domingo, 12 de junho de 2011

País de joelhos





(...)

Com quem posso falar hoje?

Os colegas são maus;

Os amigos de hoje não amam.


Com quem posso falar hoje?

Os rostos desapareceram;

Cada homem baixa o olhar diante de seus companheiros.


Com quem posso falar hoje?

Um homem deve despertar a ira por seu caráter ímpio;

Mas ele faz todos rirem, apesar da perversidade do seu pecado.


Com quem posso falar hoje?

Não há justos;

A terra é deixada para aqueles que agem mal.


Com quem posso falar hoje?

O pecado que aflige a terra;

Ele não tem fim.

(...)


“Disputa de um homem, que contempla o suicídio, com a sua alma” – poema egípcio de autoria desconhecida, cerca de 2.000 a.C.



O Brasil segue quente, como as labaredas de Roma, como o inferno.


Greves de bombeiros, invasão de quartel, governador que chama bombeiros de “vândalos”, bombeiros presos, filhos que não entendem como o pai-herói foi preso, bombeiros que recebem R$ 950,00 de salário... e agora a greve se estende aos PMs, e o governador gosta mesmo é de viajar para Paris...


Não é só este caso escabroso. Vamos a um exemplo prático, notícias da semana: só na terça-feira, dia 07.06.2011, vejam a coletânea de notícias de primeira página do jornal O Globo:


“Procurador arquiva caso e Lula tenta manter Palocci” - “O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, arquivou o pedido de investigação contra o ministro Antonio Palocci apresentado pelos partidos de oposição. Gurgel disse que não viu indícios dos crimes de enriquecimento ilícito nem tráfico de influência.”


E mais manchetes:


“Dono de apartamento alugado a Palocci é do PT”. Trata-se de um apartamento que vale milhões, e cujo proprietário é uma empresa cujo sócio principal, com 99% das cotas, é um sujeito que ganha R$ 700,00 por mês, e trancou a faculdade por conta de uma dívida de 3 mil e poucos reais, como mostrou reportagem da revista Veja de 05.06.2011.


Tem mais:


“Em visita a Brasília, o venezuelano Hugo Chávez encontrou-se ontem com o ministro Antonio Palocci e, depois de um abraço, recomendou: “Fuerza, fuerza.”


É pouco? Mais uma do Rio de Janeiro, além do caso dos bombeiros:


“Alvo de ações de improbidade movidas pelo MP, os deputados da Alerj estão para votar proposta que retira dos promotores a prerrogativa de processar parlamentares e autoridades públicas por crimes de colarinho branco”.


Estas as notícias de uma singela terça-feira no país do Absurdo. Na quarta-feira continua o Absurdo, com os desdobramentos do caso Palocci: “Palocci cai e enfraquece Dilma com apenas 5 meses de governo”. Protegido pelo salvo-conduto proporcionado pelo procurador da República, é hora de Palocci sair dos holofotes para curtir sua vida de milionário: pode até continuar dando suas tremendamente lucrativas consultorias, a exemplo de seu amigo José Dirceu, sem que ninguém se atreva a perturbá-los, homens importantes, diferenciados que são.


Ainda temos de aguentar os teatrinhos na despedida de Palocci, sua substituta, Gleisi Hoffman, senadora do PT do Paraná, dizendo: “é uma pena perder Palocci neste governo, ele foi muito importante para a transformação do Brasil”.


Transformação do Brasil, certo... mas em quê?


Na despedida de Palocci, tem direito a discurso seu, em tom emocionado dirigindo-se à presidente Dilma Rousseff: “Seguirei sendo leal à senhora e ao meu país. Levo deste período apenas as boas lembranças. Saio com paz de espírito, de cabeça erguida, honrando o meu trabalho, a minha família e os meus companheiros”.


Grande, companheiro Palocci, siga leal aos seus companheiros, lembra que PC Farias morreu crivado de balas, mas não precisamos chegar a tanto, companheiro, ameaça você não vai sofrer nenhuma, não com essa oposição que tem, e o processo criminal já era, batata quente que ninguém põe a mão.


A vida mansa você já tem, não vai perder também, vida de homem montado nos milhões... então, companheiro, tem mais é de fechar a boca, manter-se bem leal, ficar contente de poder servir aos “companheiros”. E Palocci pode falar para os jornalistas: “Tudo o que não levo daqui é mágoa. Alegrias? Levo muitas.” É isso aí, Palocci, alegrias levas muitas, milhões delas, no bolso...


Antonio Palocci: "Até loguinho..."

