sábado, 9 de outubro de 2010
Diretora da penitenciária de Caruaru
No Fantástico, ontem (03.01.2010), uma notícia boa para o Brasil. Uma admirável mulher, diretora de um presídio no Ceará, que desempenha com total correção seu trabalho.
Vídeo da reportagem: http://www.youtube.com/watch?v=ijtf2sEy_Mw
E o triste é que um trabalho tão bem realizado não seja prontamente reconhecido, louvado, copiado. Em tantos presídios onde reina a mais absoluta bandidagem, por que não copiar a pacificação, o trabalho, a qualidade, a competência, a dignidade?
O que vemos no presídio do Ceará é que os presos têm capacidade de produzir o seu pão. Por que não replicar isso, ter muitos fornos, para homens assarem seu pão, plantarem seu trigo? A imoralidade de dinheiro que poderia produzir estes fornos, plantar este trigo, pagar os padeiros, vá servir pra construir mais uma piscina pra um bem rico, ou comprar um helicóptero, ou passear de jatinho, levando amadas para a Europa e os Estados Unidos, e ver os infelizes pensando que merecem bem isso... são tão especiais, nossas autoridades, tão garbosos em seus ternos bem cortados, pra quem a vida é uma festa... podem passear na Disney, sim, com o dinheirinho do povo. Vocês são homens incomuns, por que não? Nosso presidente diz que é hipocrisia criticar isso... e ele é a voz do povo, é a opinião pública, arrotando grandeza com 80% de aprovação... e a polícia bate em quem tem de bater, é isso também que nosso presidente nos diz. Repete a mentalidade mais baixa, e lava suas mãos, como o fez Pilatos. Esses presos só merecem isso mesmo, viver como animais, servir pra algum espertalhão vendedor de marmitas podres praticar sua corrupção e ficar rico... você, como Governo, não vai fazer nada com relação a isso. O preso que se exploda, e agora vamos fazer as malas que se precisa ir pra Disney, ou se precisa levar a comitiva pra ficar hospedada em algum castelo na Europa, ou se precisa usufruir do luxo de algum sheik árabe. Ótimos negócios, Brasil, ótimos negócios para alguém, embora tantos de seus filhos morram de raiva e de fome.
A corrupção mancha esta nação. É indizível o que o homem é, ao usar o dom da inteligência para buscar os meandros de acumular vastos milhões, à custa de tantos. Subornos, golpes, espertezas, cinismo, tudo na ordem dos bilhões. O mal do Brasil é. A impunidade é uma covardia aviltante, mostra que como nação não podemos nos considerar homens livres.
Homens livres, só aqueles que no presídio fazem o seu pão, e assumam a responsabilidade de viver do seu trabalho, e não cometer mais crimes. Homens livres, e mulheres, só aqueles que organizam este trabalho de uma forma humana, e desempenham seu trabalho com correção. Contra todas as injustiças que homens perversos cometem contra este país.
A Revolução Fisiológica - parte 3

Nos artigos anteriores desta série, eu identificava o perigo dos neo-totalitarismos surgindo em nossa região, a partir do exemplo de Hugo Chavez, na Venezuela. As mudanças constitucionais, aprovadas num clima de demagogia e ameaças aos opositores, no sentido de aumentar os poderes do governante de plantão, e afrouxar os mecanismos de controle ao exercício deste poder, foram perseguidas pelos presidentes Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador.
Também o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, ex-guerrilheiro sandinista, sentiu-se confortável para tentar seu golpe. Neste caso, nem precisou invocar o tradicional plebiscito: Ortega simplesmente conseguiu que os juízes da Suprema Corte da Nicarágua suspendessem uma barreira constitucional que o impedia de concorrer à reeleição. Parece mentira, mas é verdade, olha só esse link, com uma foto de Chavez, sempre ele, com Ortega: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1347946-5602,00.html
Claro que Chavez estava envolvido nessa História, espalhando ditaduras ao seu redor, ninguém quer ser louco sozinho. Chavez deu suporte ao golpe de Ortega, assim como dá suporte aos outros governos de esquerda da região, que investem contra a liberdade em seus países: além de Correa, de Morales, de Ortega, Chavez apoiou Manuel Zelaya, de Honduras, o casal Kirchner, na Argentina, e, aqui no Brasil, ai ai ai, a dupla dinâmica Lula-Dilminha...
