sábado, 26 de setembro de 2009

Como se fosse o blues do Pequeno Polegar

Uma música do Bob Dylan que tem me acompanhado os pensamentos, do LP Highway 61 Revisited (1965), número 4 nos 500 melhores discos da lista da revista Rolling Stone. Just Like Tom Thumb´s Blues
http://www.youtube.com/watch?v=K6_lqmfSIx8


Como se fosse o blues do Pequeno Polegar

Quando você está perdido na chuva em Juarez
E ainda por cima é época da Páscoa

E a lei da gravidade falha
E a negatividade não te fará superar

Não tire onda nenhuma
Quando você desce as Ruas Morgue

Elas têm algumas mulheres famintas
Elas vão uma bagunça de você

Agora, se você vir Sant´Ana
Por favor, diga-lhe, um muitíssimo obrigado,

Eu não consigo me mover
Meus dedos todos num nó

Eu não tenho nem a força
Pra me levantar e tomar outra dose

E meu melhor amigo, meu médico,
Sequer vai dizer o que eu tenho

Doce Melinda
Os camponeses a chamam a Deusa do Entardecer

Ela fala bom inglês
E ela te convida pra subir pro seu quarto

E você é tão gentil
E cuidadoso, pra não alcançá-la rápido demais

E ela tira sua voz
E te deixa uivando pra lua

Subindo o morro do conjunto habitacional
Ou é fortuna ou é fama

Você precisa escolher uma ou outra
Embora nenhuma seja aquilo que anuncia

Se você quer bancar o engraçado
é melhor você voltar pro buraco de onde saiu

Porque os polícias não precisam de você
E, cara, eles esperam o mesmo

Agora, todas as autoridades,
Elas ficam por aí, e contam vantagem,

Como elas chantagearam o sargento de guarda
Pra que deixasse seu posto

E pegaram o Anjo
Que acabava de chegar vindo da Costa

Que no começo parecia tão bom
Mas que acabou parecendo um fantasma

Eu comecei com vinho da Burgúndia
Mas logo cheguei nas coisas mais fortes

Todo mundo dizia que ia me dar apoio
Quando as coisas ficassem ruins

Mas a piada era comigo
Não tinha gente ali sequer pro meu blefe

Eu vou é voltar pra Nova York
Eu realmente penso que tive o bastante

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Mentiras do Governo

E não passa dia sem uma nova evidência de nossa triste situação, de otários, escravos, impotentes, a quem se pode mentir na cara e ficar por isso mesmo. Estão “obrando” pra opinião pública. Desta vez, a evidência se apresenta com cores dramáticas, de algumas centenas de mortos, mulheres grávidas, crianças... simplesmente o Governo admitiu candidamente que o remédio Tamiflu não foi liberado para venda simplesmente por não haver estoque suficiente à demanda. Agora que o Laboratório Roche, produtor do medicamento, tem condições de suprir a demanda, todos poderão comprá-lo no balcão da farmácia. Isto depois de o Governo ter dado uma batelada de explicações “técnicas” para a proibição das vendas: que seria perigosa a auto-medicação, que o vírus poderia adquirir resistência, e blá, blá, blá... de repente todo esse lero-lero passa a não ter valor, e o diretor de vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde, Eduardo Hage, informa que “o próprio laboratório priorizou a demanda do Ministério, o que foi correto”. Ou seja, decidiu-se garantir que não faltaria remédio pras pessoas incomuns, do Governo ou amigas do Governo, e pros trouxas da patuléia a gente diz que não tem remédio pro próprio bem deles.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Estatismo

