terça-feira, 30 de agosto de 2011

Respeito

O que falta a uma sociedade doente, qualquer sociedade doente, é respeito. Respeito por cada indivíduo que a compõe, respeito à individualidade.


Que nenhum indivíduo padeça da falta de cuidado, da falta de respeito.


Uma sociedade sadia respeita cada indivíduo. Não vai processá-lo, se ele não prejudicou alguém. Não vai trancafiá-lo, torturá-lo ou matá-lo, porque ele exercitou um direito. Porque ele expressou seu pensamento.


Não vai puni-lo em trabalhos desgastantes, prolongados, mal pagos, trabalhos de escravo. Não vai puni-lo por ele ser um membro ativo da sociedade, por ele trabalhar, por ele ganhar dinheiro.


Mas, se ele não for um dos sortudos fazedores de dinheiro, nem por isso vai deixá-lo passar necessidades. Vai ampará-lo com assistência médica, e escola para seus filhos.


Uma sociedade sadia não vai permitir o desrespeito que representa a insegurança. Não vai permitir que o crime fique impune, vai combatê-lo! Não vai permitir que um processo dure 20 anos, dure 50 anos, outro desrespeito. Não vai permitir que um funcionário ou um político, um destes poderosos do momento, aja como um tirano, humilhe e prejudique algum cidadão. Para estes, também, cadeia.


Uma sociedade sadia não vai permitir os tributos extorsivos, que sustentam os privilégios.


Isto uma sociedade sadia, uma sociedade com lei, e com prosperidade. E com respeito.

sábado, 20 de agosto de 2011

O Sacrifício e a Misericórdia

"Ide, porém, e aprendei o que significa: misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento." - Mateus, 9, 13

Não quero sacrifício, quero misericórdia. Que palavras inspiradoras, de Jesus no Novo Testamento! Esta será a marca da civilização, por oposição à barbárie. Ao invés da violência, da estúpida, feia, asquerosa, violência, um modo de viver em paz com seu semelhante.


Ao invés da dureza do descaso, da incompreensão, do cinismo, o calor de não se sentir abandonado, jamais abandonado com seus problemas!


Abençoado o que consegue viver em paz com este mandamento. Abençoado o indivíduo, abençoada a sociedade.


Sublime, a benção contida neste ensinamento.


Alguém está doente, doente de emergência, e não consegue um leito de hospital? Sacrifício. Barbárie. Violência.


Alguém está doente, doente de emergência, e lhe fazem deitar em um leito, e lhe prestam a medicação adequada? Misericórdia. Civilização. Benção.


E pensar que uns vão dar as “razões”, pelas quais devemos endurecer nossos corações, negar ao irmão um gesto amigo. Vergonha. Inconsciência. Mentira.


Ninguém quer ficar sem um tratamento adequado para sua doença, ou para a de seu filho. Não aceite que alguns outros possam ficar.




terça-feira, 16 de agosto de 2011

O Triunfo da Morte



Num Jornal da Band, de uns meses atrás, assisti a uma notícia que preferia não ter visto: o assassinato de um homem, filmado pelas câmeras.


Aconteceu em um ônibus, um passageiro descontrolado, dando tapas na cara do motorista. Indignado, enlouquecido, agredia o motorista com uma fúria insana. Batia, saía de perto, voltava, batia de novo. Numa dessas, o motorista fecha a porta do ônibus, saca um punhal, golpeia. O outro foge apavorado, o motorista corre para golpear de novo. Tudo nítido diante dos olhos. Ao final, o outro, caído no chão, ergue os braços e faz um protesto, como se reclamasse de algum excesso do motorista. E a voz da bela jornalista nos informa que o homem que recebera as facadas, levado para um hospital, havia morrido.


Morte assim, simples assim, passada no jornal antes das 20 horas, antes do jantar em família. O horror tão banal. Fúria nas ruas, notícia de jornal, e agora temos a overdose de imagens, com as câmeras onipresentes.


E eu me senti mal por ter visto aquilo, o crime real, o absurdo da violência sem sentido, sofrido por este povo, como uma praga e uma epidemia, e, pior, como coisas da vida.


Quanto de insanidade, quanto de violência, de impunidade, de frustração se acumulou, para que um se volte contra o outro, seu vizinho?


