quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Nova Friburgo - Brasil

Aqui em Nova Friburgo, em seu âmbito, o Ministério Público Federal faz seu papel de questionar as contas públicas. Que nossos governantes entendam que não pode haver gasto sem benefício social. Então não pode haver gasto inexplicado. Se isto é crime, que traga consequências, que traga punição, ou então não se pode ter um país sério.


Em Teresópolis, a notícia que estampou os jornais foi de que, depois da tragédia, aumentou a comissão dos “por fora” dos contratos que a Prefeitura mantinha com certas empresas.


Aqui ficou patente o desprezo pela vida humana que existe no país. Uma tragédia de milhares de mortos e desaparecidos. A maior tragédia da História do Brasil, em número de mortos, num curto espaço de tempo. Feridos? Desabrigados? Com problemas econômicos? Existem aos milhares.


E neste ambiente, de dor e desespero, produzir roubos, desvios, ganhos ilícitos, ou, como diria nosso governante, ou nossa governanTA, malfeitos, traquinagens, travessuras de aloprados...


A que ponto chegou a corrupção no organismo deste país, que multiplica os roubos até quando tem gente passando fome, tem gente morrendo na fila do hospital, no chão do hospital, ou na frente do hospital, sem ter um enfermeiro ou um médico presentes, ou, se presentes, suficientemente dispostos a fazer alguma coisa...


Isto pra não falar nas mortes de trânsito. Milhares, 40 mil por ano. Nas mortes violentas. Milhares. Dezenas e centenas de milhares. As mortes por desnutrição. As mortes por falta de cuidado, remédio, educação... as mortes evitáveis, se fôssemos um país mais decente... milhões de milhões...


Isto é Brasil, Brasil do número, do fato, da imagem. Brasil da realidade.


Contra isso não conseguimos nos organizar como nação, para lutar contra isso, para enfrentar isso, para mudar.


Deixamos como está.


Pra ver como é que fica.


Enquanto isso, R$ 1 bilhão vai pra conta do frigorifico...


1 bilhão, 2 bilhões, 3 bilhões... o céu, ou o fundo do bolso dos trouxas, é o limite...


Para a maior tragédia, etc etc, o Governo destinou 10 milhões, até agora. Não, ainda não liberaram mais dinheiro, não, existem outras 14 mil burocracias, sabe como é, o sujeito vai pedir, implorar, R$ 100, ou R$ 1000? Então, são 14 mil regras, 14 mil cláusulas, 14 mil controles...


Mas se for para passar 1000 vezes 1000 vezes R$ 1000, aí é rapidinho... uma mamata...


E não são apenas 1 ou 3 bilhõezinhos, não. Só pelo BNDES já partiram, como no exemplo do frigorífico, R$ 100 bilhões para empréstimos, nos últimos três ou quatro anos.


R$ 100 bilhões. 1000 vezes 1000 vezes... ora, uma porrada de vezes.


E pra Região Serrana, depois da maior tragédia etc etc? R$ 10 milhões. Algum dia vem mais. Depois de 6 meses, libera mais umas gotas... Quando começarem a chiar muito, libera mais um pouquinho...


E, agora, vamos voltar aos grandes negócios, aqueles que importam...

Bob Dylan - Oulaw Blues







Outlaw Blues

Ain't it hard to stumble

And land in some funny lagoon?

Ain't it hard to stumble

And land in some muddy lagoon?

Especially when it's nine below zero

And three o'clock in the afternoon.


Ain't gonna hang no picture,

Ain't gonna hang no picture frame.

Ain't gonna hang no picture,

Ain't gonna hang no picture frame.

Well, I might look like Robert Ford

But I feel just like a Jesse James.


Well, I wish I was on some

Australian mountain range.

Oh, I wish I was on some

Australian mountain range.

I got no reason to be there, but I

Imagine it would be some kind of change.


I got my dark sunglasses,

I got for good luck my black tooth.

I got my dark sunglasses,

I'm carryin' for good luck my black tooth.

Don't ask me nothin' about nothin',

I just might tell you the truth.


I got a woman in Jackson,

I ain't gonna say her name.

I got a woman in Jackson,

I ain't gonna say her name.

