domingo, 14 de junho de 2009

Opinião pública e poder

Parece que foi combinado: deputado federal Sergio Moraes (PTB-RS) e presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. O primeiro disse que (SIC) os jornalistas querem é enrabar eles (os políticos), e que está se lixando pra opinião pública. “Vocês batem, batem, e a gente se reelege”. Como dizem, o estilo é o homem.
Não que ele fale sem conhecimento de causa. Ele já vai pelo seu sétimo mandato público (dois mandatos de vereador, dois de deputado estadual, dois de prefeito, e este agora de deputado federal), apesar de colecionar acusações variadas, inclusive a de manter um prostíbulo com sua esposa, que aliás é prefeita de Santa Cruz do Sul (RS). Seu filho também é vereador. Conheça mais da figura em http://veja.abril.com.br/250608/p_064.shtml
Por outro lado, Gilmar. Segundo o ilustre magistrado, o juiz não pode “ouvir o sujeito da esquina”, para decidir. Podemos, angelicais sem maldade, pensar que esta declaração quer dizer que o juiz deve se manter imparcial, julgar os fatos e as provas objetivamente, e com honestidade, decidindo de acordo com as todas as forças que sua capacidade humana de entendimento possuírem, e com a consciência limpa. E com coragem, aí sim, ainda que precise afrontar qualquer pressão, seja de poderosos, seja da opinião pública. Qualquer coisa para não cometer o que seria, a seus olhos, após uma análise isenta do processo, uma injustiça.
Só que tem uma interpretação diabólica e maldosa pras palavras do presidente do Supremo, que eu infelizmente considero mais adequada. Por causa da pessoa que falou, por causa do desprezo contido na expressão “o sujeito da esquina”, por causa da consonância com a manifestação do deputado, por causa do momento de crise que o país atravessa, em que nobres representantes do Executivo, do Legislativo, e do Judiciário, externam uma indiferença olímpica pelos súditos bocós que lhes pagam os salários.
Segundo esta interpretação maldosa, Gilmar Mendes estaria defendendo que o “juridiquês” é algo muito elevado para a compreensão dos meros mortais. Estes deveriam calar as boquinhas quando o iluminado JUIZ decidisse um caso, ainda que a injustiça lhes parecesse flagrante, mas quem são eles para opinar? Não entendem as tecnicalidades que só ao juiz se revelam. Não são uns especialistas do DIREITO.
Esta conversa serve bem para interditar o exercício do poder pelo povo, isto é, a liberdade política, a democracia. Serve bem para uma sociedade fundada sob o signo da desigualdade. Hierarquia vertical, de que fala Octavio Paz, no ótimo Tempo Nublado: vice-reinados e capitanias gerais que ordenavam a sociedade “conforme a ordem descendente das classes e grupos sociais: senhores, gente do povo, índios e escravos.”
Os senhores sentiam-se e sentem-se desobrigados de prestar contas ao “sujeito da esquina”. São eles, e somos nós. Uma regra pra cada um. Aos amigos, tudo, aos inimigos, o peso da lei. Não temos a mesma origem, não temos o mesmo destino: não somos iguais, perante a lei de nossa livre escolha. São os senhores que fazem a lei, para aplicá-la no povo. Eles próprios estão acima das normas, encastelados nos privilégios, nas amizades dos comparsas com quem dividem o poder, nas interpretações camaradas, nas brechas legais, na infinidade de recursos, nas falhas e corrupções das instituições e dos sistemas...
Polícias que não investigam os roubos dos milhões e milhões, servem pra fazer a segurança dos ilustres, e pra baixar a porrada nos miseráveis e vagabundos que sujam a paisagem. Pelo menos tirá-los da vista. Juízes, fiscais e ministérios públicos, atolados no processamento das infinidades de miudezas, leis que arrancam ou concedem direitos, aos milhares: milhões berrando pro Judiciário: “queremos o nosso!!!” Muito volume, pouco trabalho: modelos que se repetem em milhões de processos, concursos públicos para milhares de servidores, milhares de estagiários...
E, depois, tem os dois meses de férias... tem o recesso, e os feriados, e os enforcados, e tem as semanas tqq (terça, quarta e quinta), e as semanas tq, e já ouvi falar em semanas t. Os desvios dos milhões, os grandes contratos, as ONGS fraudulentas, as dispensas de licitação, tudo isso é sempre da responsabilidade de algum outro. Geralmente, um Tribunal lá pra cima, uma gaveta escondida num armário trancado, com dois milhões de processos por cima... aparecem no jornal, e depois somem. Os envolvidos são transferidos de cargo, e ganham outro posto... não diminuem o salário, mas dão menos na vista... por algum tempo, só pra esquecer...
Símbolo exato: o roceiro que foi preso porque cortou uma casca de árvore pra fazer um chá. Crime ambiental, horror dos horrores, inafiançável, e o sujeito mofou na cadeia um bom tempo... enquanto isso, madeireiras asiáticas fazem contratos maravilhosos com governantes na Amazônia, toneladas de madeira saindo ao preço de quilos de banana... sem preocupação com plantio, reflorestamento, fala sério, a conversa é para adultos... pois é... e assim segue o bonde.
