"Liminar do TSE determina diplomação de Maluf", é o titulo de uma reportagem no Globo de hoje.
E quem é o cínico que não acredita em final feliz?
Na mesma página desta reportagem, tem outra, com o título: "Mensaleiro também é beneficiado". Trata-se do deputado federal Pedro Henry (PP - MT), que havia sido enquadrado na lei da Ficha Limpa por uma condenação do TRE, mas que agora obteve a validação de sua candidatura por decisão do mesmo TSE que diplomou Maluf.
E não vamos nos esquecer de mencionar Anthony Garotinho, ex-governador do nosso Rio de Janeiro. O TSE também anulou sua condenação, e ele será diplomado.
E quem disse que não se consegue uma decisão rápida da Justiça brasileira, quando se precisa?
Trata-se do Barril de Amontilado, do norte-americano Edgar Allan Poe (1809 – 1849).
É a história de uma vingança fria. Três páginas, ou pouco mais. Narrado em primeira pessoa, é a confissão confiante, até bem humorada, de um homem que cometeu um assassinato há muitos anos, jamais descoberto.
Ele começa expondo sua determinação de vingar-se de um homem que conhecia, e de que não gostava. Mas nos explica que não se deixaria levar por um impulso irracional, mas ao contrário, planejaria com método a satisfação de seu impulso homicida, de modo a garantir sua impunidade.
Primeiro, mascarou suas intenções, fingindo uma amizade com sua vítima. A execução é de uma crueldade ímpar: convidando-o para tomar um cálice de amontilado, sabedor que sua vítima tinha este fraco por vinhos, num dia em que ela estava já embriagada, convenceu-a a ir à sua adega beber o tal vinho.
Lá, num local preparado, um canto úmido e gelado da adega, acorrentou a vítima, totalmente surpresa, à parede de pedra. Daí, friamente, metodicamente, procedeu ao seu emparedamento. Fileira por fileira, e todas as sensações durante aquele trabalho, a excitação de seu protagonista, seus poucos diálogos com a sua vítima, são descritos.
O conto acaba com a exaltação daquele crime, há tantos anos executado, como uma grata lembrança.
Mais aterrador que o sofrimento da vítima, é o seu retrato implacável da crueldade humana. O homem, único ser racional, que usa esta racionalidade, este dom, para o mais abominável fim.
O homem, único ser racional, único ser que pode planejar, que pode prever uma consequência, através de sua imaginação. O único ser que possui a liberdade de ordenar seus atos, segundo esta previsão mental, em direção a um determinado fim.
O único ser consciente, o único ser livre, o único ser responsável. No conto de Poe, sem subterfúgios, vemos o instante aterrador em que o homem utiliza da sua liberdade para praticar o ato maligno. O momento em que colhe e prova do fruto proibido.
O atormentado Edgar Allan Poe, escritor às vezes rebaixado como “escritor de história policial”, ou alguma tolice do gênero, fez em suas três páginas o mais aterrador retrato do mal.
Chave de ouro, o fecho deste Governo, a era Lulinha. O momento em que o país fez seus experimentos com um poder absolutista, dada a falta de oposição política à vontade do soberano.
Avançamos firmes e confiantes no caminho da servidão. O único partido político do Brasil, estruturado com uma estratégia de ocupação e manutenção dos mecanismos de poder, finalmente ocupou o primeiro posto, numa nação de tradições tão profundamente servis, um país escravocrata, até cento e vinte e dois anos atrás.
Ocupou o primeiro posto, com a figura do carismático. E aproveitou do primeiro posto para implantar firme seu objetivo de poder por muitos anos. O objetivo final, é claro, é o poder eterno. Um reich de mil anos... e só a democracia tem o poder de fazer um projeto assim soçobrar.
E a questão agora é: conseguiremos desenvolver esta democracia, não pró-forma, enganadora, hipócrita. Não perfeita, também, porque não existe o perfeito no nosso mundo. Mas a melhor que possamos conceber e manter.
No poder, Lula e o PT fizeram o que fazem aqueles interessados em se manter definitivamente no poder: aumentaram os cargos de confiança, aumentaram os salários e os privilégios dos poderosos. Encheram de verbas todos os projetos dos amigos. Engavetaram todos os projetos dos adversários, tantos quantos foi possível.
O Governo exerceu sem oposição suas vontades. Qual a única grande derrota política que este Governo teve, em oito anos de mandato? A perda da CPMF, derrota que Lulinha nunca esqueceu, como fazem aqueles obstinados.
