terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Boa e má sorte

Tomar lados no Grande Tabuleiro de Xadrez que é a política internacional é a pior maneira de se ter uma opinião nesta questão. Ser pró-americano, ou pró-soviético, é pior do que não ter uma opinião. É abdicar da possibilidade de ter uma.


Confunde-se a ideologia que move essas Potências, com a realidade da sua atuação histórica. Acredita-se na propaganda que elas movem, toma-se a forma pelo conteúdo.


Os órgãos de propaganda dessas Potências tecem suas justificativas com base nessas ideologias. “Temos uma missão. Espalhar esta nova crença. Dominar, como seres superiores que somos.” A ideologia se reveste sempre de belos ideais, “melhorar a raça”, “melhorar o homem”, “espalhar a Liberdade”, “fazer conhecer o verdadeiro Deus”; mas é a realidade concreta que manda, e nunca se conseguiu nada melhor fazendo empilhar os mortos.


EUA massacraram seus índios. Massacraram japoneses, filipinos. Soviéticos massacraram húngaros, alemães, poloneses, afegãos. Nazistas massacraram russos, judeus, poloneses. Todos eles, dentre outros, muitos outros. Turcos massacraram armênios. Massacraram curdos. E o Congo. E o Sudão.


A ideologia que professavam não serviram de nada para os milhões de seres humanos que morreram, sacrificados à nossa incompreensão, nosso coração duro. Tantos seres humanos que apenas almejavam viver, como cada um de nós.


Guerras sempre surgiram, e nunca se puderam justificar. O que interessa a cada Nação, é que seus intelectuais queiram, não justificar novas guerras, sim encontrar os meios para que as disputas possam ser arbitradas de maneira a que todos possam seguir vivendo.


O desafio da Força precisa ser vencido: nos armamos porque temos medo; mas depois que nos armamos, é muito grande a tentação de se prevalecer daquela força superior para tratar os outros como escravos. Os escravos se revoltam porque a escravidão é um crime. E a luta não pode ter fim.


Seria preciso de cada ser humano abdicar da parcela de si que pretende uma vida especial em relação ao próximo. Regras que valham pra todos.


É verdade que ao longo da História, povos conseguiram um maior grau de sucesso nestas conquistas de liberdade e igualdade. Grandes povos, e grandes líderes nestes povos, descobriram que o voto devia ser dividido, e que a escravidão devia ser terminada, e conquistamos essas ilhas de bem estar, em alguns momentos da História, que permaneceram brilhando com Faróis que foram almejados pela humanidade.


Valores que se foram impondo, em meio a muito sofrimento. Alcançando um maior bem estar pessoal, e alargando esta zona de influência. Esquinas, e vilas, e cidades, e países, que foram progredindo ao oferecer segurança pessoal, segurança alimentar, segurança de renda, para seus moradores. Claro que em cada esquina pode acontecer o crime bárbaro, absurdo, da condição humana. Mas é real que houve progressos, e experiências bem sucedidas.


O problema é que tudo pode regredir e piorar, a qualquer instante. Trata-se de uma luta contínua, o conquistar e o manter as conquistas. A corrupção acomete a tudo, corpos, idéias, sistemas... tudo envelhece, tudo se vê atacado pelos vermes, tudo deve morrer, tudo deve se renovar... não é uma tragédia, é uma condição. Não é um absurdo, é verificar a melhor maneira de se conduzir. Não é um absurdo, é a vida.


As justificativas para todas as guerras, os massacres, são todas um erro. Sempre haveria uma possibilidade melhor para resolver os conflitos, dando a cada um o que é seu, sem querer tirar de ninguém.


Mas não pudemos escapar da lógica do macaco, que quando vê uma poça de água mata o grupo que estava ali, e toma o seu lugar.


O ser humano, único digno desse nome, será aquele que souber dividir a boa e a má sorte que tem.

sábado, 11 de dezembro de 2010

A Vida dos outros


A Vida dos Outros é um filme exemplar ao mostrar o inferno do totalitarismo na Alemanha Oriental, anterior à queda do muro de Berlim, em 1989. algo ocorrido tão próximo, no tempo, no lugar. Homens civilizados, pelo menos de fraque e de gravata, e manejando instrumentos, e desempenhando seus cargos burocráticos na terrível polícia secreta, Stasi, e desempenhando cenas de imposição de poder tão primitivas.