É interessante ver que às vezes é até possível ser marxista, pelo menos no sentido de compartilhar algumas das opiniões do velho Marx, o Karl, o mais nonsense dos irmãos Marx. Aqui está o que diz Karl, em A luta de classes na França:
As enormes somas que passavam pelas mãos do Estado davam, além disso, oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero
Eu posso até ser marxista neste trecho, mas eu imagino como terá marxista de carteirinha, de bóton na lapela, se surpreendendo e se assustando com os malabarismos mentais que terá de fazer para adequar seus pensamentos ao do GRANDE MESTRE.
Pois é. A ordem para a esquerda que tem Marx por grande profeta é hoje a de aplaudir o gigantismo estatal. Atende bem aos reclamos da burocracia, sempre ávida por empregos em que o patrão dá muito e exige pouco; empregos a que podem aspirar mesmo sem ter talento ou aptidão; basta ser amiguinho/parente/amante de um “Sinhô do Governo”, pra garantir uma sinecura. E pode rolar uma “transação cruzada”, um “troca-troca”, entre os Sinhôs do Governo, do tipo: “eu dou uma vaguinha no meu Gabinete pro seu parente, você dá uma vaguinha na sua Fundação prum parente meu”. Bem isso que aparece todo dia escancarado nos jornais, e que o coleguinha Marx descreveu: “oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero”. Mas os muitos votos que têm todo o interesse de gozar privilégios, dolces far nientes, precisam ser adulados, para que se possa galgar posições de poder; então, toca a dar nomes bonitos pro gigantismo estatal, vamos dizer que é uma questão de Soberania, e Patriotismo, e Direitos dos Trabalhadores, e que quem não enxerga isso é um neo-liberal direitista, um terrível fascista, ou traidor da Nação, inimigo do Povo, nazista... nomes feios, ofensas, sem qualquer conteúdo, usados apenas para impedir qualquer debate.
Porque se pudesse haver um debate, é claro que se enxergaria que o diagnóstico de Marx está correto: muito dinheiro circulando no Estado, é igual a muitas fraudes e corrupções, “ladroeiras de todo gênero”. E isto não seria aceitável por um povo livre e consciente, e teria de mudar. Como? Encerrando com tantas oportunidade de “negócios”, feitos pelo Estado e seus operadores.
Estado tem de ter indústrias, comércios, serviços de todo gênero? Estado tem de fazer pão, telefone, camisa, prego, computador, estádio de futebol? A esquerda parece marcar um “sim”, para todas as opções anteriores. Seu ideal é um mundo “sem ganância”, de funcionalismo e burocracia, todos ganhando pouco, fazendo pouco, sendo pouco avaliados...
Curiosamente, este “marxismo” que não segue Marx, de defender estatismo, combina perfeitamente com nosso velho e arraigado patrimonialismo, em que nossos “donos dos poderes”, governantes, legisladores, altos funcionários, estão acostumadíssimos a fazer o que bem entendem com os dinheiros e os direitos do povo. Tratam a coisa pública como se fosse propriedade particular deles. Fazem leis que agridem explicitamente direitos individuais, com a maior desfaçatez. Vale qualquer demagogia para ganhar aplausos e votos. Ainda mais quando os sacrifícios são alheios. Fazem leis para dar “meias-entradas”, estacionamentos “de grátis”, “contribuições” “sociais” disso e daquilo, e tantas outras.
Além disso, fazem as nomeações que bem entendem, colocam semi-analfabetos para presidir estatais, hospitais, escolas, universidades, garantem-se as mais generosas aposentadorias, planos de saúde, policias para fazer segurança particular...
Além, é claro, das muitas oportunidades, tantas mais quanto mais o Estado se espalha ocupando espaços que pertenceriam à iniciativa privada.
Tudo isto, eu dizia, faz parte de nossa tradição patrimonialista, de termos um “senhor” a quem pertence tudo, e sermos uma multidão a quem compete calar a boca, acatar qualquer capricho do “senhor”. Não temos direitos e deveres, em suma; temos de “puxar o saco”, cair nas graças de quem, por seu capricho e alvedrio, pode nos dar uma “colocação”. Claro, se amanhã este grande benfeitor nos pedir um favor, iremos “cordialmente” nos desdobrar para atender; até porque não queremos perder nosso cargo “de confiança”, “de livre provimento e exoneração”. E acima de tudo, seguir a lei do silêncio, como na Máfia. Nas relações de “camaradagem”, o pior pecado é dar com a língua nos dentes.