P.S. Depois que comecei a escrever este artigo (meus artigos servem minhas disponibilidades de tempo e inspiração), tivemos outro exemplo da série “Cago e ando pra opinião pública”; desta vez, para fechar a trinca do Poder, fornecido pelo Executivo: nosso ilustre ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, em entrevista ao Globo, de 31.05.2009, quando indagado sobre as críticas que o governo vem recebendo na condução da política externa, nos informa que “política internacional é jogo de gente grande”. Está certo que ele coloca as coisas em termos de um problema dos brasileiros, “em geral”, e se inclui, ao dizer, depois, que “Estamos acostumados a pensar pequeno, no interesse do fulaninho, do primo do sicrano, se ele vai ser ou não candidato.” (isto parece uma confissão enrustida das muitas embaixadas dadas de presente para políticos que perderam mandatos, prêmios de consolação para companheiros cuja qualificação para representar o Brasil no exterior é nenhuma).
Mas, cara-pálida, quem é que toma as decisões de política internacional, não é o próprio ministro das Relações Exteriores? Ah, então, ele é a “gente grande”, que pode decidir, em oposição às criancinhas, que somos nós, gu-gu-dá-dá, vamos torcer pra ganhar uma mamadeira, e que não esqueçam de trocar as nossas fraldas...
“No jogo de gente grande, temos que tomar decisões de política global (...)”, continua Amorim, com indisfarçado orgulho. “Tenho lombo grosso. Vivi isso quando era presidente da Embrafilme”. E estamos conversados. O Governo convida o presidente do Irã, que nega o holocausto, para nos visitar, apoia a candidatura de um egípcio anti-semita para a Presidência da UNESCO, quando dispunha de um bom candidato brasileiro, nomeia um embaixador para a Coreia do Norte, do louco atômico Kim-Jong il, apoia a tirania de Chavez, a tirania de Cuba, e se ouvir críticas à condução de sua política externa, responde: “a opinião pública não entende, mas política internacional é um jogo de gente grande...”. Amorim, com sua longa experiência, já foi presidente da Embrafilme, conhece o jogo de gente grande que é jogado no país: melhor puxar o saco do chefinho, do “nosso líder” (é como Amorim se refere ao presidente da república), que prestar contas à opinião pública, debater, explicar os motivos, corrigir, responder... “Povo” é abstração, que se invoca no palanque; de concreto, mesmo, é o “nosso líder”, o homem da caneta que exonera e nomeia...
Tentando não ser freudiano demais, todos estes atos falhos de nossos ilustres representantes do Poder Público traem esta cultura comum de nossa sociedade dividida em senhores e resto. Quem chega lá, porque fez uma provinha de concurso público, porque ganhou uma indicação de um parente ou de um amigo, ou porque fez um curralzinho eleitoral, vai repetir os mesmos comportamentos de todos. Chegar lá, não significa atingir um entendimento (consciência), e uma prática que provoquem uma mudança real de paradigma: da mentalidade que dispõe do recurso público como se fosse privado (patrimonialismo – mais claramente: fazer na vida pública o que se faz na privada), para o sistema de real igualdade perante a lei, livremente escolhida. Já falei sobre isso, não vou me estender de novo sobre o ponto.
Para terminar: será o fundo do poço? É certo que a situação parece bem terrível, para os que estão conscientes, mas a vida segue, nos nossos filhos e nos filhos de nossos filhos, e a vida carrega consigo a esperança. Atingir o fundo do poço é doloroso, mas a dor faz despertar o desejo de mudança. Afinal, sempre fomos uma sociedade escravocrata, não ia ser de um dia para o outro, num passe de mágica, escrevendo uma lei num papel, que iríamos nos transformar num Reino de Liberdade e Esplendor. Ia precisar tempo, ia precisar dor, consciência, trabalho... nada disso pode alquebrar o espírito humano, tudo isso é estímulo para o espírito forte. O que seria de Hércules se não fossem os doze trabalhos?
Chegamos ao fundo do poço? É porque paramos de cair. Podemos nos reerguer, dar conta da situação, planejar a escalada para o topo. Não que não haja perigos e retrocessos. Temos a imprensa livre, vamos mantê-la (embora não seja perfeitamente livre, concedo, mas vamos brigar para manter a liberdade que tem, vamos brigar para ampliá-la. Perfeição é ocioso discutir, porque é impossível de alcançar. E que bom que é assim, que monotonia seria, se não tivéssemos nada por que lutar). Vamos lutar e cobrar para que os casos de corrupção sejam punidos, para que as instituições funcionem, para que tenhamos mais educação, mais saúde, mais segurança. Vamos estar atentos e lutar para que não nos roubem de novo (mais ainda), a democracia, o estado de direito, a Justiça...
O.k., paro por aqui. E esclareço que sei que existem o policial bom e honesto, o juiz bom e honesto, e o advogado, e o jornalista, e o ministro, e o político, iguaizinhos, em todas as profissões e aglomerações humanas. Minha crítica não é para A ou para B, mas para instituições, e sistemas, e mentalidade, e cultura. Quando parece que falo de todos os policiais, ou de todos os juízes, é efeito da retórica, para dar mais força a algum ponto.