Perpetuamente explorado, vendo os espertalhões se dando tão bem, vendo gente honesta passando necessidade, o brasileiro se enche de razão, se enche de indignação, e vai procurar alguma nova vítima para descontar sua frustração, para se sentir um pouco “por cima”, para dar vazão à sua raiva.


Não sei o que o homem que foi morto sentiu, para agredir de forma tão brutal o motorista. Havia um seu parente paralítico, parece, que teria sido desrespeitado.


Mas por mais razões que tivesse, seria o caso de levar o caso à Justiça, e, se o motorista tivesse descumprido algum dever de respeito, ser punido de forma adequada.


Mas para se chegar a recorrer à Polícia, à Justiça, e se chegar a confiar nestas instituições, é necessário tê-las bem organizadas na sociedade, respeitadas, cumprindo com seu papel, bem funcionando. E é preciso ter uma sociedade que exija e que cobre, que se cumpra o seu papel.


“Senhor delegado? Quero denunciar uma agressão. Fulano de tal, no ônibus tal, da linha tal, me agrediu verbalmente, agiu assim, assim...” E o delegado instaurasse o processo, e o Judiciário decidisse, num prazo curto, a pena da lei.


Não estou defendendo, tampouco, a reação do motorista agredido. Também ele deveria, diante da agressão sofrida, levado o caso à Justiça. E a instituição aplicaria a pena ao agressor, certa e segura, quaisquer que tenham sido suas razões. Ele não poderia tomar a Justiça nas próprias mãos, da mesma forma que o motorista, desencadeando a espiral de agressão que termina na morte de um homem.


Mas aqui, com as nossas leis, tudo fica difícil. Vai falar com o delegado? Teme-se perder tempo. Teme-se sofrer um deboche. Se for uma comunidade pobre, teme-se sofrer uma ameaça. Vai levar o caso à Justiça? Teme-se levar 20 anos para se decidir. Teme-se uma decisão absurda, incompreensível, à margem da lei.


Policiais, e Ministérios Públicos, e Juízes, às vezes parecem mais interessados com os próprios umbigos, e com questões de salário e privilégios, enxergando o trabalho que lhes chega como aborrecimentos indevidos à sua nobreza de espírito.


Do outro lado da cerca, fica o povo se digladiando, matando e morrendo numa revolta sem foco, inútil.


Não estou pregando a famosa luta de classes, outra forma da mesma fantasia perigosa e inútil. Estou falando de sociedade bem organizada, com um delegado bem conhecido da comunidade, idem juiz, idem Ministério Público. E umas leis bem claras pautando a atuação dos órgãos públicos. Por exemplo, não instruiu minha queixa? Mas é meu direito, é seu dever, e se descumpre o seu dever, seja punido por isso.


Outro exemplo: passou seis meses, passou 1 ano, sem uma decisão? Não se pode aceitar isso, qual é a justificativa? Chame-se o réu, faça-se uma audiência, ouçam-se as testemunhas, decida-se.


Ora, existem muitos processos? Pois é uma questão de organização (falta de). O juiz deve ter um número certo de jurisdicionados para atender, estabelecido com critério, e semelhante ao da comarca X, e da comarca Y, e da comarca Z. E um tempo médio, estabelecido em lei, razoável, para que cumpra sua função.


Mas estou indo longe demais, bem sei, na nossa realidade de se pensar o Estado como arbitrário distribuidor de “favores” e ameaças. Quando a nossa Polícia é temida como capaz de abrigar matadores, o buraco é muito mais embaixo.


Não se muda tão fácil assim a cultura que forma o patrimonialismo, nem se supre da noite para o dia nossa falta de prática de nos sentirmos sujeitos de direitos.


Aqui, mesmo auto-proclamados “defensores da ordem” justificam torturas e assassinatos de capitães Nascimentos. Imagine-se, então, “defensores da desordem”, que também abundam entre nós... espelhos que se refletem ao infinito, faces da mesma moeda. Cumprir a lei, que é bom, nada. Sempre são 1.002 justificativas para não fazê-lo.


E daí que perpetuamos nossos desrespeitos e agressões, indignados contra a impunidade, mas contando com a impunidade para nós mesmos. Pois se todo mundo faz, e se todo mundo “se dá bem”, eu quero fazer também...


Nossa prisão, nosso círculo.




Bruegel - Dulle Griet, cerca de 1562



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O caso Bizarro




William Zantzinger killed poor Hattie Carroll...