Primitivas, mas perfeitamente adaptadas àquele meio, aquele pântano. Ali o chefe da polícia secreta tinha espaço para desenfrear a besta em seu coração. É questão de tempo, num ambiente que oferece esta oportunidade, até que alguém capaz de aproveitar esta oportunidade galgue ao seu posto. E daí, quanto estrago na vida dos pobres mortais que dêem o azar de cruzar seu caminho! Pode ser um intelectualzinho, com boas relações na mídia. O sistema pode aturar estes intelectuais. Azar vai ser se ele tiver uma amante que é cobiçada pelo chefão do poder de verdade... aí, ele vai ser trucidado como um gravetinho no furacão, e suas boas relações não lhe servirão para nada.


No filme também tem a figura do intelectual íntegro, que vai questionar de frente, mas que também acabará trucidado pela brutalidade do sistema. Mas este é uma personagem secundária do filme.


A principal era este intelectual, festejado, mas que ainda acreditava, convenientemente, em ser possível operar junto com aquele sistema. A sua amante, uma atriz de teatro. O chefe da Stasi, que se decide a tê-la, de qualquer forma. E um espião, que seguia fielmente, meticulosamente, como uma engrenagem daquele sistema, sem se questionar, até que é designado para esta tarefa imoral, injustificável, e comece a se interessar por aquelas vidas que ele está contribuindo para destruir, porque o chefe mandou, e porque é assim que as coisas são.


O filme é bem construído na sua história, e não poupa a tragédia de seus personagens. Mas atinge também este momento histórico, tão formidável, em que de um dia para o outro tudo havia mudado, tudo que era sólido se desfazendo no ar... toda aquela imensa estrutura montada, todos aqueles livros escritos para justificar, e tantas vidas encaixadas, para manter aquela farsa de novo modelo para o homem, e guerra Socialismo x Capitalismo, Oriente contra Ocidente, toda esta baboseira.


O filme fala do chefe de Polícia da Stasi. Poderia falar de Stalin. Stalin não ascendeu ao poder supremo, destroçando, literalmente, seus adversários? Não mandou botar uma picareta na cabeça de Trotski, isso com Trotski exilado no México há muitos anos? Não passou por cima de incontáveis vidas em seus expurgos? Em suas deportações para a Sibéria? Em seus julgamentos de mentira, em suas execuções de verdade?


É, era o “Paizinho do povo”, conforme sua propaganda dizia, conforme intelectuais a soldo repetiam pelo mundo. Para um novo mundo melhor, para uma vitória do socialismo.


Pois em 1989, 46 anos depois da morte do Paizinho do Povo, depois de incontáveis vidas sacrificadas, o pesadelo simplesmente acabou, o inverno derreteu, a cortina de ferro rasgou... não com uma explosão, mas com um suspiro.


Eu nasci em 1973. Cresci ouvindo esse lero romântico, esses loas a Lenin, a Fidel, a Che Guevara... eu engoli essa história toda, também eu cultivei meu pôster de Che Guevara. Mas eu fiz a crítica de tudo isso, porque eu não parei de ler os livros de História. E me impressiona como tudo aconteceu rápido, como tantos livros que eu vejo nos sebos, e que eu me lembro de serem sucessos da minha adolescência, pelo menos no tom que compartilhavam, como tudo isso parece tão velho, de repente, como pergaminhos do antigo Egito. Era Nelson Rodrigues que lembrava dos costumes do início do século, e como tudo aquilo, fraques e cartolas, parecia tão rapidamente envelhecido!


Realmente, a História correu. Muito embora, evidentemente, trate-se sempre do mesmo homenzinho, tão perdido no tempo, talvez agora ainda mais, quando tudo corre tão rápido. O campo virou cidade, a enxada virou computador, quando não virou metralhadora.


