quinta-feira, 16 de junho de 2011

Direito Básico


(...)

Es el pobre en su orfandad

de la riqueza el desecho,


porque nadie toma a pecho

el defender a su raza,


debe el gaucho tener casa,

escuela, iglesia y derecho.


(...)




Martín Fierro – José Hernández





Um país em que não se organiza em torno de um ponto básico, e torna este ponto básico realidade, não pode ser considerado uma nação.


Uma nação pressupõe esta vontade realizada. É um acordo de seus membros, em torno de uma causa. Qual é este ponto básico, esta causa? “Nenhuma criança sem a oportunidade de uma casa, de uma escola, de uma igreja, de um direito.”


Se este ponto básico não for alcançado, o que se pode falar deste país? Que tem o maior estádio de futebol do mundo? Que tem o maior rio do mundo? Que tem a maior ponte ligando duas cidades (projeto, claro, de fora...)? O.K., louve-se isso tudo, mas não se considere este país uma nação.


Sermos a oitava ou a sétima economia do mundo? Só aumenta a nossa vergonha de não nos termos organizado, minimamente, como nação.


Ou será que não temos milhões de crianças abandonadas em escolas vazias de professores? Não temos milhões de crianças adoecendo e morrendo de doenças que poderiam ser evitadas? E jovens morrendo na violência, na falta de moral e de perspectivas que permeia o país, sua impunidade...


E que direito terão crianças e jovens assim violados, assim enganados, usados, desprezados?


E que direito terão os cidadãos (cidadãos?) deste país?


Dizer que não tem dinheiro, que se precisa esperar longos anos por alguma mudança, É MENTIRA. Se com bilhões e bilhões para gastarem em algumas obras, 900 milhões pela reforma de um estádio, obras inúteis, obras luxuosas, faraônicas, obras de dinheiro público! Se com bilhões e bilhões para gastarem, não conseguem organizar um hospital, modelo para todos os hospitais do país. Não conseguem organizar uma escola, modelo para todas as escolas do país. Organizar uma polícia, organizar um exército, um projeto de acesso à cultura, então, o que estão fazendo nos cargos de liderança? Roubando, e deixando roubar? E como é que vamos sair deste pântano, deste jeito? Cuidado com o crocodilo!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Tempos Modernos


Segundo Eric Voegelin o ser humano cria símbolos para exprimir a sua concepção de universo, e estes símbolos vão espelhar e determinar a ordem que este ser humano viverá, em coletividade, formando a política, e em sua própria existência individual.


Ele dá exemplos com os ordenamentos políticos da História. Os egípcios, os judeus, os mesopotâmicos, os chineses.


Pensemos em outro ordenamento: o da nobreza absolutista da Europa. O sistema, heliocêntrico, das grandes descobertas científicas de Galileu e Newton. O Universo, um grande mecanismo ajustado por Deus, ninguém menos. A Razão, segundo se cria, podendo desvendar os segredos desta Grande Mente, prever a posição de estrelas, explicar a razão com que a lua atrai a terra, e vice-versa.


Na Religião, justificava-se o Rei como sendo o Sol de seus súditos. O Rei-Sol da França, Luís XIV. Pela Vontade Divina, a mesma que determinava o curso das estrelas.


Justificou-se o Absolutismo em prol deste ideal. Pensaram que tudo ficaria imóvel em seus lugares, como um sistema solar: a nobreza, o clero, o terceiro estado, cada qual com suas órbitas e seus privilégios. Sendo que o privilégio do terceiro estado era calar a boca e pagar impostos.


Claro que a História ensinou que tudo o que é sólido se desmancha no ar. A mesma Razão que o criara, na sua evolução, o viria a destruir.


O método científico prosseguiu com suas descobertas, e elas acabariam por derrubar a fé dos homens naquela explicação do Universo. O homem partiu o átomo, explodiu milhares num piscar de olhos. A imagem mais chocante do Universo, um imenso cogumelo radioativo crescendo do solo, suprimindo da existência milhares de vidas, em um segundo?