Com relação ao Zelaya, Chavez trouxe o Brasil para a sua pantomima de interventor em assuntos internos de outros países. Tivemos o desprazer de assistir, nas manchetes dos jornais, a foto do ex-presidente golpista de Honduras trazendo o caos pro seu país, debruçado numa varanda da embaixada brasileira, depois de ter sido deposto. Fazendo comício na nossa embaixada, incitando os hondurenhos a um conflito civil.
E aí, para defender o golpista, o Brasil arrotou grosso contra o governo hondurenho... Deixamos o golpista e seus asseclas hospedados na nossa embaixada, por semanas, arriscando um grave incidente, arriscando mortes de hondurenhos, recusando formalizar a concessão de asilo político a Zelaya, à margem de qualquer juridicidade do ponto de vista do Direito Internacional...
Teve um momento, nos discursos irados de nosso presidente Lula, em que temi que nosso bravo presidente, Nosso Guia, secundado por Celso Amorim, declarassem guerra a Honduras... estavam tão revoltadinhos com a ameaça à democracia de Honduras, decorrente da deposição de Manuel Zelaya... (a explicação oficial para a conduta do Brasil no episódio). Só não explicavam porque seus coraçõezinhos tão democráticos não se confrangiam com as ameaças à democracia feitas por Chavez, por Correa, por Morales, etc etc... Só não explicavam porque seus coraçõezinhos tão democráticos batem tão forte por Fidel, por Ahmadinejad, por Kadafi, etc etc...
Guerra com Honduras, imagina o que seria isso. Honduras, de menos de sete milhões de habitantes. Bem menor que a CIDADE de São Paulo. Acho que foi o temor ao ridículo que mais contribuiu pra nos salvar daquela situação esdrúxula...
E tinha a mãozinha de Chavez, em toda essa história rocambolesca... Apoio logístico para contrabandear Zelaya de volta pra Honduras, parece que esconderam o louco num caminhão pra cruzar a fronteira... E ficou uma discussão: será que o Brasil combinou com a Venezuela? Como é que aquele louco foi aparecer assim, na nossa embaixada? Chavez fez o Brasil de cúmplice, ou fez de palhaço?
E Chavez não se constrangeu nem um pouco... hondurenhos de fato morreram, o país perdeu dinheiro, nas convulsões que seguiram a volta de Zelaya... e Chavez pairava acima de tudo isso, e podia até dar boas risadas... tinha jogado a batata quente no colo do Brasil...
Ah, Chavez, tão risonho... mandando naqueles petrodólares todos da Venezuela, justo quando eles aumentaram exponencialmente de valor no mercado... ele se sente inatingível, inebriado, com tanto poder... ele pode mentir descaradamente, chamar o presidente dos Estados Unidos de demônio (literalmente), e continuar vendendo petróleo pros Estados Unidos, provocar conflitos, mortes, miséria, perseguir inimigos políticos, amordaçar a imprensa, tudo numa boa...
E ele também se acha no direito de se meter na política dos seus vizinhos, apoiando organizações terroristas na Colômbia, quase arrumando uma guerra com a Colômbia, apoiando, como se disse, as mudanças constitucionais golpistas em Bolívia, Equador, Nicarágua, contrabandeando dinheiro (que foi descoberto) para a eleição presidencial de Cristina Kirchner na Argentina, apoiando publicamente a candidata à presidência pelo PT, Dilma Rousseff...
Ora, não foi Chavez que convocou um plebiscito para saber se poderia continuar se reelegendo para sempre, perdeu o plebiscito, e convocou outro plebiscito, com o mesmo objeto, para ganhar tal poder? E nosso presidente, Lulinha, admirado com aquele modelo de governante que via, aquele sujeito tão descarado para não ceder nadinha daquele poder que tem, sentindo uma pontada de inveja, observou que “na Venezuela tem democracia até demais”. Quisera ele fazer com que o Brasil tivesse tanta democracia assim! Mas quem sabe não chegamos lá?
sábado, 2 de outubro de 2010
The Doors - Riders on the storm

Este grande som do The Doors. O piano de Ray Manzareck, a voz e a poesia sombria de Jim Morrison, e um grupo afinado.