Alguma coisa de podre no reino do futebol

Tem alguma coisa de podre, no reino do futebol. O esporte, que é a alegria e a saúde de milhões e milhões de brasileiros, acha-se roído pela nossa velha praga nacional, a corrupção.
Pois o que é que justifica, neste negócio que gira milhões, que clubes vivam atolados em dívidas, e as leis permitam a tantos espertalhões, dirigentes, advogados, cartolas, que lucrem sempre milhões, construam mansões e piscinas, enquanto tanto investimento que poderia reverter em benefício direto do país, em construção de estádios, e centros de treinamento, e alojamentos, e escolinhas para crianças, e professores, e uniformes, e médicos, e massagistas, e nutricionistas, tudo isto não seja realizado, ou não seja realizado na proporção em que poderia.
No negócio dos milhões do futebol, por que é que o dinheiro tem de ficar concentrado nas mãos de uns poucos, “bem instalados” neste sistema, e não pára no clube, para pagar os tributos devidos, e ainda servir para expandir os serviços que são da natureza do clube: instalações, quadras, piscinas, serviços, pessoal, associados... uma enorme área que se abre para a economia, para o emprego, e que tem implicações culturais, educativas. Uma mina de ouro e de diamantes, gerada espontaneamente pelo interesse de, literalmente, bilhões de pessoas no mundo. À espera de que venha a ser trabalhada, particularmente no nosso país, com muito maiores honestidade, racionalidade, transparência, e que possa servir muito melhor a todo o nosso povo.
Leis irracionais, leis para beneficiar alguns poucos, que imenso custo que têm!

terça-feira, 2 de junho de 2009

Por pouco (por quanto tempo?)