Uma das imagens que achei forte, num documentário sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, anos depois da explosão: a sombra de um homem vaporizado permaneceu na calçada. Não sei sequer a explicação para isso, creio que relacionado ao tremendo clarão. Ficou uma sombra na calçada, preservado o local como lembrança do dia terrível.


Uma sombra no chão. No documentário repetia-se inclusive a postura do homem: estava sentado, a pouca distância do ponto da explosão.


Isto era um dos lados onde a ideologia do tempo havia conduzido o homem. Os americanos, com seu desenvolvimento tecnológico, com suas fortunas de dinheiro.


O outro lado, a assumir a liderança no pós-guerra, igualmente poderoso, igualmente incapaz de prezar a vida humana. Milhões eram mortos pela ideologia do comunismo, governantes que assumiram o poder para declarar guerra contra seu próprio povo e contra outros povos, por quê? Para que o comunismo triunfasse... isto dito assim parece tão louco, tão bizarro. Mas foi uma consequência inevitável do Grande Desprezo pela vida humana, que parece ter acompanhado o homem nos seus tempos modernos.


Um homem competindo com outro homem. Nenhum espaço para a ideologia antiga, da compaixão, do bem viver com seu semelhante. Não, este ideal era a mentira, a hipocrisia, a decadência. “Precisamos reinventar os valores!”, gritava um Nietzsche tresloucado, dando voz a tantos auto-proclamados “super-homens” de que o mundo se via cheio.


Todos e cada um, um exemplo para a humanidade, sem nada precisar fazer para se sentir assim. Sem precisar levar uma vida de correção, uma vida íntegra e honrada até o último fio de cabelo. Não, apenas porque eram modernos, e conheciam a ciência, e os outros povos, e liam bastante, e eram tão inteligentes... já se sentiam autorizados a proclamar “revaloração de todos os valores”, e “mortes de Deus”, e “martelo que destroça deuses”, ou qualquer bobagem do gênero.


Olhavam para A Teoria das Espécies, de Darwin, e já saíam concluindo: a Bíblia estava “errada”, como se a Bíblia fosse uma conta de 2 + 2. Tão fundamentalistas quanto os que defendem “criacionismos” e outras teorias pseudo-científicas.


A Teoria das Espécies foi a culminância deste desenvolvimento da ciência, no seu solapar as idéias da Igreja. Antes disso algumas mentes na Igreja já haviam identificado o perigo das novas idéias, que questionavam sua autoridade. Galileu foi obrigado a abjurar de sua contestação ao geocentrismo, tido como matéria de fé pela Igreja: “A Bíblia diz!”


A ciência previa, a ciência explicava. Já não havia muita necessidade de Deus. Ele ficava de fora deste Universo, como Relojoeiro, criador do mecanismo, mas ausente dele.


Mas, então, se não havia necessidade, podia-se descartar a sua idéia. Por que acreditar? Coisa de bárbaros, de tontos, de mulheres e de crianças. “O temor de Deus é o início da sabedoria”. O que é isso? A frase de um livro, e nada mais.


O mesmo cenário da modernidade, das grandes descobertas científicas, podia gerar dois monstros: por um lado, Leviatã, o Estado Absolutista, o Rei Sol, a imobilidade social sob um Poder sem limites. “Deus queria que o Universo fosse assim”, diria seu slogan. “A Razão mostrou como Deus dispôs o Universo, com o Sol no centro, com os diversos planetas, e satélites, em volta. Cabe ao homem reproduzir esta situação, acatar esta Vontade Divina, com o Rei no centro, com os nobres e o clero, em órbita próxima. E a ralé mais ao longe”.