Ou seja: o compromisso não é com a abstração do Estado e suas leis. O compromisso é com o muito concreto “dono do poder”, que pode dar e retirar benesses ao seu alvedrio. Sem prestar contas pra ninguém, como se aquilo não fosse do público, fosse deles; “obrando” pra opinião pública, porque a opinião pública não lhes pode retirar do Poder; eles sabem manter seus “nichos”, seus “currais” eleitorais, sabem manobrar as confusas leis em benefício próprio, mudam domicílios eleitorais, entram de suplente, arrumam grandes financiadores pras campanhas... e um povo sem estudo é um povo sem defesa, e as Cortes do país nunca conseguem segurar o peixe grande... “Você sabe com quem está falando?”
Então, uma “filosofia”(bota bastante aspas neste “filosofia”) política que defenda um maior avanço do Estado em todas as áreas, e estigmatize com um monte de nome feio quem se atrever a levantar objeções, vai aumentar ainda mais os poderes destes velhos patrimonialistas bem instalados nos postos de comando de nossa sociedade, e logicamente vai ser recebida por eles com sorrisos francos e braços abertos. Eles vão até poder dizer: “Ora, mas é isto o marxismo, o socialismo? Mas então eu era marxista e não sabia”. Bem que costumam dizer que o socialismo é o neo-patrimonialismo.
Aliás, também curiosamente, o socialismo “real”, isto é, conforme se instalou historicamente nos Estados em que grupos ditos seguidores de Marx se alçaram ao Poder, representou justamente a vitória maior deste estatismo descontrolado. Acabaram com muitos empresários, com muitos proprietários, em fuzilamentos e campos de confinamento. Seguiram fielmente o receituário de Marx, não mostrando piedade pelos inimigos “de classe”. Mas aí, não se deu aquela mágica prometida pelo “profeta” barbudo: não raiou um novo Homem, numa nova Era, em que o Estado sumiria, e sumiria a “exploração” ao som de “Imagine”. Foi um Apocalipse sangrento, escatológico, mas sem Redenção. O homem soube matar, mas não soube ressuscitar.
De novo, o que se viu foi que na Rússia, pátria primeira do socialismo histórico, aquele discurso novo de Marx, aquela promessa de fim da luta de classes, serviu para re-legitimar velhas práticas tirânicas. Como faziam os Czares históricos, o exemplo paradigmático sendo Pedro, o Grande, o povo russo servia de argamassa para a construção do sonho do Governante.
Pedro queria modernizar a Rússia, aproximá-la da Europa Ocidental. Entrou em confronto com os costumes de seus súditos, obrigou-os a raspar a barba; e arregimentou milhares de trabalhadores para suas grandes obras de modernização, deslocando-os de seus lares, afastando-os de suas famílias, literalmente forçando-os a trabalhar para realizar os seus sonhos.
Nada de diferente do que fizeram Lenin e Stalin, apenas que com os socialistas o discurso de justificativa era outro. E o pior é que este novo discurso, este novo ideal de “refazer o homem”, e atingir um “fim da História”, uma superação das contradições, um absoluto, incendiou as imaginações, e deu novo fôlego para tirania, justamente quando seu velho alicerce, o Czarismo já dava sinais de caducar e ruir.
Agora, esta nova promessa justificava novos radicalismos, extermínio de “inimigos”, “trabalhos forçados” para construir a Nova Pátria do Futuro, a mãe-Rússia, com seu “destino histórico” de liderar e conduzir os outros povos. E tome guerra, quente ou fria, para espalhar esta dádiva que é o comunismo, para outros povos.
Agora que estamos afastados no tempo, podemos ver com melhor perspectiva os resultados de tão grandes sacrifícios e aspirações; é engraçado, mas parece que não veio nenhuma Grande Voz do céu( de Deus? De Marx? De Lenin?) para avisar que a dona História chegou na última estação e resolveu parar. Cansou, entregou os pontos, rendeu-se à super mente científica de Marx, que lhe desvendou os mistérios.
