domingo, 31 de julho de 2011

Gonçalves Dias - Canção do Tamoio

I

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

III

O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV

Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

V

E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

VI

Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D'imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d'ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

VII

E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII

Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.

IX

E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

Democracia




Na verdade, precisamos pensar maneiras de a democracia funcionar. Se o povo tem o poder, de fato, ele vai poder fiscalizar e prevenir que se desvie o seu dinheiro.


Pois se ele é roubado, vez e de novo, e nada acontece, que poder tem o povo?


Que poder tem o sujeito, manietado dentro de casa, vendo o ladrão que lhe rouba os móveis? Ainda sabendo que este ladrão não acabará atrás das grades, pelo contrário, desfrutará de uma vida de rei, com o produto do roubo, bem guardado numa conta secreta no exterior...


Chegar para esta vítima, e lhe dizer no pé do ouvido: “onde nós vivemos, você tem o poder, viu?”, parece o cúmulo do escárnio e do absurdo, se não fosse exatamente o que acontece, no mundo dos sonâmbulos hipnotizados.


Por todo o mundo, vemos que montanhas de dinheiro são feitas, mudam de lugar, daqui para ali, mas não revertem em um verdadeiro acréscimo de bem estar, para cada indivíduo.


Estamos todos trabalhando demais, infelizes demais, com carências demais, com dinheiro de menos. Isto é verdade, por mais que seja também verdade que 90% das pessoas, há 200 anos apenas, viviam sem banheiro, ou qualquer outro dado congênere.


Nós podemos pensar que isto é verdade, mas não nos sentimos melhor por isso. De que vale pensar em 200 anos atrás, ou 200 anos à frente? É o presente que importa.


E se o presente tem suas belas conquistas, também possui seus novos desafios e infortúnios. Se hoje podemos alimentar muito mais pessoas, ótimo, mas a população se multiplica, e qual a qualidade dos alimentos que ingerem?... habituarmo-nos à lavagem industrial, e a crescentes níveis de obesidade...


Não existem batalhas ganhas, não existe dormir sobre os louros, sonhando alguma ideologia utópica. E pensar que existe é abrir a porta aos problemas.




Democracia

Uma proposta de instituição democrática:


para cada mil cidadãos, eleger, para um mandato de 4 anos, um fiscal da coisa pública.


Um cargo sem remuneração, candidata-se quem quiser. Também não vai decidir sobre negócios, contratos, etc. Servirá para fiscalizar o gasto de dinheiro público.


Não é um cargo para se cumprir um horário. O trabalho será o de conhecer a despesa pública, verificar se ela se dá de acordo com as leis.


Por exemplo: o Estado pága tantos reais por criança em idade escolar. Para ser gasto com a merenda, para ser gasto com material, para ser gasto com professor, para ser gasto com a escola. Pois o Estado esta gastando na proporção certa? Gastou tantos reais com livros, é a quantidade correta de livros? É o preço correto? As crianças estão com seus livros?


Quantos professores deverão dar aulas para estas tantas crianças? Tem a quantidade certa? Quem são esses professores? Eles estão dando as aulas?


Ou, digamos, para a saúde: estes tantos mil moradores têm o atendimento público adequado? Uma cidade de tantos mil moradores, precisa de quantos postos de atendimento? De quantos médicos, em quais especialidades? Quanto de remédio, qual é a composição da população local, quantos idosos, quantas crianças, qual a estimativa da necessidade de compra de remédio de pressão, e de remédio pra cólica?


Para tudo isso deve haver uma resposta racional, e uma previsão legal.


Por que, na nossa política, é normal que se decida que um lugar tenha mil médicos, e outro lugar, com o mesmo número de habitantes, tenha só um?


É preciso haver os estudos, e é preciso que se busque a igualdade.


E os fiscais, um para cada mil, eleitos por quatro anos, é que podem cobrar esta igualdade, esta aplicação correta de recursos. Ou melhor, é que teriam mais condições de cumprir este papel.


Reunidos em grupos, em assembléia. Podendo requisitar informações e detalhamentos. Ouvindo as pessoas, conversando entre si. E, caso algo se apresente de errado, repassando dados e ingressando com ações junto aos órgãos competentes, a Polícia, o Ministério Público, a Justiça.