She's a brown-skin woman,

but I Love her just the same





Blues do fora da lei


Não é uma vida dura? Tropeçar

E cair em alguma lagoa enlameada?


Especialmente quando faz nove graus abaixo de zero

E são três horas no meio da tarde! 1


Não vou me pendurar retrato,

não vou me pendurar moldura de quadro, 2


Bem, eu posso parecer com Robert Ford,

Mas me sinto igual a JESSE JAMES!


Bem, eu gostaria de estar

Em alguma cordilheira da Austrália3


Eu não tenho qualquer motivo pra estar lá

mas imagino que seria algum tipo de mudança!


Eu tenho meus óculos escuros,

Vou carregando pra boa sorte meu dente preto


Não me pergunte nada a respeito de nada,

Eu podia simplesmente te contar a verdade!


Eu tenho uma mulher em Jackson,

Eu não vou lhes dizer o nome


Ela é uma mulher de pele marrom,

Mas eu a amo de todo jeito!4



1Alguma referência a uma fuga pelo meio oeste gelado norte americano?

2Realmente, foras da lei não têm lares para pendurar retratos ou molduras. Faz lembrar também do filme Jesse James, de 1939 (ver a estrofe seguinte), com Tyrone Power no papel título, quando o traidor Robert Ford (John Carradine) aproveita para baleá-lo no momento em que Jesse James vira de costas para pendurar um quadro na parede.

Facilitou, Jesse, fora da lei não pode sonhar com conforto do lar...

3Alguma referência ao também romântico fora da lei Ned Kelly?

4Quer mais fora da lei, nos racistas Estados Unidos, confessar desejo por uma mulher de pele marrom?

Blues do Fora-da-lei

Blues do Fora-da-lei


  • como Bob Dylan, Outlaw Blues


Existe romantismo na vida de criminosos que não têm casa, que vivem perseguidos pelo lado da lei. Arriscam sua pele pelo seu meio de vida. Metralhadoras, e armadilhas, e cercos, fazem parte do jogo. Roubam diretamente. Não escondem o que fazem. Se a polícia os pegar, dançaram; foi roubo mesmo. Mas pra pegar, geralmente, vão ter de matar.


E, naturalmente, que não eram assassinos. Ou pelo menos não eram assassinos cruéis, sanguinários. Assassinos covardes. Que cometiam seus crimes, principalmente, contra os bancos ladrões, e o sistema financeiro corrupto, e os muito ricos...


Não digo que a irresponsabilidade do criminoso possa ser desculpada. A conduta que adotam aumenta a chance de vítimas, e vítimas, sabemos, são sempre inocentes.


Mas o romantismo de quem se arrisca, e joga com o destino, e morre destroçado por balas, e se condena a uma existência assim, é jogado numa existência assim, por injustiças e revolta, desaparece quando se trata do roubo limpo. Roubo limpo, como sabemos, é o roubo mais sujo...


O roubo da grande jogada, do “dentro da lei”, de quando se ocupam os mecanismos do poder. Os roubos que fazem faltar o dinheiro para quem mais precisas. Os roubos das “ações entre amigos”. Amigos de saque.


Estes criminosos não têm o destino trágico daqueles. Vivem, aliás, muito bem, em jatinhos e iates, bebendo uísque e comendo caviar... Em Brasília, então, a vida é mansa...


Não têm a sujeira da violência vinculando seus nomes. Mas, se for preciso, sempre se arruma um capanga. A vida é frágil, mais frágil por aqui, assassinos de freira Dorothy Stang. Assassinos de milhares. De quem ousar levantar a voz.


Tantas cabeças a prêmio neste pais... Os conflitos no campo! E a baixada fluminense! E as favelas! E os cortiços!


Este Partido no Governo, antes de ser Governo, fazia bandeira dos mártires no campo. Onde estão os assassinos de Chico Mendes? Lembro deste slogan oportuno. E se aproximava das vítimas.


Agora, como Governo, esqueceram de tudo... as mortes no campo se sucedem, o Estado continua sem fazer nada. Amarrado na sua burocracia, na sua tendência de não enfrentar nada, não resolver nada.


Mas, então, para que é que se queria o poder? Se não vai botar as coisas pra funcionar, batalhões de polícia, de promotores, de juízes, pra resolver estes conflitos infindáveis no campo, pra botar alguma ordem, neste faroeste caboclo? Era só pra curtir o poder que se queria o poder?