Mas talvez essa mesma velocidade traga uma lição, de não confiar a vida a falsos ídolos. Vale a pena matar e morrer por estes nomes no vazio, estas mágicas que alguns manipuladores espertalhões manejam tão bem, em proveito próprio? Ah, sim, tem sempre alguém ganhando muito dinheiro, e muito poder, com cada papo furado desses, pátria, nação, raça, moral, deus, socialismo... sempre arranjando uns adeptos dispostos a se aglutinar nos seus bandos, e repartir os despojos conseguidos na defesa destes nobres ideais!


Velhas armadilhas.


Cotação: 5 estrelas (excelente)

Pequenos crápulas



Em França, Nicolas Sarkozy arenga austeridade, desfilando de iate e gozando da sua grande vida, sem disfarçar o desprezo que sente por nós, pobres mortais.


Mostrou o tamanho de sua inescrupulosidade fazendo de “França Forte” contra os pobres ciganos. Ressuscitou a mancha mais horrível da França, a República de Vichy, em que o governo colaboracionista da França ocupada pelos nazistas se prestou às piores infâmias.


Claro que o grande Sarkozy, casado com a mulher-fetiche Carla Bruni, veio fechar bons negócios no Brasil. Bons negócios pra quem, cara-pálida? Nosso Guia e Estadista quer porque quer os brinquedinhos do francês, os jatinhos já tão na conta, só precisava esperar a hora boa... Nosso Guia que se envergonha porque o avião presidencial não faz mais de doze horas de vôo... tadinho, presidente... fica numa fila de SUS, majestade...


Será que é por isso que podemos esperar, 65 anos após o final da segunda grande guerra? Já estamos tão esquecidos, tão ansiosos pra seguirmos pro mesmo buraco? Pulsão de morte, alguma merda do gênero?


Sarkozy segue por aí, outros pilantras, envolvidos na mais descarada corrupção. O que é Berlusconi? O povo permanece amarrado pelos mesmos jogos da mentira, da adulação, do poder, da desesperança. Máfias faturam, e a indústria da droga é um escândalo. Bilhões para saciar as boquinhas, e muitas armas para disputar território. Grandes negócios, que seguem sendo feitos todos os dias.


E se precisar matar a gente mata, e se precisar calar a imprensa a gente cala, e se precisar invadir um povo a gente faz isso também. Mas é mais fácil idiotizar e corromper todo mundo...


E democracia vai se tornar uma palavra vazia, e as grandes lutas e os grandes sacrifícios, as grandes esperanças, terão sido em vão, se se abdicou da luta.

Rosa de Hiroshima - Secos & Molhados





Os japoneses, possuídos de um espírito de agressividade terrível, empenharam-se numa luta suicida para prevalecer num mundo em que só se via a guerra como possibilidade de sobrevivência de certas nações.


Numa época de nazismo, fascismo, comunismo, imperialismo. Só o mais forte sobreviveria, Teoria da Evolução das Espécies.


O Japão sentia-se pressionado por todos os lados. Um pequeno arquipélago, com uma grande população. Uma população industriosa, obediente de séculos. Uma nação assustada, e ao mesmo tempo orgulhosa. O primeiro dos asiáticos que respondia ao desafio de fazer frente aos conquistadores europeus. Eles tiveram de ser obrigados pelo Almirante dos EUA a abrir seus portos, integrar seu comércio ao mundo moderno. Sob mira de canhões estrangeiros começava uma nova época. E os japoneses, em tempo recorde, desde 1856, tornaram-se a nação industrial dos tempos modernos.


Sob uma forte tirania que os empurrava para a frente. Mas que ganhou força quando, numa disputa marinha com o Urso Gigante Russo, impôs pela primeira vez a resistência oriental à dominação do Ocidente.


Acontece que seus vizinhos mais vulneráveis eram a Coréia, era a China. Dominando com seus tanques de guerra, seus aviões, seus navios, o Japão se lançou a uma rapina terrível contra estes territórios. As nações ocidentais não iam lá e pegavam? Pois o Japão não seria outra vítima, o Japão também defenderia o seu quinhão.


Note-se que nesta época dominava o monopólio entre colônias e metrópoles. As nações industrializadas conquistavam pela força de armas estes monopólios, arrancavam todas as riquezas que estas nações possuíam para alimentar as suas fábricas: ferro, aço, trigo, milho, tudo que pudesse ser oferecido. E a metrópole excluía todas as demais nações deste comércio com sua colônia.