- Bob Dylan

http://sinatti.blogspot.com/2010/07/extra-extra-material-forte.html



O capitão da Polícia Militar, Dennys Leonard Nogueira Bizarro, foi protagonista de um caso bizarro.


Flagrado por câmeras quando passou por um jovem assassinado por ladrões que lhe roubaram dinheiro, um casaco e um tênis, e, depois de pegar os criminosos deixou-os ir embora, ficando com o casaco e o tênis para si.


Grandioso... monstruoso... bizarro...


Mas não o bastante para a Polícia Militar do Rio de Janeiro, que agora, como instituição, mostrou de onde brotam os capitães Bizarros:


Pois puniu o capitão Bizarro com uma pena de 30 dias de prisão administrativa. E deu por encerrado o caso, ou seja, Bizarro já não corre o risco de ser expulso da corporação!


Pelo menos é o que diz a reportagem do Jornal Nacional de ontem, não vão me acusar de estar delirando ou mentindo:


http://g1.globo.com/videos/jornal-nacional/v/pm-envolvido-no-caso-afroreggae-vai-cumprir-30-dias-de-prisao/1585618/



Não os culpo. Eu também ainda não acredito... Será que é tudo um sonho? Ou um pesadelo?



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Democracia e Economia

O grande problema é que os gastos se concentram em poucas mãos.


O Governo faz sua arrecadação brutal de 500 bilhões de reais. Mais ou menos uns 36% do PIB do país. Gasta seus 200, 300 bilhões com os montes de aposentadorias, empregos públicos, investimentos, despesas obrigatórias. Daí, vai pra melhor parte que é decidir o destino dos 200 bilhõezinhos que sobram.


Se este gasto viesse para o bolso da população, o bem estar se multiplicaria. Pequenos empréstimos, de 5 mil, de 10 mil, de 15 mil, de 50 mil, de 100 mil... quantos empréstimos de 100 mil se pode fazer com 100 bilhões? Eu te digo: 1 milhão. Imagine 1 milhão de pessoas no país com 100 mil na mão para sustentar os seus planos.


E, olhem, para muita gente já faz uma diferença absurda, 10 mil, ou 1 mil. O que para um dos nossos magnatas de bilhões pode parecer tão pouquinho, não é, 1 mil... mas para muita gente pode representar a vida ou a morte. Coisa horrível...


Pois, a uma sociedade acorrentada, amordaçada, violentada, o Governo oferece NADA, ou quase nada. Mas para alguns poucos, oferece os contratos de 1 bilhão, ou de 10 bilhões, ou 20 bilhões.


Além dos muitos contratos de milhões, para executar serviços porcos ou inexistentes.


E aí, queridinhos, a possibilidade de ter 1 milhão de pessoas na sociedade com 100 mil na mão, para financiar um projeto, ou 10 milhões com 10 mil, ou cem milhões com 1 mil, decrescem rapidamente, e até desaparecem.


É esta concentração de dinheiro que faz com que faltem os recursos para o bem estar da sociedade.


É a profunda indecência de uma sociedade que nega a um de seus participantes o direito de financiar um projeto, sem ser extorquido por isso.


Quantos negócios poderiam se realizar, poderiam acontecer, se um sujeito, que tem uma boa idéia para construir isso, ou para comerciar aquilo, pudesse ter nas mãos este crédito? 10 mil pra comprar um caminhão, 15 mil pra alugar um depósito, 5 mil pra reformar o botequim, 2 mil para comprar uns tecidos, e revender...


Quanto não reverteria em benefício para a sociedade, 1 milhão de pessoas com uma melhor oportunidade?


E eu não estou falando de distribuir dinheiro, eu estou falando da possibilidade de se fazer empréstimos. Sem grandes burocracias, sem milhões de carimbos e papeladas, e taxas de Cartório, e gorjetinhas pra despachantes.


E sem juros extorsivos, sem ciladas no contrato.


Algo simples. Um direito. Avaliação de renda, capacidade de pagamento. Até dez por cento de comprometimento de renda. Começa com a possibilidade de menores empréstimos, se for bom pagador, passa para maiores. Mas sempre com facilidades para o pagamento, algo a ser entendido como um DIREITO para os membros desta sociedade, jamais um FAVOR do Governo.


Não. A sociedade é que deu o seu dinheiro para o Governo. Ele DEVE agir como representante desta sociedade. Ou então, é mentira que este seja um governo democrático.