Cavaleiros na Tempestade
Cavaleiros na tempestade
Cavaleiros na tempestade
Pra dentro desta casa nascemos
Pra dentro deste mundo fomos lançados
Como um cão sem nenhum osso
Como um ator sem nenhum papel
Tem um assassino na estrada
Seu cérebro se torcendo como um sapo
Tire um feriado prolongado
Deixe seus filhos brincarem
Se você der uma carona pra este homem
As doces lembranças terão ido embora
Tem um assassino na estrada
Garota, você precisa amar seu homem
Garota, você precisa amar seu homem
Pegue-o pela mão
Faça-o entender
O mundo depende de você
Nossa vida jamais terá fim
Precisa amar seu homem
Riders on the storm
Riders on the storm
Into this house were born
Into this world were thrown
Like a dog without a bone
An actor out on loan
Riders on the storm
Theres a killer on the road
His brain is squirmin like a toad
Take a long holiday
Let your children play
If ya give this man a ride
Sweet family will die
Killer on the road, yeah
Girl ya gotta love your man
Girl ya gotta love your man
Take him by the hand
Make him understand
The world on you depends
Our life will never end
Gotta love your man, yeah
Wow!
Riders on the storm
Riders on the storm
Into this house were born
Into this world were thrown
Like a dog without a bone
An actor out alone
Riders on the storm
Riders on the storm
Riders on the storm
Riders on the storm
Riders on the storm
Riders on the storm
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
A Revolução Fisiológica - parte 2

No artigo “A Revolução Fisiológica” http://sinatti.blogspot.com/2010/08/revolucao-fisiologica.html descrevi o que, para mim, representa uma ameaça concreta à nossa democracia, a partir de um eventual governo Dilma, se levado a cabo o plano de instauração de uma “mini-constituinte” para passar uma reforma política estabelecendo o voto em lista fechada.
Ao final do artigo, prometi que voltaria ao tema, “para analisar os mecanismos de implantação das neo-ditaduras”. É o que venho tentar agora.
Como disse antes, o modelo anterior de instauração de ditaduras, através de golpes armados, está em baixa. Em nossa região, a América Latina, ainda temos vivo um exemplo desses, Cuba, onde Fidel Castro liderou um grupo de guerrilheiros para derrubar Fulgêncio Batista, em 1959. O exemplo de Castro incendiou corações e mentes de jovens esquerdistas, pelo nosso continente. Os próprios cubanos trataram de exportar o know-how de sua guerrilha para muitos desses jovens. Porém, os tempos eram outros.
Pra começar, Fulgêncio Batista era outro ditador, no poder desde 1952, odiado pela maioria dos cubanos. A guerra fria corria solta, com um mundo polarizado entre americanos e soviéticos, sem meio termo. Tempos de radicalismo romântico.
Porém, como sabido, radicalização chama radicalização, o medo conduz ao ódio, e a reação conservadora multiplicou as quarteladas pelo continente. Vivemos também nossa própria ditadura militar, de 1964 a 1985, 21 longos anos sem liberdade, e com tortura, desaparecidos, exilados, assassinados... o pacote completo.
A via das armas não pareceu coisa boa, afinal. O tiro saíra pela culatra. Cuba manteve-se um caso isolado, de ditadura de esquerda que se sustentou, no continente americano. Alguém pode lembrar o caso da Nicarágua e sua Revolução Sandinista, de 1979. Mas lá foram convocadas eleições já em 1984, e nas eleições de 1990 o partido da Frente Sandinista de Libertação Nacional foi derrotado pela União Nacional de Oposição.
Agora, porém, o esquerdismo ditatorial renasce no continente, valendo-se de novos métodos de implantação. Não mais a luta armada. A via, agora, é a do voto, ganhando eleições com um discurso demagógico, mas que por estas plagas mantém intacto o seu poder de sedução. Promete-se tudo, principalmente ganhar dinheiro sem precisar trabalhar. O famoso “almoço grátis”. Só é preciso ir aumentando os poderes dos nosso abnegados salvadores, para que eles possam combater os inimigos, os traidores, que impedem o povo de atingir este Reino da Fartura: as elites, os imperialistas ianques, os críticos e opositores. Basicamente, é isto.
Este novo modelo de ditadura, em que se usa a democracia para matar a democracia, ganhou seu grande impulso no continente com a vitória eleitoral de Hugo Chavez na Venezuela, em 1999.
Coincidentemente, a experiência pessoal de Chávez refletiu esta passagem do modelo de instauração de ditaduras através da força das armas, para este novo modelo, mais subreptício e sutil, de mudar o regime por dentro, utilizando os recursos do Estado.
Em 1992, o então tenente-coronel Chávez liderou 300 homens num frustrado golpe de Estado contra o presidente eleito Carlos Andrés Péres. Chávez passou dois anos preso, sendo anistiado pelo novo presidente, Rafael Caldera Rodriguez.