Nada disso aconteceu. Está certo, a União Soviética passou um tempo dominando sobre diversos povos, e alcançaram alguns notáveis avanços, principalmente no fabrico de armas, e ainda conseguiram lançar uns satélites. Mas será que foi a doutrina socialista que proporcionou isso?
Parece mais é que estes foram os resultados de se forçar uma grande parte do povo a cumprir certos objetivos eleitos pelos Governantes. Como as grandes obras de Pedro, ou como as pirâmides dos Faraós. Em todos os casos as conquistas foram feitas pela população numerosa, industriosa, capaz, e com os recursos de terras, matérias-primas, riquezas, à disposição.
Claro que a História não admite suposições. É inútil tentar responder “o que aconteceria se”; o que aconteceria se o Brasil tivesse sido colonizado pelos ingleses; ou pelos holandeses; ou pelos chineses; ou por extra-terrestres?
Mas ainda assim, é lícito especular: se os Governantes russos, ao invés de tiranizarem e desperdiçarem a energia de seu povo em cruéis e inúteis guerras, e dominações, e na busca desta utopia socialista, e se concentrassem apenas em oferecer uma boa educação para as multidões de analfabetos, e respeitassem direitos individuais dos governados, e lhes respeitassem a liberdade de votar as leis, e de empreender, de escolher um trabalho, e a maneira de ganhar dinheiro, a maneira de viver, em suma, será que este grande povo, com estes grandes recursos, não iria alcançar tanto, ou mais, do que os esfarrapados ganhos depois de décadas de socialismo?
Estas décadas de socialismo tiveram um custo muito grande e concreto, traduzido em milhares de vidas assassinadas, ou encarceradas em gulags, indivíduos cujo crime foi não concordar com a doutrina que os governantes impunham.
Claro, pode-se afirmar que a História russa tinha de ser desse jeito, que foi apenas o desdobramento de antiquíssimas tradições, que a tirania, a obediência, a ausência de crítica, eram todo o horizonte da maioria do povo russo, e que nenhum regime diferente daquele que Lenin implantou teria funcionado para a Rússia. De fato, a História aconteceu deste jeito, e não pode ser mudada. Mas eu não estou lamentando que poderia ter sido diferente, estou apenas dizendo que o socialismo não vale a pena. Suas pretensas conquistas podem ser melhor alcançadas simplesmente valorizando a educação e as liberdades de um povo, como demonstraram sobejamente povos de população e território reduzidos, com poucos recursos, mas que se destacaram imensamente por suas realizações. Lembremos, sem nos alongar, dos ingleses, durante o século XIX, e dos gregos, no século V a.C.
As grandes realizações do socialismo real são ótimas para fins de propaganda, enchem os olhos de quem está de fora, mas não representam um acréscimo de qualidade de vida para o povo que as produz. Um satélite em volta da Terra, uau! Bomba atômica, que lindo! Não sei quantas nações subjugadas pelo Grande Urso Soviético, que grandeza!
Mas um povo triste, afundado em vodka, sem gêneros básicos, que não pode criticar, que não pode querer mudar... perdendo vidas em guerras, com medo de polícias secretas... um povo deformado e infantilizado pela dependência em relação ao Estado. E, afinal, é a qualidade de vida que importa. Por algum tempo o homem pode abrir mão de todo conforto, e até dos seus sentimentos, da sua capacidade de enxergar a realidade, da sua faculdade de crítica, em prol de um ideal que lhe absorva. Mas com o tempo, vendo nunca chegar o tal futuro brilhante prometido, e, pior, vendo que aquele mesmo ideal apenas justificava imobilismo e injustiça, não mais se consegue manter os corações e mentes presos àquele ideal.
É incrível como isto acontece, de uma noite para o dia, de uma geração para outra, de repente tudo aquilo que parecia tão sólido, se desmancha no ar! Num dia parece toda a realidade, por toda a eternidade! No outro dia, toca-se com um dedo naquilo, e aquilo virou pó e desaba... mas, infelizmente, os muitos executados, os muitos desaparecidos, durante aquele tempo em que o velho ídolo parecia com a divindade, estes não voltam...