Mas aquele Partido, que prometia tantas mudanças, mudou ele mesmo! Uma metamorfose ambulante, no ato falho risonho de seu Líder e Chefe.


Ao chegar no poder, esqueceu-se das vítimas. Foi abraçar os agressores, “não queremos problemas pro nosso lado”... E as vítimas, estas ficaram por sua própria sorte, porque não queremos enfrentar problemas.


E a Oposição, também, desconhece estas vítimas. Contentam-se em fazer o jogo do salão, em seu cantinho, saboreando as migalhas do poder...


E é assim que se perde um país...


não com um estrondo,

mas com um gemido


(como T.S. Eliot, Os Homens Ocos)

Ocupem Brasília!




Brasília, eu te dei tudo

Hoje não sou nada


  • como Allen Ginsberg, América





Leio o Príncipe. Leio algo dos pré-socráticos. Leio algo do Paideia. Leio o noticiário. Vejo o Jornal Nacional. Algo de horrível acontece.


Algo de horrível acontece, e Brasília se revela inteira em sua forma horrível. Em seus jatinhos e charutos e litros de uísque. Em seu amor comprado, em seu riso vulgar, em sua insensibilidade olímpica. No jogo das sujas eminências apenas a disputa de poder é sentida.


Uma suja insensibilidade, que finge desconhecer os caixões dos pequenos. Os pequenos caixões, muitos deles porque o poder deste país pode tudo, mas não pode salvar estas pequenas vidas.


Somos o fracasso de nações. Nada que apareça nas muitas propagandas de Brasil Grande, que o Governo não pára de repetir como verdade oficial. Note-se bem, verdade com qualquer qualificativo não é verdade, é mentira.


Mas não para o Governante. Este quer ver seu Reinado preservado. Quer ver o povo conformado. Tem milhões vindo aqui pro meu bolso, uma garotinha ta morrendo por falta de uns milhares. Isto é justiça neste pais, isto é a nossa realidade.


Justificativas tem muitas. Vai R$ 1 bilhão praquele frigorífico. Do meu amigo. “É o frigorífico GRANDE! É o maior do MUNDO!” - diz a propaganda.


E no hospital mais um morreu porque não tinha vaga. Porque não tinha aparelho. Porque não podia fazer nada.


Aqui, como é bom ter amigos! Dar pra eles um bom cargo, presente que não sai do bolso. E ter dele sua fidelidade eterna, presente que não tem preço!


Fazer deles uns escravos, ter muitos deles nos bolsos. Dobrados pelas surras dos meus capangas.


Esta é a nossa corrupção, nossa Ama.


Calado... calado... olha o chicote do nosso feitor!





T. S. Eliot - A cançao de amor de J. Alfred Prufrock

A canção de amor de J. Alfred Prufrock

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. Ladivina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66 (N. do T.)

Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.

E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. "Ousarei" E . . "Ousarei?"
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: "Como andam ralos seus cabelos!")
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: "Mas como estão finos seus braços e pernas! ")
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.

Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?

E já conheci os olhos, a todos conheci
- Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?

E já conheci também os braços, a todos conheci
- Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?

.......

Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?

Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.

.......

E a tarde e o crepúsculo tão .docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
servida numa travessa,
Não sou profeta - mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.

E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: "Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei."
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: "Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto."

E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? -
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às
pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
"Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto."

Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.

Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.

Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.

Não creio que um dia elas cantem para mim.

Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.

Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.

(tradução: Ivan Junqueira)

Um certo Alex Severino parece ter feito um bom trabalho de analise deste poema, que pode ser conferido neste link para download:


http://seer.fclar.unesp.br/alfa/article/download/3191/2918

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Processo de Joana D´Arc, filme de Robert Bresson




Em entrevista publicada no Globo de 11.09.2011, o cineasta alemão Wim Wenders falou sobre a violência nos filmes do francês Robert Bresson:


“Outro dia assisti a “A Grande Testemunha” (1966), do Robert Bresson. Fiquei bastante surpreendido por ele. Ele era violento de uma maneira da qual nenum dos filmes recentes de violência consegue nem chegar perto. Ele não mostrava violência, mas me fazia experimentá-la. Eu já tinha assistido ao filme há mais de 30 anos e mal podia acreditar no quão contemporâneo e pungente ele é.”