No mais, tudo foram flores.
Na verdade, veio um trem de carga pelo caminho, um escândalo de proporções colossais, abomináveis. O mensalão foi uma chaga, na cara tonta da nossa República, a envilecer sua História. Compra de votos de políticos, no balcão de atacados. Grana viva pra encher os bolsinhos, e pra fazer cordeirinhos. Pra comer na minha mão. Percebem: pra não ter oposição.
E isto desmascarado, mostrado a nu, pelos jornais, pela TV, com detalhes macabros.
Mas aí houve o grande momento da inflexão. O país descobria, boquiaberto, que o único partido que havia, pra desejar ocupar o poder, já estava no poder.
O que aconteceu do mensalão: nada. Reeleitos, foram todos, ou quase todos, dos flagrados com a mão na massa. Justiça? Algum dia será julgado um processo. Movimentos de classe, movimentos estudantis, Ordem dos Advogados, Imprensa, Sindicatos, Políticos? Todos satisfeitos com o andar da carruagem, com o cocheiro no comando. Todos esperando que algo fosse cair do céu, que as nuvens se dissipassem. Todos, com as honrosas exceções. Mas as exceções não foram suficientes para modificar as relação de força.
E, algo caiu do céu, realmente, mas foi um raio na cabeça destes devaneadores, destes desocupados. Lulinha se uniu e se metamorfoseou em Sarney, em Collor, em Jader Barbalho, em Renan Calheiros, nos exemplos da turma toda. Distribuía-se dentaduras em troca de votos nos lugares mais miseráveis do Brasil? Pois vamos distribuir dentaduras por votos nos lugares mais miseráveis do Brasil. Vamos dividir este feudo, presa tão gorda, e qual é a parte que lhe cabe deste latifúndio?
Vamos sangrar a vaquinha. Me ajuda aqui, uma mão lava a outra.
E vimos a repartição dos cargos públicos. Como é que Michel Temer colocou, de forma blasfema? Ah, sim, ele disse que ia chegar a hora de repartir o pão. Estão repartindo, está visto. Ministério pra cá, ministério pra lá. É MEU, pra fazer como eu quiser.
E casos de corrupção ocorrendo na nossa cara. Mas o feudo é deles, não é nosso, e a nossa Justiça não podia fazer nada com o feudo deles. Podia só garantir e defender o feudo próprio.
E a tchurma se acomodou bem com isso. A tchurma dos antenados, para eles bastava a mística de que o partido “do bem” estava lá. Às vezes também rolava uma verbinha especial, um empreguinho bom, alguma mamata.
E sem estes canais de ressonância, sem a organização de alguma proposta política distinta, aceitamos passivamente este domínio. Democracia não é pra quem quer. É pra quem pode.
Custa, e custa caro. Já custou muito sangue. Custa responsabilidade, vigilância, solidariedade e coragem. Democracia e liberdade. É o preço justo por ambas, e elas só andam juntas. Mas cabecinhas alienadas estão dispostas a vendê-la por qualquer trocado. Uma bolinha ou um bolão, mas o custo de perdê-las é sempre o mesmo. De que vale ao homem conquistar o mundo e renunciar à alma?
Viver com medo, viver encolhido? Satisfeito com o bar mais próximo e com a televisão depois que lhe tiraram o couro? Satisfeito de ver a corrupção imperar, e de ser roubado a cada dia, e que tantos perdem a vida de maneiras indignas? Satisfeito de ser feito de palhaço o tempo inteiro? Ah, saindo talvez com uma vantagenzinha em alguma feira ou leilão, em algum negocinho bom amparado na desorganização geral de um país. Existem os vendidinhos, e existem os vendidões.
E existe um país campeão de pedofilia, campeão de exploração de miseráveis, campeão em desfaçatez e desgraça.
Para os que remam contra a maré desse clima de euforia propagandeado, imposto, a saída é se organizar, se juntar para a resistência. Para aqueles que preferem se alienar, só se pode fazer aquele desejo dos antigos chineses: “espero que você e seus filhos não vivam os tempos interessantes”.
Mas para os que irão defender uma causa, que esta causa seja aquela da liberdade. Liberdade, que se não é para todos, não é para ninguém.
Mencionei em artigo recente que Paulo Maluf foi inocentado pela Justiça brasileira. Darei maiores detalhes do caso.