Só um parêntese: existe aqui um paralelo com a trajetória política de Hitler, ninguém menos. O austríaco também tentou um golpe malogrado, o chamado Putsch da cervejaria, em novembro de 1923. Em dezembro de 1924 foi anistiado, considerado inofensivo. O resto, já se sabe...
Voltando a Chavez: com a notoriedade conquistada, o sargentão alcança a presidência da Venezuela, em 1999, com 56% dos votos. Não perde tempo. Aproveitando a força política do seu início de governo, em 2 de fevereiro de 1999 decreta a realização de um referendo para a convocação de uma Assembléia Constituinte. Em agosto de 1999, Chavez fecha o Congresso, no qual a oposição tinha uma pequena maioria, e transfere suas funções para a Constituinte, na qual seus partidários conquistaram 121 de 131 cadeiras. Em dezembro de 1999, 70% dos venezuelanos aprovam a nova Constituição, através de um plebiscito.
E o que a nova Constituição trazia? Além das tradicionais iscas populistas, aumentava os poderes do Chefe do Executivo, e o espaço de intervenção do Estado. Surpresa, surpresa... abria-se espaço para a reeleição de Chavez, agora, depois de novo plebiscito, ilimitada.
Em suma, instaurava-se um novo autoritarismo, dessa vez “sacralizado pela vontade do povo”. Muito esperto, isso. Utiliza-se um mecanismo democrático, para assassinar a democracia.
O comentarista político Merval Pereira, em artigo no jornal O Globo, “Ação Arriscada”, eis o link http://arquivoetc.blogspot.com/2009/09/merval-pereira-acao-arriscada.html, identificou na manobra de Chavez a inspiração do filósofo italiano Antonio Negri.
Reproduzo trecho do artigo, de setembro de 2009, e que trata do então recente imbróglio envolvendo a tentativa de golpe pelo presidente de Honduras, Manuel Zelaya, e sua consequente deposição. Há uma referência também à tentativa de Alvaro Uribe, então presidente da Colômbia, de fazer uma alteração constituinte para conseguir um terceiro mandato, manobra abortada pela Suprema Corte colombiana, felizmente.
Vamos ao artigo:
(...)está claro que o presidente Manuel Zelaya, a exemplo de outros governantes da região, como Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador, seguindo os passos da “revolução bolivariana” de Chávez, perseguia a mudança da Constituição de seu país em busca da possibilidade de reeleição.
A base teórica da manipulação dos referendos para mudar constituições e dar mais poderes aos presidentes da ocasião é o livro “Poder Constituinte — Ensaio sobre as alternativas da modernidade”, do cientista social e filósofo italiano Antonio (Toni) Negri.
Essa influência foi admitida pelo próprio Chávez em um de seus programas radiofônicos ainda em 2006, quando ele anunciou que estava entre eles “um filósofo, escritor e ativista italiano, Toni Negri. (…) Por aqui temos seguido suas teses, Toni Negri: O poder constituinte”.
Para Negri, “ o poder constituinte é uma potência criadora de ser (...) e apenas o processo constituinte, as dimensões determinadas pela vontade, a luta e a decisão sobre a luta definem os sentidos do ser”.
O filósofo italiano diz que “o medo despertado pela multidão” faz com que o poder constituído queira impedir sua manifestação através da constituinte: “A fera deve ser dominada, domesticada ou destruída, superada ou sublimada”.
Antonio Negri considera que o “poder constituído” procura tolher o “poder constituinte”, limitando-o no tempo e no espaço, enquanto o dilui através das “representações” dos poderes do Estado.
Em uma definição mais popular, Evo Morales diz que se trata de uma nova maneira de governar através do povo.
Defendem, na prática, a “democracia direta”, o fim das intermediações próprias dos sistemas democráticos.
A mania de personalizar o poder, transformando-se em um salvador da pátria que deve permanecer no governo quanto mais tempo possível, para o bem de seu país, não tem ideologias na região.
Também o presidente conservador da Colômbia, Álvaro Uribe, está empenhado em mudar a Constituição através de um plebiscito para poder se candidatar mais uma vez à Presidência.
No caso de Zelaya, no entanto, a gravidade da tentativa foi maior, porque a Constituição hondurenha tem como cláusula pétrea, que não pode ser modificada, a proibição da reeleição. Diz seu artigo 239 que “nenhum cidadão que já tenha ocupado o cargo de chefe do Executivo poderá ser presidente ou vicepresidente”.
O governo Zelaya anunciou que faria uma consulta popular para saber se a maioria queria que, na eleição de novembro, houvesse uma “quarta urna” para convocar uma Assembleia Constituinte.