POR POUCO (POR QUANTO TEMPO?)
Todos dizem que não querem, todos juram de pés juntos, mas nessa última quinta-feira, 28.05.2009, estivemos perto, muito perto, de ver iniciados os trâmites para votação da proposta de emenda constitucional que permite a prefeitos, governadores, e, é claro, ao nosso presidente, disputar o terceiro mandato.
Das 171 assinaturas necessárias (número cabalístico: ia ser mesmo um tremendo 171), os governistas conseguiram 170. Chegaram a ter 194 nomes, dos quais 183 foram confirmados. O prazo para retirada das assinaturas ia até meia-noite. A oposição, então, (PSDB e DEM - pobre do país que precisa de heróis. E o que dizer do país em que são heróis PSDB e DEM?) conseguiu retirar 13 assinaturas até as 23h. 44 do segundo tempo... e por uma só, umazinha assinatura, não se conseguiu publicar a proposta de emenda.
Não que esteja tudo definido. Agora, a proposta retorna ao autor, Jackson Barreto (PMDB – SE), para tentar colher novas assinaturas. Com todo o poder de sedução de que dispõe o Governo, com tantas diretorias e cargos, não vai ser difícil conquistar mais um adepto para a tese do terceiro mandato, e fazer publicar a proposta...
E aí, então, deixa o povo ir se acostumando com a idéia... continuem negando que irão brigar pela aprovação da emenda... vão trabalhando na surdina, preparando o terreno... e só como um plano B, para o caso da candidatura Dilma ir mal das pernas.
Nesse caso, entra a tropa de choque, e joga pesado para garantir o terceiro mandato.
E a democracia?
Não seja ingênuo, infeliz. Alguém pensa em democracia? O nome do jogo é permanecer no poder. Garantir cargos, garantir vantagens, foros privilegiados, passagens aéreas e rapapés... de mais a mais, pode-se empurrar pro povo que se está respeitando a democracia, no momento mesmo em que se a estupra... o “nosso líder” não tem os "tubos" de aprovação popular? 69% de avaliação boa ou ótima, segundo a última pesquisa, navegando tranquilo nas águas do assistencialismo demagógico. Melhor que isso, só Hitler, que no plebiscito de agosto de 1934, recebeu 43 milhões de votos, 88% do eleitorado. E então? É a voz do povo, a voz de Deus, como repetem os confusos, e os que querem confundir.
Democracia, porém, não é simplesmente apurar a maioria. Ela é um conjunto de normas, dentre as quais, essencial, insere-se a alternância pacífica do poder.
Também o “nosso líder” confundirá, dizendo que a primeira ministra Margaret Thatcher e o chanceler Helmut Kohl permaneceram longos períodos no poder, “esquecendo” que o chefe de governo, num regime parlamentarista, não exerce mandato determinado, podendo ser destituído pelo Parlamento a qualquer momento, dentro da normalidade do regime.
Mas governar incultos, escravos, é essa maravilha: mente-se, engana-se, debocha-se, e o povo pede por mais. E é isto que se vende como democracia, “governo do povo, pelo povo, e para o povo”, nas palavras imortais de Abraham Lincoln. Que piada! E Lincoln deve estar se revirando na tumba...
Quando Hitler, apoiado por esmagadora maioria, em setembro de 1935 fez aprovar leis anti-judaicas, que retiravam a cidadania alemã aos judeus, lhes proibia o casamento com não-judeus, dentre outros mimos, foi respeitada a democracia? Foi garantido o poder do povo?
Mas é claro que não. O povo não é a maioria dos eleitores, ou mesmo a maioria da população. O povo é toda a população, todos os que vivem num território, e trabalham, compram, vendem, e negociam, e se apaixonam, e conversam, e interagem...
Se o povo é toda a população, quando se restringe o direito de algum grupo, quando se faz leis de exceção para um grupo, está-se diminuindo o poder do povo. O povo, isto é, todo ele, cada indivíduo, tem o direito de ser tratado de maneira igual. As leis valem para todos, este é o princípio da igualdade jurídica. Este é o poder do povo. Não pode ter diminuído seu direito, ou ser discriminado, por conta de “raça”, cor da pele, credo religioso, opinião política, sexo, idade, renda, ou qualquer outro critério diferenciador.
Daí que democracia precisa garantir direitos individuais. Ou não é democracia, não importa que 99% dos entrevistados queiram colocar uma corrente no pescoço, ou queiram colocar a corrente no pescoço do próximo, alguma minoria (no fundo, é a mesma coisa, dois lados da mesma moeda).
Notem bem: não estou dizendo que não pode ocorrer de fato uma opressão, se 99% decidirem praticá-la. Não estou delirante assim. O que estou dizendo é que em tal situação nunca se poderá dizer, com propriedade, que existe uma democracia.
É como dizia algum filósofo antigo: o roubo, ainda que viesse a ser previsto na legislação de algum povo, nunca perderia seu caráter injusto. Seria, como colocam alguns, a questão da legalidade e da legitimidade. O legal seria o formal, podendo ser ou não legítimo. Mas o legítimo seria apenas aquilo que reflete o respeito àquelas liberdades humanas, os direitos fundamentais do indivíduo.
Terceiro mandato (e amanhã um quarto? E depois de amanhã um quinto?...) restringe a liberdade política, restringindo a possibilidade de alternância no poder. Abre a porta para, amanhã, deixar entrar mais fácil uma completa ditadura. Mais uma na nossa História...
Vendo o povo diminuída a sua liberdade política, o seu poder, vai poder dizer que defende e garante a sua democracia, o regime do poder para o povo? Que paradoxo, que contra-senso...
Arrancam os direitos de quem mal se dá conta disso, de quem vive anestesiado, indefeso, impotente...
Como está acontecendo com nossos vizinhos, nas nossas barbas: Hugo Chávez, o palhaço sinistro, é um buraco negro no coração da Venezuela, sugando outros povos da América Latina pra dentro do seu vácuo: Equador, Bolívia, Nicarágua, Argentina, a todos ele procura influenciar, com todos ele interfere, inaugurando mais um capítulo triste na sofrida História dos povos nossos irmãos, que tanto já penou com caudilhos, quarteladas, revoluções “populares”, perseguições, torturas, departamentos de propaganda, desaparecidos... nada muito distante de nós mesmos, por sinal...
E Lulinha elogia Chávez, sustenta que a democracia é respeitada na Venezuela...
Pois é, o perigo é grande...