Paulo Maluf, com contas milionárias no exterior, figurão importante da nossa República, pessoa incomum, que já ocupou altos postos, merecedor de um tratamento diferente, segundo a filosofia política elaborada de Nosso Líder, Nosso Guia, respondia por escândalos na compra de frangos super-faturados, para a merenda escolar das nossas criancinhas, à época em que era prefeito de São Paulo, em 1993/1994. Já lá se vão 16 anos... como o brasileiro é muito criativo e bem humorado, o escândalo ganhou até um nome engraçado, era o frangogate. Passaram-se os tais 16 anos, Maluf, uma figura pitoresca no nosso noticiário político/criminal, um sujeito que apareceu com muitas contas milionárias no exterior, como dito, que ganhou uma voz de prisão da Interpol, acabou sendo condenado pelo frangogate. Nada para se preocupar muito, continuava livre como um passarinho, esperando o tal do trânsito em julgado. Após uns 16 anos.
Mas daí veio uma reviravolta inesperada: pela lei do ficha-suja, com grande pressão popular, decidiu-se que Maluf não poderia seguir como deputado federal na próxima legislatura, embora houvesse vencido a eleição, por conta daquela condenação judicial, por órgão colegiado. E o que é que o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo fez agora? Decidiu pela absolvição de Maluf, caçando a decisão judicial anterior que o impedia de exercer o mandato de deputado federal na próxima legislatura, nos termos da lei da ficha limpa.
Não foi rápida, nossa Justiça, ao dar o desfecho do escândalo do frangogate, depois de tantos anos fazendo esforços hercúleos para bem decidir a situação? Razão teve Maluf, quando dizia que “sempre confiou na nossa Justiça”. Ele agora pode até se dar ao luxo de comentar sua situação atual com muita segurança, conforme entrevista que deu durante uma cerimônia da revista Isto é, que o premiou como um dos brasileiros que se destacaram em 2010 (grande Isto é!). Ouçamos as palavras de Maluf:
"Decisão não se comenta, se cumpre. Eu fui inocentado definitivamente pela Justiça. O objeto do que o tribunal tinha contra mim acabou. Se vivemos num Estado de direito, na sexta-feira serei diplomado".
Tá certo, Maluf. Estado de direito, decisão judicial, tudo muito no conforme. Ah, criança, pode se ufanar deste país, que tem a mais bela cachoeira, e o céu mais estrelado, e o estado de direito! Saiba, criança, que aqui vivemos honestamente, e o malfeito é punido, e as crianças recebem os remédios de que precisam, e eles não estão super-faturados, e não deixam de comer frango na escola, e os frangos não estão super-faturados, e se alguém se atrevesse a super-faturar qualquer coisa, ah, criança, o peso da lei cairia nele, conforme a decisão de homens íntegros e honestos! Ah, criança, não verás país como este!
Link para a reportagem completa sobre Maluf no prêmio da Isto é: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4846472-EI7896,00-Nao+posso+deixar+de+ser+diplomado+diz+Maluf+em+premiacao.html
Paulo Maluf, político brasileiro famoso, ex-Governador da cidade mais populosa do país, a terceira maior do mundo, São Paulo. Imenso PIB. Maluf se mantém político, com mandato de deputado federal. Empresário bem sucedido, suas empresas lhe renderam milhões. Já foi até candidato à Presidência da República, na eleição indireta que finalmente tirava os militares do Poder, vencida por Tancredo Neves, assumida por José Sarney.
Paulo Maluf acaba de ser inocentado num processo criminal pela nossa Justiça, o que lhe dá direito de ocupar o cargo público de deputado federal, para o qual se reelegeu.
Sarney do congelamento de preços, do domínio político do PMDB nas eleições feitas sob a intensa propaganda do plano “miraculoso”. Um plano que acabou em desastre, um período de hiper-inflação prolongado, este imposto sobre o pobre, a inflação. Desorganização completa das contas nacionais.
O inusitado do fracasso colossal fez com que, nas eleições para suceder Sarney não houvesse candidato da situação. TODOS os candidatos estavam ali pra falar mal da situação. Na disputa final, entre Lula e Collor. Era a primeira de tantas tentativas de eleição do Lulinha. Nessa ele perdeu pro Collor, o aventureiro caçador de marajás, com seu plano de modernizar o Brasil, foi assim que ele levou, na época.