Aparentemente, não haveria conflito de interesses, pois, se aprovada na eleição, a Constituinte seria convocada sob o comando do novo presidente eleito na mesma ocasião.
Mas, na publicação do decreto, o governo o intitulou como “Consulta de Opinião Pública Convocatória de uma Assembleia Nacional Constituinte”, o que poderia dar margem a que o resultado da consulta, caso favorável, fosse considerado como uma aprovação à convocação imediata da Constituinte.
O Congresso e a Corte Suprema consideraram ilegal a convocação, e Zelaya foi deposto de maneira violenta pelo Exército e enviado à força para o exterior, o que lhe dá o pretexto de se considerar vítima de um golpe de Estado.
O governo brasileiro deveria considerar as especificidades da situação e trabalhar como mediador da crise, e não alimentá-la com uma ação irresponsável, que já está provocando mortes.
No artigo acima, Merval Pereira alude aos governantes de Honduras, Bolívia, Equador, Colômbia, todos “seguindo os passos da revolução bolivariana de Chavez”, perseguindo alterações nas Constituições de seus países, para se perpetuarem no Poder.
É a forma recente, próxima, da velha e típica tentação totalitária, um homem procurando enfeixar nas mãos um Poder absoluto, incontrastável. Procurando aprofundar seu poder pessoal, em detrimento das liberdades e garantias de seus semelhantes.
“O Estado sou eu”, dizia Luís XIV. Ou Julio Cesar, que dizia: “Prefiro ser o primeiro na última aldeia romana, a ser o segundo em Roma”.
É o orgulho, a tentação de ser o maior, o melhor, o primeiro, o líder, o führer. Hitler, Stalin, Lenin, Fidel, Pinochet, Mussolini, Napoleão, Saddam Hussein... tantos países diversos, diversas circunstâncias históricas, mas a mesma loucura recorrente.
Não temos muitos Napoleões de hospício? Mas volta e meia um desses escapa, e inferniza a vida de seus povos... crêem que possuem algo de muito especial debaixo da pele, só eles é que sabem o que é bom para sua nação, ou para os mais pobres, para os explorados...
Justificam assim seu desejo de exercer um poder absoluto, e de se manterem até a morte no poder. Só que, como notado, o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente.
Pobre da nação que precisa de heróis!, tem sido dito. Esses tais Salvadores da Pátria. Esses tais que se sentem, pensam que são o cara, e o cara do cara. Pensam que são providenciais, que foram imbuídos por Deus ou pela História de uma missão especial. Pensam que têm algum conhecimento esotérico, alguma chave da História, porque leram Marx, ou porque têm fé no materialismo dialético, ou porque pensam que eles e só eles desejam o bem de sua nação, ou o bem dos mais pobres, e sabem como alcançá-lo...
E com isso justificam o ódio e a perseguição aos críticos e opositores. Estar contra uma dessas figuras, um desses auto-imaginados e auto-proclamados heróis e salvadores, é estar contra o país e o povo!, é o que está subentendido no seu pensamento.
No seu delírio megalomaníaco, na sua possessão pelo demônio Leviatã, esquecem que são humanos e falíveis, esquecem até que são mortais! O que conseguem, ao enfraquecer os mecanismos de controle, as instituições democráticas, o que conseguem ao ameaçar opositores, calar a liberdade de pensamento, acostumar a nação a uma menor liberdade, a uma menor responsabilidade sobre o próprio destino, é deixar um país mais vulnerável a qualquer imbecil ou calhorda que calhe de ocupar o poder.
Dez anos, vinte anos, cinquenta anos se passam... e quem garante que o melhor entre os melhores, o príncipe filósofo, é que ocupará o poder?
Muito mais comum, nestes Estados em que tudo acontece nas sombras, em que não se tem liberdade de mostrar, e contestar, e reclamar, em que a corrupção viceja, é que os mais sem escrúpulos, os mais dispostos a se valer de quaisquer meios, se valer de subornos, ameaças, e violências, alcançam o poder. E uma vez alcançado o poder, com todos os recursos do Estado na mão, quanto mais de subornos, e ameaças, e violências, não será utilizado, por este mais sem escrúpulos, neste Estado sem instituições, leis ou cultura que limitem o exercício do poder?