E por outro lado, Behemoth, a ideologização das massas. “A Ciência “prova” que não há Deus. Mas a Ciência poderá nos salvar. Criaremos o Homem Perfeito, através da ciência da psicanálise. E criaremos o Estado Perfeito, através do socialismo científico. As Ciências Econômicas gerarão a abundância. A sociologia ensinará o que é que as coletividades precisam. Ah, Comte, o positivismo... Marx, Freud, será que não se enxerga um padrão?


Claro, Marx, Freud, Comte, eram homens inteligentes, instruídos. Mas não deixavam de ser representantes de um tipo, o tipo moderno, confiante na ciência, materialista, racionalista, desconfiado e crítico das autoridades passadas, das tradições. “Vamos submetê-las à nossa Razão, nossa poderosa Razão. Verão que não sobra nada delas”. “Penso, logo existo”.


Engraçada esta euforia que tomou conta do homem. Ele não precisava entender como a lâmpada acende, como o avião voa, ou o automóvel anda, para participar da euforia com a ciência. Ele via estas coisas acontecerem, e se maravilhava, e punha todas as suas esperanças neste Poder que fazia estas coisas incríveis. E este Poder era a Razão, era a Ciência.


Eu não preciso mais me preocupar se ficar doente. O médico me cura, faz uma cirurgia, troca o meu rim, dá um jeito. Coisas incríveis, eu vejo acontecer, pelo jornal, pela televisão. Pobres destes ignorantes que confiam em “rezinhas”, em curandeiras. E eu também trago a barriga cheia, finas iguarias, de todas as partes do mundo, vêm encher minha pança. Leio notícias de todo o mundo, utilizo máquinas que deixam espantados meu pai e meu avô. E também vivo mais, conheço mais meus avós e meus bisavós, este é o mundo moderno”.


E não vou desdizer estas palavras, não vou condenar os tempos modernos, como se nada tivesse acontecido de bom. Acho inútil, e pior, hipócrita, quando vejo um tipo desses que anda de avião, fala em celular, usa computador, vai ao hospital fazer cirurgia, e diz que seria melhor se continuássemos com enxada no campo. Ou melhor, enxada não, porque é muito moderno: cavando com as mãos, para plantar a semente! Aí, sim, o homem seria feliz, em contato com o solo!


Não; não vou dizer que a Ciência é um mal, ou que a Razão é um mal, que a História e o homem deviam ter seguido assim e não assado.


Mas nem por isso vou endeusar a Razão, sacrificar à Razão, idolatrar a Razão.


De fato, à época da Revolução Francesa criou-se uma Religião da Razão, com uma jovem fazendo o papel de Deusa Razão, desfilando para adoração de seus fiéis.


A euforia do homem moderno com as maravilhas da Ciência fez com que ele abdicasse do direito de criticar e desconfiar da sua “deusa”. Logo ele, tão crítico e desconfiado das autoridades do passado, das tradições, e de tudo aquilo que não passava pelos seus critérios “científicos”, “racionais”...


Pois é, criticava cegamente um seu aspecto, para também cegamente acatar um seu outro aspecto...


Nem tanto ao mar, nem tanto à terra... ou, a virtude está no meio.


Estudar as ciências matemáticas é uma boa coisa. Estudar as ciências humanas também. História, Religião, Filosofia, porque abrir mão deste tesouro acumulado ao longo dos séculos? Porque não é “científico”, não atende aos critérios do método científico?


Houve quem quisesse quantificar sentimentos, para desenvolver psicologias “científicas”. Houve quem quisesse fazer crítica literária “matemática”, e coisas do gênero. Tudo para demonstrar o prestígio das “exatas”, e o correspondente desprestígio das “humanas”.


Mesmo hoje, vemos exemplos deste raciocínio estreito. Governos de países desenvolvidos, cortando verbas para os estudos superiores de “humanas”. Todos querendo o dinheiro rápido, desvalorizando o que não promete isso.


Os próprios estudiosos de “humanas” (não “ciências humanas”), refletindo esse desprestígio, como eu disse, tentando tornar seus estudos mais “científicos”, crítica literária “matemática”...