Collor dos seus jatinhos, dos seus laços familiares na bala. Um cunhado que dava tiro, ah, a vida na Corte! Collor voluntarista, que acabaria amargando o único impeachment da História do Brasil. Collor falava que “tinha um tiro pra dar cabo do tigre da inflação”. Deu um tiro foi na cara do país, simplesmente o confisco da poupança. Milhões de poupadores, pra quem se disse, “dá cá o seu dinheirinho!”, no talvez mais brutal confisco que se tem na História moderna. Milhões de poupadores pra quem se deu compulsoriamente um título de que o Governo pagaria aquilo ali, um dia, bem devagarinho.
Esta é a nossa nação, esta é a qualidade da nossa governança. O Judiciário, é claro, embolsou isso. Prestou seu beneplácito de interpretação jurídica, autorizou tudo isso. A Lei Maior dizia que ninguém seria desapossado de seus bens sem prévio processo judicial. Mas a Lei Maior pode ser uma besteirinha, não é mesmo?
O Congresso? Que Congresso? O Congresso não estava ali para defender nenhum representado. Os discursos de sempre. Depois teria sua vingança, quando o presidente eleito pensasse que podia mandar muito sozinho. Ninguém manda sozinho, e o Congresso queria seus muitos interesses atendidos. Além disso, contava já com o desgaste popular das políticas equivocadas.
O Brasil via aquela porrada econômica inacreditável, o descontrole econômico resultante, tudo por uma “tese” a ser “testada” no laboratório da realidade. A ministra da Economia era uma inacreditável Zelia Cardoso de Mello, nas entrevistas explicando seus “planos”. “Vamos tirar o dinheiro da economia que vamos parar de ter inflação”. Daí se misturando no noticiário as “cantadas” do Ministro da Justiça, amor de folhetim. E daí o monstro da inflação aparecendo com força, de novo. O segundo fracasso retumbante seguido na tentativa de controlar o monstro.
Politicamente, Collor invocou o suicídio. Um desgosto popular muito grande, e a esquerda, festiva mas eficaz, botou todo o seu bloco na rua. Era a hora de derrubar o adversário, e finalmente emplacar o seu velho símbolo: Lulinha.
Collor sangrou, um talho fundo provocado por uma infernal disputa familiar. Entrevista retumbante do seu irmão para a revista Veja, o exemplar que sumiu das bancas. E havia uma cunhada gostosa. Escândalo. O apelo desesperado de Collor: “Não me deixem só!”. Uma grande ópera bufa, onde atores jogavam grande visando os poderes.
Mas o Brasil manteve o pé na racionalidade. Acabou o mandato desse cara, o que deve ser feito? Deve-se cumprir o que está na lei, e convocar o seu vice.
Houve até um papo golpista de certos setores, tipo: “quem é este vice? Vamos tirá-lo dali.” Mas a aspiração de um golpe não deu certo. Itamar seguia princípios mais simples. Passava na vida despreocupado, com seus fusquinhas e seus camarotes de Carnaval. Sem radicalismos, escolheu Fernando Henrique Cardoso, que lhe apresentava um plano formado por cabeças pensantes, para dominar a inflação.
Fernando Henrique articulou este plano nas Casas Legislativas. O Real foi implantado em 1994. A queda da inflação foi gritante, rápida, durável. O Brasil deixava de ter inflação de 300 % ao mês, para passar a 2% ao ano. Este número tão baixo, que existia nos países do então chamado primeiro mundo, e que para nós era um sonho distante.
Mas Fernando Henrique era um menino vaidoso. Fez suas jogadas políticas. O clássico acordo, feito por Itamar com seu ministro, era de ele usufruiria da presidência por um mandato, e devolveria a bola a Itamar. Na época, a presidência só se podia exercer por um mandato.
E o que FHC fez? Negociou com o Congresso um segundo mandato, beneficiando aos próprios ocupantes do poder, ele mesmo, claro, e todos os outros governadores. Numa reportagem muito boa da Revista Veja, nessa época, mostrava que o Governo foi atrás de cada parlamentar para fechar este grande negócio: a reeleição do chefe. Por exemplo, lembro dessa reportagem que nosso ex-deputado federal carioca, ex-presidente do clube Vasco da Gama, negociara então, dentre otras cosas, um belo campo de treinamento do Vasco. Me chamou a atenção sua justificativa para o negócio do voto: “tenho de pensar primeiro nos interesses vascaínos”. Parece piada. Não é não. É retrato, é história.
FH conseguiu seu mandatinho. Pra coroar tanta esperteza, depois de já ter investido tanto, investiu-se muito mais em segurar um problema do plano que estava fazendo água até depois da eleição. O momento era difícil, e a população achou mais seguro ficar onde estava, dando seu voto pra FH, contra Lula, de novo. FH pagaria seus pecados mais tarde, perdendo a sucessão para o candidato da oposição. Quem? Lulinha.