E todos aplaudem Palocci, o presidente do Senado, José Sarney, o vice-presidente da República, Michel Temer, a presidente Dilma, e toda a gente importante... Dilminha, menina emotiva, levanta a bola do garoto:


“Agradeço, do fundo do coração, ao meu amigo Antonio Palocci por tudo o que ele fez pelo governo, por mim e pelo Brasil”.


Palocci e a presidenTA Dilminha: "Eu vou chorar /Lágrimas de crocodilo /Vou inundar o seu umbigo..."

Não é de chorar? Por que ninguém teve a idéia de fazer uma estátua de Palocci, em mármore e ouro, este benfeitor do país?


País surreal, casa de loucos, o sujeito deixa o cargo que ocupa, sob gravíssimas suspeitas, e é ovacionado como um herói, pelas mais altas autoridades...


Claro que a exposição de toda esta novela absurda e ridícula causou desgaste ao Governo. Os partidos “aliados” até gostaram, aumentou o seu poder de barganha, vide Garotinho e seu diamante de R$ 20 milhões...


Mas o Governo já se mexeu para recompor a sua base de apoio: foi divulgado que o Governo estenderá o Bolsa Família para 800 mil pessoas... bem que o nosso governo socialistas tem razão de apregoar seu amor aos pobres... dá R$ 100, dá R$ 200, e eles te apóiam. Nem vão perguntar de onde saíram os R$ 20 milhões, não vão nem saber que saíram R$ 20 milhões de algum lugar...


E outras notícias, ao longo das manchetes em letras garrafais da “crise Palocci”, dão conta de que este é um país perdido, dominado: “STJ decide anular o processo contra Daniel Dantas, dono do Banco Opportunity; outro assassinado no campo, o quinto de uma série recente; Supremo Tribunal Federal nega pedido de extradição da Itália, e manda soltar o assassino condenado italiano Cesare Batisti.


É isto. Tudo como dantes no quartel de Abrantes. José Dirceu não saiu entre elogios e lamentos de companheiros, não seguiu fazendo suas “Consultorias” altamente remuneradas? O próprio Palocci já não havia saído, entre elogios e lamentos de companheiros, só para ganhar um “troco” de alguns milhões fazendo “Consultorias”? O próprio Palocci, caído num caso miserável de descaso por um brasileiro honesto. Um pobre caseiro, que resolveu acreditar no poder da Verdade quando vivia no Brasil corrupto. Foi inquirido como testemunha honesta, que não devia mentir. Respondeu com a verdade, e para quê?


Suas denúncias de Palocci se encontrando com grandes empresários brasileiros, para negócios e festejos na mansão de Palocci, não deram em nada. Alguém sabe o fim deste caso? Mandado arquivar pelas autoridades competentes? Perdido em alguma gaveta da nossa burocracia corrupta? Com algum pedido adicional de provas? Algum despacho que leva dois anos?


E este brasileiro humilde e honesto foi acusado justo por quem estava sendo acusado de crimes tão graves. Foi colocado sob a suspeita de estar prestando seu depoimento em troca de dinheiro, e esta acusação partia do acusado de imensa corrupção.


E este acusado apresentava suspeitas “provas” do que dizia, apresentando um extrato bancário de Francenildo, obtido pela violação estatal de direitos individuais de um brasileiro, que mostrava alguns milhares de reais que não teriam explicação naquela conta.


Pois havia explicação. Francenildo teve de expor um caso de interesse pessoal para se defender: aquele dinheiro havia sido recebido de seu pai, em processo de investigação de paternidade.


Exposta sua falta de fundamentação, a acusação feita a Francenildo passou a ser indagada.


Estúpida, na sua prepotência, acusara um crime confessando outro crime. Pois como poderia uma informação sob sigilo, pelas leis do país, pela sua Constituição, ter sido obtida e revelada daquela maneira insólita?


Pois haviam quebrado o sigilo bancário de Francenildo. O presidente da Caixa Econômica Federal, ninguém menos que o presidente deste gigante banco do Estado, foi denunciado pela quebra de sigilo do caseiro.


Mas aquele a quem o presidente da CEF beneficiara, o que foi feito dele?


Saiu do governo Lula, o ministro da Fazenda, derrubado por um banqueiro.


Uma boa lenda de Davi e Golias, mas no Brasil a história não termina por aí.


Aqui, o ministro da Fazenda, caído neste escândalo, como dito, entre gemidos e louvações de companheiros, volta a um dos cargos de ministro mais importantes, 2 anos depois do ocorrido.