sábado, 8 de agosto de 2009

Casa dos Horrores

Acompanhemos a reportagem de Fabio William no Jornal da Globo de ontem, ao final desta "gloriosa" semana do nosso Senado:



http://www.youtube.com/watch?v=At-k9JDfOk8

Nada como ver o senador sem um único voto, Wellington Salgado, brindando-nos os ouvidos com as pérolas: "Todo senador é um ser humano (há controvérsia). Todo senador é um homem (há muita controvérsia). Ninguém chega ao Senado sendo um frouxo (isto é certo: frouxo é o distinto cidadão pagador de impostos, que devia logo vestir uma roupa de palhaço)".

Também é reconfortante ver que outro senador sem um único voto, Paulo Duque, eleito por seus pares presidente do Conselho de Ética (ética? Há controvérsia), arquivou todas as representações e denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney.

Para coroar esta gloriosa semana no Senado, o senador Alienado Suplicy (antecipando-me ao Casseta e Planeta), rouba o foco das atenções com sua interpretação de Cat Stevens. É pena, porque Suplicy tem a seu favor o fato de fazer parte da minoria dos senadores petistas que não se curvou à vontade do todo-poderoso Lulinha, e manteve posição pelo afastamento de Sarney. Mas, como eu disse, foi uma gloriosa semana no Senado.

Gripe suína e Senado

Segundo a notícia do jornal O Globo de 07.08.2009, até 1 de agosto o Brasil representava apenas 1,8 % dos casos de gripe suína no mundo, mas o número de mortes no país equivalia a 8% do total registrado no planeta. Com os novos óbitos (140), nos poucos dias entre o registro de 1 de agosto até a data em que foi escrita a reportagem, o Brasil já representava 12% dos casos fatais pela infecção no mundo.
Esta notícia, perdida na página 27 do jornal, é um atestado claro da incapacidade do país de lidar com os problemas. Na comparação com a média do resto do mundo, o Brasil tem cerca de dez vezes mais óbitos em relação ao número de infectados. Ou seja, se no resto do mundo, de cem infectados, um morre, no Brasil, dos cem infectados, dez morrem.
Na carta de uma leitora, Célia Cristina da Silva, no mesmo jornal, temos um complemento para a situação descrita. Diz a carta: “Gostaria de um esclarecimento do Ministério da Saúde: houve alguma morte de paciente que recebeu, nas primeiras 48 horas dos sintomas, o antiviral? Se isto não ocorreu, tudo está muito mal administrado, e vidas poderiam ter sido salvas. O pânico das pessoas está muito mais relacionado à indisponibilidade do medicamento do que ao contágio. (...)”
E de fato, embora vejamos sempre na televisão a propaganda do Ministro da Saúde, e manifestações tranquilizadoras de autoridades, os números vão demonstrando o desgoverno costumeiro do país. Como sempre, neste país, investe-se nas aparências, descuida-se da substância. É uma boa estratégia para ser usada num país em que boa parte da população não sabe ler e escrever, e não sabe fazer conta. Se os resultados na solução dos problemas são pífios, o mesmo não se pode dizer dos resultados da manutenção do poder pelos grupos que nos controlam. E manter o poder é o que importa, na nossa tradição de patrimonialismo, e de “primeiro os meus”, e “eu quero é o meu”, e “aos amigos, tudo, aos inimigos, os rigores da lei”.
Temos tudo isso muito claro, numa vista de olhos para o Senado. Como é que se pode esperar Governo, liderança, administração, no país, quando os homens com estas responsabilidades passam o seu tempo nas lutas intestinas pelo poder de fazer os melhores negócios com a pátria amada, mãe gentil? Para estes nobres na sua ilha da fantasia, o país pode se explodir e se afundar em gripes suínas, em miséria, em fuzis nas favelas: eles estão garantidos com os melhores planos de saúde, e com as melhores oportunidades de negócios, e com seguranças 24 horas. Aí o foco passa a ser outro, passa a ser a intriga, e a chantagem, e a tropa de choque, e a ofensa... serão os tais “negócios de gente grande” , estranhamente semelhantes ao que se vê nos jardins de infância; mas diferentemente, e infelizmente, com consequências trágicas.
E assim vai continuar sendo, pois está perfeitamente de acordo com nossas tradições patrimonialistas e fisiológicas, e porque não ensinamos nossas crianças a ler e a escrever e a fazer contas, e um povo ignorante é um povo indefeso à exploração, e facilmente manipulável.
Para mudar isso, não nos iludamos, só vencendo a resistência dos que lucram com este estado de coisas. Os poderosos acostumados às vantagens fabulosas, e à impunidade. É divertida nossa “normalidade”. Parece que cada sujeito que consegue se eleger encontra um poço de petróleo debaixo da sua casa. Pessoas que tinham uma brasília velha e moravam em um quitinete em poucos anos de mandato público compram mansões e jatinhos. Campanhas gastam milhões, dezenas de vezes mais do que os candidatos receberão de salário ao longo dos mandatos. Para garantir suas fontes dos milhões e bilhões estes senhores do poder estarão dispostos a espalhar suas migalhas para muitos e muitos “cooptados”; muitos que receberão também seu quinhãzinho de “regime diferenciado”, suas “vantagens generosas”, seu “direitinho adquirido”, pelo qual não trabalhou, e que não passa nem pelos sonhos do sujeito que lhe engraxa os sapatos.
E assim vamos, neste país. A luta não é para resolvermos nossos problemas, a luta é para entrar na festa, mesmo que na condição de convidado de segunda ou terceira classe. O importante é sermos um dos “espertos”, é nos diferenciarmos do vizinho; porque o que não se diferencia é o que paga o pato, nas filas dos hospitais públicos, nos subempregos de exploração, nos desabamentos da favela.
A luta não é pelo fim do privilégio, para viver num país e numa sociedade mais feliz e justa; a luta é para agarrar algum privilégio, para atirar na cara dos outros algum “sabe com quem está falando?”. Até que (talvez) algum choque de realidade sirva para nos abrir o olho, alguma bala perdida que tire a vida de um filho, mesmo que ele estivesse em algum bairro chique da cidade, ou quem sabe, no desgoverno geral, ser também uma vítima da falta de medicamento para a gripe suína? Teremos, para nos consolar, uma propaganda do Ministério da Saúde, muito bem remunerada, ou um pronunciamento divertido do presidente Lula, de que "nunca antes na História deste país a saúde público se aproximou tanto da perfeição".