Depois das três derrotas seguidas, nas três eleições disputadas, Lulinha e sua banda vinham por aí. Acabou valendo a pena esperar, porque os espinhos ficaram todos pros adversários que vieram antes pelo caminho. A oposição sempre apoiava os planos econômicos doidos que seus adversários faziam, combatiam cada batalha pra sabotar as iniciativas boas.
Claro, à oposição não contenta que uma política que apóia seja adotada. Ela dá o seu apoio àquela proposta, porque sabe que o custo político de mantê-la é sempre do partido da situação. À oposição interessa fazê-lo perder apoio, para chegar aos cargos de quem comanda, e assim atender à própria patota.
Foi o que Lula e o PT fizeram bem. A estratégia de guerra de José Dirceu. Ele recusou a aliança com FH. Ele não queria ser o número dois. Ele manteve o seu bloco na oposição, esperando que o bloco da situação fizesse água nos mares da vaidade de FH. A situação não estava boa no Brasil, continuavam os problemas, para muita massa do povo.
E a oposição mantinha os seus trunfos, seus 30% de votos, sua penetração em universidades, movimentos sociais, sindicatos, redações. Os dias de glória do vaidoso FH estavam contados. Ele estava convocado enquanto se arrumava a casa. O desfrute do poder, já vão agora oito anos, mais quatro que virão, pelo menos, está com a ex-oposição.
Eles é que indicam os cargos, que destinam as verbas, que detêm os planos.
No governo Lula, muitas corrupções apareceram. Já nas eleições de 2002 um rumoroso caso de assassinato abalou a imprensa. Um prefeito do PT, Celso Daniel. Nas investigações que se seguiram, muita podridão jorrou, de esquemas de corrupção, chantagem de empresas de ônibus, coisa muito grande, envolvendo muitos nomes grandes. O irmão de Celso Daniel fez uma acusação totalmente comprometedora por trás do assassinato, e teve de sair do país, e oito pessoas envolvidas pelo caso, principalmente testemunhas, foram assassinados em sequência, sem que nada se concluísse, até hoje. Aliás, recentemente, passados uns oito anos do caso, foi condenada uma pessoa por envolvimento no assassinato. Todas as questões envolvendo as grandes corrupções dos bastidores deram em nada. Todas vítimas testemunhas não tiveram direito a qualquer reparação.
Foi sob este signo que a oposição venceu as eleições de 2002. Economicamente, o nome do jogo era: “manter tudo como está, do que se passou a vida atacando ontem”. Ora, tática tão simples, tão eficaz, Lenin já tinha ensinado tudo antes. Ou então O Grande Irmão, de George Orwell. Terra e Liberdade? Ora, significam Espoliação e Prisão.
Maquiavel tinha ensinado isso. Collor tinha ensinado isso. Mas Lenin era um mestre: “Acuse-os de fazer o que você vai fazer!” Tão genial no seu paradoxo. Lulinha teria sua versão, que contou rindo como de uma piada: “na oposição a gente faz bravata mesmo!”. Bravata, e tava explicado.
Ainda mais que Lulinha, o mago, fez chover pelo mundo. Choveram chineses comprando no mercado, um mercado inacreditavelmente ligado pela inovação tecnológica, no fenômeno da Globalização.
E o Brasil, com todos os problemas que tem, com toda a falta de educação, é um gigante com ilhas de excelência por todos os cantos. A produção de matérias primas básicas se dá num ritmo acelerado, para atender a demanda internacional. A grande fome por madeiras, minérios, energia, petróleo. Tudo o que faz o mundo girar, dinheiro. Trigo. Carne. Soja. Laranja. Maçã. Tudo que o Brasil tem tanta capacidade de produzir.
Mas como anda o nosso lado político? Continuando com as corrupções, logo no primeiro ano aparece um vídeo, nada menos que um vídeo, com um grande assessor de um dos sujeitos mais poderosos da República, o chefe da Casa Civil, José Dirceu. Pois não é que esse assessor aparecia no vídeo recebendo propina de um bicheiro, negociando situações camaradas do governo? Era uma “captação de dinheiro para a causa, companheiro”. E ficou por isso mesmo. O assessor até foi afastado, mas não precisou nem o José Dirceu cair, não. A oposição ali, bem calminha. Foi uma primeira demonstração do que estava pra vir.