Ou se fechando em si mesmos, como em defesa, produzindo textos herméticos, ilegíveis, masturbatórios... vale tudo, porque tudo é relativo, e nada importa...


Isso tudo por conta da desmesurada euforia com que o homem moderno acolheu e acolhe as maravilhas das ciências.


Repito: estas maravilhas existem, são reais, mas não precisam ser tomadas por deusas que não se questionam e nem se criticam.


Inclusive, quando não se questionam nem se criticam, passam a fanatizar muitos seres, que vão buscar a realização da sua ideologia “científica” neste mundo... uma sociedade “cientificamente” feliz e perfeita, sob o socialismo “científico”... uma sociedade “perfeita”, formada pelo Novo Homem, super-homem, “perfeito”, quem sabe geneticamente alterado, ou lobotomizado, ou psicoanalisado, ou fruto de uma seleção artificial a partir da separação das “raças”, ou quem sabe controlado por drogas, uma pílula de “Soma”, como na distopia criada por Aldous Huxley... e, no esforço de realizar esta “perfeição”, ele nem sente pena de sacrificar alguns milhões de “atrasados”, que não se sentiriam bem mesmo neste Admirável Mundo Novo que eles se esforçam por construir...


domingo, 12 de junho de 2011

Matemática




E o MEC foi apanhado distribuindo uma cartilha de matemática onde se lia, entre outras pérolas de mesmo jaez, que 10 – 7 = 4.


Será alguma matemática moderna, revolucionária?


Será que o ministro trapalhão e intocável, Fernando Haddad, vai repetir que as críticas ao novo livro de matemática do MEC têm um “teor fascista”, como fez rebatendo as críticas ao livro de português do MEC que validava: “Nós pega os peixe”?


Oh, questões momentosas, no nosso circo Brasil...


Será que ainda não se chegou a um acordo sobre quanto é 10 menos 7? Será que precisamos convocar uma comissão de companheiros para definir os termos do ensino de uma matemática a serviço do proletariado?


Será que o aluno que responde 4, à pergunta: “quanto é 10 menos 7?”, sofrerá de preconceito matemático?


Pois alguns milhares de alunos seriam os destinatários da tal cartilha deseducadora, promovida pelo Ministério da Educação... custo da gracinha? 14 milhões de reais. Como terá sido a divisão dos 14 milhões? Dois milhões pro autor (quá-quá), um milhão pro revisor (quá-quá-quá), 5 milhões pra editora, e os outros 7 milhões para os que viabilizaram o contrato? Os que escolheram editar a tal cartilha deseducadora? Não sei como terá sido a divisão, mas certamente nenhum dos interessados deixou de acertar todas as continhas pra não perder sua parte.


Enquanto isso, em Nova Friburgo, passaram cinco meses da tragédia que vitimou milhares e milhares de moradores. Não só em Friburgo, mas em toda a Região Serrana do Rio, mas falo de Friburgo porque moro nesta cidade.


Cinco meses depois da maior tragédia natural do Brasil, cinco meses depois das visitas de helicóptero das pessoas mais importantes, para posar para fotos e fazer muitas promessas, vemos a situação de abandono das cidades.


Muitos milhões foram prometidos, muito trabalho e seriedade. Mas o que vemos, passados cinco meses, são as obras paradas, nenhuma providência tomada, entulho, morros descascados, falta de calçamento, ruas interditadas...


Alguns tantos milhões até saíram, para fazerem apenas um trabalho superficial de limpeza, e deixando intocadas muitas providências urgentes e importantes.


E não poderiam organizar este trabalho, nossos governantes? Sr. Governador, Sr. Prefeito, Sra. PresidenTA, Srs. Ministros, Secretários de Obras?...


Pensem nesses 14 milhões de reais torrados pelo Ministério da Educação numa obra de deseducar gente. Quantos salários de 2 mil pagariam estes 14 milhões? 2 mil, num país de salário mínimo por volta de 500.


Resposta: 7 mil salários.