Este é o círculo vicioso, infernal, dos Estados totalitários. Vejam o exemplo de Stalin. Numa Rússia já inteiramente submetida ao poder do partido bolchevique, uma Rússia sem lei, em que o governante autorizava arbitrariamente qualquer roubo, prisão, assassinato, Stalin ocupou um posto chave no partido, de secretário-geral, desde 1922. Com a morte de Lenin, em 1924, Stalin utilizou o poder acumulado no seu cargo para galgar ao poder, onde em breve faria suas “depurações” em larga escala, suas “deportações”, seus julgamentos de fachada, seus “Grandes Expurgos”, etc. etc. Chegou ao ponto de mandar um agente de sua polícia secreta ao México, em 1940, para matar com um golpe de picareta na cabeça seu adversário político, Leon Trotsky, desde 1929 exilado da União Soviética.
Quão diferente é a figura histórica de um George Washington! O primeiro presidente dos Estados Unidos, herói da Independência, cumprindo seu segundo mandato servindo à nação, recebeu o conselho de alguns tentadores, para que aplicasse um golpe contra seu país, e se convertesse num Rei, perpétuo... Numa época em que só havia Reis, por toda parte, Washington não se deixou iludir: deu adeus à vida pública e retirou-se para sua fazenda, foi cuidar de suas cerejeiras, deixando um exemplo que sempre seria respeitado por sua jovem nação, que tão rápido se desenvolveria, sob este princípio de liberdade!
Apenas Roosevelt, numa situação de crise econômica, e segunda guerra mundial, permaneceu por quatro mandatos. Mas sem impor mudanças à Constituição. Aliás, a alteração que aconteceu, após a morte de Roosevelt, durante seu quarto mandato, foi ter sido proibida, na Constituição, a reeleição presidencial após um segundo mandato. Institucionalizou-se, por fim, o exemplo de Washington.
Em comparação, o legado dos Reizinhos e Reizões, todo poderosos, tem sido bem outro. Guerras, muitas guerras, perseguição política, masmorras, torturas, fome, miséria, fanatismo, injustiça, corrupção...
E tantos parecem sempre dispostos a repetir a História! Sempre encontram motivo para sucumbir à tentação. É para conter a crise, é para nos proteger, até de nós mesmos. Pregam a infantilização de todo um povo. Não só pregam, impõem-na, quando têm o Poder. Ou quando o Poder os tem.
Continua num próximo artigo.
domingo, 26 de setembro de 2010
bob dylan Visions Of Johanna
Uma de minhas favoritas, de um dos meus discos favoritos de Dylan, Blonde on Blonde
(1966) . Segue o link para a música:
:
http://listen.grooveshark.com/#/s/Visions+of+Johanna/2qij7J
Visões de Joana
Tem alguma coisa como a noite
pra pregar peças
quando você está tentando ficar na sua?
Nós sentamos aqui, desamparados,
embora façamos o melhor pra negá-lo
E Louise guarda um punhado de chuva na mão
te tentando a desafiá-la
Luzes bruxuleiam na galeria do outro lado da rua
neste quarto, o canos de aquecimento só tossem,
A estação de música country toca suave,
Mas não tem nada, realmente nada,
pra te desligar
Apenas Louise,
e seu amante, tão entrelaçados,
E estas visões,
de Joana,
que conquistam minha mente.
No terreno vazio, onde as damas brincam
de cabra cega com a chave da cadeia,
e as garotas pra noite toda
sussurram escapadelas no trem-D,
Nós podemos ouvir o vigia noturno acender a lanterna
perguntar para si: “são eles ou sou eu o louco de verdade?”
Louise, ela está bem, ela simplesmente está perto,
Ela é delicada e
ela se parece com o espelho
ela simplesmente faz tudo ficar tão conciso e tão claro
que Joana não está aqui
O fantasma da eletricidade
uiva
nos ossos de sua face
Onde estas visões
de Joana
pegaram meu lugar agora
Agora, o garotinho se perdeu,
ele pensa de si mesmo
tão seriamente
Ele se vangloria
de sua miséria
ele gosta de viver perigosamente
e quando se menciona o nome dela
ele fala pra mim de um beijo de despedida
Ele certamente tem um bocado de amargura
pra ser tão inútil e tal
Resmungando palavras sem importância pro muro,
enquanto eu estou na entrada de casa
Ah, como eu posso explicar?
É tão difícil de entender...
e estas visões
de Joana
Elas me deixaram acordado
até depois de amanhecer
Dentro dos museus,
Infinito se apresenta para julgamento
Vozes ecoam: “isto é como
Salvação deve parecer, depois de um tempo”
Mas Mona Lisa deve ter sentido a tristeza da estrada
você pode dizer pelo jeito como ela sorri
Veja a primitiva parede de flores congelar
quando as mulheres com caras de geléia espirram
Ouça aquele cara de bigode dizer: “caramba,
eu não consigo enxergar meus joelhos!”