O mensalão caiu como bomba. Ainda era o segundo ano de Lulinha, e agora parecia que a coisa ia. Só que a oposição fingia que não tinha dentes porque de fato não tinha. Um líder dos Democratas, Jorge Bornhausen, disse à época que “iam exterminar essa raça” da oposição. Delírio de empolgação. Ninguém foi questionar aquilo, então todos viraram cúmplices. Não tinha movimento social, de estudante, de advogados, de cidadãos, contra. Não tinha sindicato, ou pelo menos sindicalista, contra.
Tudo dominado, e a população não viu vantagens em querer mudar aquele que já estava por ali, que falava, falava, mas com quem, afinal, a economia caminhava bem. E o Lulinha aproveitava essa situação tão favorável que lhe caía no colo. Descobriu-se que não se tinha oposição.
José Dirceu realmente caiu no escândalo, junto com Roberto Jefferson, o deputado canastrão, cantor de ópera, mas velha raposa da política. Roberto Jefferson com as frases bombásticas, no depoimento falou olhando pro José Dirceu, entre sorrisos: “o senhor me provoca os mais primitivos instintos”. Depois disso Jefferson aparece nas primeiras páginas com uma porrada no rosto, fatos inexplicáveis como um pesadelo humorístico.
Caíram os dois, e no clima de surpresa envolvente não vou dizer que Lulinha não sentiu os arrepios de ser destituído do poder. Já começavam os discursos de vítima, mas aí é que se viu que a oposição não tinha dentes. Umas espanadas, umas bordoadas, e ficava tudo igual. Lula fazia mais um discurso, e aumentava o bolsa família, e o operário podia comprar mais um pouquinho. Estava bom demais pra nós brasileiros, nunca tínhamos experimentado de tanta fartura!
A aprovação de Lula atingiria níveis obscenos, 80%, 88%, o escambau! Naquele momento de dúvida, ainda, a ex-oposição, agora partido no poder, se fortalecia na crença de ser imbatível, junto com seu Mestre e Guia. Aí os discursos já eram de comparação com o Todo Poderoso. Lulinha se aproximou de modo definitivo dos velhos donos do poder, que lhe asseguraram que ele não ia cair nunca. Só era preciso garantir-lhes poder eterno em seus feudos. Sabe como é, uma mão lava a outra...
E foi assim que assistimos à Volta dos Mortos Vivos. Sarney, Jader Barbalho, Collor (é, Collor, senador de Alagoas. Sarney, senador do Amapá. Jader, senador do Pará. Todos de volta à cena, abraçados por Lulinha em palanques do Brasil.
“É a economia, estúpido”. É o bolsa família. Mas o Brasil não ia tão bem, crescendo menos que vizinhos, com os juros mais altos do mundo, com o sistema de saúde um esgoto, com a indústria da multa, a indústria do crime, os milhares de assassinatos não resolvidos, os super-salários, e os super-super salários, as farras e as mordomias, a corrupção em tudo que é canto, tantos e tantos contratos, bilhões e bilhões para sustentar a farra.
Mas o povo não via outra opção, e era mantido em espessa ignorância, e não podia fazer essa comparação com o resto do mundo. Olhava apenas pro seu presente, pro seu passado recente, e a renda cresceu um pouco, então a satisfação se instala. Em termos, porque mesmo a aprovação recorde do presidente garantiu uma eleição fácil para a situação. Contou, outra vez, com os muitos erros da oposição, o seu temor místico de enfrentar o poder, e se dobrou fácil.
Acabamos elegendo a mulher do Cara. Uma ópera bufa. Novamente José Dirceu dá as caras, agora meio escondido, mas tá por lá. Pallocci é outro que aparece. Já falei dele em outros artigos, não vou me agastar repetindo. Sarney, já atendido com dois Ministérios. O poderoso das Minas e Energia, e o atual ministério sensação atual na obtenção de recursos por emendas de parlamentares, o ministério do Turismo. Um senhor de 80 anos, muito amigo de Sarney, sem outras grandes qualificações relevantes, é o escolhido pela nossa presidente, Dilma Rousseff.
Sou advogado público. Brasileiro, natural do Rio de Janeiro. Moro em Nova Friburgo, no estado do Rio. Nasci em 1973. Publico também no blog hebdomadário de assuncion, junto com amigos, meu pseudônimo é Dr. Jonah. http://hebdoma.blogspot.com/. E não consigo pensar em nada mais de relevante. Relevante (ou não) será o texto que escrevo. Quem escreve, não importa.