rung the fallout shelter bell
And I leaned my head and I gave a yell
"Give me a string bean, I'm a hungry man."
A shotgun fired and away I ran
I don't blame them too much though
They didn't know me
Down at the corner by a hot-dog stand
I seen a man, I said, "Howdy friend
I guess there's just us two"
He screamed a bit and away he flew
Thought I was a Communist
Well, I spied a girl and before she could leave
"Let's go and play Adam and Eve."
I took her by the hand and my heart it was thumpin'
When she said, "Hey man, you crazy or somethin'
You see what happened last time they started."
Well, I seen a Cadillac window uptown
And there was nobody around
I got into the driver's seat
And I drove down 42nd Street
In my Cadillac
Good car to drive after a war
Well, I remember seein' some ad
So I turned on my Conelrad
But I didn't pay my Con Ed bill
So the radio didn't work so well
Turned on my record player
It was Rock-A-Day Johnny singin'
"Tell Your Ma, Tell Your Pa
Our Loves Are Gonna Grow Ooh-wah, Ooh-wah."
I was feelin' kinda lonesome and blue
I needed somebody to talk to
So I called up the operator of time
Just to hear a voice of some kind
"When you hear the beep
It will be three o'clock,"
She said that for over an hour
And I hung up
Well, the doctor interrupted me just about then
Sayin, "Hey I've been havin' the same old dreams
But mine was a little different you see
I dreamt that the only person left
After the war was me
I didn't see you around."
Well, now time passed and now it seems
Everybody's having them dreams
Everybody sees themselves
Walking around with no one else
Half of the people
Can be part right all of the time
Some of the people
Can be all right part of the time
But all of the people
Can’t be right all of the time
I think Abraham Lincoln said that
"I'll let you be in my dreams
If I can be in yours"
I said that

Por fim, segue o link para a música no You Tube. Aproveitem, pois é versão do próprio Bob Dylan, coisa cada vez mais rara de se conseguir no You Tube. Vamos ver até quando este link estará disponível:

http://www.youtube.com/watch?v=wloYBMqTr-c

domingo, 6 de junho de 2010

Brasil

Quando olhamos a exorbitância de dinheiro que produz o Brasil, não há como deixar de lamentar o atraso em que vivemos, pois ele parece ser tão superável, se apenas tivéssemos a possibilidade de alguma organização.

500 bilhões atingiu-se neste dia, da arrecadação anual de tributos. O fato foi noticiado nos jornais. Assim como a imagem do nosso presidente, Lulinha, fazendo “humor”, debochando das pessoas “atrasadas”, que vivem em países dos quais se orgulham porque pagam “9, 10%” (do PIB – SIC) de impostos. Vale a pena ver a carinha de nosso presidente, "tirando onda", do alto de sua sabedoria: http://g1.globo.com/videos/jornal-nacional/v/os-brasileiros-ja-pagaram-r-500-bilhoes-em-impostos-este-ano/1275672/#/Edições/20100602/page/1

Aqui no Brasil pagamos perto de 40%. Recentemente, noticiaram também os jornais, chegamos no dia da liberdade dos impostos, 28 de maio. É a data em que, brasileiros, deixamos de pagar nosso tributo de servidão, no final do quinto mês do ano. Até então, trabalhávamos pro “sócio”, o Estado. O sócio que te impõe e te achaca, mas que não assume responsabilidade.

O ano todo vamos passar vendo as notícias das roubalheiras, que criatividade têm os nossos bandidos! E que cara de pau, são apanhados rindo, absolutamente convictos de sua impunidade. Vemos às centenas e aos milhares, apanhados com a mão na massa, com a boca na botija, atolados e afogados em merda, e NÃO DÁ NADA. Continuam nos seus carguinhos aqui e nos seus carguinhos ali, viajando pra Niuiorqui e Parí (os chefes da máfia). Mas o nosso povinho, desdentado e careca, esse pode dormir orgulhoso, de pagar os seus 40% de imposto, e de ter um presidente tão sensível às suas aspirações.

Pra aula de matemática: 500 bilhões, pra uma população de 200 milhões, arredondando pra mais, e incluindo até bebês de colo. Dava R$ 2.500 pra cada um. Incluídos os bebês de colo. Isto porque estamos em maio. No nosso ritmo, poderíamos dar um salário de R$ 2.500 pra cada habitante deste território, em maio, outro salário de R$ 2.500 em outubro, e ainda sobraria 200 bilhõezinhos prum abono de final de ano, uns R$ 1.000 pra cada. CA-DA HA-BI-TAN-TE. Até os que fazem gugu dadá. Não tá bom, não? Isto é só o que o Estado arrecada. Cada habitante do nosso território poderia ganhar R$ 500 por mês, o que é praticamente igual ao salário mínimo. Mas aí, fantasticamente, incompreensivelmente, desavergonhadamente, falta um médico, e falta um policial, e falta um professor, e o processo nunca é julgado, e não se tem o hospital, e não se tem o remédio, e não se tem o livro, ou o giz, ou a sala de aula, e o fiscal aperta pela “caixinha”, e se enlouquece de cachaça a torto e direito, e se briga e se máta por dez “real”, e o país é um inferno!

O que não falta é a passagem de avião pra levar namorada e sogra pra Disney, o que não falta é nenhum luxo, nenhuma mordomia, nenhum cargo bem remunerado pro mordomo, ou pro motorista, ou pro namorado da neta.

Deixa para os iludidos (os que se podem dar ao luxo de ser), encher a boca pra falar do SEU GOVERNO, dos aplausos todos que recebeu, de toda aquela gente fina e importante. Podem rir com seus vinhos caros, e seus charutos, e seu uísque importado, e tantas graças que fazem a vida tão feliz. Mas a mim, como a Fernando Pessoa, não podem converter a convicção. Somos lúcidos. http://arquivopessoa.net/textos/553

E não me parecem outra coisa que um bando de canalhas, ladrões cínicos, desavergonhados, impudentes, asquerosos. Porcos chafurdando na lama, hipócritas, mentirosos, vampiros. “And I hope that you die /And that your death will come soon” (Bob Dylan – Masters of war).