Ah, sim. Neste meio tempo, o nosso Supremo Tribunal Federal havia rejeitado a denúncia do Procurador da República, com relação ao poderoso ex-ministro Palocci, na acusação de quebra de sigilo bancário.


Não deixou nem que se instaurasse o processo judicial criminal contra a figura, para que a figura se explicasse perante os juízes da nação.


Havendo razoável dúvida do cometimento de crime, recebe-se a denúncia para apurar, através de processo criminal, com amplo direito de defesa, se de fato foi cometido o crime por aquele indivíduo.


Mas no Brasil alguns indivíduos são “especiais”, são “incomuns”, ou algo parecido.


Não é um termo jurídico, por certo. Para entendê-lo tem de se conhecer o “jeitinho” que damos às coisas. Sim, sim, igualdade para todos é uma idéia bonita. Vamos mentir que a aceitamos. Mas na hora da verdade, a gente dá um jeitinho de favorecer um companheiro, de impedir que contra ele aconteça estas coisas ruins. Processo, acusação, explicação, isto é coisa pra “gentinha”, não para os “especiais” e “incomuns”.


“Para os inimigos, a letra da lei, para os amigos, tudo!”


É um nosso ditado popular, explica muito isso aqui.


Pois, dizia, o Supremo rejeitou a denúncia para que Palocci se explicasse. Ele não precisou ir explicar como aquele documento, protegido por sigilo, havia parado na sua mão, e por que ele o divulgara através da imprensa, revelando a intimidade de um brasileiro, sem que houvesse qualquer processo, qualquer legalidade, na obtenção daquela informação.


Não, não precisa do processo. Não precisa da explicação. Não houve nenhum crime cometido pelo ex-ministro. Nós, juízes do Supremo, é que dizemos isso. Do que vale que todos vocês tenham visto isso, seus sujeitinhos das esquinas? O que importa que tenha passado na televisão, nos jornais, cena por cena, este quadro horroroso? Nós lhes dizemos que nada disso ocorreu, e vocês têm de acreditar na gente. Nós lhes dizemos que o claro é escuro, e que o dia é noite. E o que vocês vão fazer a respeito? É a nossa decisão que vale.


E nada de processo para o sr. Antonio Palocci. E tudo de Consultorias, sob sigilo, lamento dizer. E, breve, Coordenador de Campanha, da sra. PresidenTA, Dilma Rousseff. E, logo, Ministro da Casa Civil, homem forte no Governo.


E logo, lamento dizer, caído sem que pudesse explicar um crescimento patrimonial sem precedentes. R$ 20 milhões, em um ano, aquele da Campanha Presidencial que coordenava. “São dados sob sigilo”, ele vem nos dizer no Jornal Nacional, entrevista exclusiva.


E, aí, nosso Procurador da República nos diz que sequer apresentará um pedido de denúncia ao Supremo. “Nada a investigar, nada, nada, nada. Enriquecer não é crime. E os tributos da empresa foram pagos em dia.”. Não importa que grandes empresas do ramo de consultoria, com muitos empregados, não façam os milhões que a empresa do “eu sozinho” de Palocci. Não importa que seja totalmente atípica a alegada “conclusão antecipada dos contratos, por conta do encerramento da empresa”, a justificar os R$ 20 milhões que pingaram no caixa, num curto espaço de tempo. Não importa que o dono da empresa seja um deputado federal, um ex-ministro da Fazenda, ministro da Casa Civil, um Coordenador da campanha da PresidenTA, arrecadador de recursos para a campanha... não, não há qualquer conflito de interesses, não há qualquer intenção escusa na contratação, pelas empresas privadas, dos “serviços” de tão influente pessoa pública... Palocci vai à televisão para pedir que os brasileiros tenham confiança na sua “boa fé”...


E o Procurador da República, Roberto Gurgel? Confiou bonitinho na boa fé de Palocci... muito bonzinho, bom garoto...


Roberto Gurgel e o ex-presidente Lulinha: "Amor, meu grande amor /Não chegue na hora marcada..."


Quando o caso explodiu na imprensa, o sr. Gurgel já foi adiantando que não via nada de errado... aí, com a grita crescendo, fez um pedido de informações pro seu doutor Palocci... deixou passar o prazo para se manifestar, daí fez um pedido adicional de informações, prorrogou o prazo... e, daí, trinta dias depois, confirmou aquilo que já havia adiantado desde o início: nada de denúncia, nada de investigação, não, não, não. Não vou não /quero não /posso não / a mulher não deixa não, não, não, não, não, não, não...