Oh, jóias e monóculos pendem da cabeça da mula!
Mas estas visões,
de Joana,
fazem tudo isto parecer tão cruel
O camelô agora fala
com a condessa que está fingindo que se importa com ele
Dizendo: “mostre-me alguém que não seja um parasita,
e eu vou lá fora fazer uma prece por ele”
Mas como Louise diz sempre:
“Você não pode olhar muito”, enquanto ela,
ela mesmo, se prepara pra recebê-lo
e a Senhora, ela ainda não apareceu,
nós vemos esta jaula vazia agora corroída
Onde sua cortina de teatro uma vez se levantou
O violinista, ele agora põe o pé na estrada
Ele escreve: “Tudo que se possuiu agora se devolve”
Na traseira de um caminhão de peixe que é carregado
enquanto minha consciência explode
As gaitas tocam
o esqueleto de claves musicais na chuva.
E estas visões
de Joana
são agora tudo que permanece
Visions of Johanna
Ain't it just like the night to play tricks when you're tryin' to be so quiet ?
We sit here stranded, though we're all doin our best to deny it
And Louise holds a handfull of rain, tempting you to defy it
Lights flicker from the opposite loft
In this room the heat pipes just cough
The country music station plays soft
But there's nothing really nothing to turn of
Just Louise and her lover so entwined
And these visions of Johanna that conquer my mind.
In the empty lot where the ladies play blindman's bluff with the key chain
And the all-night girls they whisper of escapades out on the D-train
We can hear the night watcman click his flashlightAsk himself if it's him or them that's really insaneLouise she's all right she's just near
She's delicate and seems like the mirror
But she just makes it all too concise and too clear
That Johanna's not here
The ghost of electricity howls in the bones of her faceWhere these visions of Johanna have now taken my place.
Now, little boy lost, he takes himself so seriouslyHe brags of his misery, he likes to live dangerouslyAnd when bringing her name up
He speaks of a farewell kiss to me
He's sure got a lotta gall to be so useless and allMuttering small talk at the wall while I'm in the hallOh, how can I explain ?
It's so hard to get on
And these visions of Johanna they kept me up past the dawn.
Inside the museums, Infinity goes up on trial
Voices echo this is what salvation must be like after a while
But Mona Lisa musta had the highway blues
You can tell by the way she smiles
See the primitive wallflower freeze
When the jelly-faced women all sneeze
Hear the one with the mustache say, "Jeeze
I can't find my knees"
Oh, jewels and binoculars hang from the head of the mule
But these visions of Johanna, they make it all seem so cruel.
The peddler now speaks to the countess who's pretending to care for him
Saying, "Name me someone that's not a parasite and I'll go out and say a prayer for him"
But like Louise always says
"Ya can't look at much, can ya man "
As she, herself prepares for him
And Madonna, she still has not showed
We see this empty cage now corrode
Where her cape of the stage once had flowed
The fiddler, he now steps to the road
He writes ev'rything's been returned which was owed
On the back of the fish truck that loads
While my conscience explodes
The harmonicas play the skeleton keys and the rain
And these visions of Johanna are now all that remain
No You Tube, mais esta bela versão, acústica, ao vivo:
(1966) . Segue o link para a música:
:
http://listen.grooveshark.com/#/s/Visions+of+Johanna/2qij7J
Visões de Joana
Tem alguma coisa como a noite
pra pregar peças
quando você está tentando ficar na sua?
Nós sentamos aqui, desamparados,
embora façamos o melhor pra negá-lo
E Louise guarda um punhado de chuva na mão
te tentando a desafiá-la
Luzes bruxuleiam na galeria do outro lado da rua
neste quarto, o canos de aquecimento só tossem,
A estação de música country toca suave,
Mas não tem nada, realmente nada,
pra te desligar
Apenas Louise,
e seu amante, tão entrelaçados,
E estas visões,
de Joana,
que conquistam minha mente.
No terreno vazio, onde as damas brincam
de cabra cega com a chave da cadeia,
e as garotas pra noite toda
sussurram escapadelas no trem-D,
Nós podemos ouvir o vigia noturno acender a lanterna
perguntar para si: “são eles ou sou eu o louco de verdade?”