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Protágoras

No diálogo “Protágoras”, de Platão, é narrado um mito da democracia. Vou reproduzi-lo, como aparece narrado no livro “O Julgamento de Sócrates”, de I. F. Stone:
(...) “Diz Protágoras que, quando foi criado, o homem vivia uma existência solitária e não era capaz de proteger a si próprio e sua família dos animais selvagens mais fortes do que ele. Consequentemente, os homens se reuniram para “proteger suas vidas fundando cidades”. Mas as cidades foram conturbadas por lutas, porque seus habitantes “faziam mal uns aos outros” por ainda não conhecerem “a arte da política” (politike téchne) que lhes permitiria viver em paz juntos. Assim, os homens começaram a “se dispersar novamente e a perecer”.
Segundo Protágoras, Zeus temia que “nossa espécie estivesse ameaçada da ruína total”. Assim, enviou seu mensageiro, Hermes, à terra, com duas dádivas que permitiriam aos homens enfim praticar com êxito a “arte da política” e fundar cidades onde pudessem viver juntos em segurança e harmonia. As duas dádivas de Zeus eram aidos e diké. Aidos é um sentimento de vergonha, uma preocupação com a opinião alheia. É a vergonha que o soldado sente quando trai seus camaradas no campo de batalha, ou o cidadão quando é apanhado em flagrante fazendo algo desonroso. Neste contexto, diké significa respeito pelos direitos dos outros. Implica um senso de justiça, e torna possível a paz civil resolvendo as disputas através de julgamentos. Ao adquirirem aidos e diké, os homens finalmente se tornariam capazes de garantir sua sobrevivência.
(...) Hermes lembra a Zeus que as outras “artes” foram distribuídas de tal modo que “um homem que seja possuidor da arte da medicina é capaz de tratar muitos homens comuns, e o mesmo se dá com os outros ofícios”. Hermes perguntou a Zeus se ele devia distribuir a “arte política” a uns poucos eleitos ou a todos. A resposta de Zeus é democrática: “Que cada um tenha seu quinhão” da arte cívica. “Pois as cidades não se poderão formar”, explica Zeus, “se apenas uns poucos” possuírem aidos e diké. É necessário que todos as possuam para que a vida comunitária seja possível. Para reforçar sua lição, Zeus diz também a seu mensageiro: “E torne lei, por mim ordenada, que todo aquele que não possui respeito (aidos) e direito (diké) deverá morrer a morte de um malfeitor público”.
Em seguida Protágoras expõe a moral de seu mito. “É por isso, Sócrates, que as pessoas das cidades, especialmente de Atenas”, só ouvem peritos em relação a questões de conhecimento específico, “mas, quando se reúnem para aconselhar-se sobre a arte política” - ou seja, uma questão geral de governo -, “quando devem ser guiados pela justiça e pelo bom senso, permitem, naturalmente, que todos dêem conselhos, já que se afirma que todos devem partilhar desta excelência, senão os Estados (i.e, as cidades, a pólis) não podem existir”.
Segundo consta, “Sócrates limita-se a elogiar o mito””. ( I. F. Stone, O Julgamento de Sócrates, editora Schwarcz Ltda., 1988, traduzido por Paulo Henrique Britto)
E eu também elogio o mito democrático, com toda a certeza, e peço pra Divindade que conceda muito aidos e diké pro nosso povo. Vergonha na cara e respeito ao direito alheio é o que parece mesmo nos faltar, quando nossos dirigentes se concedem tantos mimos e opulências, vidas “fáceis” na corrupção, pregando a conta nas costas de um povo que, muitas vezes, morre de verme e de fome, e é mantido na ignorância de seu poder e direitos.