E o que 7 mil trabalhadores, em um mês de trabalho, podem fazer?


Pensem no que seria para estas cidades arrebentadas pela chuva, se o Governo anunciasse: temos 7 mil vagas para os trabalhos emergenciais. Por favor, inscrevam-se, precisamos trocar o calçamento, retirar o entulho, limpar ruas, limpar rios, cavar, construir, desobstruir, consertar...


Claro, precisaríamos de uma equipe de engenheiros, para coordenar os grupos e as obras. De resto, mesmo sem grande qualificação haveria possibilidade de prestar um ótimo trabalho. Claro, a economia da cidade também agradeceria, numa época de muita perda.


Mas, é claro que a “vontade política” faz desaparecer 14 milhões numa “obra”, pra se jogar fora. E não se vê os homens trabalhando em nossas cidades, e não se vê trabalho em lugar algum deste país, porque todo o dinheiro que serviria para financiar este trabalho está desviado para finalidades nada nobres.


Gastam-se 700 milhões, 800 milhões, 1 bilhão, num estádio de futebol? Isto é o imoral, na nossa cara.


No Japão, vimos na televisão, CINCO DIAS depois do terremoto que destruiu uma estrada, haviam refeito a estrada. Na Região Serrana, CINCO MESES depois da chuva que destruiu uma ponte na RJ – 116, na altura de Bom Jardim, não há um homem trabalhando no local, não há uma máquina, nada. Só o estrago, os destroços, as casas penduradas.


Mas talvez o país que não aprende quanto é 10 menos 7 tenha de amargar este desgosto.


Legião Urbana - Ainda é cedo

Uma das antigas, da Legião:


Gal Costa - Festa do interior

E viva São João!


Ernesto Sabato


Ernesto Sabato, escritor argentino, morreu recentemente.


Escritor por quem tive, e tenho, muito apreço.


Descobri-o nas estantes da biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil. Queria conhecer algo da literatura hispano-americana. Folheei o livro “Nós e o Universo”, fui fisgado. Levei o livro para ler em casa, li-o todo, admirado dos curtos ensaios aliando erudição humanista e científica, muito bem escritos.


Admirei o autor, admirei mais do que a Borges. Não sei por que somos levados a fazer estas comparações, mas somos. Sim, Borges me leva sempre a páginas de deleite, e os seus contos são muito marcantes. Mas Sabato possuía uma qualidade importante, suas páginas são mais urgentes, e são mais reais. Era homem das grandes angústias, e das páginas de pesadelo. Prezava muito sua liberdade humana, e portanto sua liberdade de autor. Escrevia com honestidade.


Não que Borges fosse desonesto, não estou dizendo isto. Mas Sabato me parecia mais enfronhado no humano, enquanto Borges pensa bibliotecas, e labirintos, e tigres, e espelhos...


Mas, de novo, não há nada que compará-los, apenas porque eram argentinos, e contemporâneos, circunstâncias fortuitas.


E ambos, muito inteligentes e eruditos. Leitores íntimos de alta filosofia.


Preferi Sabato dos ensaios. Aquele primeiro livro dele que li, “Nós e o Universo”, permaneceu marcante, e sinto vontade de relê-lo.


Depois, li “O Túnel”, um curto romance sobre um homem que mata uma mulher, enlouquecido de ciúmes. Somos levados dentro da mente do assassino, um livro, como se vê, tenso. Um livro de pesadelo. Forte, honesto, mas não me interessou tanto. Também não é passa-tempo, está-se vendo.


Depois, li uma parte de um livro de diálogos, “Meus Fantasmas”, umas partes de um livro de crítica literária, “Os escritores e seus fantasmas”, estou lendo um livro de diálogos com Borges.


Todos cheios de grandes sacadas, de pontos de vista interessantes, de erudição.