No dia IMEDIATAMENTE seguinte ao seu parecer favorável, Palocci, bem protegido, foi retirado dos holofotes políticos. O que motivou uma queixa insólita do Procurador da República, na linha: “puxa vida, nem pra esperar um pouco depois que eu dei meu parecer, me deixaram na linha de tiro...” Oh, coitadinho do sr. Procurador, a vida pode ser tão dura...


Mas não fique se lamuriando pelos cantos. Assuma com galhardia seu papel nesta peça, ao lado de juízes do Supremo, deputados e senadores, governistas e de oposição, presidentes, e presidentas, e ex-presidentes, e ministros, e donos de bancos, e caseiros, e mortos nas filas de hospitais, e mortos no campo, e matadores, e crianças pisando no esgoto, e você, e eu... o nome da peça? “Brasil”.


Pois foi ensinado o caminho das pedras. Alô, alô, senhor governante, senhor político, senhor ministro! Você que não sabe como justificar os milhões com que querem te “presentear”. Você que está cansado de arrumar nota fiscal pra justificar que o seu posto de gasolina fatura mais que um poço de petróleo, ou que os dez bois da sua fazenda se transformaram em mil, da noite para o dia... Não que nunca tenha dado em nada, mas ainda assim, SEUS PROBLEMAS ACABARAM! Basta abrir uma empresa de “Consultoria”. R$ 1 milhão, R$ 10 milhões, R$ 20 milhões? Ah, sim, foi a “consulta” que eu dei... eu sozinho, ninguém me ajudou, eu sou um cara foda. Mais detalhes? Sinto muito, esta é uma informação sob sigilo... não é lindo isto, não é perfeito? Aqui no Brasil, basta o aspecto formal, basta a aparência, a máscara... sim, recolhemos todos os tributos em dia, não vamos nos deixar pegar por causa do detalhe, remember Al Capone...


Ah, pesadelo de Kafka, Gabinete do Dr. Caligari, Casa dos Loucos... Novilíngua, Ministério da Verdade, 1984 de George Orwell... “Paz é Guerra”, “Ladrão é Honesto”, “Dia é Noite”...



É o que acontece nos totalitarismos. Saudade do tempo em que tínhamos oposição. Imaginem o PT na oposição, com um caso escabroso desses nas mãos? IMPEACHMENT, CARAS PINTADAS, GREVE GERAL, “O PT NÃO ROUBA NEM DEIXA ROUBAR”, FORA NEO-LIBERALISMO ASSASSINO, MORATÓRIA DA DÍVIDA, VIVA FIDEL, VIVA LENIN, VIVA STALIN!!!!


Por tosco e, como agora se vê, falso que fosse do discurso da oposição petista, havia pelo menos uma oposição, ameaçando o poder, fazendo denúncias, e cobrando.


E o que temos agora, e o que temos há 9 anos? Sindicalistas felizes, líderes estudantis satisfeitos, governo generoso, a nova oposição sem disposição para a luta... Aécio Neves e José Serra sumidos, botando panos-quentes no Palocci... são oposição apenas na hora de pedir os votos, e manter seus lugares elevados, seus lugares com a tchurma... mesmo assim, na falta de coisa melhor, levaram 44 milhões de votos, no segundo turno da presidência. Mas eles não querem se indispor com a tchurma, nada disso, longe deles, e eles vão empurrando com a barriga, fazendo um discursinho aqui e ali, indicando pra tchurma que nada de substancialmente vai mudar, se uma hora empunharem o cetro do poder eles mesmos... apenas tocar no pasto esta grande vaca, sem afetar a grande festa de sanguessugas no couro!


Opinião pública? Estão se lixando para a opinião pública! Tá tudo dominado, os pontos-chave estão dominados. E se continuar enchendo o saco, se incomodar demais, eles botam um fim nisso. Está rolando um projeto de lei, para restringir o trabalho de imprensa... estão fechando o cerco, cada vez mais, a cada dia...


E nossa “inteligentzia” nem sente, se perdermos a liberdade, agora, é por uma boa causa, é pela ditadura do proletariado... estão prontos para entregar, aliás já entregaram, há muito tempo, sua capacidade crítica, sua independência de pensamento, sua honestidade consigo mesmos, sua liberdade, enfim, para ser sacrificada no altar da ideologia. Pedem licença pro Partido, e pros seus líderes, para saber como devem se posicionar com respeito a cada tema...