Inglaterra, França, Alemanha, Itália, disputavam este predomínio, e sua vítima era a África. Também a Indochina foi conquistada pelos franceses, a Índia, a Birmânia, pelos britânicos, dentre outras nações. A China era a bola da vez, responsável por disputas ferozes, mas que acabaram num acordo “de cavalheiros” para destrinchar a pobre vítima.


Até os EUA se metiam na disputa, pressionando seus vizinhos, e se metendo até nas Filipinas. Num massacre perpetrado pelo exército americano, um milhão de filipinos com armamento muito inferior foram trucidados pelos mariners orgulhosos.


Neste clima de disputa as tragédias das guerras mundiais foram uma consequência inevitável. Um novo arranjo precisava ser feito, e vem sendo tentado, de livre intercâmbio do comércio, de globalização que espalha as oportunidades. Mas nunca se sabe o que a História reserva.


Mas o Japão nos anos anteriores à segunda guerra vinha praticando uma dominação feroz sobre seus povos vizinhos. Sentia-se ameaçado, com uma população que demandava até alimentos, e sem ter para onde escoar seus produtos. Era uma crise profunda. Um beco sem saída. Vender para a África? Mas a África só faz comércio com a Europa. Os povos muito fechados na sua disputa econômica. Era a questão da vida e da morte, mais próxima do Japão por estes motivos: era uma nação de território pequeno, de população grande, que não tinha de onde ganhar dinheiro. Ainda possuía uma História de militarização, de domínio por clãs de senhores feudais e suas guardas de samurais. Uma sociedade fortemente estratificada.


Uma nação onde convivia o moderno e o avançado com tradições tão antigas quanto o endeusamento do imperador. Este era visto como um guia a ser seguido cegamente pela população, para livrá-los daquele inferno. E ele os guiou no caminho das armas, do ódio profundo ao estrangeiro.


Nas escolas, as crianças eram ensinadas a obedecer até morrer. Não se admitia o questionamento, não se admitia a crítica. Investia-se todas as fichas na solução militarista.


Dominar sobre os chineses. Dominar sobre os coreanos. E se outras nações ameaçarem nosso domínio, guerrear também contra eles. Os americanos eram um empecilho constante, perto deles nas Filipinas, na China, junto com os Ingleses, na Birmânia, na Oceania. Que não fossem dar ordens ou lições de moral para eles, japoneses.


Nas suas escolas, os americanos eram descritos com chifres de demônios. Nas imagens da segunda guerra, ficaram muito marcantes as imagens dos kamikases: os aviadores que iam se sacrificar junto do avião, para derrotar seus inimigos.


O Japão foi carrasco ao mesmo tempo que foi vítima. Num mundo que apostava na guerra, ele teve de apostar com menos, e perdeu terrivelmente.


O Japão sofreu com esta enfermidade da modernidade, chegarmos a tanta ciência, com tão pouco desenvolvimento da consciência e da ética: a bomba atômica. Um símbolo talvez da nossa impossibilidade humana.


Apenas, que mesmo depois de tanto horror da guerra, tivemos alguns momentos de paz que valem toda a existência. Tivemos a possibilidade de novo da esperança. Japão que floresceu, Alemanha que floresceu, Europa, mundo que mudou.


Continuamos, é claro, com a guerra fria, e os horrores do comunismo, mas o mundo crescia mesmo com as disputas. Os impérios coloniais foram sendo sacudidos na África. A Índia se reergueu, dando este exemplo de humanidade que foi Ghandi. A China, ainda que com suas tragédias e com suas violências, também se afirmou.


A globalização vem distribuindo os eixos do poder mundial, político, econômico. E o império comunista ruiu pela própria pressão interna de seus povos. Um sinal de que a liberdade e a mudança nunca morrem no homem.


Mas agora o momento é de nova crise. O capitalismo global não corresponde a muitas das esperanças.


O que se vê é que o espírito da ambição e da ganância continua desenfreado. Um mundo rico, mas onde se passa fome. Um mundo que promete muito, mas decepciona. Muita corrupção descarada, muitos inclusive assassinatos, para que se mantenham os muitos esquemas.