Experimentei a mesma sensação de violência em outro filme de Bresson, “O Processo de Joana

D´Arc” (1962). Na verdade, ao assistir este filme, pensei que era o filme mais violento já feito, deixando pra trás filmes de guerra, gore, filmes de zumbi, O Massacre da Serra Elétrica, Takashi Miike e Oldboy. Deixa pra trás Irreversível, e A Fita Branca. Deixa pra trás até o Saló, de Pasolini.


E isso, sem recorrer aos efeitos especiais nojentos e grotescos, à violência explícita e, até, pornográfica, de besteiradas como Jogos Mortais.


E por que é tão terrível, este filme? Porque ele conta uma história real, do jeito exato que ocorreu, e esta realidade é mais apavorante do que pode conceber a mais delirante imaginação.


Outros filmes, apavorantes, também mostraram casos reais, ou se basearam neles. Psicose, Henry, Retrato de um assassino, Wolf Creek, e O Massacre da Serra Elétrica.


Mas mostravam a exceção, a mente doentia, e podíamos nos confortar pensando que era algo isolado, uma peça defeituosa, mas sem relação com nós mesmos.


Mas O Processo de Joana D´Arc mostra uma instituição, a própria Igreja, com seu processo, com suas normas, com seus ritos, com sua lógica e sua racionalidade, e tudo montado para submeter, torturar e eliminar um ser humano, no caso, uma garota de 19 anos, repleta de dignidade, que condena, ao ser condenada, os seus acusadores.


A figura do bispo que a interroga é a mais pavorosa, porque é a de um assassino perfeitamente consciente, lúcido e frio. Ele tem os seus objetivos, agradar aos ingleses, e arma com denodo e eficácia a estratégia para alcançá-los: a destruição de uma inocente.


Por mais que ele tenha fugido das regras, por mais que houvesse um clima de guerra, a lógica que o bispo utilizou para obter a condenação de Joana era endossada pela Igreja e o pensamento da época (endossada pela Universidade de Paris): destruir a experiência pessoal da fé, destruir a individualidade.


Apegar-se à letra das Escrituras, condenar como herético qualquer desvio da interpretação oficial. Quanta soberba, pecado original, daqueles Santos Homens, julgando-se infalíveis, mandando para a fogueira suas bruxas e hereges!


O tempo todo nota-se o empenho de fazer com que Joana renegue sua crença profunda, o seu modo de sentir e vivenciar sua fé. Ameaças e torturas infligidas em uma criança, um espírito puro e sincero. E para quê? Para que ela se anulasse, renunciasse à sua dignidade, à fidelidade com aquilo que julgava mais importante, à fidelidade com seu modo de entender e amar a Deus.


A morte na fogueira é simbólica deste desejo de aniquilação do ser humano. Suprimi-lo, reduzi-lo a cinzas, até que não reste mais o humano. Apenas o animal conformado, obediente, passivo. Aquele que não questiona toda a corrupção que vem dos Superiores, daqueles que têm o poder.


E esta foi a violência última a que foi submetida uma jovem de 19 anos, repetindo a Paixão de Cristo, e infligida pela própria Igreja guardiã desta memória. Foi tudo documentado nas atas do processo, as perguntas dos inquisidores, as respostas daquela moça, que realmente parecem divinamente inspiradas, tão firmes e admiráveis. O empenho com que o bispo Pierre Cauchon perseguia seus objetivos parece estranhamente se tornar o empenho de um homem que busca a própria destruição. Como Deus endurecendo o coração do Faraó. Sua insistência em buscar um motivo de condenação, mesmo confrontado pela firmeza da Santa, é aterradora.


Talvez mais terrível do que o sofrimento e a morte injusta da jovem de 19 anos seja esta capacidade do homem de agir contra a consciência, contra a misericórdia e o bem. Desobedecer a Deus, que é Amor, Compaixão, e experimentar do fruto da árvore proibida.


No contexto histórico, a Igreja queimou muita gente, submeteu muita gente, vejam os casos de Galileu Galilei e Giordano Bruno. Massacrou hereges, vejam os albigenses, no seu fanatismo torturou e matou, homens e mulheres, velhos e crianças.