Lindo, muito lindo, tudo isso... garotos bonzinhos, bem comportados, pode deixar que merecem um prêmio... uma verba? Um carguinho? Uma bolsa de estudos lá fora? Paris, é claro... não, não precisa estudar nada, é só apresentar um monte de palavras juntas, de preferência copiando uma idéia bem manjada... é só a forma, lembra, é só a máscara... e quem terá o topete de dizer que a vida não é bela? Mas temos um questionador, um recalcitrante, fascista-direitista? Isca, isca, acabem com ele, não deixem sobrar nada!








sexta-feira, 3 de junho de 2011

Socialismo 2

Mesmo sem levar às últimas consequências a ideologia de acabar com a propriedade privada, sua persistência e sua difusão em uma sociedade traz consequências deletérias.


O Brasil é bom exemplo disso, dos últimos países onde faz sucesso esse discurso velho de dois séculos, “operários de todo o mundo, uni-vos”, e socialismos “científicos”, e, enche a boca pra falar: “materialismos dialéticos”, “luta de classes”, “fim da História”...


Tá certo que aquele marxista de ler O Capital, e mais um monte de livrinhos, não anda aparecendo muito. Deixou de ter aquela aura de “intelectual chique”. Mas um monte de lugares-comuns, um monte de pensamentos-padrões, um monte de atitudes simpáticas, ah, isso tem em todo canto, por aí.


É o discurso oficial na boca de professores, nas rodinhas de bem-pensantes, entre a garotada linda, atrizes da globo, galera prá-frentex, gente que acha que é prova de virtude, de caráter, de bons sentimentos, repetir o discurso: o socialismo vai ser libertador para os pobres; não haverá necessidade, não haverá miséria; não vamos ser egoístas: abaixo a propriedade. E então tudo se resolverá num grande barato, uma grande festa...


Ooooohhhhh-ooooooooohhhhh-ooooohhhh...


Pronto. Tudo resolvido. Posso me dedicar a curtir o mundo.


Não, não é bem assim... o mundo continua girando, continua com seus prefeitos e seus vereadores, seus deputados e seus presidentes(tas)... muito deles colocando a mão na “massa”... continua precisando de trabalho, do seu trabalho, do seu suor e do seu sangue, para prender um corrupto, ou para fabricar um parafuso, ou para plantar uma árvore.


É principalmente mais fácil acreditar numa solução mágica. Um paizinho que vai nos dar sem esforço, sem nos cobrar coisa alguma...


É dessa crença fácil que vivem tantos dos “Paizinhos” deste povo, mas eles cobram absurdamente: eles cobram sua liberdade, sua dignidade, se bobear sua vida. E, claro, eles cobram o seu bolso.


Pode ter certeza de que eles vão tratar de ficar/se manter, muito-muito ricos. Ricos grotescamente, ricos além da conta, ricos de helicóptero e de jatinho.


E você vai mendigar a migalha do seu bolso.



Socialismo







"A legislação contra a propriedade privada pode ter um ilusório aspecto de benevolência; os homens a recebem de boa vontade e são, de imediato, induzidos a acreditar que, de uma maneira maravilhosa, todos se tornarão amigos de todos, especialmente quando escutarem alguém denunciando os males que estão ocorrendo agora nos Estados, supostamente originados pela posse da propriedade privada. Tais males, no entanto, derivam de causa diferente – a maldade da natureza humana."


Aristóteles, Política, 1263b, II


O fim absoluto da propriedade privada introduziria na sociedade uma absoluta e perene perturbação econômica, que levaria à total incapacidade de prosperar desta sociedade.


É claro que as leis e o governo que forçassem o fim da propriedade privada (porque o fim da propriedade privada só ocorreria através de um ato de violência) seria o responsável por esta ruína.


Se o bom governo é aquele em que a sociedade prospera, e mau governo aquele em que ela definha, é forçoso reconhecer que tal hipotético governo que decretasse o fim da propriedade privada, trazendo a ruína econômica da sua sociedade, teria de se classificar como um péssimo governo.


Os economistas já demonstraram o que o fim da propriedade privada proporcionaria: não haveria trabalho, não haveria comércio, não haveria indústria, não haveria agricultura... neste exercício hipotético, todos morreriam de fome. Porque, quem plantaria, sabendo que a cenoura que plantou não lhe pertencerá? Plantar, colher, se a fruta não pode ser minha?