sábado, 1 de agosto de 2009

A Hard rain is a´gonna fall - Bob Dylan

Música do segundo álbum de Bob Dylan, de 1963, "The freewhelin´Bob Dylan":

neste link, a versão de estúdio, folk, com a letra original: http://www.youtube.com/watch?v=VNdPWv9D4S4

e uma versão ao vivo, com acento country:


http://www.youtube.com/watch?v=hGJLlUq_cyo

Tradução:
Uma chuva forte que vai cair

Aonde você esteve, meu filho de olhos azuis,
Aonde você esteve, meu amado e querido?

Eu cambaleei pelos lados de doze montanhas enevoadas
Eu andei e rastejei em seis autoestradas enganadoras
Eu pisei no meio de sete florestas tristes
Eu estive à frente de doze oceanos mortos
Eu estive dez mil milhas dentro da garganta de uma cova

E é uma chuva forte que vai cair...

O que você viu, meu filho de olhos azuis,
O que você viu, meu amado e querido?

Eu vi um bebê recém-nascido com lobos selvagens o cercando
Eu vi uma autoestrada de diamantes com ninguém sobre ela
Eu vi um galho preto com sangue que ficava caindo
Eu vi um quarto cheio de homens com martelos sangrando
Eu vi uma escada branca toda coberta com água
Eu vi dez mil faladores com suas línguas todas quebradas
Eu vi revólveres e espadas afiadas nas mãos de crianças pequenas

E é uma chuva forte que vai cair...

E o que você ouviu, meu filho de olhos azuis,
E o que você ouviu, meu amado e querido?

Eu ouvi o som de um trovão que rugia um aviso
Eu ouvi o rugido de uma onda que podia afogar o mundo todo
Eu ouvi mil soldados com tambores suas mãos pegando fogo
Eu ouvi mil sussurrando e nenhum escutando
Eu ouvi uma pessoa que morria de fome eu ouvi muitos rindo
Eu ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta
Eu ouvi o som de um palhaço que chorava num beco

E é uma chuva forte que vai cair...

E quem você encontrou, meu filho de olhos azuis,
E quem você encontrou, meu amado e querido?

Eu encontrei uma criança ao lado de um cavalo morto
Eu encontrei um homem branco que conduzia um cachorro preto
Eu encontrei uma jovem mulher que tinha o corpo queimando
Eu encontrei uma jovem garota que me deu um arco-íris
Eu encontrei um homem que foi ferido no amor
Eu encontrei um outro homem que foi ferido no ódio

E é uma chuva forte que vai cair...

E o que você vai fazer agora, meu filho de olhos azuis,
O que você vai fazer, meu amado e querido?

Eu vou embora logo antes que a chuva comece a cair
Eu vou caminhar para as profundezas da mais escura e profunda floresta
Onde as pessoas são muitas e suas mãos estão vazias
Onde os grãos de veneno estão flutuando nas suas águas
Onde o lar no vale encontra a triste suja prisão
E a face do executor está sempre bem escondida
Onde fome é feio onde as almas são esquecidas
Onde preto é a cor onde nada é o número

E eu vou distingui-lo e vou pensá-lo e vou falá-lo e vou respirá-lo
E vou refleti-lo da montanha para que toda alma possa vê-lo
E eu vou estar de pé sobre o oceano até que eu comece a afundar
Mas eu vou conhecer bem minha canção antes de começar a cantá-la

E é uma chuva forte que vai cair...



E mais uma versão, rock n´roll, ao vivo, 1975, SENSACIONAL, com um Bob Dylan-Coringa:

http://www.youtube.com/watch?v=8yg0gYvR0h4