Deveria servir de alerta para o quê o ser humano é capaz. Conceber e institucionalizar um mecanismo para dominar de modo absoluto sobre os semelhantes. Sequestrar-lhes as almas. E isto, às vezes, quando dominado pelo fanatismo, com as melhores das intenções, e partindo das idéias mais sublimes!


É esta capacidade para a violência última que o filme de Bresson documenta, com exatidão, atendo-se às atas do processo e às circunstâncias históricas.


Lembrei de outros dois filmes relacionados, “Giordano Bruno” (1973), e “Häxan – A feitiçaria através dos tempos” (1922). Convém não assisti-los em sequência, ou a devastação emocional pode ser muito grande.


Também recomendado é o livro “Joana D´Arc”, de Donald Spoto, para quem quiser se aprofundar nesta fascinante história.


É Fantástico!



Reportagem do Fantástico de 16.10.2011, mostrando funcionários públicos aposentados por invalidez da Assembléia Legislativa de Santa Catarina nos últimos 30 anos, com salários que variam de R$ 2 mil a R$ 24 mil reais, além de outras vantagens, como isenção do imposto de renda.

Questionados, ainda reagem aos repórteres com irritação, com deboche, com hipocrisia, invocam "milagres" e alegam que "não sabiam de nada" (síndrome do mensalão).


E a pergunta importante é: o que fazemos, país, nação, com esses ladrões fraudadores?


Vamos pensar no exemplo do maratonista com cardiopatia grave: ele se aposentou há 29 anos, quando tinha 34 anos. Digamos, por hipótese, que o seu salário fosse o de R$ 24 mil reais. Por ano, com 13 salários, ele embolsaria 312 mil. Por 29 anos, teria embolsado mais de 9 milhões de reais. E isentos de imposto de renda, contribuição previdenciária, dentre outros benefícios.


E não foi o único. A reportagem diz que dos 196 aposentados convocados para revisão médica, 60% não comprovaram a doença que deu origem ao afastamento. Ou seja, 117 suspeitas de fraude, muitas grosseiras, como mostra a reportagem. Doenças raras, graves, mas que não apresentam sintomas? O que é isso? Vamos engolir as histórias de milagres? Invocar o Santo Nome em vão?


Se um bandido for pego furtando, R$ 100, R$ 50, ou R$ 10, ou um xampú, ou um sabonete, sujeita-se a pena de um a quatro anos, e multa (art. 155 do Código Penal). Se o furto é qualificado, por exemplo, mediante fraude, ou mediante o concurso de duas ou mais pessoas, a pena vai de dois a oito anos, e multa.


E se o sujeito embolsa, ao invés de R$ 10, R$ 9 milhões de reais? Não é o batedor de carteira, ou o ladrão de galinha, mas o prejuízo é muito maior. E será que vai dar cadeia, para este aposentado fraudador, e para o médico que atestou falsamente, e para o servidor que deixou passar as fraudes?


Não parece. A reportagem diz que desde a década de 1980 as fraudes foram denunciadas, sendo o caso conhecido, na época, como “o escândalo das muletas”. Passou pelas mãos de dois juízes, mas não foi resolvido por falta de novas perícias. E então ficamos mais vinte anos dando dinheiro a um ladrão fraudador.


E nem parece que mudamos nosso modo de proceder. A reportagem diz que a Assembléia convocou alguns dos aposentados por invalidez que vendem saúde para retornar ao trabalho. Será que interessa à Assembléia o trabalho de um vigarista, de um pilantra, de um safado? De qualquer modo, informa-nos a reportagem, “a maioria dos convocados conseguiu uma liminar da Justiça para suspender o retorno à Assembléia”.


Que tal, ao invés disso, cadeia. E ressarcir os prejuízos causados. Se comprou um apartamento, venda-se o apartamento. Se tem uma casa na praia, venda-se. Um automóvel, dois? Venda-se. Conta bancária, de poupança, ações? Confiscadas.


Se estiver na miséria, depois de sair da prisão, sem condições de trabalhar, vamos lhes dar um benefício assistencial, como prevê a lei. Não precisamos ser bárbaros e desumanos. Mas, se fizermos menos que isso, seremos frouxos e patetas, legando aos nossos filhos um país injusto e cínico.