Vemos a Europa em crise, os Estados Unidos em crise. Milhões de desempregados, milhões de pessoas sem um teto sobre a cabeça. Enquanto isso, os bilhões rolam, daqui para ali.


Hoje Londres se ergue contra os cortes de verbas para a educação, e a realeza leva tomates na limusine. Que vergonha, tirar-se o dinheiro para a educação das massas! Quanta razão tinham as pessoas que protestavam!


Enquanto isso, as novas guerrinhas sem fim são travadas. Ocupação do Iraque, ocupação do Afeganistão. Irã sente-se ameaçado, a corrida armamentista começa, escolham seus lados: o bem contra o mal, o belo contra o feio. Já conhecemos essa velha história, nunca pode acabar bem.


Será que o ser humano não pode se reformar, e descobrir espaço para todos?


Sugestão de leitura: Gen: http://ussclub.blogspot.com/2010/05/gen-pes-descalcos.html

sábado, 4 de dezembro de 2010

Oréstia



“Guiou-lhe os passos a filha de Zeus

que nós, mortais, costumamos chamar

pelo nome que lhe convém – Justiça;

sobre seus inimigos ela insufla

vingança e morte até aniquilá-los”


- Ésquilo, Coéforas



Estou lendo A Oréstia, trilogia das mais antigas peças teatrais do mundo, do mais antigo dramaturgo de que conhecemos obras completas: o grego Ésquilo (c.525 – 456 a.C.).


A Oréstia compõe-se das peças Agamenon, As Coéforas e As Benevolentes. Trata-se de mitos antigos de pecados gravíssimos, maldições, tragédias familiares recorrentes, culpa, retribuição. Conclui a trilogia o momento mítico em que a Justiça se organiza entre os homens, que passam a impor seus valores através de um tribunal e de um processo, cujo júri são os pares, os próprios homens, mas cuja inspiração é divina. Na peça As Benevolentes, o veredito que o júri de atenienses dá termina empatado, três pra cada lado, e é a própria Palas Atenas, a Divina Inteligência, instituidora daquele tribunal, que dará o voto de desempate, pela absolvição.


As tragédias se baseiam em mitos antigos. A saga familiar dos Pelópidas. Pelops é o herói epônimo do Peloponeso. Ele chegou àquela península determinado a se casar com a filha do soberano local. Consegue, através de ardil, ajudado por um servo do rei, a quem trai e assassina. Este servo, antes de expirar, amaldiçoa Pelops e sua família.


Os filhos gêmeos de Pelops, Atreu e Tiestes, disputam pelo trono. Tiestes seduz a esposa de Atreu para que ela o ajude a arrebatar o trono, roubando um carneiro de lã de ouro que asseguraria a conquista do trono. Atreu, protegido por Zeus, foi proclamado rei mesmo assim. Vingou-se de Tiestes, de forma terrível, simulando uma reconciliação, e fazendo o irmão comer enganado a carne de três de seus filhos. Ao sabê-lo, Tiestes amaldiçoou Atreu e sua geração.


Os filhos de Atreu eram Menelau e Agamenon. Menelau, rei de Esparta, foi o que teve a esposa, Helena, arrebatada por seu hóspede, Páris, acarretando a guerra de Tróia.


Mas Agamenon, rei de Argos, foi o mais amaldiçoado: sacrificou a própria filha, Ifigênia, para conseguir ventos favoráveis à expedição dos gregos contra Tróia. Agamenon era o comandante-supremo entre os gregos.


Ao retornar de Tróia, sua esposa Clitemnestra o levou a uma armadilha, e o apunhalou juntamente com o amante, Egisto, filho sobrevivente de Tiestes. Esta é a ação da primeira peça da trilogia, Agamenon.


Na segunda, Coéforas, vemos o filho de Agamenon, Orestes, retornando a Argos, e junto com sua irmã, Electra, combinarem o assassinato de Egisto e de sua mãe, como vingança pela morte do pai.


Orestes executa a ação sanguinária, e termina a peça ameaçado pelas Fúrias Vingadoras, as Erínias, ou as Cadelas, deusas antiquíssimas, personificação do remorso, que exigem retribuição para os crimes de sangue entre familiares.