sábado, 30 de maio de 2009

Maggie´s farm - Bob Dylan

De Bob Dylan, Maggie´s farm, como apresentada no festival de Newport, 1965. http://www.youtube.com/watch?v=EnO2jwvaB5c
Notem os ruídos de aplausos misturados com vaias, ao final dessa música que, compreensível e meritoriamente provocou reações tão extremas.
Para falar a verdade, é uma música desagradável. Guitarras e barulho, voz esganiçada e letra desaforada. A voz de um caipira, de um escravo, observando singela e certeiramente a desequilibrada Maggie e sua linda família. Mas rock n´roll não tem de ser incômodo, desagradável? Guitarras muito altas, rebolado de Elvis Presley, piano de Little Richard? Grito de excluídos, de humilhados e ofendidos? Filho do blues, filho de escravos?
A juventude antenada que venerava o Dylan folk não suportou ver a mudança do ídolo pro rock n´roll. Vaias pro “traidor”.
Mas, Dylan, você não vai mais trabalhar na fazenda da Maggie. É melhor ser livre e fazer o que se quer, afinal, eles cantam enquanto eu me escravizo, e eu simplesmente fico entediado...
Letra e tradução:

Bob Dylan - Maggies Farm 1965 live

I ain't gonna work on Maggie's farm no more.
I ain't gonna work on Maggie's farm no more.
Well, I wake up in the morning,
Fold my hands and pray for rain.
I got a head full of ideas
That are drivin' me insane.
It's a shame the way she makes me scrub the floor.

I ain't gonna work on Maggie's farm no more.

I ain't gonna work for Maggie's brother no more.
I ain't gonna work for Maggie's brother no more.
Well, he hands you a nickel,
hands you a dime,
asks you with a grin
If you're havin' a good time,
Then he fines you every time you slam the door.

I ain't gonna work for Maggie's brother no more.

I ain't gonna work for Maggie's pa no more.
No, I ain't gonna work for Maggie's pa no more.
Well, he puts his cigarin your face just for kicks.
His bedroom windowIt is made out of bricks.
The National Guard stands around his door.

Ah, I ain't gonna work for Maggie's pa no more.

I ain't gonna work for Maggie's ma no more.
No, I ain't gonna work for Maggie's ma no more.
Well, she talks to all the servants
About man and God and law.
Everybody says
She's the brains behind pa.
She's seventy-two, but she says she's twenty-four.

I ain't gonna work for Maggie's ma no more.

I ain't gonna work on Maggie's farm no more.
I ain't gonna work on Maggie's farm no more.
Well, I try my best
To be just like I am,
But everybody wants you
To be just like them.

They sing while you slave and I just get bored.

I ain't gonna work on Maggie's farm no more.

A fazenda da Maggie

Ah, eu não vou mais trabalhar na fazenda da Maggie

Ah, eu acordo, de manhã,
Junto minhas mãos, e rezo por chuva,
Eu tenho uma cabeça cheia de idéias,
Que estão me deixando louco,
é uma vergonha a maneira que ela me faz esfregar o chão.

Eu não vou mais trabalhar na fazenda da Maggie.

Eu não vou mais trabalhar pro irmão da Maggie.
Eu não vou mais trabalhar pro irmão da Maggie.