Louise, ela está bem, ela simplesmente está perto,
Ela é delicada e
ela se parece com o espelho
ela simplesmente faz tudo ficar tão conciso e tão claro
que Joana não está aqui
O fantasma da eletricidade
uiva
nos ossos de sua face
Onde estas visões
de Joana
pegaram meu lugar agora
Agora, o garotinho se perdeu,
ele pensa de si mesmo
tão seriamente
Ele se vangloria
de sua miséria
ele gosta de viver perigosamente
e quando se menciona o nome dela
ele fala pra mim de um beijo de despedida
Ele certamente tem um bocado de amargura
pra ser tão inútil e tal
Resmungando palavras sem importância pro muro,
enquanto eu estou na entrada de casa
Ah, como eu posso explicar?
É tão difícil de entender...
e estas visões
de Joana
Elas me deixaram acordado
até depois de amanhecer
Dentro dos museus,
Infinito se apresenta para julgamento
Vozes ecoam: “isto é como
Salvação deve parecer, depois de um tempo”
Mas Mona Lisa deve ter sentido a tristeza da estrada
você pode dizer pelo jeito como ela sorri
Veja a primitiva parede de flores congelar
quando as mulheres com caras de geléia espirram
Ouça aquele cara de bigode dizer: “caramba,
eu não consigo enxergar meus joelhos!”
Oh, jóias e monóculos pendem da cabeça da mula!
Mas estas visões,
de Joana,
fazem tudo isto parecer tão cruel
O camelô agora fala
com a condessa que está fingindo que se importa com ele
Dizendo: “mostre-me alguém que não seja um parasita,
e eu vou lá fora fazer uma prece por ele”
Mas como Louise diz sempre:
“Você não pode olhar muito”, enquanto ela,
ela mesmo, se prepara pra recebê-lo
e a Senhora, ela ainda não apareceu,
nós vemos esta jaula vazia agora corroída
Onde sua cortina de teatro uma vez se levantou
O violinista, ele agora põe o pé na estrada
Ele escreve: “Tudo que se possuiu agora se devolve”
Na traseira de um caminhão de peixe que é carregado
enquanto minha consciência explode
As gaitas tocam
o esqueleto de claves musicais na chuva.
E estas visões
de Joana
são agora tudo que permanece
Visions of Johanna
Ain't it just like the night to play tricks when you're tryin' to be so quiet ?
We sit here stranded, though we're all doin our best to deny it
And Louise holds a handfull of rain, tempting you to defy it
Lights flicker from the opposite loft
In this room the heat pipes just cough
The country music station plays soft
But there's nothing really nothing to turn of
Just Louise and her lover so entwined
And these visions of Johanna that conquer my mind.
In the empty lot where the ladies play blindman's bluff with the key chain
And the all-night girls they whisper of escapades out on the D-train
We can hear the night watcman click his flashlightAsk himself if it's him or them that's really insaneLouise she's all right she's just near
She's delicate and seems like the mirror
But she just makes it all too concise and too clear
That Johanna's not here
The ghost of electricity howls in the bones of her faceWhere these visions of Johanna have now taken my place.
Now, little boy lost, he takes himself so seriouslyHe brags of his misery, he likes to live dangerouslyAnd when bringing her name up
He speaks of a farewell kiss to me
He's sure got a lotta gall to be so useless and allMuttering small talk at the wall while I'm in the hallOh, how can I explain ?
It's so hard to get on
And these visions of Johanna they kept me up past the dawn.
Inside the museums, Infinity goes up on trial
Voices echo this is what salvation must be like after a while
But Mona Lisa musta had the highway blues
You can tell by the way she smiles
See the primitive wallflower freeze
When the jelly-faced women all sneeze
Hear the one with the mustache say, "Jeeze
I can't find my knees"
Oh, jewels and binoculars hang from the head of the mule
But these visions of Johanna, they make it all seem so cruel.
The peddler now speaks to the countess who's pretending to care for him
Saying, "Name me someone that's not a parasite and I'll go out and say a prayer for him"
But like Louise always says
"Ya can't look at much, can ya man "
As she, herself prepares for him
And Madonna, she still has not showed
We see this empty cage now corrode
Where her cape of the stage once had flowed
The fiddler, he now steps to the road
He writes ev'rything's been returned which was owed
On the back of the fish truck that loads
While my conscience explodes
The harmonicas play the skeleton keys and the rain
And these visions of Johanna are now all that remain
No You Tube, mais esta bela versão, acústica, ao vivo:
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Deep Purple Lazy
Uma das minhas antigas. Lazy do Deep Purple, do disco ao vivo Made in Japan. A melhor versão que conheço. Rock que pra mim parece um jazz. Pega fogo. Ritchie Blackmore, vá tocar guitarra!
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