Na última peça da trilogia, As Benevolentes, vemos as Fúrias que perseguem Orestes até Atenas, onde Orestes pede a proteção da deusa que dá nome à cidade. Esta convence as Fúrias a submeter Orestes a julgamento, dos seis mais distinguidos cidadãos de Atenas.


Como dito, o julgamento termina empatado, com Atenas dando o voto de Minerva (nome romano da deusa) a favor da absolvição do acusado.


Atenas proclama que o tribunal fica instituído para sempre, por ela. As Fúrias, irritadas com o resultado, ameaçam trazer a ruína de toda a região. Mas Atenas, mediante promessa de honrarias eternas às Fúrias, consegue apaziguá-las, quando elas então trocam seu nome, de Erínias (Fúrias, em grego), para Eumênides (Benevolentes). Atena lhes proporciona um santuário, na colina de Ares (o Areópago, que deu nome ao tribunal ateniense).


Na mesma época em que Ésquilo escrevia suas peças, e as encenava em Atenas, esta cidade experimentava os momentos de apogeu de seu regime de governo democrático. Os cidadão discutiam suas leis, escolhiam seus governantes, julgavam seus processos. Sentiam-se livres, sentiam-se orgulhosos dessa sua condição frente a outros povos, destituídos de direitos frente a seus governantes.


Os egípcios tinham seu Faraó divinizado, sua casta de sacerdotes. O mesmo acontecia com os Persas, subjugados por suas dinastias reais de guerreiros.


Mas os atenienses estavam exercendo seu próprio governo, uma das primeiras manifestações na História da Humanidade, da divisão do poder, da democracia. Uma demonstração, ademais, que dava seus frutos na forma de instituições, de tribunais, de leis, de processos, de votos, de oratória, de praça pública...


E, submetidos ao teste mortal da guerra, os cidadãos livres de Atenas acabavam de resistir e expulsar a maior força armada que aqueles tempos conheceram, o imenso exército e a imensa frota dos Persas, comandados por Ataxerxes.


Ésquilo, que lutara em batalhas contra os Persas, exaltava aquele sentimento de vitória. Um dos momentos em que a Inteligência dos homens se abria. Eles eram capazes, sim, de se governarem, de escolherem, de guerrearem. Eles podiam até alcançar um predomínio mundial fazendo isso.


E era sublime, ser o pioneiro, desbravador dessa seara. Os gregos estudavam juntos (os homens livres, fique claro), aprendendo a ler com os poemas de Homero, desde o século VIII a.C. Discutiam filosofia, descobriam teoremas da matemática. Viviam num regime bastante igualitário, entre estes cidadãos. Não havia grandes proprietários, a própria pobreza da terra não permitia isto. Muitos se dedicavam também aos trabalhos no mar, com suas muitas ilhas, sua costa acidentada. Empreendimentos coletivos, de comércio, de pirataria. A agilidade mental das viagens, dos perigos.

Treinavam em ginásios, desenvolviam técnicas de luta conjunta, a famosa falange. Algo como um tanque de guerra, numa época de ataques desordenados.


Estes eram os gregos, uma das gloriosas raízes da nossa cultura ocidental. A outra seria o judaísmo.


E as peças de Ésquilo falam justamente desta passagem, de um tempo bárbaro, furioso, para um tempo de Justiça, benevolente. A Justiça veio instituir seu tribunal entre os homens, trazida pela deusa da Inteligência. Só poderia vir num lugar em que homens livres fizessem seus julgamentos, aplicassem seus valores. Mas o voto de Minerva faz lembrar que a inspiração era divina.


Temos sorte de ter uma bem cuidada tradução da Oréstia, por Mário da Gama Kury, numa edição da Jorge Zahar Editor.


Concursos públicos



Nossos concursos para preencher cargos públicos não se ocupam de selecionar as pessoas mais qualificadas para exercer uma determinada profissão. Eles consistem simplesmente numa provinha, como essas que você faz na escola. Uma provinha, cheia de pegadinhas, cheia de macetes, cheia de “precisa comprar o livro de fulano”, ou “precisa fazer o cursinho do sicrano”.


Isto para passar num dos milhares de milhares empreguinhos públicos que dão salário acima da média do mercado, dão estabilidade, dão férias em dobro e em triplo (as conquistas sociais só avançam!), e se você for sortudo mesmo, dão muitas oportunidades de corrupção pra encher o seu bolso.