Ele te joga um níquel,
Ele te joga um centavo,
Ele te pergunta mostrando os dentes
Se você está se divertindo bastante
Então ele te multa cada vez que você bate a porta.

Ah, eu não vou mais trabalhar pro irmão da Maggie.

Ah, eu não vou mais trabalhar pro pai da Maggie.
Não, eu não vou mais trabalhar pro pai da Maggie.
Bem, ele põe o seu charuto
Na sua cara, só pra se divertir
Sua janela do quarto é fechada com tijolos
A Guarda Nacional faz ronda perto da sua porta

Ah, eu não vou mais trabalhar pro pai da Maggie.

Eu não vou mais trabalhar pra mãe da Maggie.
Ah, e eu não vou mais trabalhar pra mãe da Maggie.
Bem, ela está falando com todos os serviçais
Sobre o homem, Deus, e a Lei,
Todo mundo anda dizendo
Que ela é o cérebro por trás do pai,
Ela tem setenta e dois anos
Mas diz que tem vinte e quatro.

Ah, eu não vou mais trabalhar pra mãe da Maggie.

Ah, eu não vou mais trabalhar na fazenda da Maggie
Eu não vou mais trabalhar na fazenda da Maggie
Bem, eu tento meu melhor
Só para ser quem eu sou
Mas todo mundo só quer que você
Seja exatamente como eles são
Eles cantam e dançam enquanto eu me escravizo
E eu simplesmente fico entediado

Eu não vou mais trabalhar na fazenda da Maggie.

Liberdade

O povo que não tiver um pensamento vivo dentro de si, de que somos dignos de liberdade, e precisamos assegurá-la e mantê-la, vai tristemente se ver dominado pelos exploradores.
Gente que vai se manter no poder eternamente, lucrando fábulas com seus roubos, provocando condições de vida muito piores, para toda a população, do que poderiam ser, garantindo leis e instituições que lhe assegurem a impunidade, degradando a qualidade de vida que poderia facilmente ter sido alcançada, de todos os que trabalham e vêem a miséria em suas vidas, sofrem os roubos, os assassinatos, constantes, veem a falta de esperança e de perspectiva para seus filhos, doentes e morrendo de alguma doença curável, destinados a algum sub-emprego ou ao crime, quando poderiam ter dado uma contribuição enorme...
Se a cultura de um povo aceita tudo isto, pensa que nada de melhor merece, ou pode conseguir, esta cultura de fato está amarrada, amordaçada, e continuando assim vai continuar sendo torturada e roída pelos seus aproveitadores.
Bastará, no entanto, um pensamento que exerça o poder da mudança, um pensamento que instaure as instituições que não irão permitir que se roube, um sistema em que os administradores vão gastar para garantir trabalho, escola, hospital, comida, prosperidade, segurança, dignidade... que pessoas vão prosperar, fazendo um trabalho honesto, e com os índices melhorando, como necessariamente tem de ser.
Será que temos essa elite de pensamento? Será que a temos em massa crítica o bastante para proporcionar a mudança?
A realidade de corrupção impune, de cooptações pelo sistema, diz que não. Pior para a realidade, porque ela vai ceder. Tudo que é sólido desmancha no ar (Marshall Berman). Valorizaremos a liberdade, e saberemos lutar consequentemente por ela. Mesmo que haja desvios e enganos no caminho, mesmo que haja F idéis, e Lenins, e Pinochets, e Hitleres, e Stalins, no caminho.
A revolução não acaba enquanto não votarmos livremente nossas leis, e enquanto nossas leis não garantirem que todos vão ser iguais, que ninguém vai ganhar um dinheiro que se justifique por leis que todos aceitem, e que se apliquem a todos.
Então, em vez de o sujeito ganhar uns milhões por baixo do pano, pra votar alguma leizinha prum “amigo”, e curtir com a cara de todos em seus castelos e mansões, ele vai pra cadeia por corrupção. Então, em vez do sujeito ter uma renda daqui e dali, porque votou com os amiguinhos alguma leizinha que os favorecia, eles vão ter de trabalhar como todo mundo, tantas horas por dia, tantos dias na semana, para ganhar o pão de cada dia.
Chegaremos lá, estamos chegando.