Claro que na vida real não ocorreria isso. As pessoas plantariam, ainda que fosse escondido, ou ainda que fosse para defender com a vida o produto colhido. Aí, seria a guerra definitiva de todos contra todos. A lei não permite a propriedade da laranja. Então, a laranja será do mais forte, do que tiver condição de fazê-la, de fato, sua propriedade. Já que a lei não ampara o direito do mais fraco.


Este é o Paraíso de abundância e justiça com que sonham os socialistas! Apenas, claro, jamais admitiriam que o seu pensamento seja levado a estas últimas consequências.


É claro que tal Reino sem propriedade jamais foi praticado no mundo. Como poderia, segundo foi demonstrado? Que sociedade sobrevive sobre sonhos e fantasias? É como tentar construir um edifício no ar! Mas acham tão lindo ter a idéia “avançada”, “romântica”, “anti-convencional”, e sei lá mais o quê.


E assim vão dando espaço para que prevaleça, não para este sonho romântico que alimentam, este fantasma, esta quimera, este Socialismo Ideal, mas sim o socialismo real, o evidente mau governo, que desestabiliza a economia e se serve vastamente da violência.


Claro que o socialismo real não vai realizar nunca o fim perfeito da propriedade privada, como habita nas cabecinhas dos mais ingênuos. Como dito, isto é uma impossibilidade, se chegasse a acontecer aconteceria a ruína completa e a guerra completa. Mas eles vão continuar brandindo a bandeira do sonho, enquanto provocam os distúrbios e a violência decorrentes de sua ideologia. Com o tempo, os governantes vão começar a ficar mais pragmáticos, mais transigentes, e sutilmente deixarão de lado os discursos para inflamar a multidão (muito úteis quando eles ainda não tinham o poder), e passarão a se dedicar mais à única tarefa que realmente importa: como chegar ao ápice, e manter o poder?


Na verdade, na História, no mundo dos fatos, todos os governos que foram tomados em nome dessa ideologia radical não cumpriu suas promessas. Quanto mais tentou fazê-lo, aliás, mais danos provocou, mais teve de recorrer à violência. E acabaram transigindo, para não provocar uma reação tão forte que os derrubasse.


E, então, passaram a simplesmente escravizar a maior parcela possível dos habitantes, mas sempre mantendo aquela velha propaganda que o justificava. Ou seja, da boca pra fora, eram “Socialistas”, ou estavam “Construindo o caminho para o Socialismo”, mas na prática, continuavam alguns ricos, muitos pobres, alguns nas mansões, nos carros, nos aviões, nos banquetes, muitos escravizados a um trabalho massacrante, e padecendo misérias, nas cidades, nos campos...


O interesse da sociedade jamais é o de ter os seus negócios prejudicados, ou de ser ameaçada. Um governo que introduz uma desordem na economia, impondo o empobrecimento da sociedade, usando de força para entregar este resultado lamentável, como seria bom para a sociedade? “Pelos frutos os conhecereis”. Como é que a macieira entregaria veneno?


Apenas a cegueira ideológica permite não enxergar isso.


Um bom governo




Um bom governo permite que a sociedade trabalhe e prospere.


Se as leis são boas, o que impede a sociedade de progredir, de prosperar? Se é fácil fazer um negócio, abrir um negócio, vender, comprar, trocar, fazer, por que a sociedade não prosperaria? Um bom governo proporciona um ambiente favorável ao trabalho, poucas leis, poucos regulamentos, poucas exigências, de bom senso, expostas a toda a comunidade, não ao fiscal corrupto e sacana.


Se a sociedade não pode fazer um trabalho de um jeito simples e honesto, se o ambiente é cheio de armadilhas, cheio de ameaças, com carga tributária sufocante, com juros estratosféricos, com processos em número gigante, com mordidas de todos os lados, como é que vai prosperar uma sociedade?


Depois, vão dizer que a sociedade não prospera é por sua própria culpa. Porque é preguiçosa, porque não trabalha direito, porque não sabe trabalhar.


Ou porque os empresários são gananciosos, egoístas, exploradores... é a praga da ideologia, que não deixa ver o que é evidente, e que faz se perder num sonho.


É evidente que com muitas leis, com muitos obstáculos, com muitas exigências, vai se sufocar os negócios e o trabalho. Vai persistir, claro, mas como sub-negócio, negócio informal, e sub-emprego.


O bom governo vai permitir e facilitar os negócios, e assim a sociedade vai poder construir sua prosperidade. Sem esperar nada de ninguém.