Passa-se na provinha, e daí você vai ficar num desses cargos burocráticos. Uma pecinha de uma engrenagem. Muito papel, muito carimbo, muito regulamento e papel-ofício pra decorar. Ambiente kafkiano. Muito cafezinho durante o expediente, muito papo furado, e pouco resultado prático. Mas tem tanta lei no país, que é preciso todo este aparato pra discutir tanta lei. E Cícero que já dizia: “República com muitas leis, República muito corrupta”...


Ou então faz-se concurso para se cair de para-quedas no alto de uma estrutura. Vão ser delegados, vão ser juízes, vão ser promotores, vão ser tenentes, vão ser oficiais. Tudo do mesmo jeito, fazer uma provinha. Acabou a provinha, passou na provinha, entra-se no cargo como um rei no seu domínio. Com estabilidades e vitaliciedades. Mas ninguém te testou, na prática, pra ver se eras bom naquilo!


É isto que se aceita com naturalidade, para se ver o quanto temos uma prática pervertida de organização de serviços públicos.


Por Deus, um policial, um bombeiro, não podem ser aquilatados numa provinha. Eles têm de ser escolhidos entre os que aguentam uma rotina de muito treinamento físico, muito estudo também, de assuntos relacionados à sua profissão.


Vida de quartel, acordar cedo, fazer exercícios, fazer treinamentos, sair para as ruas. Esta é a carreira, este é o serviço prestado, que merece toda a consideração e merece ser bem remunerado. Mas é para quem pode, não é para quem quer.


Os mais estudiosos, e também os que melhores avaliações de seus trabalhos tiverem, ascenderiam naturalmente aos postos mais graduados.


A mesma coisa deveria se dar, por exemplo, com o juiz, que deveria ter alguns anos de atividades forenses, e, depois também de ter feito uma provinha, mas abrangente, e o máximo objetiva, para selecionar os que têm um bom nível de saber jurídico, passarem mais algum tempo como auxiliar, passando por uma pré-avaliação constante de seu trabalho, para ascenderem como juízes com maior maturidade, e após estes testes de sua qualidade.


Ora, o trabalho de juiz é uma coisa séria, assim também o trabalho do policial, do bombeiro, do soldado... é a responsabilidade, é a grande importância que ele tem para o público que necessita de seu trabalho, em alguns casos de maneira dramática, e merece um profissional honesto e competente.


A mesma coisa o médico. A mesma coisa o professor. O engenheiro que prestar serviços ao governo.



Planos de cargos e salários condizentes, realistas. Por que um promotor ganha 100x e um engenheiro ou um médico ganha x? Por que não cobrar dedicação integral, e pagar um valor adequado? Por que tantas falcatruas nas folhas de salário, horas extras mentidas, insalubridades inventadas. Reajustes com base em qualquer índice que se tira da cartola. Aposentadorias com oito anos de serviços, com salário integral, esta é uma prerrogativa de alguns dos nossos governadores e parlamentares, que se auto-concederam este mimo, com base nas leis que fizeram. Direito adquiri – DÔ!!!!!!


E as pensões para filhas de militares, mortos aos noventa anos de pijamas em casa, os jeitinhos de não se casar, pra não perder o direitinho.


Aposentadorias especiais para jornalistas, para craques do futebol, com tudo isso se convive por aqui... mas, criança, não verás país como este... Cante o hino com emoção...


Parece que foi Joaquim Nabuco, o grande escritor de O Abolicionismo (1883), que identificou que o nosso serviço público se organizou para dar um emprego aos jovens senhores da Casa-Grande, amigos, e outros agregados, quando não lhes sobrava muito da renda original que advinha das grandes propriedades.


Parece que ainda estamos muito amarrados neste velho padrão.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A resistência


Todo homem tem direito a organizar sua resistência. Ele tem para defender seus direitos legítimos, naturais, individuais, como se queira chamá-los. Sua vida, a vida de sua família, sua liberdade, o fruto de seu trabalho, sua honra. Ele não pode ser roubado, sequestrado, assassinado, nem pelo criminoso, que vive à margem da lei, nem, o que seria muito pior, pela lei de seu Estado.