Revolução

A parte boa de saber que um regime não pode perdurar para sempre restringindo a liberdade, é manter a esperança.
Regimes violentos e opressores já foram derrubados antes, sempre podem sê-lo. É preciso apenas haver umas poucas pessoas que tenham a idéia clara, de que a liberdade geral para o povo é o único regime justo.
É preciso gostar do vizinho, do povo. É preciso querer que todo ele seja tratado com honestidade, com dignidade, da mesma forma que se gostaria para si. Aí vai se ver que ele precisa prosperar com trabalho, com dignidade, com harmonia, e aí vai ser festa. Risos, para todos.
Por mais que pareça que o regime é imutável, com sua corrupção, seus canhões, seus comprados, este regime é fraco, doente, e vai cair, tão logo se apresentem estes tantos, com as boas idéias.
Dizer não à violência, por certo. Basta que as boas leis rejam a todos, não é preciso vinganças constantes contra os derrotados do sistema velho. Eles aprenderão a conviver com todos, quando seu mestre tiver caído.
O livro de Hannah Arendt, Da Revolução, lança luz sobre o tema. Ela mostra, historicamente, que a distância entre dominadores e dominados pela força das armas constantemente se mostrou insegura. As armas modernas, e as novas técnicas de exército, não acrescem segurança ao status quo. Ele pode desmoronar com o que parece um passe de mágica, surpreendendo a todos que estavam em volta.
O poderoso império soviético não ruiu, em frente dos olhos de todos, aquele aparato bizarro e surreal de polícia secreta, investigação da vida de todos, internação em prisões no gelo da Sibéria? Foguetes, e mísseis, e tanques. Marchas de milhares de soldados, batendo pés pelas ruas.
E ruiu, se esfacelou, ante o sopro de uma nova geração, que viu tudo aquilo como ridículo, morto...
E assim foi o regimes nazista, o reich de mil anos... e os camisas negras de Mussolini.
Claro que não deixou de haver sofrimento. Guerras mundiais, e tantos mártires da perseguição... mas tudo isto parece que foi um pesadelo, aqueles atos absurdos, sem sentido, mas que fazem parte da maldição.
Também o Brasil acordará de seu pesadelo de ser dominado pela corrupção. Esta esperança é bela, mas não pode adormecer por um segundo a importância da luta. O regime da servidão e da injustiça
precisa parar de prosperar, pela idéia clara de pessoas de coragem para recusar as corrupções do sistema, e para se empenharem por idéias de uma lei, uma organização, que encarcere a impunidade, que garanta a liberdade.
Os males que vemos no jornal, todos os dias, são o sinal claro de que não podemos cruzar os braços.

Beatles no You Tube

Love me do, a primeira a estourar nas paradas http://www.youtube.com/watch?v=zwqzRXDibeM. Uma canção tão simples, dois ou três acordes. Mas leio no almanaque dos Beatles que um crítico de música erudita prognosticou, ao ouvir aquela canção, que o grupo que a tocava revolucionaria a música.

Do grande George Harrison, que tocava 26 instrumentos, inclusive exóticos como cítara e ukelele, While my guitar gently weeps http://www.youtube.com/watch?v=jf6aEnZAxVE

Do último concerto dos Beatles (30.01.1969), em cima do telhado da gravadora Apple Records, em Londres, para os passantes que paravam surpresos para escutar: Don´t let me down http://www.youtube.com/watch?v=cytfRtJvne0. Os Beatles não se apresentavam ao vivo desde 29.08.1966, em São Francisco, EUA, porque o histerismo e a gritaria das fãs eram tão grandes que os músicos não podiam ouvir o que estavam cantando. Como disse John Lennon, sem a música não fazia sentido haver o show. Era apenas um circo de monstruosidades.

Mas em 1969, como um alívio das tensões por que passava a banda, que em breve estaria separada, os Beatles se deram, e a nós, o prazer de uma apresentação. Mais uma do concerto no telhado, Get back, http://www.youtube.com/watch?v=JlWFpdPX45g

E, para completar, o figuraça do Ringo Starr, não podia faltar. Em cada disco, havia uma "música do Ringo": uma canção para ser cantada pelo Ringo, que não podia exigir muitos contorcionismos vocais do cantor. Em 1969, Ringo nos brindou com uma rara e deliciosa composição sua: Octopus´garden. Dois links: http://www.youtube.com/watch?v=Qf41Iq9sYXo e http://www.youtube.com/watch?v=cgPqmRNjoTE