E o bom governo vai fazer bem a sua parte. Não encher de leis e fiscais cada estabelecimento privado. Mas dando uma boa educação, de qualidade, para o seu povo. Fazendo bibliotecas e campos de futebol. Reinvestindo o dinheiro que recebe em prol da comunidade.


Isto é o óbvio. Isto é o evidente. Mas, claro, isto é o que não acontece em que país, mesmo?


Não pode acontecer, porque querem nos convencer de que a corrupção mais descarada... é assim mesmo.


Enquanto nossos homens públicos não se derem o mínimo respeito, e não tiverem o mínimo respeito, enquanto for normal que eles enriqueçam grotescamente... quanto será que aceitaremos? R$ 1 milhão? 2 milhões? 20 milhões? 200? Será que alguma quantia é grande o bastante para saciar a fome de um só destes corruptos? Destes homens poderosos, tudo gente fina, tudo de terno chique, tudo viajando pra qualquer canto do mundo, a toda hora, tudo desfrutando dos mais caros vinhos, dos mais caros charutos, de todos os regalos, todos os luxos...


Isto também é o óbvio. A sociedade vai ter de se acostumar e aceitar ser explorada deste jeito, indignamente, e não é qualquer quantidade de esmolinhas, ou esmolonas, que vai disfarçar isso.


O mau governo vai justamente tentar impedir que a sociedade se desenvolva, porque ela se tornaria forte o suficiente para expulsar a corrupção de dentro dela. Como o organismo são reage e expulsa os vírus e as bactérias.


Ah, belo dia irá raiar, neste dia!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ministra dos Direitos Humanos para alguns humanos

Na imagem, José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, o casal de extrativistas recentemente assassinado no Pará


Também na manchete do Globo de hoje: “Governo não protegerá nem 30 de 165 ameaçados de morte”.

Logo após o governo trombetear que faria uma reunião multi-ministerial, com novas políticas, com nova atuação, reafirmando a firme disposição do governo de combater a violência e a impunidade, e blá-blá-blá, em resposta aos quatro assassinatos recentes de ambientalistas no país, a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, vem a público para marcar o recuo do Estado, explicar que não é bem assim, vamos com calma, minha gente...

A ministra, segundo o jornal, em reunião com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), “se irritou em alguns momentos com as cobranças ao governo”, e disse que segurança para todos é uma ilusão.

Claro que nossos ilustres senadores, deputados, governadores, desembargadores, prefeitos, promotores, etc. etc. etc., têm direito a escolta 24 horas, feita por policiais selecionados, esquemas de segurança, carros blindados, etc. etc. etc., bem como seus ilustres familiares.

Já lembrei aqui, repito, o caso de dois ministros do Supremo, que passaram momentos de tensão dentro do carro, na Linha Vermelha, quando aconteceu um arrastão naquela via. E a reação do então Secretário de Segurança do Rio de Janeiro: “Mas como?! Houve uma falha da segurança! Os ministros deviam ter feito o deslocamento de helicóptero!”

Pois é. Pros ilustres, helicóptero. Pros 165 pés-rapados ameaçados de morte, “boa sorte”. Mas, claro, o Brasil é o país de todos, como nos informa a propaganda.

E Rosário ainda se irrita com as cobranças ao governo. Tá certa, ter de explicar as coisas pra patuléia... fere a dignidade de um ser ilustre. Quando um advogado da CPT falou pra Rosário que, no Pará, dos 20 defensores dos direitos humanos ameaçados, apenas 6 são protegidos, teve de ouvir da ministra:

- E o Pará é o que tem o maior número de protegidos. O Brasil é o único país do mundo com programa de proteção aos defensores dos direitos humanos.

Brazil-zil-zil... nem parece que foi no Pará que ocorreram 3 das 4 mortes recentes de ambientalistas, além das diversas outras, ao longo dos anos. Segundo dados da CPT, desde o massacre de Carajás, em 1996, até agora, foram 212 pessoas assassinadas em conflitos agrários, no Pará, somente na região de Marabá.

A ministra coroou sua fala afirmando que a proteção com escolta policial é também uma forma de violação dos direitos humanos:

- Viver sob escolta na missa, na escola, no super-mercado é também uma violação dos direitos humanos. É uma violação da privacidade.

É isso aí, morra-se com a privacidade assegurada.