Mas o problema é a cultura, entender como correto que o governo seja nosso Senhor, que decida sem o nosso consentimento. A cultura, que é para nós aquilo que a água é para o peixe: a única coisa que ele reconhece como real, e que não poderia ser de outro jeito.


Mas pode.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Igualdade

“Ouviste o que foi dito: Amarás teu próximo e odiarás teu inimigo. Eu porém vos digo: Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.” - Mateus, 5, 43



Constatar que as pessoas são enormemente diferentes, e não querer lutar contra este fato.


Eis aí a grande esperança, e o grande desafio que se coloca à nossa atual forma de desenvolvimento político, este experimento que é a Grande Sociedade Aberta.


Por um lado, vemos as forças irresistíveis da História, que configuraram esta nova forma de convivência humana. O mundo hoje é menor, mais próximo, mais conhecido.


O mundo hoje conhece japoneses, americanos, ucranianos. Tribos da África, católicos, judeus, e mulçumanos. E hinduístas, e budistas.


E, após tantas guerras, tanto preconceito, tanto racismo, o mundo vai entendendo que todos somos apenas formas diferentes de levar esta vida. Não melhores, não piores, diferentes formas de viver a vida.


Depois de tanto ódio, de tanto medo, de tanta ganância. De usar o diferente como escravo, como coisa. De se justificar como superior, e impor o infortúnio a um pretenso inferior.


Sei que seguimos vivendo tudo isso. Não houve qualquer transformação mágica do ser humano. Mas também é verdade que muitos começaram a questionar esta forma de usar a diferença para constituir os privilégios.


Uma idéia nova permeou o ar, e não é de hoje. Parece que sempre esteve soprando no vento, uma pequena voz açucarada, prometendo Paraísos e flores, ao invés desta miséria cotidiana, que nos sangra a vista.


Uma idéia de não haver leões e cordeiros, nem senhores e escravos.


Começou a ser gritada esta idéia, e por vezes até se quebrou, sob a violência com que foi brandida. Mas mesmo se perdendo e se quebrando, ela persistia naquelas mentes que pediam esta transformação: Liberdade. Igualdade. Fraternidade.


Uma nova maneira de construir o mundo. Não mais senhores e escravos, mas cidadãos.


Significa dividir o mundo. Os poderes e as responsabilidades na condução do governo. Os direitos.


Direito de voto. Não para você, que é branco, ou não para você, que é negro. Não para você, que é rico, ou não para você, que é pobre. Para todos.


Direito de ter uma opinião. Direito à sua crença, ou não crença, religiosa. Direito a escolher o seu trabalho. Direito a ter o seu negócio.


Dever de pagar tributos. Dever de respeitar as leis. De respeitar o próximo.


Igualdade, igualdade para todos.


“Igualdade”, eu pronunciei a palavra,

como se fosse um voto de casamento...


Um belo sonho, sem dúvida, mas que nunca pode se presumir concluído ou conquistado.


Afinal, todas as guerras e injustiças estão no nosso jornal de todos os dias, não é possível deixar de ver isso.


85 mortos no massacre da Síria.


É ilusório e escapista pensar que temos uma condição maravilhosa, e perfeitamente consolidada, e que podemos dormir sobre os louros. Entregar-mo-nos ao suave hedonismo de não saber e não querer saber de mais nada... uma ilha de prazeres de Circe, que aprisiona e diminui o homem...


Embora não se queira cair no outro extremo, do soldado em permanente guerra, onde nunca dorme... apreciar o seu vinho, apreciar o seu dia. Apreciar a família e os amigos.


Um homem em equilíbrio. Nada em excesso.


Um homem cumpridor dos deveres, por ele consentidos. Cumpridor de sua consciência. Jamais um escravo, jamais um senhor sobre outros homens.


Um belo ideal: o homem livre.


E como ser livre, se não se reconhece a liberdade para o outro homem? Se se considera que algum homem pode não ter um direito, direito de trabalhar, ou de andar na rua, ou de amar, ou de viver?


Na sociedade vemos que acontece a negação destes direitos, uma gangue que luta com outra, brancos que matam negros que matam brancos que matam chineses... vemos o ódio aflorar, mesmo em sociedades muito desenvolvidas.


Mas também é verdade que a sociedade procura punir os agressores, e procura dar a todos as condições para uma vida mais digna. E uma sociedade que abdica destes propósitos abdica de ser livre.