Nenhum Governo pode se constituir para oprimir o homem. Se o Governo é arbitrário, se confisca seus bens, se invade sua privacidade, se lhe toma a liberdade de votar, se lhe toma a liberdade de reivindicar, de se informar, de protestar, se lhe tortura numa prisão, se lhe faz desaparecer debaixo da terra, torna-se claro o direito de resistir.


Nenhum Governo tem o direito de praticar qualquer ato ilegítimo contra o indivíduo. Não importa que ele se diga da maioria, ou que o Líder tem a aprovação de 80%, ou de 90%, ou de 99%. Ainda que este Líder tivesse a aprovação de TODOS os súditos, exceto daquele contra o qual se quisesses praticar a injustiça e a arbitrariedade, não seria legítimo tal ato.


Quando violado nestes seus direitos, o homem tem o direito de resistir. O homem, o povo. O individual e o coletivo.


Quando um povo sofre uma invasão estrangeira fica bem claro este direito à resistência. Os franceses organizaram a sua contra os nazistas, ainda que uma boa parte da França tivesse aderido, por conveniência ou covardia, aos invasores. E cada povo invadido, ameaçado nos seus direitos de homem, tem organizado sua resistência. Os holandeses tiveram a sua, e os chineses, e os judeus, e os poloneses...


Algumas vezes, as circunstâncias não permitem que um povo se liberte de seus agressores. Povos têm sido, podem ser, dominados por longos anos. Podem introjetar na sua cultura uma justificativa para a dominação. O Sistema de Castas na Índia, desde a invasão ariana, em 1500 a C, pode ser um exemplo.


Culturas foram dominadas, ao longo da História, culturas foram exterminadas. Mas para cada homem nascido renasce o direito de ter respeitado os seus direitos, e de resistir se forem ameaçados.


Na época da ditadura militar, no Brasil, teve-se claro o inimigo contra o qual lutar. Os militares não permitiam eleições livres, não permitiam a manifestação do pensamento livre, torturaram, fizeram desaparecer inimigos do regime. Caíram, depois de muitos anos, porque se resistiu a eles. Porque vez após vez as pessoas condenavam, ao menos em seus corações, que outro jovem desaparecesse, outro ano se passasse sem que houvesse mudança, com as manchetes censuradas, com o custo de vida aumentando, mas sem poder reclamar, com aqueles generais que se sucediam na Presidência.


Foi bom que caíssem. O direito ao voto está de novo conosco.


Mas será que se pode descansar sobre os louros da vitória? Não, porque o preço da liberdade é a eterna vigilância, e porque se queres a paz, deves preparar-te para a guerra.


Quando o inimigo deixa de estar bem claro, o perigo se torna maior. O maior engodo do diabo foi fazer acreditar que ele não existia.


Viver em um regime em que se pode votar é indispensável. Mas sempre, sempre, haverá espaço para melhoras, no sentido de se alcançar maior liberdade, maior garantia para os direitos de cada indivíduo na sociedade.


E daí que permanece o direito à resistência, mesmo no regime democrático. Mas se converte em um direito mais sutil, de aprofundar a democracia, torná-la mais real, não apenas uma palavra, mas um fato, para mais e mais indivíduos.


É verdade que não se tratará mais de uma resistência com armas, como a que se faz contra um invasor, ou contra um ditador. Numa democracia a resistência se faz pela reunião pacífica, pela defesa de propostas, através do voto, através da divulgação livre, através do convencimento.


Mas não se dispensa, de forma alguma, esta resistência. A resistência de criticar os corruptos, e exigir sua prisão, e exigir o respeito com a coisa pública, e exigir que os prestadores de serviços públicos atendam bem o público, e que as leis funcionem para garantir a paz, a segurança, o respeito

aos direitos de todos.


Não se iludam: se não houver a resistência constante, a busca constante da melhoria, em qualquer que seja o regime, haverá a perda constante das liberdades e dos direitos. O Poder estará sempre exercendo suas tentações naqueles que o exercem, e se não forem vigiados, questionados, tolhidos, em breve um novo regime de força servirá para suprimir os direitos e as liberdades, e estabelecer uma nova forma de opressão.