O diamante de R$ 20 milhões





No jornal O Globo de hoje: “Após ameaçar convocar o ministro Palocci para explicar no Congresso sua evolução patrimonial e conseguir, com isso, fazer a presidente Dilma recuar e proibir o kit do MEC contra a homofobia, o deputado federal Anthony Garotinho (PR – RJ) fez outra chantagem, desta vez para votar a emenda que eleva o piso de policiais e bombeiros. “O momento político é esse. Temos uma pedra preciosa, um diamante que custa R$ 20 milhões, que se chama Antonio Palocci. A bancada evangélica pressionou e o governo retirou o kit gay. Vamos ver agora quem é da bancada da polícia. Ou vota, ou Palocci vem aqui.”

O grotesco de nossa política, tornado explícito pela língua sem peias de Garotinho. Que vergonha é essa, a colaboração no acobertamento de crimes, como moeda de troca para exigir apoio a interesses específicos de nossos políticos.

Como foi dito, não houve mais do que a explicitação de uma realidade que corre solta nas altas esferas do Poder em Brasília, e cujo exemplo reflete e se irradia em cada rincão do país. Afinal, no episódio do mensalão o então presidente da República não foi buscar apoio na ala forte do PMDB, os velhos coronéis de nossa política tradicionalíssima, Renan Calheiros, José Sarney...?

Claro que, ao fazê-lo, o Planalto assumiu o ônus da reciprocidade. Quando Renan esteve envolvido em acusações graves de pagamento de despesas particulares por lobista, além de diversas outras, Lulinha usou o peso de sua popularidade e de seu partido para defender o aliado politico. Quando Sarney foi alvejado, no escândalo de atos secretos no Senado, contratações de parentes e outras irregularidades, Lula comandou a tropa de choque de maneira agressiva. Teve até senador do PT, o impagável Aloisio Mercadante, que voltou atrás de sua palavra, “revogando o irrevogável”. Teve até manifestação da UNE a favor de Sarney. Da UNE, nada menos.

E estes foram só dois exemplos. Uma vez estabelecido o precedente, sem que houvesse maiores repercussões na opinião pública, e nos índices de popularidade do Cara (tudo dominado!), Lulinha entregou-se com gosto ao exercício das alianças que lhe garantiriam um aumento de poder, por mais bizarras e contraditórias que pudessem parecer.

Lulinha beijou a mão de Jader Barbalho; foi fotografado num abraço apertado com Collor, olhos nos olhos; liberou os cargos e as verbas pros “companheiros”, pros sindicatos, pras ONGs, pros movimentos sociais, pras uniões estudantis, pra outros segmentos da sociedade organizada, pra emissoras de rádio e TV “amigáveis”, pra todos os que possuíssem alguma visibilidade, e que poderiam engrossar o coro dos defensores de seus governo.

Nada também que já não fosse prática corrente no nosso Brasil, tão frequentemente descrito como clientelista, patrimonialista, nepotista, e outros adjetivos pouco lisonjeiros. Lula apenas aprofundou e legitimizou, com o peso de seu assistencialismo, estas velhas tradições pátrias até o limite do descaramento e do totalitarismo, num ambiente de oposição nula, e de euforia gerada por fatores externos, o ingresso de um bilhão de chineses no mercado de consumo, elevando os preços das matérias-primas que o Brasil exporta.

Ou seja, Lulinha aprofundou nossos piores defeitos, o Grande Estadista.... que piada.

E agora vemos aí (dentre muitas outras bizarrias), o ministro da Casa Civil, já queimado por um caso de violação de sigilo bancário de um pobre caseiro, aparecer com uma empresa de Consultoria que lhe rende R$ 20 milhões em um ano... e ser defendido e blindado pelo Governo, com Lulinha ensaiando seu retorno triunfal organizando nos bastidores a defesa... convocando senadores, dando pito em ministros, puxão de orelha na presidente, que não está fazendo direito seu papel de distribuir afagos aos aliados... afagos, claro, e muitas verbas, e muitos cargos...

Tudo muito lógico, tudo muito exato: só não se pode parar de jogar o jogo. Continuem rolando os dados, continuem aumentando as apostas... mais verbas, mais cargos, que o apetite da tchurma é insaciável... uma imensa fornalha, que se parar de receber combustível devorará a própria pessoa que lhe fornece alimento...

Viu, Dilminha, trate de rebolar, trate de seguir com a música... aprenda com seu guru, aquele que te mostrou o caminho... tem de ter estômago, querida, tem de engolir tudo, até a última gota... beijar a mão, fazer afago, posar pra foto, abraçadinha... ouvir falar de diamantes de R$ 20 milhões, e fingir que não entendeu... ceder à pressão de Garotinho... esconder Palocci debaixo da asa... não era isso que você queria?