Fora estes, comecei a leitura de um romance complexo, “Sobre heróis e tumbas”. Uma trama envolvendo história argentina, fantasias paranóicas, personagens densos. Fiquei interessado pela história, e me impressionei com a força algumas cenas de sonho. Mas não consegui ir adiante no livro, está esperando por uma nova tentativa... talvez, quando estiver mais preparado? Mas me parece ser o seu tour de force.


Mas, como dizia, os seus ensaios é que pude ler com mais interesse. Além do já citado “Nós e o Universo”, outro que eu li todo, e me agradou muitíssimo foi “Homens e Engrenagens”. Este, com uma discussão mais histórica, me apresentou uma idéia, que achei bem justa, e depois vi reproduzida em outros pensadores filosóficos contemporâneos, como Eric Voegelin e John Gray: o liberalismo e o socialismo são variantes de uma raiz comum de filosofia progressista e utópica.


Sabato reflete sobre isto emocionalmente, rejeitando ambos os sistemas do Mundo “Moderno” e “Avançado”, representados por Estados Unidos e União Soviética.


Um a imagem deformada do outro. Gêmeos disputando e se odiando. Esaú e Jacó, não reconhecendo a origem comum.


Claro: alguém ouviu um liberal da gema falando? Mercado tudo regulando, o Paraíso, eu vejo uma Mão Invisível, eu vejo uns anjos!.... dá pra ver o olho brilhando.


E alguém já ouviu um socialista da gema falando? Um fantasma ronda a Europa... Operários de todo o mundo, uni-vos!.... de olho brilhando.


Ambos culpados de se perder no mito de seu pensamento feliz, de sua vaidade auto-confiante, e perderem de vista o ser humano.


O ser humano concreto, visto por estes como meios, ou obstáculos, para atingir os seus “fins” elevados, os seus sonhos de pesadelos.


Isto que Ernesto Sabato viu, e denunciou com a sua convicção, com o seu comprometimento, sua coragem, sua palavra. Americanos sacrificando homens para o Deus-Mercado; soviéticos sacrificando homens para fazer a Grande Rússia, com seu Grande Sistema, com seu Grande Planejamento, mandando homens pro espaço, e outros homens pro Gulag...


Uma competição insana para ver que país manda no mundo. E todas as população convocadas para estes falsos ideais, temendo e odiando uns aos outros, e se esquecendo de questionar o luxo de seus governantes, e a própria miséria, a própria fila pro pão, o próprio desemprego devastador, ou trabalho duro pra conseguir uma merreca, enquanto o corrupto ensaca milhões e bilhões...


Sim, uma grande farsa, intensamente sentida, intensamente denunciada por Sabato.


Também li um livro de suas memórias, “Antes do fim”, que desvenda bastante da vida deste escritor. Sua infância, sua escola, e depois foi para a Europa, trabalhar como cientista. Seu envolvimento com o grupo dos surrealistas em Paris, exercendo uma vida dupla inabitual de cientista e boêmio. Seus dramas familiares. A grande crise em que desistiu da ciência e das esperanças que se depositavam nele, como cientista, para voltar para a Argentina, e se isolar no campo, e se tornar um escritor.


Bem, estas são minhas considerações sobre Ernesto Sabato e sua obra, e algumas coisitas más.


Descanse em Paz, Ernesto.

Legião Urbana - Há Tempos (trilha sonora pro artigo País de joelhos)

Disciplina é liberdade;

Compaixão é fortaleza;

Ter bondade é ter coragem.





Há Tempos

Legião Urbana

Composição : Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá

Parece cocaína
Mas é só tristeza
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem
Do cansaço e da solidão
Descompasso, desperdício
Herdeiros são agora
Da virtude que perdemos...

Há tempos tive um sonho
Não me lembro, não me lembro...

Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso...

Os sonhos vêm e os sonhos vão
E o resto é imperfeito...

Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira...

E há tempos
Nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
E há tempos são os jovens
Que adoecem
E há tempos
O encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura
Abrigo e proteção...

Meu amor!
Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem (Ela disse)
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa...